Anatomia do Mergulhador Técnico

O mergulho técnico sofreu mudanças significativas durante a última década, mas poucos temas continuam sendo tão polêmicos como a configuração do equipamento de mergulho técnico. Dezenas de estilos surgiram clamando ser o mais efetivo, o mais seguro, o mais fácil, ou em suma o mais “técnico”. Alguns recomendam um estilo em detrimento dos outros, outros advogam que cada mergulhador deve utilizar aquele estilo que o faça sentir mais confortável. Em vista de toda esta polêmica, como pode um mergulhador tomar uma decisão abalizada e razoável ?

Na minha opinião, a maneira mais sensata de se chegar a uma conclusão é angariar informações e avaliar quais das opções disponíveis satisfaz da melhor maneira suas necessidades e requisitos. A maioria das opções disponíveis para configuração de equipamento permitem ao mergulhador executar um mergulho técnico. Até mergulhadores “recreativos” conseguiram executar mergulhos “técnicos” e retornar ilesos da aventura, mas apesar disto é consenso que certo mínimo de equipamentos é necessário para adentrar no reino do mergulho técnico com segurança. E a questão central deste tema é qual equipamento utilizar e como configurá-lo.

Na minha busca pela configuração ideal experimentei vários estilos e acabei me tornando um firme defensor do estilo Hogartiano, concebido por William Hogarth Main e continuamente aperfeiçoado pelo WKPP, indiscutivelmente o grupo de mergulhadores técnicos com o melhor histórico da área, tanto em termos de metas atingidas como em termos de segurança. Tanto o WKPP e em particular o seu diretor, George Irvine, gozam de uma reputação controvertida. Na minha experiência pessoal, se você estiver a fim de aprender, eles estão afim de ensinar e são um dos poucos que têm algo a acrescentar nesta área do mergulho técnico. Para aqueles que desejam conhecer mais sobre este estilo de configuração, continuem lendo.

Configuração Hogarthiana

O conceito básico do equipamento é a simplicidade, ou quanto menos, melhor. Se você não necessita do item durante o mergulho, não o leve consigo. Num meio onde o que predomina são as conversas sobre redundância absoluta, os mergulhadores hogarthianos esperam e confiam que sua real redundância é seu parceiro de mergulho. Através de uma configuração que é ao mesmo tempo hidrodinâmica e confortável, o mergulhador enfrenta menos “stress”, “task loading” e portanto, consegue melhorar seu consumo de gás.

Um dos principais aspectos a ser considerado em qualquer configuração é se perguntar se você consegue descrever suas ações para enfrentar um determinado problema em apenas uma linha. Caso você não consiga, seu método não irá funcionar debaixo d’água. Só como exemplo, considere os seguintes possíveis problemas: (1) compartilhar gás ou gerenciar consumo de gás utilizando cilindros duplos independentes, e (2) uso de uma mangueira longa armazenada em “loops” e presa por tubos elásticos numa situação de falta de gás. Tente explicar para o seu parceiro como você executaria as tarefas descritas. Se a descrição for muito complexa, o método não funcionará quando você mais precisar dele.

Os “links” abaixo vão levá-lo a uma descrição detalhada do sistema hogarthiano. Mesmo se você decidir não adotá-lo, nós da Tech Diving esperamos que você absorva os fundamentos do sistema (simplicidade, hidrodinâmica, busca continua da perfeição, minimalista) e aplique-os nos seus mergulhos.

Por último, eu gostaria de compartilhar algumas afirmações feitas a mim pelo George Irvine e Jarrod Jablonski:

– Lembre-se que quanto menos, melhor, se você não precisa do item, não o leve consigo – se ele adiciona um ponto de falha, não use-o.

– NUNCA aceite nenhum equipamento que não esteja em perfeitas condições e 100% de acordo com seus critérios – habitue-se a corrigir imediatamente todas as imperfeições.

– Lembre-se que seu parceiro de mergulho é sua redundância. Não aceite mergulhar com pessoas que não possam assumir tal compromisso.

Tec-Equipamento01Cilindros

O ponto básico de partida são os cilindros duplos, que são unidos através de um “manifold” com registro isolador. O isolador é um componente essencial, permitindo acesso a todo o gás disponível nos cilindros duplos, mesmo após uma falha de regulador, mangueira, ou “O-ring”. São utilizadas cintas de aço inoxidável para manter os cilindros duplos montados na posição correta, permitindo também que eles sejam montados no “back-plate” via parafusos de 8 mm.

Quais cilindros ?

Nós utilizamos cilindros OMS ou Pressed Steel, ambos disponíveis em vários tamanhos. Os tamanhos mais comuns são os Pressed Steel 104 e os OMS 108, sendo que os números indicam a capacidade dos cilindros em Pés Cúbicos. Estes cilindros são os que apresentam as melhores características de flutuabilidade e são compactos em tamanho e forma.

A capacidade do cilindro depende do mergulho em questão, mas a configuração característica é uma dupla de PS 104’s ou OMS 108’s ou ainda PS 121’s dependendo da necessidade de suprimento de gás para o mergulho.

(A figura ao lado mostra cilindros Pressed Steel nos tamanhos 95 CuFt, 104 CuFt e 121 CuFt).

Os cilindros devem ser mantidos o mais livre de adereços e adornos, sem “boots” nem redes de nenhum tipo. As duplas são mantidas na posição através de bandas de aço inoxidável. A função principal de um “boot” é manter os cilindros na posição vertical, algo que seu instrutor de mergulho básico lhe ensinou a não fazer. Outro ponto negativo dos “boots” em cilindros de aço é que eles escondem um possível local de corrosão, que só será notada por ocasião dos testes periódicos, quando normalmente é tarde demais para evitar que o cilindro falhe. Redes de “proteção” geralmente rasgam e podem enganchar em saliências de naufrágios / cavernas, tornando-se um ponto de enganchamento. Além disso, as redes diminuem o perfil hidrodinâmico dos cilindros.

Quanto a adesivos e similares, mantenha o absolutamente mínimo necessário. Para maiores dados sobre como identificar seus cilindros, visite o “site” do WKPP sobre identificação de cilindros (http://www.wkpp.org).

D-Rings nos cilindros

É muito comum observarmos fotos de cilindros que possuem “D-rings” montados em sua parte inferior, normalmente utilizadas para prender lanternas, carretilhas, etc. Na verdade estes pontos de fixação estão localizados num lugar péssimo. Os “D-rings” são um ponto de enganchamento para qualquer cabo ou monofilamento com o qual o mergulhador entre em contato. Qualquer lanterna presa nestes “D-rings” estão livres para balançar e se chocar contra os cilindros, aplicando uma vibração excessiva nos filamentos da lâmpada, fazendo com que elas falhem na hora em que você mais precisar delas. Ou então que elas falhem durante a caminhada entre o ponto em que você se equipa e o ponto de mergulho.

Tec-Equipamento02E os manifolds ?

Os cilindros são unidos através de um manifold com registro isolador, constituindo a maneira mais simples de gerenciar seu suprimento de gás. A única exceção é quando você está mergulhando solo ou com “side mount”, quando então a configuração de cilindros completamente independentes faz mais sentido. Mergulho com cilindros independentes exige um cuidado maior e uma capacidade extra para efetiva gerência do suprimento de gás. A experiência tem mostrado que a maioria dos mergulhadores que utilizam configuração de cilindros independentes comete erros na gerência do suprimento de gás.

Manifolds com registro isolador permitem ao mergulhador a opção de isolar os cilindros no evento de uma falha no “O-ring” do pescoço do cilindro. Todas as outras falhas (primeiro estágio, segundo estágio, mangueiras de alta pressão, etc) podem ser isoladas através do registro no qual o regulador está conectado, permitindo que o regulador remanescente continue acessando todo o suprimento de gás.

O fato do manifold possuir um registro isolador NÃO PERMITE que o mergulhador mergulhe com diferentes misturas em cada um dos cilindros da dupla. Esta é uma prática extremamente perigosa.

O manifold é constituído por registro e “O-Rings”, assim como o registro de seus cilindros tradicionais, e portanto, também está sujeito a falhas. Sendo assim, é importante examinar o manifold que você irá adquirir para garantir que o melhor projeto está sendo utilizado. Saiba que redundância que não pode ser utilizada não é redundância: você deve ser capaz de alcançar e manipular (abrir/fechar) com conforto todos os registros do seu manifold, mesmo durante o mergulho. No caso da falha de uma mangueira de alta pressão ou de um “free flow”, a primeira providência é fechar o registro isolador, de modo a proteger o conteúdo de um dos cilindros. Imediatamente a seguir, deve-se fechar o registro associado à falha, quando então pode-se reabrir o registro isolador para dar acesso a todo o suprimento de gás.

O manifold deve utilizar “O-Rings” do tipo “barril” para a seção central, como mostra a figura ao lado. Este tipo de manifold permite que a seção central se mova na eventualidade de uma rotação, sem que os “O-Rings” sejam danificados no processo e causem um vazamento de gás. Dois dos “manifolds” que preenchem estes requisitos são os fornecidos pela Scupapro e pela Dive Rite.

O manifold e os registros podem sofrer sérios danos caso você não seja cuidadoso. Alguns mergulhadores tentam protegê-los com “gaiolas” ou protetores, mas estes dispositivos são sérios candidatos a enganchamentos, além de dificultarem sobremaneira o acesso aos registros do manifold, impedindo acesso rápido e fácil às manoplas em uma eventualidade.

Caso você esteja atingindo várias vezes o teto da caverna ou naufrágio, talvez seja o caso de aprimorar sua técnica. Com certeza a melhor solução para proteger os registros é evitar o choque em primeiro lugar.

Outro aspecto importante na seleção do manifold são as manoplas. Na eventualidade de haver o choque da manopla, é importante que ela não fique inutilizada. As manoplas possuem um disco de metal em seu interior que se encaixa no eixo do registro. A combinação do material da manopla e da espessura deste disco de metal irão ditar a resistência da manopla a choques.

Carregando a dupla pelo manifold

Todos nós já vimos isto acontecer em uma ocasião ou outra, em lojas ou operadoras. Carregar a dupla pelo manifold não é uma boa prática, pois aplica um esforço extra no manifold. Caso você veja este tipo de atitude numa loja de mergulho com a sua dupla, solicite polidamente ao técnico de misturas da loja para que não o faça mais.

Sugira que ele pegue a dupla pelos dos registros da dupla ou para que uma das mãos peque um dos registros e a outra pegue o fundo do mesmo cilindro, de modo que a dupla fique atravessada ao longo do peito do carregador. Lembre-se que a pessoa que está carregando a dupla de maneira inapropriada pode simplesmente ignorar que isto pode ser prejudicial para o manifold e que esta é uma ótima oportunidade para educá-la.

Alta pressão x Baixa Pressão

Cilindros de alta pressão, tais como os cilindros da linha Genesis, geralmente não são uma boa escolha, já que apresentam características desfavoráveis de flutuabilidade e uma relação pior entre pressão e volume. Além disso, é importante ressaltar que as leis dos gases tornam-se não-lineares acima de 3.300 PSI (220 bar), diminuindo em muito a precisão da mistura.

Tec-Equipamento03DIN x Yoke

O sistema DIN é o mais aceito no meio do mergulho técnico. Seu sistema de “O-Ring” capturado em um “berço” apresentam uma menor probabilidade de extrusão do “O-Ring” que leva a um vazamento de gás. Além disso, o sistema Yoke foi projetado para trabalhar em pressões de até 3.000 PSI (207 bar).

Flutuabilidade

Conforme o gás de seus cilindros é consumido, seus cilindros vão ficando mais leves. Todos nós aprendemos no curso de mergulho básico que devemos ajustar nossa flutuabilidade com os cilindros vazios. Da mesma maneira, os mergulhadores técnicos devem ajustar sua flutuabilidade com os cilindros vazios e a uma profundidade de 6 metros. Para aqueles que necessitarem de peso adicional, recomendamos a utilização dos pesos em forma de “V”, que ficam acondicionados entre o back-plate e a dupla.

Tec-Equipamento04Harness e Back-plate

O back-plate é de metal, geralmente de aço inoxidável ou alumínio. Apesar de disponível, os back-plates de ABS não são recomendados por serem menos duráveis e apresentarem o potencial de falha devido ao peso do equipamento sendo carregado. A Halcyon oferece um excelente back-plate de aço inoxidável que já vem com o harness configurado da maneira apropriada.

O Harness deve ser feito com uma cinta contínua de 2 polegadas de largura, sem nenhum clip (“quick release” ou não). Isto faz com que o harness componha um sistema muito mais forte, sem ser propenso a falhas que podem ser catastróficas durante o mergulho. Para aqueles que desejam um diagrama, o “site” do Jeff Bentley apresenta um diagrama que exemplifica como fazer este “harness”.

Note como a face inferior da tira acompanha o seu corpo até a abertura inferior do back-plate. O lado com o “D-Ring” é aquele que se origina a partir da abertura mais externa da parte inferior do back-plate. Para evitar deslocamentos indesejáveis, você pode colocar um retentor de peso na fita no ponto entre as aberturas, como exemplifica a figura ao lado.

Tec-Equipamento05A fita do harness possui um “D-Ring” em cada ombro e um “D-Ring” no lado esquerdo da cintura, onde se prende o manômetro. Normalmente o clip utilizado no manômetro é preso à mangueira de alta pressão, diminuindo o risco de uma quebra acidental do mesmo. Estes 3 “D-Rings” são suficientes para montar todos os “stages” que porventura sejam necessários durante o mergulho. A fita do harness possui um banda extra de câmara de bicicleta, que será utilizado para fixar a lanterna de “backup” no caso de falha da banda original.

A mangueira corrugada e a mangueira de baixa pressão do colete equilibrador tipo asa são mantidos juntos via 3 bandas de câmara de bicicleta e depois são presos ao harness através de um elástico que fica posicionado logo acima do “D-Ring” do ombro esquerdo. Este método impede que a mangueira do BC se mova sem controle e fique for a de seu alcance. Você pode visualizar este método na página de roteamento de mangueiras.

A fita superior é roteada de acordo com a figura ao lado. Ela não cruza atrás da cabeça, por não ser necessário e por aumentar a possibilidade da fita “beliscar” seu selo de pescoço da roupa seca e causar um vazamento de água caso você olhe para baixo durante o mergulho.

Uma pequena faca com lâmina serrilhada e toda de metal deve ser montada na fita da cintura, no lado esquerdo antes da fivela, de acordo com a figura ao lado.

O último item do harness é o “crotch strap”, que vem do centro da parte inferior do back-plate e tem um “loop” para que a fita da cintura passe através. Novamente temos um “D-Ring” na parte traseira do “crotch strap” que pode ser utilizada para fixar carretilhas, pára-quedas, ou para rebocar “scooters” de reserva. A parte dianteira do “crotch strap” também possui um “D-Ring” que é utilizado permitir que o scooter reboque o mergulhador.

Geralmente, para o tipo de mergulho que este equipamento se propõe, a quantidade de cilindros e equipamentos significam que você não necessitará de um cinto de lastro. Caso você ainda necessite de peso extra, considere utilizar um peso em formato de “V” montado entre os cilindros e o back-plate. Você pode ver mais detalhes sobre esta técnica no “site” do Jim Cobbs.

Tec-Equipamento06Colete tipo Asa

Como sabemos pelo Princípio de Arquimedes, obtemos empuxo (ou sustentação) através da variação do volume do nosso BC. Mo caso de mergulho técnico utilizamos coletes do tipo “asa”. Devemos selecionar a asa que melhor se adapte ao restante do sistema que estamos montando. As asas disponíveis que melhor se adequam ao estilo Hogarthiano são as asas da Seatec, Halcyon ou Dive Rite – modelo Tradicional.

Todas elas são similares em construção, possuindo uma câmara interior recoberta por uma proteção externa, tipicamente de Cordura. Para aqueles que desejam proteção extra, o “site” do Jeff Bentley exemplifica como reforçar seu colete tipo “asa” no ponto mais propenso a perfurações.

Durante o mergulho, os coletes “asa” Seatec, Dive Rite Tradicional e Halcyon ficam posicionados bem junto aos cilindros, “abraçando” os mesmos e reduzindo em muito sua área de arrasto. Todos eles oferecem sustentação similar, em torno de 45 a 50 libras, que deve ser mais do que suficiente para o mergulhador que estiver equilibrado apropriadamente para o mergulho a ser executado.

Tec-Equipamento07Asas duplas ou câmaras redundantes

Não concordo com a teoria da redundância de coletes. A carga adicional de tarefas (“task loading”) e a complicação de equipamento inerentemente associada à existência de 2 coletes e 2 mangueiras de inflar trazem muito mais desvantagens do que vantagens. Lembrando-se sempre que o estilo Hogarthiano é um estilo minimalista e busca a simplicidade, qualquer sustentação adicional ou alternativa deve ser obtida através de outro equipamento que é capaz de servir a este propósito além do seu propósito original, tais como: roupa seca, pára-quedas, etc. Uma das desvantagens principais do método de asas duplas é enfrentar a inflagem descontrolada do colete equilibrador e não conseguir determinar qual mangueira de inflar está causando o problema, principalmente se isto ocorrer enquanto você está lidando com outro incidente ou problema de menor gravidade.

Alguns mergulhadores alegam que isto pode ser evitado utilizando-se apenas uma única mangueira de baixa pressão para inflagem do colete, que seria movida para o colete reserva no caso de uma pane do principal. Ora, acabamos de comprometer seriamente exatamente o que estamos tentando atingir: a redundância de sustentação. No caso de falha associada ao regulador onde esta mangueira está conectada, ficamos sem sustentação nenhuma. Além disso, qualquer ar adicional presente no colete reserva – que provavelmente não será notado no início do mergulho, quando o mergulhador está mais pesado – irá afetar sua subida, forçando o mergulhador a lidar com a deflação da roupa seca, do colete principal e do colete reserva, além da possível necessidade de se manipular uma carretilha para descompressão. Não creio que já inventaram um mergulhador que possua tantas mãos assim.

Asas com tiras elásticas

Apesar de parecer uma boa idéia, as tiras elásticas estão tentando resolver um problema que não existe e, no processo, introduzem outros problemas. As tiras elásticas exercem pressão contrária à inflagem do colete, forçando a atuação da válvula de sobrepressão (“dump valve”) muito antes do colete atingir a pressão ambiente. Os elásticos também representam uma carga estática muito perigosa para os pulmões do mergulhador caso seja necessário executar uma inflagem manual. Caso eles estejam muito apertados, o que muitos mergulhadores fazem imaginando que terão menor arrasto, impedirão o colete de fornecer sua sustentação nominal.

Já houveram outros tipos de acidentes relacionados com este tipo de colete, tanto que o fornecedor agora os envia com os elásticos soltos, cabendo ao mergulhador ou à loja amarrá-los. Com relação ao arrasto, na verdade o resultado obtido é o oposto do que se espera. Os elásticos impedem que o colete “abrace” os cilindros e a superfície do colete com elásticos causa o chamado efeito vortex, aumentando substancialmente o arrasto, sem mencionar os possíveis pontos de enganchamento criados por todos aqueles elásticos.

Tec-Equipamento08Reguladores

A compra de um regulador deve levar em consideração os seguintes aspectos:

Construção e montagem do regulador

Deve ser possível desmontar o segundo estágio enquanto submerso, caso seja necessário remover contaminantes ou dobras na válvula de exaustão que possam estar forçando você a respirar “água”. Mesmo um problema com o diafragma do segundo estágio pode ser reparado utilizando-se peças de outro regulador que já tenha sido utilizado ou ainda vá ser utilizado. Lembre-se que ninguém pode simplesmente interromper uma descompressão de 30 minutos para ir a uma loja de mergulho reparar seu regulador e retornar à descompressão.

Nós utilizamos reguladores Scubapro G200B ou G250. No caso do G250 é importante lembrar, de remover o pino-trava frontal.

Reputação do fabricante, facilidades de manutenção

Pergunte aos seus companheiros de mergulho e para aqueles que você conhece que realizam mergulhos mais avançados para verificar que reguladores eles utilizam. Verifique a frequência de falhas, quão fácil é obter peças para reparos, como é o desempenho dos reguladores ao longo do tempo, etc.

Outras considerações

Deve-se fixar um clip pequeno na mangueira longa, perto do segundo estágio para permitir prender o regulador no D-Ring do ombro direito enquanto respirando de reguladores de “stages” ou de descompressão.

Dê preferência a utilizar reguladores que não utilizem medidas fora de padrão para as mangueiras, pois isto irá dificultar a obtenção de peças de reposição ou de mangueiras de tamanhos diferentes.

Considere ter todos os reguladores do mesmo fabricante e modelo. Isto simplifica sobremaneira a logística de manutenção, além de permitir que você troque os reguladores no caso de falhas inesperadas.

Tec-Equipamento09Roteamento das Mangueiras

Um dos aspectos mais importantes do “rig” é o roteamento das mangueiras. A idéia é de produzir uma arrumação que permita que as mangueiras saiam do primeiro estágio diretamente para “baixo” e depois sejam roteadas para seu “destino”. Não se admite a utilização de adaptadores no primeiro estágio, pois isto adicionaria desnecessariamente outros pontos de falha. Todas as mangueiras devem possuir aquele protetor de conexão (“strain relief “) que alivia o esforço da mangueira no seu ponto mais frágil: o ponto de conexão ao primeiro estágio.

Nós utilizamos dois métodos para rotear as mangueiras, cuja diferença básica entre eles é apenas de que regulador saem as mangueiras de baixa pressão que se destinam à roupa seca e ao BC.

Os fundamentos

O roteamento das mangueiras é executado da seguinte maneira: o mergulhador respira da mangueira longa, que está conectada no primeiro estágio do registro do ombro direito do mergulhador. A mangueira longa é roteada diretamente para baixo, numa linha reta entre o cilindro e o colete-asa, passa por baixo da caixa estanque das baterias da lanterna principal (veja a seção sobre lanternas), sobe diagonalmente cruzando o peito do mergulhador, passa por trás de seu pescoço chega à boca do mergulhador vindo por sobre o seu ombro direito.

Esta mangueira deve ser a última a ser arrumada, de modo a impedir que ela seja superposta por qualquer outra coisa que impeça o emprego simples e direto no caso de uma situação de falta de ar. Quando o mergulho não exige uma lanterna principal, o mergulhador pode rotear a mangueira sob a bainha da faca que deve estar no seu cinto, ou simplesmente colocar um pequeno seio da mangueira sob o cinto do “harness”.

Um ponto importante é que a mangueira longa não é “sanfonada” e presa por elásticos em nenhum lugar. Os elásticos e a mangueira longa “sanfonada” atrasam o emprego da mangueira longa, não importa como ou onde os elásticos sejam utilizados para prendê-la. Tente soltar uma mangueira presa por elásticos (os americanos chamam este método de “sutffed hose”) e oferecê-la para um mergulhador em situação de falta de ar em menos de 2 segundos.

O método de roteamento usado no sistema Hogarthiano permite isto: basta abaixar a cabeça e doar o segundo estágio principal e seu companheiro já ter gás. Com um simples gesto de dedão, remova o metro restante de mangueira debaixo da caixa estanque da lanterna ou do cinto e seu companheiro tem mais de 2 metros de mangueira para a saída da caverna ou do naufrágio. Mangueiras presas por elástico (“stuffed hoses”) têm o hábito de se enganchar nos lugares mais inesperados ou ainda de se soltarem durante o mergulho. Quando isto acontece, não existe um método conveniente para se prender a mangueira novamente, tipicamente exigindo 2 mergulhadores para tal.

O regulador secundário tem seu primeiro estágio no registro do ombro esquerdo do mergulhador, e sua mangueira passa por trás do pescoço e vai para sob o queixo, onde o segundo estágio fica preso através de um tubo elástico cirúrgico ao redor do pescoço pronto para ser utilizado. Uma boa prática é verificar periodicamente este regulador durante o mergulho, de modo a se certificar que ele está funcionando a contento no caso de ser necessário. Este primeiro estágio também tem o manômetro, cuja mangueira desce diretamente para baixo e deve ter o comprimento ajustado de modo a permitir que o manômetro seja preso via clip ao “D-Ring” localizado no lado esquerdo do cinto do “harness”.

Todas as mangueiras devem ter seus comprimentos exatos para garantir a arrumação perfeita do conjunto e evitar a formação de “bolsões” de mangueiras. Exemplo: a mangueira de alta pressão do manômetro deve ter 66 centímetros (26 polegadas), indo em linha reta do primeiro estágio ao “D-Ring” do lado esquerdo do cinto do “harness”.

Você consegue arrumar e rotear as mangueiras da maneira apropriada com quase qualquer regulador disponível. Não se incomode com as “portas especiais” de determinados reguladores, que prometem maior fluxo de gás. Qualquer BOM regulador é capaz de garantir o fluxo de gás que você necessita através de qualquer porta.

Método George Irvine

O George Irvine utiliza o método Hogarthiano original, onde a maioria das mangueiras de baixa pressão se cruzam atrás do seu pescoço, de maneira que você possa escutar qualquer vazamento – sua caixa craniana transmite perfeitamente o som. A mangueira de alta pressão pode seguir diretamente, pois qualquer vazamento produzirá um som muito alto.

A foto mostra como as mangueiras podem ser roteadas utilizando-se o primeiro estágio MK20 da Scubapro, que possuem uma porta no topo do primeiro estágio. Como vocês podem notar, esta porta facilita o roteamento das mangueiras e torna o sistema bem “limpo”. O primeiro estágio do ombro esquerdo do mergulhador tem o regulador secundário saindo da porta superior, a mangueira de baixa pressão da roupa seca sai de uma das portas da torre giratória e a mangueira de alta pressão sai diretamente para baixo de uma das portas de alta pressão do regulador.

O outro primeiro estágio tem a mangueira longa saindo da porta superior e a mangueira de baixa pressão do colete-asa saindo de uma das portas da torre giratória. Este regulador não possui mangueira de alta pressão, pois só utilizamos um manômetro.

A figura ao lado representa o meu “rig” de mergulho. Como podem ver, a mangueira corrugada do colete-asa é substituída por uma mangueira mais curta (em torno de 15 a 20 cm) de modo que o inflador automático fique logo abaixo do ombro esquerdo e é mantido no lugar através de um “loop” de tubo cirúrgico logo acima do “D-Ring” do “harness”. Com esta modificação, a mangueira do colete-asa não atrapalha no transporte de cilindros de “stage” e facilita sobremaneira as operações de inflagem / desinflagem do colete-asa, submetendo as mangueiras e o primeiro estágio a um esforço menor.

Método JJ

Neste método, o colete-asa é inflado por uma mangueira de baixa pressão bem curta que está conectada ao primeiro estágio do registro do ombro esquerdo do mergulhador. A mangueira corrugada do colete-asa também é trocada por uma mangueira mais curta. Nesta arrumação, a mangueira de baixa pressão do colete-asa é mais curta, de 15 a 20 cm (6 a 8 polegadas), de modo a evitar excesso de mangueira.

A foto ao lado mostra como ficam as mangueiras montadas no sistema. A mangueira de baixa pressão (quando não estamos utilizando Argônio) vem do primeiro estágio do registro do ombro direito do mergulhador.

Note como os primeiros estágios estão posicionados de maneira inclinada de modo a facilitar o roteamento das mangueiras.

Tec-Equipamento10Por que respirar da mangueira longa ?
(Texto adaptado de um artigo de autoria de Steve Irving)

No sistema Hogarthiano acredita-se que a única conclusão razoável após considerarmos todas as evidências é que o regulador primário de um mergulhador deve ser aquele que possui a mangueira longa. Primeiramente, todos concordam que a razão da utilização da mangueira longa é para facilitar a saída segura de um mergulho em caverna/naufrágio no caso de uma situação de emergência. O comprimento extra permite a passagem em fila indiana através de restrições, dá mais segurança no caso de baixa visibilidade e mais conforto durante a descompressão. Adquirimos a mangueira longa na esperança de nunca termos que utilizá-la, mas ela está lá quando necessária.

Todos também concordam que equipamentos destinados a emergências devem estar em perfeitas condições de uso e imediatamente acessíveis. Devemos assumir que o mergulhador com falta de ar diver só irá notar sua situação após exalar e tentar inalar o vácuo. Pânico, mesmo para os mergulhadores mais treinados, está apenas alguns segundos de distância. Eles precisam de gás, e precisam dele imediatamente. Eles necessitam de gás, não de água. Eles precisam imediatamente de um regulador que esteja em perfeito funcionamento. Eles não tem tempo para remover pedaços de madeira ou contaminantes ou para remover a água do segundo estágio sendo doado. Todos concordamos que o regulador que você está respirando neste momento está funcionando a contento. Se não estiver, ou você o conserta ou termina o mergulho! Também concordamos que não há como saber se o regulador secundário (aquele que você não está respirando) está funcionando ou não. Você verificou seu funcionamento no início do mergulho, e verificou novamente alguns minutos atrás (não é mesmo ?), mas neste exato instante você não sabe.

Se o regulador secundário está com algum contaminante ou sujeira e precisa sofrer alguma intervenção, quem está em melhores condições para arrumá-lo? O seu companheiro que está com falta de gás provavelmente sinalizou e indicou que está sem gás. Vocês começam a nadar um em direção do outro. Agora é hora de utilizar o regulador secundário, e você está em melhores condições para lidar com qualquer dificuldade. E se seu companheiro estivesse muito próximo e simplesmente arrancasse o regulador de sua boca sem aviso prévio ? Você ainda está em melhores condições: você tem gás. E qual o regulador você acha que o companheiro em “stress” irá buscar ? Infelizmente nem todos os mergulhadores mantêm seus reguladores secundários no mesmo lugar, mas todos sabemos que os mergulhadores tem suas bocas no mesmo lugar. Sendo assim, qual regulador será o alvo ?

Alguns argumentam que em passando o regulador primário para o mergulhador em dificuldades temos 2 mergulhadores temporariamente sem gás, e isto seria um problema. Se você não consegue remover o segundo estágio de sua boca e trocá-lo por outro, você deveria estar mergulhando ? Pense bem – isto é uma das técnicas básicas de mergulho.

Outros argumentam que a mangueira longa aumenta a resistência de respiração e portanto, respiram da mangueira curta. Um regulador de qualidade que esteja regulado e ajustado da maneira apropriada é capaz de fornecer quantidade adequada de gás mesmo através da mangueira longa. Se isto não fosse verdade, como seu companheiro em dificuldades irá reagir quando tentar dar as primeiras respiradas já em estado de “stress” ? Na verdade a pergunta básica a ser feita é: você está disposto a salvar seu companheiro, oferecendo o regulador que está funcionando quando isto for necessário? Não creio que seja uma boa idéia planejar um mergulho onde você corre o risco de receber um regulador que não está funcionando quando enfrentar uma emergência de falta de gás.

Outras considerações sobre mangueiras

Todas as mangueiras são de tamanho customizado. Como temos dificuldade de obter estas mangueiras no Brasil, eu as encomendo via e-mail da loja Lloyd’s Bailey.

Tec-Equipamento12Lanternas

Lanternas Principais

A lanterna principal utilizada é do tipo que utiliza caixas estanques para as baterias e oferecem em torno de 3 horas de autonomia com lâmpadas de 50W. Os melhores modelos são fornecidos pela Extreme Exposure ou pela American Underwater Lights (AUL).

A caixa estanque das baterias é montada no cinto do harness sob o ombro direito, aproveitando o escudo hidrodinâmico criado, e é mantida o mais próximo possível do back-plate através de uma fivela extra. Isto permite que a lanterna fique fixa no cinto mesmo quando o mergulhador abre a fivela principal.

Tec-Equipamento11A lanterna propriamente dita utiliza um “Goodman handle”, que é uma manopla que envolve a palma da mão do mergulhador, permitindo que ele continue a utilizar a mão enquanto está segurando a lanterna.

O cordão elétrico que une a lanterna à caixa estanque deve ter um tamanho mínimo necessário de modo a ficar esticado quando a lanterna está na mão esquerda com o braço completamente esticado na sua frente.

Por que colocar a caixa estanque abaixo dos cilindros é ruim ?

Os americanos chamam este método de “butt mounting”. Se você utilizar este método, você certamente terá que apoiar seus cilindros sobre a caixa estanque durante o tempo em que você estiver se equipando. Para fixar a caixa estanque sob os cilindros você terá que adicionar “D-Rings” na sua dupla, criando outro ponto potencial de enganchamento. Isto também leva a conexões metal-com-metal. A montagem da caixa estanque sob sua dupla significa que ela estará apoiada na parte traseira de suas pernas durante sua natação normal, o que pode ser muito desconfortável em mergulhos longos.

Muitos alegam que o método de “butt mounting” é mais hidrodinâmico, no entanto a caixa estanque na cintura está na “área de sombra” do ombro durante a natação. O cordão elétrico de uma lanterna “butt mounted” terá que ser maior, aumentando a possibilidade de enganchamentos e complicando desnecessariamente o seu roteamento, interferindo com os cilindros “stage” e com outros componentes do seu “rig”. Além disso, a posição onde a caixa estanque fica ocupa o lugar que normalmente utilizamos para carregar carretilhas de exploração ou pára-quedas.

Tec-Equipamento13Lanternas secundárias

Em mergulhos com penetração (cavernas ou naufrágios) é normal o mergulhador levar 2 lanternas secundárias. O melhor a fazer é mantê-las o mais simples possível. As lanternas secundárias ideais são aquelas lineares de 3 pilhas tamanho “C”, são ativadas quando se enrosca o topo (sem interruptores ou botões para falhar). Elas precisam ser fixadas em 2 pontos e acondicionadas nas fitas do “harness” que vêm dos ombros. Elas são presas pela parte de trás, através de clips, nos “D-Rings” dos ombros e pela parte da frente através de “loops” de câmaras de bicicleta ou “O-Rings” de cilindro colocados na fita do “harness”.

Aproveite e coloque um “loop” extra em cada lado do seu “harness”, pois no caso do “loop” arrebentar você ainda tem outro para montar a lanterna. Este método de arrumação permite mantê-las fora do caminho, sem causar arrasto e acessíveis ao mesmo tempo.

Montagem indevida das lanternas secundárias é tão perigosa, como não utilizar a lanterna secundária apropriada. Para utilizá-la, primeiramente remova-a do “loop” de câmara de bicicleta, mantendo-a fixa no “D-Ring” através do clip. Ligue-a e depois a remova do “D-Ring”. Assim, se você a deixar cair acidentalmente você ainda poderá localizá-la. Lembre-se que estas lanternas são parte integrante do seu equipamento de segurança, utilizadas quando da falha de sua lanterna principal. Mantenha-as sempre com baterias novas.

Carregar um “cacho” de lanternas secundárias presas ao “D-Ring” fixado no cilindro é perigoso e sem praticidade. É o local natural para qualquer enganchamento, além delas ficarem se chocando com os cilindros o que causa a quebra dos filamentos e bulbos. O acesso a elas é bloqueado por outros itens do equipamento, tornando quase impossível uma rápida utilização das mesmas.

As melhores lanternas secundárias disponíveis são as Extreme Exposure.

Bulbos e baterias

Evite utilizar baterias recarregáveis de Níquel-Cádmio, pois elas não dão sinal de fim de carga e podem deixá-lo no escuro sem aviso prévio e dificultando saber se a carga OK antes do início do mergulho.

Assegure-se que a voltagem da lâmpada é idêntica à voltagem das baterias. Se você alimentar as lâmpadas com tensão superior à nominal, você estará reduzindo a vida útil da mesma e ela irá falhar justamente na hora que você mais precisar.

No caso da lanterna primária, por causa da alta corrente envolvida, o melhor é utilizar baterias de gel chumbo-ácido. Este tipo de bateria apresente uma baixa impedância interna e permite que a voltagem permaneça constante independentemente da corrente sendo utilizada.

Para lanternas secundárias, as pilhas alcalinas são imbatíveis pela sua capacidade em relação ao tamanho. As pilhas alcalinas “morrem” devagar, possibilitando ver quando se aproxima o fim da carga da lanterna e preparar outra lanterna secundária ou a reordenação do time de mergulho para proteger o mergulhador sem lanternas.

Tec-Equipamento15Cilindros de “Stage” e de descompressão

Escolha dos reguladores

Por bons motivos, o ideal é que os reguladores dos cilindros “stage” e de descompressão sejam iguais aos utilizados na dupla. Se você tiver uma falha em qualquer regulador antes do mergulho é possível utilizar peças de um para arrumar outro, rearranjá-los e realizar o mergulho com o plano adaptado à nova situação. Principalmente no Brasil, a maior preocupação é chegar ao local de mergulho e não ser capaz de mergulhar.

Utilizando sempre os mesmos reguladores, é fácil para o mergulhador identificar quando um deles está com o desempenho abaixo do normal ou com comportamento estranho. A logística de peças de reposição é enormemente simplificada se todos os reguladores forem iguais.

Durante a descompressão, você precisa de reguladores de alto desempenho, pois é lá que você estará mais cansado e, dependendo do perfil do seu mergulho, é o regulador que você irá respirar por mais tempo. Além disso, você já estará com uma carga de O2 significativa e estará exposto a altas pressões parciais de Oxigênio. Nesta hora o que você menos deseja é um regulador com resistência à respiração que possa levar a um aumento do CO2 e disparar sintomas de intoxicação por Oxigênio.

Forma e Cor

Alguns mergulhadores dizem que os reguladores de descompressão (leia-se aqui reguladores utilizados para quaisquer misturas descompressivas – Trimix, Nitrox ou O2 – utilizadas durante o mergulho) devem ter formatos e cores diferentes de modo que o mergulhador possa identificar a mistura sendo respirada através do regulador. Na minha opinião este é um método tolo, sujeito a muitas falhas e com potencial para acidentes sérios. Basta que o mergulhador monte o regulador no cilindro errado, aliás, erro que custou a vida de Bobby McGuire.

A disciplina de examinar e abrir o cilindro “stage” que você está a ponto de respirar é tudo o que é necessário. Quando mergulhamos, todos os cilindros “stage” são arrumados da mesma maneira, incluindo os reguladores. Sendo assim, podemos utilizá-los para qualquer finalidade: cilindros de viagem ou cilindros de descompressão, facilitando a preparação do mergulho.

Antes de utilizar o cilindro, olhe no pescoço do mesmo e verifique qual é a profundidade máxima operacional (PMO) da mistura. Abra o cilindro correto, livre a mangueira do regulador de “stage” acoplado a este cilindro, e passe a mangueira por detrás do seu pescoço de modo que todos os reguladores venham do lado direito, remova o regulador principal e respire da “stage”. Caso você tenha apanhado o regulador errado e ele der mais do que 1 respirada (evitando portanto o risco de intoxicação por O2), basta retornar ao regulador principal e acertar o erro. Se o regulador fornecer gás continuamente, ele é o regulador correto.

Prenda o regulador principal ao “D-Ring” do lado direito do mergulhador através do clip. Nós agora temos um regulador em nossa boca, um regulador secundário sob nosso queixo, e o regulador principal preso no “D-Ring” do ombro direito. Ao final desta operação, deve-se verificar nosso companheiro de mergulho para ver se ele está utilizando o cilindro correto.

Como o cilindro dele deve estar identificado na lateral com a profundidade máxima operacional em letras com 5 a 8 cm de tamanho, você será capaz de auxiliá-lo a corrigir qualquer engano. Caso sua descompressão exija mais de uma mistura, você deve abrir o cilindro apropriado, livrar o regulador, e seguir todo o procedimento anterior. O regulador do cilindro já utilizado deve ser guardado da maneira apropriada e o cilindro deve ser fechado.

Tec-Equipamento14Primeiro estágio e manômetro

O uso de um regulador de torre rotatória é uma boa idéia, pois permite que as mangueiras apontem para baixo na hora de prendê-las junto ao cilindro e permite que apontem para cima durante a utilização.

Para permitir a utilização da mangueira sobre o pescoço, a mangueira dos reguladores de “stages” devem ser mais longas que as normais, tendo entre 96 e 101cm.

Sempre utilize um manômetro nos reguladores de descompressão. Muitos consideram que este regulador não necessita de um manômetro, pois a pressão dos cilindros é medida antes do mergulho para garantir que eles têm suficiente gás para a descompressão. Além disso, consideram que a presença do manômetro não modifica a situação de falta de gás para descompressão. No entanto, como os reguladores de “stage” e os reguladores de descompressão são arrumados da mesma maneira, eles são intercambiáveis até que estejam montados em um cilindro. Sendo assim, o manômetro é necessário para controlar o consumo de um cilindro “stage” até um determinado ponto do mergulho.

A melhor maneira de montar um manômetro é através de uma mangueira curta (15 cm – 6 polegadas), como mostra a figura ao lado. A mangueira é mantida em “U” através de um pedaço de cabo ou elástico tipo “bungee”. Isto não danifica a mangueira de alta pressão pois, ela fica permanentemente nesta posição. O que danifica a mangueira é a movimentação e torção constante que uma mangueira livre sofre ao longo de sua vida.

Montagem do cilindro “stage”

Todos os cilindros “stage” são levados pelo mergulhador do lado esquerdo, exceto quando transportando três “stages”, quando então o terceiro cilindro pode ser levado do lado direito. O pescoço do “stage” é preso através de clip ao “D-Ring” do ombro esquerdo. O fundo do “stage” tem uma única fita de aço inoxidável sob a qual passa o cabo utilizado no “arreio” (“harness”) do “stage”.

Como você pode ver o cilindro “stage” não é preso ao mergulhador através de conexões de metal-com-metal, pois estas podem engripar e possivelmente impedir que você o remova no caso de uma emergência. Com este sistema o cilindro “stage”. Pode ser removido a qualquer instante, mesmo que isto exija o corte do cabo do “arreio”. A foto ao lado mostra um cilindro AL80 montado como um “stage”.

Identificação dos cilindros “stage”

Todos os cilindros “stage” devem ser identificados com o conteúdo e com a profundidade máxima operacional. Quando você analisar a mistura do cilindro, use “duct tape” e cole uma “etiqueta” no pescoço do cilindro, de modo que você possa vê-la quando estiver usando o “stage”, contendo a mistura, a PMO e a data da análise. Além disso, seu “stage” deve ter sua Profundidade Máxima Operacional (PMO) marcada com caracteres de 8 cm de tamanho perto do fundo do cilindro, de modo que seu companheiro de mergulho possa vê-la. Ele então poderá utilizar esta informação como referência durante um mergulho com múltiplos “stages” para se assegurar que você está utilizando o cilindro correto.

Por que não se deve montar um cilindro de descompressão nas costas

Vamos considerar duas possibilidades – o “stage” está carregando a redundância da mistura de fundo ou está carregando mistura de descompressão (ou seja, mistura com alta porcentagem de O2 ou 100% O2).

“Stage” com redundância de mistura de fundo – O regulador deve estar pressurizado para evitar que a água entre no primeiro estágio e o registro deve estar fechado quando não em uso. A razão pela qual ele é mantido fechado é para evitar que um “free flow” desperdice todo o gás redundante. Isto não pode ser feito no caso de estar montado nas costas pois, você não pode abrir ou fechar o registro, tendo que ficar aberto durante todo o mergulho.

“Stage” com mistura descompressiva – Novamente o regulador deve ser pressurizado e o registro deve ser fechado quando não em uso. Assim como prevenir um “free flow”, também temos que prevenir que alguém respire desta mistura numa profundidade errada e sofra de intoxicação por Oxigênio. Isto não pode ser feito com o cilindro montado nas costas pela mesma razão anterior.

Em ambos os cenários, se o primeiro estágio falhar o mergulhador só conseguirá utilizar o gás da “stage” se ele tiver acesso ao registro, ou seja, utilizar a técnica de “mamar no cilindro” (abrir o registro para inalar e fechar o cilindro para exalar), o que não pode ser feito se o cilindro estiver montado nas costas. Além disso, o mergulhador não consegue remover e trocar sua “stage” sozinho, no caso de ficar preso em pequenas restrições em naufrágios ou cavernas. Considere também passagens com formatos irregulares: seu “stage” está de um lado e você pode passar enquanto está penetrando, mas quando você está voltando o “stage” está do outro lado da restrição e você pode não conseguir passar sem remover e recolocar o “stage”.

Quando o “stage” está montado nas costas ele cria um arrasto adicional. Quando ele está ao longo do seu lado ele fica na “sombra” do seu ombro sem criar arrasto adicional.

E por último, roteamento das mangueiras. Se o “stage” está montado nas costas, onde vão as mangueiras do regulador ? Onde vai o manômetro ? Como distinguir entre estes e os reguladores e manômetro da sua dupla ? Quando o “stage” está montado ao seu lado, o manômetro e facilmente visualizado como estando conectado ao primeiro estágio da “stage” por uma mangueira curta, o regulador está preso ao cilindro por tiras de câmaras de pneus de carro de modo que você sabe que este regulador e este manômetro pertencem a este “stage”. Removendo-se uma “stage” carregada lateralmente ela sai como uma unidade completa, ou seja, sem nenhuma mangueira presa ao mergulhador. Se você tivesse que remover um “stage” montado em suas costas, o que fazer com as mangueiras, regulador e manômetro ?

Tec-Equipamento17Cilindros de Argônio

Cilindros de Argônio são utilizados para inflar a roupa seca. Argônio tem características favoráveis de isolamento térmico e é utilizado por mergulhadores que estejam mergulhando em águas frias ou que estejam utilizando misturas com gases de baixo isolamento térmico em suas duplas, tais como Hélio.

Inflar a roupa seca com misturas baseadas em Hélio pode produzir um nível perigoso de resfriamento do corpo devido às características de condutibilidade térmica do Hélio. Além disso, existe um risco limitado de se sofrer de contra-difusão gasosa quando o mergulhador está imerso em um gás menos denso do que está respirando.

Tec-Equipamento16Os cilindros de Argônio normalmente variam de 6 a 14 pés cúbicos e são mais eficientes com pressões de trabalho em torno de 2000 PSI, já que os cilindros de Argônio são tipicamente fornecidos em baixa pressão.

Geralmente o cilindro de Argônio é fixado ao lado da sua dupla, mas se o cilindro for muito pequeno pode ser fixado no cinto do “harness”.

Maurício Henriques

Engenheiro eletrônico e consultor em Redes de Computadores. Mergulhador desde 86, é instructor trainer PDIC e instrutor GUE. É Full Cave pela NSS-CDS.

Sua área de conhecimentos engloba a Teoria da Descompressão e também a utilização de programas especilizados para a produção de tabelas descompressivas específicas.

Coordena as atividades da Tech Diving no Rio de Janeiro.