Aumento do número de acidentes entre mergulhadores

Laje de Santos - Foto: Clécio Mayrink

Recentemente publicamos uma notícia de um mergulhador encontrado morto no litoral norte de São Paulo, e dentre alguns comentários, vi um mergulhador questionando os motivos de tantas notícias sobre acidentes entre mergulhadores.

Seria uma divulgação maior dos acidentes ou uma quantidade maior de mergulhadores mal treinados ?

A minha percepção diz: os dois

Comecei a mergulhar na década de 80, onde o curso de mergulho era um verdadeiro treinamento militar. Na época, um curso básico era ministrado em 4 finais de semanas, com aulas aos sábados e domingos, das 9 às 17h. Ou seja, o dia inteiro falando sobre mergulho com aula teórica e prática.

Saíamos de lá treinados para situações mais adversas. No meu caso, como os treinamentos eram feitos em uma plataforma no bairro da Urca, no Rio de Janeiro, tínhamos uma visibilidade média de 0.5 à 1m, e 3m nos melhores dias.

Nessa época a procura do mergulho era baixa, os equipamentos eram caros e quando desejávamos um material importado, não era fácil a aquisição.

O mergulho no Brasil começou a ganhar espaço na década de 90, com um aumento quanto ao número das importações e lojas, além da chegada das certificadoras americanas. Os cursos de mergulho eram diferentes, sendo realizados em menos tempo e sem o treinamento “militarizado” praticado pela certificadora que tínhamos.

De fato, houve uma expansão do mergulho e o número de praticantes aumentou consideravelmente. Com esse aumento, os interesses foram mudando ao longo dos anos, e o objetivo de certificar cada vez mais mergulhadores por parte de alguns empresários, se transformou mais em negócio e menos preocupação com uma boa formação.

Ter a certeza de que o mergulhador certificado está devidamente bem treinado e com as habilidades necessárias para o certificado obtido, ficou em segundo plano, e o resultado pode ser visto nas operações de mergulho em vários locais do Brasil.

Basta sentar e observar a atitude de alguns mergulhadores no barco e perceber a diferenciação de treinamento entre cada um deles. Já cheguei a presenciar junto com um instrutor a bordo, um mergulhador tentando encaixar um primeiro estágio Yoke ao contrário, por exemplo. E ficou por um bom tempo tentando até que fosse chamada a sua atenção para o erro.

Assistindo um curso básico em uma escola, presenciei um instrutor explicando o uso do colete equilibrador assim: “Pessoal, isso é a traqueia, aqui você enche e aqui você esvazia o colete”.

Essa foi toda a explicação sobre o colete equilibrador na aula prática, agora imagine o que a falta de uma boa explicação sobre o colete vai ocasionar ao futuro mergulhador ?

Na minha opinião é perceptível que a baixa qualidade de muitos cursos, está diretamente ligada ao aumento de acidentes com mergulhadores. A falta de experiência e habilidade adquirida para os certificados obtidos, são comprovados com os erros básicos que presenciamos nas operações. Além disso, o mergulhador deve ter em mente, que ele deve realizar o mergulho que esteja à sua altura e que certificado não significa muita coisa.

A experiência é adquirida com mergulhos em lugares diferentes, sob condições diferentes e com pessoas diferentes. Realizar vários cursos em sequência e mergulhar sempre no mesmo local, por exemplo, jamais trará uma experiência prática e ganho de habilidades ao mergulhador.

Aumento de notícias sobre acidentes

Quanto à quantidade de notícias, de fato, com todos acessando a Internet, fica difícil esconder um acidente, pois rapidamente as notícias são repassadas, e todos tomam conhecimento sobre o fato. Infelizmente nosso mercado de mergulho tem a péssima mania de querer esconder as informações, quando deveria expor o fato a todos através de um relatório, para que ele seja analisado e compreendido por todos, pois só com erros e fatos amadurecemos em conhecimento e conseguimos evitar que o mesmo erro ou problema seja cometido no futuro. Sem contar, que eliminamos a possibilidade do fato ser distorcido.

No caso do Brasil Mergulho normalmente recebemos as notícias, vamos atrás da informação para confirmar os fatos e a veracidade da coisa toda, e raramente vemos o envolvido expressando o fato com intuito de deixar claro a todos o que ocorreu.

Clecio Mayrink

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount).

É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008.

Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.