Auto Suficiência

No final do curso básico, a maioria dos mergulhadores aprendeu pelo menos uma coisa: “nunca mergulhar sozinho”. Isto faz parte de um conceito antigo no mergulho chamado de sistema de duplas. Nele, cada mergulhador deve estar equipado e treinado para ajudar seu dupla em caso de problemas. Um exemplo disto é a falta de ar: no curso básico, todos aprendem a utilizar o octopus (segundo estágio adicional) e a compartilhar seu suprimento de ar com o companheiro em dificuldades. Infelizmente, isto acaba por se confundir com outra idéia completamente diferente: “em caso de emergência, peça ajuda ao seu companheiro”.

A grande falha do sistema de duplas é pressupor que os companheiros estarão juntos no momento da emergência e que ambos estarão capacitados para socorrer um companheiro em apuros. De nada adianta um companheiro com octopus se no momento em que seu ar acaba ele está de costas para você a 20 metros de distância ou com algumas poucas atmosferas de ar em seu cilindro. A verdade é que, na maioria dos casos, os companheiros não estão próximos o suficiente para ajudar e que, quando estão, não possuem o equipamento ou o treinamento para resolver o problema, resultando muitas vezes em um acidente duplo.

Felizmente o mergulho é uma atividade segura e tolerante a erros – a maioria dos poucos acidentes registrados acontecem após uma série de erros do mergulhador e até mesmo as falhas do equipamento podem muitas vezes ser atribuídas a erros como falta de manutenção ou uso incorreto. E quanto mais simples for o mergulho, maior pode ser a sequência de erros antes que o acidente aconteça.

A idéia da auto-suficiência surgiu entre os mergulhadores técnicos que, nos mergulhos profundos ou em cavernas, não se sentiam confortáveis em depender de alguém se algo saísse errado. Eles então começaram a questionar se o sistema de duplas era realmente a solução ideal e se existia outra forma de reduzir ainda mais os riscos.

A auto-suficiência tenta evitar que as falhas aconteçam e oferece alternativas para quando algo sai errado, sem que o mergulhador dependa de seu companheiro. Exemplificando: um o-ring que se rompe pode comprometer o suprimento de ar. Ao invés do tradicional “procure o seu dupla e utilize o seu octopus”, o mergulhador auto-suficiente é treinado para verificar cuidadosamente seu equipamento ainda na superfície e substituir o-rings velhos ou desgastados. Ele planeja seu mergulho de forma a ter consigo um suprimento de ar alternativo totalmente independente para aqueles casos em que, apesar dos cuidados, o o-ring venha a falhar. Este suprimento alternativo pode ser uma pony bottle, um spare-air ou mesmo o ar atmosférico (após uma subida de emergência) – a escolha vai depender da situação, mas em qualquer caso o mergulhador não depende de seu dupla para poder retornar à superfície.

As técnicas de auto-suficiência não visam substituir o sistema de duplas, mas sim oferecer uma alternativa adicional. Ao se deparar com uma dificuldade, cada mergulhador deve estar apto a resolver o problema sozinho. Se o companheiro estiver por perto e puder ajudar, melhor, mas o mergulhador não depende dele. Com a auto-suficiência, cada mergulhador é o principal responsável pela sua própria segurança, tomando suas próprias decisões e sendo senhor de suas ações – e suas consequências.

Há 2.500 anos um general chinês chamado Sun Tzu escreveu algo que pode ser considerado a base da auto-suficiência: “Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada batalha vencida você sofrerá uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas…”.

Antes de cada mergulho, o mergulhador auto-suficiente para e responde a uma série de perguntas do tipo “estou preparado para este mergulho ?”, “o que eu farei se isto acontecer ?” e elabora seu “plano de contingência”, preparando-se física e mentalmente para situações de emergência.

Analisando antecipadamente as condições do mergulho – qual a profundidade máxima ? quanto tempo pretendo ficar no fundo ? o local tem correntes ? como eu retornarei ao barco ? – o mergulhador tem condições de avaliar o que pode dar errado – o que acontece se meu tempo de fundo for excedido ? e se eu descer 5 metros além do planejado ? e se meu regulador principal falhar ? e se eu não conseguir localizar o barco ao final do mergulho ? – e busca as respostas para cada uma destas perguntas. Finalmente, ele se prepara física e mentalmente para o mergulho, treinando procedimentos de emergência e selecionando o melhor equipamento para, criando alternativas que lhe permitam sair das dificuldades imaginadas.

Como o mergulho é extremamente dependente de equipamento, a palavra-chave é redundância – a falha de qualquer componente deve poder ser contornada. Em qualquer mergulho, o principal ponto é garantir um suprimento de ar adequado. Quanto mais ar eu tiver, maior a minha margem para erros e mais tempo eu terei para corrigi-los. O octopus é importante para ajudar a um companheiro sem ar, mas é de pouco valor para o mergulhador que o carrega, já que a única segurança que oferece é contra uma falha do segundo estágio principal (raríssima). As alternativas redundantes vão desde uma torneira em Y ou H (que permitem a conexão de dois reguladores completos a um mesmo cilindro) a cilindros duplos com manifold de isolação (com dois reguladores que podem ser conectado a qualquer um dos dois cilindros de forma independente), passando pelo spare air e por pony bottles (pequenos cilindros de ar auxiliares com reguladores próprios) – a escolha depende principalmente do tipo de mergulho (profundidade, duração, tempo de descompressão, etc).

Uma pequena faca colocada em um local de fácil acesso é importante nas atividades em que o mergulhador está sujeito a enroscos. Nos mergulhos noturnos, uma segunda lanterna pode salvar a noite caso a principal falhe. Em mergulhos que exijam paradas descompressão, sempre existe a possibilidade de não ser possível retornar ao cabo de subida e um lift-bag (paraquedas inflável) com uma carretilha podem ser úteis. Em mergulhos mais complexos a lista pode incluir diversos outros itens redundantes: máscara, colete compensador, computador, tabelas de descompressão, etc.

Deve-se também pensar na hipótese de algo sair errado e o mergulhador não poder retornar ao barco, como aconteceu há pouco tempo em São Paulo. Neste caso, equipamentos de sinalização na superfície são essenciais. Os mais comuns são as “salsichas” infláveis (que permitem que o barco aviste mergulhadores à distância mesmo em condições de mar ruins) e os strobes (pequenas lanternas que emitem pulsos de luz por várias horas). Apitos são comuns na maioria dos coletes mas dispositivos como o dive alert (pequena buzina acionada pelo ar do próprio cilindro) são mais eficientes e permitem chamar a atenção do barco mesmo com o barulho de motores.

O erro mais comum é achar que o mergulhador pode estar equipado para resolver sozinho qualquer tipo de dificuldade. Ele acaba por se tornar paranóico a respeito das contingências, transformando-se em uma “árvore de natal”, carregando dezenas de equipamentos para as situações mais improváveis. O mergulhador deve estar preparado para enfrentar as dificuldades razoáveis. É fácil inventar situações tão absurdas que não há saída – como “o que eu farei se estiver a 70 metros de profundidade sendo atacado por 30 tubarões brancos e atropelado por um submarino nuclear russo quando estourar um o-ring de meu regulador ? “. Cada peça de equipamento adicional significa mais peso, mais arrasto e consequentemente mais esforço para se movimentar e uma chance maior de um enrosco debaixo d’água.

Durante e após o mergulho, cada um analisa suas ações e falhas, buscando melhorar sua performance para a próxima vez e aprendendo com os próprios erros. Na auto suficiência o lado psicológico é fundamental, já que tudo se baseia em preparação, disciplina, auto-controle e auto-confiança – e auto-confiança em excesso é um grande perigo !

Neste momento você deve estar se perguntando como fazer para se tornar auto-suficiente. O primeiro passo já está dado: é querer ser auto-suficiente. O passo seguinte é o treinamento (os cursos estarão disponíveis no Brasil ainda no primeiro trimestre de 1996) e a aquisição do equipamento adicional. Neste meio tempo, aproveite para repensar como você se comporta durante cada mergulho. Embora tenha se originado no mergulho técnico, a auto-suficiência é valiosa em qualquer tipo de mergulho !

Mergulho Solo

Em muitos cursos básicos os instrutores transformam o mergulho solo em um verdadeiro tabú. No entanto, a grande maioria dos instrutores já mergulhou sem um companheiro, muitas vezes por necessidade e em outras por puro prazer. Afinal, isto é aceitável ou não ?

Um companheiro pode aumentar o prazer e a segurança, mas o mergulho solitário é uma alternativa válida em condições de baixo risco se executado por um mergulhador devidamente treinado e equipado. Fotógrafos e biólogos podem se concentrar no seu trabalho e instrutores podem ter alguns momentos de relaxamento após um fim de semana estafante.

Afinal, pilotos de avião tem que fazer um vôo solo…

Pedro Paulo Cunha
É engenheiro naval e atua na área de informática desde 1981, sendo atualmente responsável pela área de sistemas de um banco. Começou no mergulho autônomo em 1983, e iniciou sua carreira de instrutor em 1984. É instrutor PDIC, NAUI e SSI e instructor trainer TDI. É credenciado em diversas especialidades, desde Mergulho sob o Gelo (PADI e NAUI) a mergulho com misturas / Trimix (TDI) e é autor de cursos de especialidades NAUI. Escolheu o mergulho técnico e equipamentos avançados de mergulho como área de especialização, tendo também, um grande interesse em história do mergulho, sendo o único membro brasileiro da Historical Diving Society. É responsável pelas atividades da Tech Diving em São Paulo.