A Canhoneira EBER – Em Itapagipe a batalha que não houve

26-10-1917

… The essence of war is violence:
Moderation in war is imbecility: Hit first, hit hard and hit anywhere
…A essência da guerra é a violência:
Moderação na guerra é imbecilidade: Golpeie primeiro, golpeie duro e em qualquer lugar.
Lord Fisher of Kilverstone
The First Sea Lord
Admiral of the Fleet

Alguns traços sobre bases navais alemães no Atlântico

A principal base da marinha alemã situava-se na costa norte ocidental da África, no porto de Duala, na foz do Whouri, no Camerum (Republica dos Camarões), um protetorado ou colônia germânica desde o principio do século.

A base surgiu gradativamente, à medida que os teutônicos que afluíram para ali, a partir de 1800, implantaram técnicas modernas de administração, engenharia, medicina e comércio, dominando aos poucos a economia e a política.

Construíram um porto moderno com capacidade para atender navios de grande calado em doca seca, com seus equipamentos e técnicos para manutenção. Ainda hoje, o porto é o ponto final das linhas férreas que penetram profundamente na região.

Mais ao sul, outra base naval de certa importância foi implantada no porto de Luderitz, na Namíbia. Devido à proximidade com a África do Sul era de difícil defesa, como ficou comprovado posteriormente, em 1915, quando foi conquistada pelo gen. Botha comandante das tropas sul africanas uma então colônia britânica.

Como aquele trecho da África é riquíssimo em minérios e os alemães haviam construído um porto bastante desenvolvido servindo como estação final de 2.500 km de ferrovias que adentram no continente, a África do Sul o explorou economicamente detendo o mandato sobre a região até 1969 quando foi criada a Republica Independente da Namíbia.

A canhoneira SMS Eber

Mar Báltico, Dantzig, (ex-Gdansk), maio de 1914

A canhoneira SMS Eber foi construída em 1902/03, deslocava 977 T e tinha 64,1 m de comprimento total, 9,70 m de boca e 3,62 de calado. Sua velocidade máxima alcançava 13,5 nós. Assim como sua irmã SMS Panther dispunha de dois canhões de 10.5 cm, quatro de 88mm e mais seis canhões de tiro rápido de pequeno calibre e metralhadoras. Seu combustível, assim como a maioria das outras unidades de superfície das frotas mundiais, era o carvão de pedra. Tinha duas chaminés.

No contexto internacional tratava-se de um navio sem importância e sem grande valor militar. Provavelmente sua missão principal era mostrar a presença da bandeira e talvez, por este motivo, chegara a Luderitz porto da colônia da Africa Sudoeste, em junho de 1914.

A canhoneira SMS Eber entra na doca seca do grande porto militar para ser preparada para um longo cruzeiro. Após quase um mês, com o casco limpo e pintado, testados os armamentos, as máquinas e o recém instalado sistema de radio telegrafia. Finalmente reabastecida e municiada parte com destino ás colônias alemães na África Ocidental.

Aparentemente, seu plano de ação seria idêntico ao da sua irmã SMS Panther, que celebrizou-se, em 1911, no chamado Incidente de Agadir, porto nas águas territoriais de Marrocos e depois desapareceu.

Em 1913, correu o boato que a SMS Panther naufragara ou fora afundada, provavelmente pela própria tripulação na foz do rio Congo, próximo a Togo, mas na realidade, sobreviveu à guerra e foi vendida em 1931 para ser desmanchada. Muitas conjecturas foram feitas sobre o envolvimento da SMS Panther nos acontecimentos, entre as quais de que seu armamento e munição foram transferidos previamente para algum navio mercante maior e mais rápido que atuaria como corsário.

Passados cinco anos, com o mundo já em guerra, as suspeitas caberiam como verdadeiras a SMS Eber quando seus equipamentos militares e tripulação armaram o “liner” Cap Trafalgar transformando-o em cruzador auxiliar, ou corsário, tendo o Atlântico como área de ação, conjuntamente com os cruzadores SMS Karlsruhe e SMS Dresden.

Para o Oceano Índico o Almirantado alemão designou o cruzador SMS Köenigsberg, inicialmente para “mostrar a bandeira” nas colônias do leste da África e, depois, se a guerra fosse deflagrada agir como predador dos navios mercantes aliados.

O Pacífico seria o campo de caça do cruzador SMS Endem e da esquadra de alto mar comandada pelo Graf von Spee.

A guerra e a chegada da Eber na Bahia.

O agravamento da tensão internacional acirrado pelo assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austro-húngaro, em 28 de junho, levou o mundo a primeira grande guerra mundial.

No dia 4 de Agosto, o do começo das hostilidades com a Inglaterra, a SMS Eber como dissemos, encontrava-se em Luderitz, no sul da Africa Ocidental, mas quanto as suas atividades até esta data, a revista “Marine Rundschau” esclarece muitos pontos, mas não todos.

Logo no início da 1º Guerra Mundial a SMS Eber fez-se ao mar comboiando alguns navios carvoeiros para abastecimento dos corsários e da frota do Atlântico do almte. von Spee.

Na realidade, houve unicamente suspeitas sobre suas operações neste período – Teria afundado três mercantes ingleses ?

Após três semanas de navegação o pequeno navio recebeu ordens para encontrar-se com o grande ‘liner’ de passageiros Cap Trafalgar, da Hamburg Sudamerika Nischedampschiffahrt Geselleschaft, (Cia de Navegação Hamburguesa Sulamericana de Navios à Vapor) nas águas da ilha brasileira de Trindade e transferir seus canhões, metralhadoras e munição e a maior parte da sua tripulação de maneira a adaptá-lo para a guerra de corso .

Iniciou a transferência no dia 31 de agosto de 1914 e partiu, completada a missão, desarmada e com uma guarnição mínima de trinta homens (cerca de cem acompanharam os armamentos) entre eles alguns não aptos para combate lotados anteriormente no Cap Trafalgar. A Eber, agora navio mercante, desfraldou a bandeira de comércio e provavelmente no dia 10 de setembro, dirigiu-se à Bahia, em marcha econômica de 11 nós, onde se internou no dia 14 de setembro de 1914, ou seja, no mesmo dia da batalha entre o cruzador auxiliar inglês HMS Carmania e o SMS Cap Trafalgar  na ilha de Trindade.

Na Bahia, mais uma parte da tripulação, 14 oficiais, marinheiros e foguistas deixaram a canhoneira e viajaram para o Rio de Janeiro. Os 16 homens restantes eram necessários para a manutenção e guarnição da embarcação porém insuficientes para a sua movimentação.

Ao chegar ficou fundeada em frente ao “banco da Panela”, posteriormente foi movimentada para a enseada de Itapagipe.

Naquele ano o Estado da Bahia estava sendo governado por J.J. Seabra que assumira em 1912 e renunciaria em 1916 e o Intendente era o Sr. Julio Brandão.

Quanto ao SMS Cap Trafalgar, teve como corsário uma vida curtíssima e sem sorte.

Em 1º de agosto de 1914 chegou a Buenos Aires e como não tinha condições de voltar à Alemanha, pois a França decretara a mobilização geral e logo entraria no conflito, recebeu ordens para agir como corso. O armamento e a tripulação militar seriam fornecidos pela SMS Eber e operaria em estreita colaboração com os cruzadores Karlsruhe e Dresden no ataque aos navios aliados trafegando no Atlântico Sul.

No dia 22 de agosto o Cap Trafalgar zarpou para Montevidéu onde se abasteceu e “levantou ferros” para o encontro com a canhoneira. No dia 31 de agosto de 1914, na ilha de Trindade, houve o encontro com a canhoneira SMS Eber e logo iniciaram a transferência de homens e equipamentos e os trabalhos de instalação das armas no ‘liner’.

No dia 14 de setembro de 1914, quando o mercante Eber aportava na Bahia, deveriam ter terminado o serviço no novo corsário, transferido carvão do navio carvoeiro Eleanore Woermann e iniciado o treinamento da guarnição no uso dos equipamentos militares.

Ao ser descoberto pelo cruzador auxiliar inglês HMS Carmania, também um “liner” armado, dispunha de combustível e treinamento A batalha durou cerca de uma hora e meia, com um fim quase previsível, pois o navio alemão só dispunha dos dois canhões de 102 mm, quatro de 88mm e seis metralhadoras da canhoneira SMS Eber, enquanto o HMS Carmania dispunha de 8 canhões de 152 mm, com maior alcance, sendo quatro na proa e quatro na popa. A belonave alemã não possuía controle de tiro central.

Foi um combate singular.

O HMS Carmania apresentou sempre a proa com menor silhueta ao SMS Cap Trafalgar, e mesmo assim, sem a vantagem do corte do ‘T’ conseguiu a vitória, graças ao maior calibre e alcance dos seus canhões.

O SMS Cap Trafalgar, foi derrotado sofrendo graves e sérias avarias motivando seu comandante, o Capitão de Corveta Wirth a recorrer a medidas drásticas a fim de evitar a captura pelos ingleses – ordenou que a casa de máquinas fosse minada.

Executada a ordem, às 11h 10m do dia 14 de setembro de 1914, com a bandeira desfraldada, sem se render, ao som do canto da tripulação de acordo com a tradição dos combates das fragatas à vela do século passado (N1) (Carta de um tripulante ao Times – London – 22/12/1914, Opus citado 3) afundava levando consigo seus 16 mortos.

No início do combate o SMS Carmania interceptara um sinal de TSF (Telegrafia Sem Fio) emitido pelo seu contendor, fazendo com que seu comandante supor que navegava pelas proximidades um dos cruzadores da marinha de guerra alemã.

O ‘liner’ armado inglês havia recebido 380 impactos, alguns na linha d´água e perdera 9 homens além dos 26 feridos. Sem condições para combate, o comandante britânico concluiu que não estava apto para enfrentar um cruzador alemão muito superior em armamento e treinamento, possivelmente o SMS Dresden ou o SMS Karlsruhe, portanto resolveu retirar-se. Havia perdido todos os seus instrumentos de direção e o de transmissão de comando para a casa de máquinas.

A viagem seria longa, por isto o comando do HMS Carmania não perdeu tempo, saiu imediatamente da área tomando o destino de Gibraltar e certamente solicitou proteção pois encontraram o cruzador HMS Cumberland que os comboiou até o destino final (Carta de um tripulante ao Times de 8/12/1914 – Opus citado (3). Depois da guerra, soube-se que o HMS Carmania, a duras penas, conseguiu chegar perto do Arquipélago de Abrolhos onde encontrou-se com os cruzadores HMS Cornwall e HMS Bristol. A equipe de manutenção de um dos cruzadores fez reparos de emergência. Neste meio tempo chegou à área o cruzador auxiliar inglês HMS Macedonia que acompanhou o até Gibraltar.

O sinal de TSF salvou a tripulação do vencido, dando ao carvoeiro Eleanore Woermann a quem era dirigida a mensagem e que estava nas proximidades, a oportunidade de recolher os sobreviventes. Foi uma viagem cheia de tensão, burlando os cruzadores que patrulhavam o Atlântico Sul até aportar em Buenos Aires sobrecarregado com centenas de homens (279 oficiais e marinheiros), muitos feridos gravemente (Carta de um tripulante ao Vossische Zeitung de 22/12/1914 – Opus citado em (3).

Bahia de Todos os Santos, agosto de 1914

A ex-canhoneira Eber ao chegar a Salvador, solicitou internamento e fundeou ao largo.

Decorridos alguns dias a Capitania dos Portos autorizou seu internamento na enseada de Itapagipe, mas necessitou, para sua movimentação que a tripulação fosse complementada com marinheiros de alguns navios mercantes fundeados no porto.

O ponto escolhido para fundear, situava-se aproximadamente equidistante das margens próximas da enseada e em frente aos tamarindeiros da Ribeira. Segundo uma estimativa bastante exagerada dos jornais da época, o local tinha 15 metros de profundidade, mas na carta náutica Nº 1101 do Ministério da Marinha o máximo indicado é de 10,5m (Ver mapa nos Anexos).

Não poderiam ter encontrado fundeadouro melhor para a defesa da Eber, pois, daquele ponto, os alemães visualizavam a distancia qualquer embarcação que se aproximasse.

Ali permaneceu ancorada por quase 3 anos.

O Brasil entra na guerra

Baía de Todos os Santos, 26 de outubro de 1917

Quando foram iniciados os torpedeamentos dos navios brasileiros, o Presidente do Brasil, o senhor Venceslau Braz, estava atribulado pela guerra do Contestado liderada por Miguel Lucena de Boaventura, o Monge, conflito este que envolvia os estados do Paraná e Santa Catarina, e também com a disciplina na Marinha, em face da ainda sentida Revolta da Chibata que contribuía para o afrouxamento das linhas de comando militar e civil

Em 25 de outubro de 1917 o Presidente Venceslau Braz enviou a Mensagem ao Congresso comunicando o afundamento do quarto navio brasileiro, o Macau e solicitando, em face da continuidade das agressões aos nosso navios mercantes desarmados, o Estado de Guerra com a Alemanha e acrescentando que “mandará ocupar o navio de guerra alemão que está ancorado no porto da Bahia” (7) (17) (N4)(N6).

Os jornais publicaram e a guarnição da ex-canhoneira Eber tomou conhecimento que a hora do combate estava próxima.

Ficou evidenciado o despreparo, ou talvez a inércia de nossas forças armadas, neste dia da Declaração de Guerra à Alemanha.

Toda a cidade sabia, de boca em boca, que a tripulação não entregaria a Eber – que seria sabotada, afundada ou incendiada.

Não seria surpresa, pois é a decisão que se espera de um comandante de uma nave de guerra ao fazer o internamento de seu barco no porto de um nação estrangeira com a possibilidade desta, ao longo do tempo, tornar-se inimiga, como bem expõe Sir Cyprian Bridge – “No persons, and, even more, no compact bodies of men actuated by corporate feeling or esprit de corps, like to see their particular occupation threatened with abolition.” (Ninguém, e mais ainda, nenhum corpo compacto de homens agindo com sentimento associativo ou espírito de corpo, gosta de ver, seu meio de trabalho ameaçado de eliminação).

Se o Brasil pretendia apossar-se da ex-canhoneira deveria assaltá-la minutos após a Declaração de Guerra, e, não como aconteceu, pois a tensão vinha aumentando na proporção em que os navios brasileiros iam sendo torpedeados. Infelizmente, nos parece que não foram feitos planejamento ou treinamento da tropa para a eventualidade esperada.

Com os alemãs foi diferente. Previram um assalto a Eber e como dispunham de tempo para o planejamento do afundamento ou da sabotagem, a guarnição disciplinada e treinada militarmente não o desperdiçou.

A Marinha de Guerra do Brasil estava destreinada e desaparelhada, mas em piores condições encontrava-se a Mercante, aliás, tudo isto repetiu-se no início da última guerra.

Os nossos comandantes de navios mercantes sabiam que o risco de serem torpedeados ou canhoneados era muito grande, mesmo assim, na sua maioria nem sequer exercitavam suas tripulações para salvamento, resultando em muitas mortes que poderiam ser evitadas.

Voltemos a Eber. Aos poucos sua guarnição foi escamoteando de bordo os papeis importantes. Aceleraram as atividades nos dias que antecederam à Declaração de Guerra e provavelmente destruíram os Livros de Códigos (Criptografia) e transferiram para o consulado as Disciplinas, Normas e Procedimentos, mapas, Diário de Bordo, e alguns objetos de valor, tais como sextantes e outros instrumentos óticos que foram recolhidos “em lanchinha especial pelo secretário do consulado e o Sr. Nicolas Berckerath”(sic).

O plano alemão que seria posto em prática no caso de guerra, deve ter sido discutido muitas vezes pela guarnição para que no momento oportuno que agora se aproximava, fosse calmamente executado e sem erros.

Abririam as válvulas dos compartimentos estanques e, a fim de impedir o acesso das forças de assalto aos porões, a tempo de fechá-las interrompendo o alagamento, provocariam um incêndio nas obras mortas.

Tudo preparado, restava esperar a chegada das tropas brasileiras por terra ou mar, e que tão logo percebidas os sentinelas colocados em pontos estratégicos na enseada dariam o alarme.

Pelo mar, devido aos recifes em frente à igreja da Penha, as embarcações, mesmo as de pequeno calado, para não encalharem, são obrigadas a seguir o canal que as leva até próximo a fábrica de tecidos de Plataforma, e só naquele ponto têm acesso a enseada.

Portanto, do momento em que o grito de alerta do sentinela situado no convés da Eber comunicasse a chegada das embarcações com a tropa da Marinha, a tripulação germânica teria cerca de trinta minutos até a abordagem, ou seja, tempo suficiente para o comandante com seus camaradas de armas acionar o plano do incêndio e o alagamento dos porões.

Por sua vez, caso os tripulantes percebessem a chegada de forças por terra, o intervalo de tempo seria praticamente o mesmo, pois os brasileiros atacantes deveriam obrigatoriamente embarcar em saveiros, botes ou escaleres e remar ou velejar até onde estavam ancorados.

Como era de se esperar, não existia o fator surpresa, e como consequência a possibilidade de fácil apresamento da ex-canhoneira !

Não sabemos se os alemães tomaram a precaução adicional de minar o casco a fim de destruir rapidamente a embarcação, no caso de um ataque de surpresa à Eber, pelos brasileiros mesmo assim, como se viu, a tripulação não menosprezava nossa capacidade de combate, pelo contrário, nos superestimava.

Inegavelmente os tripulantes souberam se preparar para a evidente batalha que viria.

Em face dos boatos que corriam na cidade, desde o dia anterior, o jornal “A Tarde”  resolveu investigar o que estava se passando e pouco depois de meio dia, enviou dois repórteres para a área.

Os dois rapazes, fretaram um barco e usando a camisa de um dos clubes de remo se aproximaram da Eber e viram quando a tripulação espalhava combustível no convés. Voltaram rapidamente à terra e comunicaram a redação e esta por sua vez avisou ao Comandante da Região e à Capitania dos Portos, e teve como resposta que “às dez e meia horas, o Sr. Almirante Cleto Japi – Assú que presenciara os primeiros preparativos do sinistro, fez deles cientes ao Sr. Capitão do Porto que, infelizmente estava inibido de agir porque não recebera ordens especiais nesse sentido do Ministério da Marinha.”(sic)

A afluência de pessoas em Itapagipe aumentou, como se o povo aguardasse algum acontecimento anormal.

A guarnição da canhoneira alertada com o aumento inusitado de pessoas preparou-se para deflagrar o plano de destruição a qualquer instante.

“Deste modo tudo preparado, aguardariam que as forças federais se aproximassem para ocupar o navio e então abririam as válvulas dos setes outros tanques e ateariam fogo ao querosene para assim impedir a entrada de qualquer pessoa a bordo até que os tanques estivessem completamente cheios e a Eber afundasse.”(sic)

A hora chegara !

A tripulação não esperou, não havia outra solução – se arremetessem em direção ao oceano teriam de passar em frente ao porto onde estava ancorado o destróier MB Pihauy e desarmados não poderiam entrar em combate.

Às onze horas abriram as válvulas !

A pequena canhoneira começava a afundar !

“Ás 14:30 minutos, já a canhoneira tinha quase um palmo acima da linha de flutuação …”.

 Nosso plano de ataque

O Capitão dos Portos pretendia embarcar, às dezoito horas, uma tropa com reservistas e marinheiros do destróier Piauhy, surto no porto, para ocupar a canhoneira, e também, a fim de evitar que algum tripulante da Eber fugisse por terra, enviar, mais cedo, por transporte terrestre, um pelotão armado.

Assim foi feito mas só às 17 horas, quando a canhoneira já estava alagando seus porões há mais de 6 horas!

O pelotão comandado pelo capitão Meira seguiu de ‘bonde’ Houve atraso na partida do “bonde” e a tropa só chegou à Ribeira às 18 horas.

Ao desembarcarem do transporte foram percebidos pelo sentinela alemão, um marinheiro músico, provável ex-tripulante do Cap Trafalgar, que correu até a praia, mergulhou, nadou cerca de dez metros e através de gritos e sinais avisou aos seus companheiros embarcados a chegada da força brasileira. Imediatamente os de bordo, “atearam fogo ao queerosene que se achava na popa e calmamente começaram a passar para o escaler que estava atracado ao costado do navio.”

Haviam se afastado alguns metros quando notaram que as chamas alcançavam pouco mais de um metro, não eram intensas e restritas à popa. Voltaram calmamente a bordo e completaram o serviço sob as vistas de centenas de pessoas e dos 21 soldados do pelotão, comandado pelo Capitão Meira Pinheiro que não havia providenciado botes para o assalto à canhoneira.

Intensificadas as chamas que impediriam o acesso a bordo de tropas dispostas a fechar as válvulas de fundo, retornaram a seus escaleres, içaram as velas e partiram em direção à foz da enseada.

Às 19 horas, ou seja, decorridas cerca de 8 horas do início do alagamento e quarenta minutos do incêndio da Eber e da fuga de seus tripulantes, partiu da Capitania dos Portos uma força composta de trinta praças do Tiro Naval (tropa reservista e inexperiente ?) comandada pelo Capitão Tenente Plínio Rocha que às 20 horas chegou ao local.

Ao chegarem a Itapagipe, só restava apreciar o convés fumegante da canhoneira ao nível da água e promover o aprisionamento da tripulação.

Foram capturados, treze tripulantes entre eles o Comandante Interino, o Segundo Maquinista Schaumburg e como descreve o Relatório do Ministro de Estado dos Negócios da Marinha – 1918, “recolhidos ao Quartel como prisioneiros de guerra, 5 oficiais, 3 suboficiais e diversos tripulantes da Canhoneira Eber e Cap Trafalgar.”

As autoridades federais que há cerca de dois anos, em 1912, bombardearam a indefesa Cidade do Salvador, não tiveram competência para capturar um barco inimigo desarmado.

Não apresamos a canhoneira que poderia nos servir nos rios da Amazônia ou nos nossos portos oceânicos, pois a frota fluvial brasileira era pequena e obsoleta e a nave germânica, por menor que fosse, representaria uma compensação pelos nossos navios torpedeados.

Perdemos a batalha que não houve !

A Eber era a única belonave germânica internada em nossos portos.

Outros quarenta e cinco navios mercantes alemães também pediram asilo e foram apresados ao entrarmos na guerra, desses, cerca de dois terços foram sabotados, mas apareceram outros problemas. Não podíamos usar nossas presas de guerra, como relata Saldanha da Gama – “Surgiu ainda mais uma dificuldade no seu uso: estavam na lista negra dos aliados, sujeitos a apresamento.”

“Para obviar essa situação e dar melhor uso aos navios, trinta deles foram afretados, com tripulação, à França”.

Notas

Pouco mais de quatro meses, no dia 24/1/1915 a cena se repetiria, desta vez com o cruzador pesado Blucher destruído, no Atlântico Norte, em combate com os encouraçados Lion e Prince Royal comandados pelo Sir. David Beatiy. Enquanto afundavam e aguardavam os destróiers ingleses que se aproximaram para recolher os sobreviventes, cantavam hinos patrióticos. Uma testemunha visual relatou a cena final, no Ilustrated London News de 24/1/1915, “her crew singing patriotic song on deck as she went down” (sua tripulação (do Blucher) cantando canções patrióticas enquanto (o cruzador) naufragava). Foram salvos cerca de 350 homens dos 830 que guarneciam o cruzador.

Últimas notícias da Guerra na Europa

No dia 11de setembro de 1917, a notícia corria na França como um rastilho de pólvora – Guynemer nést pas rentré… – o maior ás da aviação na época, não só da França, como dos Aliados, havia tombado no campo de batalha encerrando com sua morte uma linhagem que despontara no tempo das cruzadas.

Notícia da guerra na Europa

Logo depois, em novembro, (outubro pelo calendário Juliano) Lenine tomava o poder derrubando a monarquia e implantando o comunismo e a ditadura do proletariado que ceifou mais de vinte milhões de pessoas pela fome e terror durante os setenta anos que durou.

A guerra total submarina sem aviso prévio, era aguardada a qualquer momento, devido ao impasse nos campos de batalha do Marne onde morreram mais de 500.000 homens. Os generais Hindenburg e Luderndof precisavam de vitórias decisivas, embora não pretendessem nem desejassem que os EUA se envolvessem diretamente no conflito. Era imprescindível, entretanto, que o fornecimento de armas e suprimentos americanos aos aliados fosse interrompido e o único meio seria o bloqueio dos mares, em torno da Europa, para todos os navios, mesmo os de bandeira neutra. Pretenderam até envolver o México e o Japão, sugerindo o apoio germânico àqueles países no caso de uma invasão do sul dos Estados Unidos, mas a documentação preparatória foi interceptada e decodificada pelos ingleses abortando o plano audacioso.

O governador do Estado, o advogado Antônio Ferrão de Aragão, seabrista devotado, estava sofrendo as consequências da inflação e do arrocho salarial motivados pela queda das exportações, quando houve a Declaração de Guerra.

Na realidade o problema da Eber não era seu e sim das forças federais na área, ou seja, as mesmas que os seabrista, acenando a bandeira da necessidade imperiosa de ser cumprida uma ordem judicial, convocaram rapidamente como braço armado dos seus interesses políticos para bombardear a Bahia.

Outra belonave que teve um fim semelhante foi o cruzador Köenigsberg . Após uma campanha vitoriosa, – terminou sua carreira em terra, encalhado no rio Rifiji, hoje Tanzânia. Seus canhões foram retirados e adaptados para artilharia terrestre. Este feito, se levada em contas as dificuldades naturais e a falta de bons equipamentos mecânicos na área, constituiu-se numa brilhante obra de engenharia, após o que, sua tripulação organizou-se. Criaram o batalhão ‘Fantasma do Koenisberg’ e se incorporaram ao Exército Alemão da África sob o comando do grande estrategista Tenente General Paul von Lettow Vorbeck, e fustigaram as colônias inglesas fronteiriças, sem nunca terem sido derrotados.

Tal foi o seu mérito que, no dia 2 de março de 1919, após a guerra, desfilou em Berlim à frente do seu Exercito Alemão da África, o único que não fora vencido.

Venceslau Braz não teve tranquilidade durante todo o seu governo. Terminado o conflito do Contestado, veio a guerra e o flagelo da chamada Gripe Espanhola causando muitos mortos. A epidemia atingiu a nossa Divisão Naval em Operações de Guerra, cuja missão era a proteção de comboios no Atlântico Sul, fazendo muitas baixas.

Bibliografia

1 – Bordeaux, H, Vie Heroïque de Guynemer , 308p, Librairie Plon, Paris, 1918, França.

2 – Bridge, Sir C., The Art of Naval Warfare, cap. ‘War’, p103, 255p, Smith, Elder & Co, Londres, Inglaterra, 1907.

3 – Hubert F… La Guerre Navale – Mers du Nord et Lontaines , p 217 e seg, 316p, Librairie Payot et Cie, 1916, Paris, França.

4 – Gröner, E , Die Deutschen Kriegsmarine – 1815-1945 , 2 v, p 203/204, J F Lehmanns Verlag, Munchen, Alemanha, 1966.

5 – Ireland, B & Grove, E, Jane’s War at Sea 1897 –1997, cap 5 ‘World War I’, p80 e seg, 256p, HarperCollins, 1997,Londres, Inglaterra

6 – Jornais e Revistas – A Tarde, Diário da Bahia, Diário de Noticias editados na Bahia e no exterior Illustrated London News – de 1914 e 1917, Vossische Zeitung, Berliner Tageblatt, Marine Rundschau.

7 – Jukes, G, Desastre nos Carpatos – 1916 O Fim do exército Russo , 158p, Renes,1973, Rio de Janeiro, RJ.

8 – Jornal do Brasil – Ed Centenário da Republica 15/111989 – RJ

9 – Klynk, A, Cem dias entre o céu e o mar, 188p, José Olympio, Rio de Janeiro, 1985Cem dias entre o céu e o mar – 1988

10 – Maia, P – Uma Pagina Esquecida da História da Marinha Brasileira – p 20,21 – Rio.

11- Martins, H. L., Participação da Marinha Brasileira na 1º Grande Guerra , História Naval Brasileira, v V, Tomo 1B, S D G M, Ministério da Marinha, Rio de Janeiro, RJ.

12 – Marine Rundchau e Times (London) foram citados na bibliografia (3).

13 – Martins, H L, História Naval Brasileira ,v V, t 1 A, Rio de Janeiro, RJ, 1997

14 – Pitt, B – Zeebrugge – Ed Ballantine Books – 1958

15 – Relatório do Ministro de Estado dos Negócios da Marinha – 1918, pgs. 86/87, Rio de Janeiro, RJ

16 – Rev Fund Pedro Calmon, nº2 ano II, p 168 – Bahia

17 – Saldanha da Gama, A O, A Marinha Brasileira na Primeira Guerra Mundial , p 20, Capemi Ed., Rio de Janeiro, RJ.

18 – Sybley, J R, Tanganyikan Guerrilla – East AfriCampaign 1914/1918, 158p, Ballantine, 1971, Nova York, E U A

19 – Tuchman, B W, O Telegrama Zimmermann, 220p, José Olympio, 1992, Rio de Janeiro20 – Walter, J, Piraten des Kaiser , cap “Cap Trafalgar”, p47, 202p, 1994 Motorbuch Verlag, Stutgart, Alemanha

José Goes de Araújo
formação em engenharia civil e química. Professor aposentado dos Cursos de Aperfeiçoamento de Engenheiros da Petrobrás e da Escola Politécnica - UFBA. Foi chefe de Obras da SEGEN / Petrobrás e é membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia - IGHB, desde 1983, sendo vice-presidente na gestão 2001 a 2003. É autor de vários livros como: - Da Velha Cidade da Bahia - História e Estórias - Catálogo de Naufrágios e Afundamentos - Aventureiros e Piratas na Costa Brasileira (no prelo) - Naufrágios e Afundamentos - (no prelo) Inclui catálogo em ordem alfabética, noções de arqueologia subaquática e colaboração de mergulhadores de renome em fotos e esquema de diversos naufrágios.