Bonaire – O paraíso dos mergulhadores

Foto: Clécio Mayrink

Bonaire, Bonaire, Bonaire e Bonaire… é sempre o que escutamos durante os encontros dos mergulhadores…

Sempre há alguém dizendo que acabou de chegar de lá ou está indo para Bonaire.

Mas porque isso ?     Simples… Mergulhos excelentes nas águas caribenhas e baixo custo.

A Ilha

Considerada um paraíso dos mergulhadores, Bonaire é uma ilha localizada na parte sul do Caribe, sob a administração do governo holandês, e que está próxima da Venezuela, onde encontramos um mar extremamente calmo, com águas claras e quentes, propiciando excelentes mergulhos para todos os níveis. A ilha faz parte do ABC, sendo a segunda maior ilha na região.

Bonaire foi descoberta em 1499 pelos navegadores espanhóis durante uma expedição dirigida por Alonso Ojeda e Américo Vespúcio, que deram o nome inicial a ilha, de Ilha do Brasil.

Toda a costa que contorna a ilha foi declarada oficialmente um parque marinho, e os mergulhos são ilimitados, podendo-se entrar na água a qualquer hora do dia ou da noite. Na ilha, mergulha-se 24hs, bastando pegar os cilindros, parar o carro em uma das dezenas de praias e entrar na água. Nos grandes hotéis e resorts, há o que eles chamam de “Dive Thru”, que com o  formato dos tradicionais Drive Thru’s do estilo McDonald’s, permite que os mergulhadores busquem os cilindros nesses postos, carreguem o carro e saiam para mergulhar.

Ao longo de todo o ano a temperatura média gira em torno dos 27ºC e a visibilidade na água gira, por volta dos 20 a 30m. Com 60 dos 86 pontos de mergulho oficiais localizados junto a ilha, são facilmente acessíveis pelos mergulhadores saindo pelas praias, o que fez a ilha de Bonaire ser reconhecida como um dos principais destinos de mergulho de costa do mundo.

Basicamente, quase 100% dos mergulhos são realizados saindo de praia, pois não há ondas e correntezas na parte interna da ilha. Os pontos de mergulho são identificados através de pequenas pedras amarelas com o nome do local escrito na cor preta. Basta pegar o mapa, parar o carro e ir mergulhar. É muito comum também, encontrar mergulhadores com idade avançada, devido as facilidades em se praticar o mergulho neste local. Durante nossa visita a ilha, encontramos mergulhadores com 70 e até 80 anos de idade.

E já que as águas que circundam Bonaire estão em um parque marinho, um mergulho de orientação é requerido para verificar e orientar os mergulhadores em relação sua flutuabilidade. Uma licença de mergulho com validade de 1 (um) ano e representada por um pequeno disco plástico colorido, deve ser adquirida pagando-se a quantia de US$ 25. Esse valor é revertido na conservação dos recifes de Bonaire e muitos mergulhadores o mantém fixados em seus coletes, como lembrança de sua memorável viagem.

No centro da capital de Bonaire, Kralendijk, que significa “coral” na língua holandesa, os turistas e mergulhadores encontram o Tourism Corporation Bonaire (TCB), onde é possível obter informações sobre a ilha, mapas e panfletos.

Neste centro de informações, fala-se inglês, espanhol, holandês e o papiamento, sendo esta última, uma mistura de diversas línguas, inclusive, o português. O papiamento é a língua nativa de Bonaire, mas os brasileiros que não falam inglês, conseguem se virar tranquilamente mandando um “portunhol”.

Bonaire não é só para mergulhadores

Contrário ao que muitos pensam, Bonaire têm sua história, cultura e diversas atividades disponíveis aos mergulhadores e não mergulhadores, que podem aproveitar ainda mais a ilha.

Existem belíssimas praias, como é o caso de Sorobon Beach, onde se pega um bronze e onde os amantes de esportes se encontram. Há dezenas de cadeiras na beira da praia, para que o turista possa curtir o sol caribenho, tomando os drink’s oferecidos pelos bares no local. Nesta praia, além das águas claras e quentes, não há ondas e é bem rasa, sendo um local ideal para visitantes com crianças.

É possível realizar caminhadas pela ilha, além de escaladas, visitas as cavernas, ao Washington Slagbaai National Park, a Casas dos Escravos, se aventurar no kitesurf, windsurf, ou ainda, conhecer a pequena vida noturna.

No centro da capital, o turista poderá conhecer algumas casas com estilo holandês, que são pintadas com uma tonalidade amarelada. Em alguns pontos, encontramos diversos canhões usados no passado pelos galeões que visitavam a ilha, assim como, algumas âncoras antigas, sendo um atrativo e retorno ao passado.

O Washington Slagbaai National Park é uma área protegida criada há mais de 40 anos, onde vivem dezenas de espécies de pássaros e animais, como o famoso flamingo, que facilmente se destaca por sua coloração rosada. A entrada do parque é gratuita para aqueles que vão a Bonaire mergulhar, bastando apresentar o recibo do pagamento da taxa de mergulho cobrada pelo parque marinho. Para quem não mergulha, paga uma taxa de U$ 10. Neste parque é possível caminhar, andar de bicicleta e subir até os pontos mais altos da ilha, usando um pequeno mapa disponível na entrada do parque.

Já as casas dos antigos escravos, são pequenas casinhas que foram construídas em determinadas áreas da ilha, onde os antigos escravos viviam. Até hoje, as casas são mantidas em excelente estado de conservação. Na área sul da ilha, há um grande e bonito farol, responsável pela segurança marítima da região. O local apesar de ser deserto, é um excelente ponto para quem deseja admirar as belezas naturais da ilha, contrastando com o farol e uma pequena casa abandonada.

Na parte central da ilha, existem duas cavernas que podem ser visitadas pelos turistas, desde que utilizando um guia local. Este é um passeio bem diferente e admirável, devido as belezas naturais das estalactites e estalagmites no interior da caverna, e por serem ambientes alagados. Estes passeios são fornecidos pela Outdoor Bonaire, empresa com permissão para a realização do turismo local e que disponibiliza um guia que repassa todas as informações e detalhes sobre o ambiente. A visitação requer agendamento.

E para quem desejar tentar a sorte, há um Cassino no Divi Flamingo Hotel.

Culinária local

A culinária da ilha é bem diversificada. No centro da cidade e a beira do mar, encontram-se restaurantes oferecendo diversos e bonitos pratos a um custo bem razoável. Na ilha, alimentação não é problema para o turista mais exigente. Para quem prefere um “fast food”, há uma loja do KFC com pratos a base de frango.

Na maioria dos casos, os mergulhadores brasileiros que visitam Bonaire, acabam ficando em hotéis ou em resorts com cozinha completa no apartamento, permitindo que façam seus próprios pratos em suas habitações. É possível comprar mantimentos nos supermercados da ilha e cozinhar nas acomodações, tornando a viagem mais em conta.

Durante minha visita a ilha, estive em dois supermercados onde era possível encontrar quase tudo que normalmente encontramos por aqui no Brasil, e os valores dos produtos são iguais ou próximos dos valores cobrados pelos supermercados brasileiros

Mergulhos

Encontramos muita vida marinha, água quente, calma e extremamente clara. Durante os mergulhos nos mais de 60 pontos existentes e devidamente identificados nos mapas, o mergulhador poderá avistar desde pequenos seres até tartarugas, tarpões e arraias chita. Tubarão baleia já foi avistado nos mergulhos.

O fundo de Bonaire é o que chamamos de multicoloridos, devido a diversidade de cores dos corais, seres e peixes que habitam o local. É como mergulhar em um grande aquário marinho, esquecendo a hora, o stress e o corre corre que vivenciamos nos grandes centros.

Realmente é entrar na água e aproveitar o momento submerso que é muito agradável, anda mais não sendo necessário ter que sair de barco, o que torna o mergulho menos cansativo e mais seguro com o uso de nitrox ilimitado. Para aqueles que chegam a passar mal nas saídas de barco, vão se deliciar com tamanha facilidade que Bonaire oferece aos mergulhadores.

Na ilha existem alguns naufrágios, como o naufrágio panamenho Hilmar Hooker, que naufragou em 1984, sendo um dos naufrágios mais visitados e mais famosos do mundo. Ele carregava 7 toneladas de maconha antes de ir a pique, e a tripulação fugiu ao ter a carga descoberta. A droga foi apreendida e queimada pela autoridade local.

O mergulho no Hilmar Hooker é realmente um mergulho magnífico, bastando entrar na água e nadar alguns metros até o naufrágio, que repousa aos 30m de profundidade. O naufrágio está inteiro e deitado no fundo do mar, sendo vigiado pelos grandes tarpões.

Basicamente os mergulhos na ilha são feitos em paredões, onde a profundidade varia entre 3 e 45m em média.

Os mergulhos noturnos são muito tranquilos, e para os técnicos, é possível visitar o naufrágio do Windjammer, que está mais fundo, requer o uso de uma embarcação e um guia para chegar até o local, pois sem ele, não é possível mergulhar lá. O Windjammer está dentro de uma reserva.

Ao lado de Bonaire, há uma ilha chamada Klein Bonaire, que é inabitada, porém, frequentemente visitada pelas embarcações das operadoras de mergulho. Realizamos um mergulho em Captain Don’s Reef com uma embarcação do Buddy Dive Resort, e durante este mergulho, encontramos cavalos marinhos, grande quantidade de gorgônias e uma grande variedade de peixes.

No outro lado da ilha de Bonaire, também conhecido como “mar de fora”, praticamente não se mergulha saindo de praia, devido às condições do mar serem muito menos tranquilas que na parte interna da ilha. Para quem está acostumado a sair nas operações do Rio de Janeiro, São Paulo ou Recife por exemplo, vai achar que o mar está realmente calmo, pois o mar dito como “agitado ou mais forte” de Bonaire, é muito mais tranquilo do que normalmente vemos e passamos por aqui.

Durante nossa visita a ilha, utilizamos a operadora Bonaire East Coast Diving, que trabalha com um grande inflável fabricado especialmente para atender os mergulhadores. A equipe desta operadora é muito eficiente, simpática e provê 100% de segurança. Além de conhecerem bem a parte externa da ilha, atuaram de forma excepcional durante a operação, que envolveu um mar com uma leve correnteza e mergulhos diferenciados, como Blue Hole.

Mergulhar na parte externa de Bonaire é um mergulho mais aventureiro e com maior possibilidade de encontros inusitados com tubarões e arraias mantas. Por ser uma área bem menos frequentada pelos turistas, os animais são mais ariscos e o ambiente em si, dá uma aparência de ser mais selvagem, mas sem dúvida, vale muito à pena, porém, recomendamos fortemente a não mergulhar na parte de fora da ilha sem uma embarcação de apoio.

Onde Ficar

Uma  grande variedade de acomodações está disponível na ilha, variando de uma simples vila, hotéis com serviço completo e grandes resorts localizados na grande maioria, em frente a praia, contanto com operadoras de mergulho próprias. Nossa equipe ficou hospedada no Buddy Dive Resort, e devido as facilidades oferecidas pelo resort, além do atendimento excepcional, segurança e condições de hospedagem, é sem dúvida uma ótima recomendação.

Este resort possui um translado aeroporto-resort-aeroporto, restaurante, recarga nitrox, aluguel de equipamentos e carro no próprio resort. Você pode até alugar câmeras fotográficas e de vídeo. Os quartos são espaçosos, com ar condicionado, água quente, TV a cabo, cozinha completa na habitação de primeiríssima qualidade, e o café da manhã é excepcional.

Como o resort está a beira mar, é possível a qualquer momento pegar um cilindro e cair na água sem precisar usar um carro.

O uso dos cilindros ilimitado já está incluso. Em outros locais, a utilização dos cilindros já é inclusa na hospedagem ou pode ser cobrada separadamente, saindo em torno dos U$ 100 a 120 a semana.

Como ir

Para visitar Bonaire, você precisa ter um passaporte com validade mínima de 6 meses e carteira internacional de febre amarela, que deve ser tomada com no mínimo 15 dias antes da viagem, caso você não a tenha.

Brasileiros não precisam de visto.

Existem várias formas de se chegar até a ilha. São elas:

  • Voando até o Panamá e de lá para Bonaire, sendo a melhor opção.
  • Indo para Bogotá, depois para Curaçao e depois para Bonaire.
  • Saindo do Brasil até Aruba e depois pegando um vôo até Bonaire.
  • Pegando um vôo até Miami e depois para Bonaire.

Existe a possibilidade de voar até Caracas, na Venezuela, e depois para Bonaire, mas não recomendamos essa conexão, face a grande quantidade de reclamações de assaltos, furtos e cobranças indevidas pelas autoridades policiais do aeroporto de Caracas.

Lembre-se que ao retornar, é necessário pagar uma taxa aeroportuária, portanto, reserve alguns dólares para isso. Em nosso retorno, foram pagos U$ 32 por pessoa no aeroporto de Bonaire e mais U$ 4 de trânsito no aeroporto de Curaçao.

Guarde todos os papéis referentes a sua viagem, pois em algum momento eles podem ser requisitados para efeito de comprovação de que você está em trânsito, no país em que você esteja realizando uma conexão.

Recomendações

  • Sempre que parar o carro, retire tudo do interior do veículo e deixe os vidros abertos;
  • Leve um bom protetor solar. O sol caribenho é forte e não dá trégua;
  • Dependendo da época e do local onde se pretende ficar hospedado, é recomendável levar repelente contra mosquitos;
  • Tenha dólares em mãos. Até onde pude perceber, os supermercados não aceitam cartões de crédito. Restaurantes e lojas aceitam cartões normalmente;
  • Carregue sempre uma garrafa d’água. A quantidade de mergulhos e o calor intenso, fazem a desidratação um perigo e a sede chega a todo o momento;
  • Não esqueça o certificado de mergulho, pois ele será solicitado quando você for buscar o target para fixá-lo no colete;
  • Cuidado com o excesso de quilos das bagagens. Nos vôos operados para Bonaire, o limite de quilos gira em torno dos 20Kg, e o mergulhador deve fazer suas malas levando isso consideração, caso contrário, vai pagar pelo excesso. Se você voar com a companhia aérea Insel Air, acesse o site deles e imprima a página com as informações sobre a bagagem. Sendo mergulhador, eles liberam 10Kg à mais, porém é preciso mostrar a página na hora do check-in, pois frequentemente os atendentes dizem não estarem cientes dessa norma.
  • Em todos os aeroportos a segurança é bem atuante. Procure se preocupar com a roupa para a noite, pois durante o dia, você estará mergulhando praticamente o dia inteiro, usando assim, menos roupas;
  • Se você costuma usar medicamentos para dor de cabeça e coisas do gênero, não esqueça de levá-los. Há farmácias, porém, não como no Brasil. Além disso, esses itens são mais caros na ilha.

Agradecimentos especiais:

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.