Barra da Tijuca – Boas memórias do mergulho no passado

Esgoto do Canal de Marapendi sendo lançado no mar da Barra da Tijuca.

A praia da Barra da Tijuca é uma das praias mais conhecidas na cidade do Rio de Janeiro, não só pelas belezas naturais, como por sua extensão e quantidade de lugares onde se pode ir. Ela está localizada no bairro com o mesmo nome, onde encontramos inúmeros supermercados, shoppings centers, lojas, cinemas, e tudo aquilo que atende as necessidades dos seres humanos de uma forma em geral.

Infelizmente o progresso traz vantagens e desvantagens, e como na maioria das vezes, o homem não percebe o grande mal que ele acarreta ao meio ambiente, e somente quando a coisa “aperta”, é quando ele toma alguma medida para tentar sanar os problemas que ele mesmo causou.

Por volta dos anos 80, tinha apenas 10 anos de idade e saía para pescar com meu pai no Canal do Marapendi, especificamente nas proximidades do elevado do Joá e de vez em quando, na Praia dos Amores, que é a continuação deste canal, que deságua ao final da praia da Barra da Tijuca.

Meu pai pescava por esporte, enquanto eu, ainda criança, apenas brincava de pescar durante as incursões até o local. Pescar, requer paciência, coisa que eu não tinha na época por causa da pouca idade. Numa certa ocasião, pude compreender definitivamente o que significava a palavra “mergulho”, pois numa das incursões para pescar, coloquei uma máscara com um snorkel e começar a nadar entre os pilares do elevado.

Nesse dia, num simples mergulho de snorkel, vi centenas de peixes pequenos e coloridos nadando ao redor dos pilares e pedras próximas, e descobri naquele momento, que o meu negócio era mergulhar e não mais sair para pescar.

É incrível, mas num passado não tão distante assim, o Canal do Marapendi possuía águas claras e na maioria das vezes, águas azuis, onde era possível ver até mesmo o fundo do canal, com suas tainhas nadando tranquilamente, siris, peixes de toca, e vez e outra, garoupas com até 10Kg nadando próximo às pedras nas laterais do canal.

Durante três anos, mergulhei muito naquele canal, eu era um jovem que passara a ser amante do mergulho e impressionado com as belezas marinhas em meio às águas azuladas com seus seres marinhos.

Canal de Marapendi no passado
Canal de Marapendi no passado – Águas azuis e cristalinas. Peixes multicoloridos, garoupas e badejos eram os residentes.

Evolução x Degradação

É triste lembrar, mas o bairro da Barra da Tijuca nos anos 80 era puro mato, praticamente só havia um condomínio chamado Novo Leblon e o primeiro supermercado Carrefour do Rio de Janeiro. Aliás, acredito que este tenha sido o primeiro no Brasil.

Como todas as cidades brasileiras, o progresso veio e chegou até a Barra da Tijuca. Inúmeros edifícios e condomínios de casas à beira do canal e das praias, foram construídos de forma ilegal, descontrolada e desproporcional, e pior, sem nenhum estudo de impacto ambiental. Prova disso, foi a constante invasão de jacarés em residências na região do Recreio dos Bandeirantes, que saíam do seu habitat e se perdiam entre as casas.

Hoje, infelizmente o Canal do Marapendi está praticamente morto, face a grande quantidade de esgoto não tratado sendo jogado diretamente no canal pelas edificações que o cerca ao longo do seu trajeto. Peixes que antigamente pulavam para fora d´água, não são mais vistos. Não encontramos mais os pescadores tirando seu alimento do dia-a-dia entorno do canal, e o belíssimo tom azulado se foi, passando para a tonalidade marrom escuro.

Em certa ocasião, participei da remoção de um veículo que caíra no canal alguns anos atrás, e durante o mergulho, pude constatar o real estado em que já se encontrava o canal. Água poluída e escura (Clique aqui e veja a matéria sobre a remoção do veículo), rara vida marinha e cheiro insuportável.

O descaso das autoridades é total.

Passar pela região e ver o Canal do Marapendi hoje, é ter uma tristeza momentânea, pois as belas lembranças chegam à tona, e comparar com as condições atuais em que ele se encontra, traz uma desilusão.

Felizmente quando ainda criança, pude ver e curtir a bela paisagem que lá havia. Em toda a minha vida, esse foi o melhor exemplo do quanto é importante preservar, pois infelizmente nossos filhos, sobrinho ou netos, não terão a mesma participação e proveito que tivemos no passado, ou quem sabe, ainda do que resta nos dias atuais.

Agradecimentos ao fotógrafo Márcio Machado e ao Genilson Araújo, repórter aéreo do Globo Cop pela disponibilização das fotos contidas neste artigo.

 

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Produziu documentários sobre as Bahamas, Bonaire, Galápagos e Laje de Santos, visitando mais de 30 países. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.