Barotraumas

Foto: Clécio Mayrink

Barotraumas

O que você sabe e esquece e o que você provavelmente não sabe.

“Mamãe, fui naquela escola de mergulho massa, desci um metro e meio de profundidade e você não vai acreditar, tive um barotrauma do ouvido médio de terceiro grau”.

Imagine você a cara da mãe, assustada com este tremendo palavrão. E provavelmente a grande maioria dos mergulhadores, porque barotraumas incomodam uma barbaridade e são responsáveis por uma série de cancelamentos de mergulhos. Curiosamente, a maioria destes poderia facilmente ser evitada com técnica correta e algumas precauções.

O termo barotrauma significa traumatismo (trauma) causado pela pressão (baro). De uma maneira grosseira, podemos classificá-los em barotraumas de descida e de subida, embora algumas lesões possam ser geradas por problemas na descida e na subida.

Antes de descrever os barotraumas é importante relembrar que nosso corpo sofre a maior variação de pressão nos metros mais próximos à superfície. Por exemplo, ao descer da superfície para 10 metros, no nível do mar, a pressão dobra, de 1 ATM para 2 ATM. Quando vamos de 10 para 20 metros, a pressão aumenta apenas 1/3, de 2 para 3 ATM e assim por diante. Concluímos daí que o maior cuidado com a pressão deve ser tomado nestes metros iniciais. Outro conceito importante a relembrar é que barotraumas só ocorrem por compressão ou expansão de espaços com gás, pois líquidos não são compressíveis.

O barotrauma mais comum é o barotrauma do ouvido médio, que é um compartimento aéreo, localizado para dentro do conduto auditivo externo. Quando descemos, o aumento da pressão da água começa a empurrar a membrana do tímpano, que delimita o ouvido médio. Se não equalizamos corretamente, esta membrana pode ser machucada em graus variáveis, desde um quadro simples com dor, mas sem lesão na membrana, até o extremo com a sua ruptura. Para a sua prevenção devemos, desde a superfície, equalizar esta pressão, antes que surja dor. Talvez esteja aí o maior erro técnico relacionado à equalização, as pessoas costumam esperar a dor ou sensação de pressão, para iniciar a equalização. Uma vez que surja um gradiente de pressão e dor importantes, há uma musculatura da tuba auditiva que se contrai, impedindo a continuidade do processo. Lembre-se, equalize desde a superfície, equalize com frequência e caso o ouvido venha a “travar”, suba até que a sensação passe e volte a descer, equalizando constantemente.

Um fato curioso é que muitas vezes o indivíduo segue mergulhando com dor, que passa após algum tempo, pois o ouvido médio, já inflamado, se enche de líquido. Após o mergulho vem a sensação de surdez e de água no ouvido.

O barotrauma do ouvido médio pode ocorrer durante a subida, quando mergulhamos resfriados, ou usamos descongestionantes cujo efeito passe durante o mergulho, o que chamamos bloqueio reverso. Se você vier a ter um bloqueio reverso, desça alguns metros e volte a subir lentamente, fazendo movimentos laterais com o pescoço.

Os seios paranasais, (ou seios da face) são cavidades distribuídas na face e no crânio, forrado de tecido mucoso nasal. Temos os seios da face (frontal e sinusal) e internos na cabeça (etmoidal e esfenoidal) que são equalizados da mesma forma, através da manobra de Valsalva. Todos seios paranasais podem sofrer barotraumas, embora mais raros, pois a forte dor impede que o mergulhador desça. Também em graus variados, pode gerar desde uma sensação de peso até hemorragias, com dor na área afetada. É importante lembrar dos seios etmoidal e esfenoidal. Estes podem causar dores de cabeça vagas, pouco relacionadas pelo mergulhador.

Cuidado, infecções de vias aéreas, rinites e outros quadros acabam dificultando a equalização do ouvido médio e dos seios paranasais. Não mergulhe se estiver com alguma das condições acima. O uso de descongestionante pode levar a bloqueio reverso, tanto no ouvido médio, como nos seios paranasais.

Um quadro quase pitoresco é o barotrauma da máscara (ou facial), que ocorre quando não equalizamos o espaço aéreo artificial criado pela máscara. Com o aumento de pressão na descida, a máscara aperta gradualmente a pele da face, causando uma sensação de pressão na face. Os vasos sanguíneos da face começam a se romper, causando um hematoma. Muitas vezes ocorre hematoma no branco dos olhos (conjuntiva). O problema é que o processo todo é indolor, e muitas vezes o mergulhador sai da água sem perceber nada, até que vira motivo de chacotas, com a tal “face de guaxinim” e o caso se resolve sozinho com muitos dias de cara roxa (aliás, muda de cor). Um detalhe, já vi instrutores mencionando que os olhos poderiam saltar da órbita, o que não passa de tremenda mentira.

Uma forma de barotrauma é a hiperdistensão pulmonar, aliás a doença mais grave e felizmente mais rara do mergulho autônomo. A hiperdistensão ocorre durante a subida, quando o mergulhador não deixa que o ar saia naturalmente dos pulmões. Muitas vezes isto ocorre por falha técnica ou stress, mas certas doenças podem precipitar a condição, como a asma. O quadro é variável, mas pode gerar quatro situações:

  1. Embolia aérea: bolhas de ar na circulação arterial, que podem obstruir a circulação cerebral, condição gravíssima.
  2. Pneumotórax: Escape de ar entre o pulmão e a caixa torácica, fazendo que o pulmão afetado diminua sua capacidade.
  3. Enfisema subcutâneo: Escape de ar por baixo do tecido gorduroso, normalmente acima da clavícula.
  4. Enfisema mediastinal: Escape de ar à volta do coração.

 

Mais um detalhe, há casos descritos onde o acidente ocorreu de pouco mais de três metros para a superfície. É difícil imaginar que esta pequena variação de pressão possa gerar tal problema. Para entender o que acontece, imagine que seu alvéolo pulmonar é uma bola murcha macia, com uma válvula de enchimento, mais dura. Se você expandir a bola rapidamente, toda a sua circunferência irá expandir, exceto a área do bico. Isto poderá fechar esta área, impedindo o escape de ar

É importante lembrar que a vítima pode apresentar todas as condições acima, e que é fundamental prevenir a hiperdistensão pulmonar, usando a regra básica mais importante do mergulho autônomo:

Jamais prenda a respiração enquanto estiver utilizando ar comprimido !

Um cuidado deve ser exercido quando o mergulhador faz a prática do exercício de subida livre de emergência. Embora muitas pessoas utilizem uma técnica um tanto discutível, de exalar sem o regulador na boca, a mesma não tem qualquer fundamento técnico ou médico e a inalação acidental de água ou um espasmo podem precipitar uma embolia aérea. A técnica correta consiste em exalar continuamente através do regulador, que permite a exalação num fluxo adequado e protege o mergulhador da condição antes descrita.

Vale a menção que mencionei exercício de subida livre, e não rotina. Mergulhadores não devem, sob qualquer circunstância, permitir propositalmente que seu ar acabe debaixo da água

Um barotrauma que não permite equalização é o barotrauma dental, causado quando se formam cavidades geradas por cáries, material odontológico que retraí ou ainda tratamento de canal mal feito. O quadro é bastante doloroso e pode ocorrer tanto na descida como na subida. A prevenção se faz com visitas periódicas ao dentista, fazendo-o saber que está tratando de um mergulhador.

Outro barotrauma por espaço artificial é o barotrauma da roupa seca. Como qualquer espaço aéreo, a roupa seca deve ser equalizada com ar durante a descida, e ventilada durante a subida. A condição é muito rara, pois quando o mergulhador desce com a roupa seca, é quase impossível se mover se esta não for equalizada.

Existem barotraumas mais raros, que evitarei mencionar por falta de espaço. Apenas uma curiosidade com respeito a barotrauma intestinal ou de vísceras: a menos que o mergulhador tenha alguma condição cirúrgica prévia ou doença, qualquer gás produzido no aparelho digestivo tem duas vias naturais de escape. Obviamente não é confortável ingerir alimentos fermentativos e permitir a expansão deste gás na volta do mergulho, pois a coisa pode ficar “explosiva” por perto.

Para finalizar, barotraumas são condições facilmente evitáveis, com boa técnica e sem teimosia.

Bons mergulhos

Gabriel Ganme
Dr. Gabriel Ganme é médico do esporte, e responsável pelo ambulatório de Medicina dos Esportes de Aventura da Escola Paulista de Medicina, no CETE - UNIFESP. Mergulha desde 1980 e foi Course Director pela PADI de 1990 até 2016. Foi Cave Intructor Sponsor (NSS/CDS), Technical Instructor pela TDI e IANTD, e membro da Undersea & Hyperbaric Medical Society. Atualmente é proprietário de uma clínica especializada em medicina esportiva.