Bonne Terre – Um Mergulho no Passado

Foto: Bonne Terre Mine

Embora mergulhar em uma mina abandonada não pareça uma coisa muito comum, desta vez não estávamos em busca de mais um mergulho para loucos. Queríamos apenas aproveitar a oportunidade de conhecer um lugar único, que é provavelmente o maior resort para mergulho dos Estados Unidos. O fato de se tratar de uma imensa mina abandonada era apenas um pequeno detalhe…

Bonne Terre é uma pequena cidade com menos de 4.000 habitantes bem no centro dos Estados Unidos, a cerca de 100km de St. Louis, no estado de Missouri. O resort de Doug e Cathy Goergens são as principais atrações da região, oferecendo tudo o que um mergulhador precisa para seu fim de semana: excelentes mergulhos, loja e escola de mergulho, hospedagem, alimentação e para aqueles que não mergulham, atrações na superfície e no subterrâneo.

Em 1990 foram mais 70.000 visitantes dos quais 20.000 mergulhadores. Este número cresce a cada ano e por existem boas razões para isto. Logo ao chegar na cidade há placas indicando o caminho para mina. Ocupando um quarteirão inteiro, a entrada é cercada por cenários reconstruindo a Bonne Terre do século passado. Embora algumas das casas sejam falsas, outras abrigam um bar, uma loja de souvenirs e um museu com artefatos de mineração do século passado doados pelos habitantes da cidade, descendentes dos antigos operários.

Uma das casas abriga a loja da West End Diving (WED, a rede de lojas de mergulho de Doug e Cathy) de Bonne Terre, oferecendo todos os tipos de cursos (sob a bandeira da certificadora SSI), aluguel e venda de equipamentos.

A primeira surpresa fica por conta do profissionalismo do atendimento: conferidas as reservas, o visitante entrega seu certificado (indispensável) ao responsável e descreve sua experiência de mergulho, que deve ser comprovada através de um log-book. Mas não se assuste, pois todos os certificados reconhecidos internacionalmente (SSI, PDIC, PADI,dentre outros) são aceitos e existem mergulhos para todos os níveis, desde o mergulhador recém-formado até os avançados.

O passo seguinte é selecionar o equipamento a ser alugado, caso não se tenha levado o próprio. A WED tem de tudo para alugar: desde máscaras e nadadeiras até scooters e máquinas fotográficas, tudo de primeira linha e em perfeito estado de conservação. Com tudo em mãos, os candidatos a deep earth divers (ou mergulhadores das profundezas das terras, como são chamados os que mergulham em Bonne Terre) são apresentados aos divemasters e assistem a uma rápida palestra sobre a história da mina e procedimentos de mergulho.

Ainda na superfície, os mergulhadores são levados aos vestiários (onde há armários individuais para os pertences pessoais) e então para o interior da mina, através de uma antiga trilha de mulas e escadas, um verdadeiro passeio no parque, já que os equipamentos pesados (cilindros e cintos de lastro) são deixados junto ao local de mergulho, evitando um esforço desnecessário.

Após alguns degraus, surge à frente a segunda surpresa do dia: o tamanho da mina. Bonne Terre já foi o maior conjunto de cavernas construídas pelo homem, atingindo mais de 120m de profundidade e se estendendo muito além dos limites da cidade, por mais de 90 km².

Embora tenham sido escavados cinco níveis, só é possível visitar os dois primeiros. A visão é incrível: o teto está a mais de 20metros de altura, sustentado por pilares gigantescos e tudo iluminado por mais de 100 lâmpadas de mercúrio, quartzo e sódio, estrategicamente colocadas e consumindo mais de 300 kW.

Para evitar situações perigosas, a energia elétrica é fornecida por duas usinas independentes, eliminando o risco de um black-out durante os mergulhos. O ambiente amplo, muito maior que uma catedral, evita qualquer sensação de claustrofobia e em pouco tempo se esquece que você está debaixo da terra.

A temperatura ambiente é sempre de 17°C, o que permitiu até mesmo a construção de um jardim subterrâneo onde são criadas flores, com iluminação artificial. O jardim merece ser visitado, pois as cores são completamente diferentes das que estamos acostumados e é sempre bom lembrar que a 30m debaixo do solo é sempre primavera.

Um passeio a pé pelo primeiro nível ocupa várias horas, mas a caminho do local de mergulho você poder ver, além do jardim, uma fonte da sorte (onde é possível deixar algumas moedas) e um lago subterrâneo onde são criadas trutas. Neste mesmo lago, os mineiros do século passado se abasteciam de água, pois só eram autorizados a deixar a mina depois de terem carregado 20 toneladas de minério, não importando quanto tempo levassem para isto.

O segundo nível, onde são realizados os mergulhos, é ainda mais impressionante, possuindo mais de 50m de altura e as colunas que sustentam o teto, bem mais espaçadas que no nível anterior, chegam a ter 15m de diâmetro. É um lago de água mineral e iluminado por lâmpadas colocadas logo acima da superfície. Para evitar que o nível das águas suba durante a estação das chuvas, foram instaladas bombas que retiram o excesso de água da mina e abastecem a cidade. Também foi preciso construir uma doca flutuante com quase 500m², onde são armazenados os equipamentos pesados (foram quase 5.000 m de tábuas de madeira carregados à mão). Tubulações especiais levam o ar para recarga dos cilindros dos três compressores na superfície até a doca, evitando o trabalho de carrega-los no final do dia. Amarrados à doca ficam os barcos (pedalinhos e com motores elétricos) usados para os passeios por mais de 5km² do lago. Os outros 3 níveis foram fechados por segurança, pois estão completamente alagados e fora do alcance de mergulhadores amadores (o teto do terceiro nível está a mais de 50m da superfície do lago).

Na plataforma as operações são coordenadas por Bones, um senhor que trabalha desde o início com Doug e Cathy e que é responsável por evitar congestionamentos na hora do mergulho. Uma vez equipado, é hora de cair na água, onde as surpresas continuam. Logo se nota a incrível visibilidade, de no mínimo 30m e chegando a quase 80 em alguns pontos, como no Lake Room.

A temperatura da água é de 15°C e uma roupa de neoprene de pelo menos 5mm com capuz é necessária para um mergulho confortável. Obviamente, a superfície do lago é como um espelho, sem ondas ou correntes. Em nenhum ponto existem restrições que impeçam o acesso dos mergulhadores à superfície e caso alguém se perca é muito fácil localizar a doca da superfície, o que torna os mergulhos perfeitamente seguros. As condições de mergulho são sempre as mesmas ao longo do ano, pois o lago é completamente isolado do mundo exterior.

O mergulho é dirigido por uma equipe de mais de 30 guias. Cada dupla de guias conduz grupos de até 8 pessoas por uma das 25 “trilhas” previamente demarcadas. Ao contrário de outros mergulhos “dirigidos”, os guias permanecem distantes dos visitantes, praticamente não interferindo no mergulho; “mantemos os olhos em você, e não as mãos”, explica Doug.

Você logo vai perceber porquê os guias são importantes: eles conhecem a posição de cada uma das atrações do fundo, fazendo com que se aproveite ao máximo cada mergulho.

O primeiro mergulho é sempre feito na trilha 1, quando os guias pedem aos recém-chegados que mostrem sua capacidade de desalagar a máscara e usar um suprimento de ar alternativo, mais uma vez mostrando a preocupação com a segurança. Embora seja possível haver mais de 60 mergulhadores na água ao mesmo tempo, é praticamente impossível encontrar-se com outro grupo, a não ser na doca (que seria capaz de suportar o dobro de mergulhadores confortavelmente). A cada mergulho, a equipe de Doug marca em seu logbook quais trilhas foram visitadas, permitindo que nas próximas oportunidades sejam vistas somente novas atrações.

A impressão é de se estar dentro de uma cápsula do tempo: faltam apenas os trabalhadores para que mina volte a produzir chumbo. Praticamente sem esforço, você passará entre as gigantescas colunas e verá antigos carrinhos de minério, trilhos e ferramentas de diversas épocas. Mas alguns pontos são especiais. A antiga perfuratriz presa a uma parede de rocha é uma parada inevitável para os fotógrafos e poucos resistem à pose de “mineiro submarino”; o poço do elevador na trilha quatro é impressionantemente grande e faz com que os mergulhadores pareçam insetos em volta dele.

Várias trilhas passam pelo Keyhole, uma abertura em um paredão de rocha com formato semelhante ao de uma fechadura e ligando dois salões. Em outras trilhas, encontram-se escadas de madeira, tubulações, estruturas metálicas e até mesmo casas, que eram usadas como escritórios, vestiários ou depósitos de explosivos. Embora pareça um tanto quanto fora do ambiente, uma antiga lancha partida ao meio é um dos artefatos mais interessantes.

A única coisa estranha é a ausência de peixes, mas isto é compensado pela quantidade de objetos no fundo. Como a profundidade varia entre 10 e 30metros, é possível realizar dois mergulhos por dia. Os fotógrafos submarinos não precisam se preocupar, pois os guias indicarão antes dos mergulhos quais os melhores cenários e posarão para suas fotos. Propositalmente, todos os membros da equipe usam roupas amarelas feitas sob encomenda e bastante fotogênicas. Doug e Cathy também não perdem uma única oportunidade de serem fotografados para revistas, daí as reportagens serem sempre parecidas…

A última surpresa fica para depois do mergulho. Após um banho quente nos vestiários, pode-se mais uma vez perceber porquê Bonne Terre ficou tão famosa. Ao lado do mergulho, Doug e Cathy criaram um conjunto de pousadas de primeira linha, que por si só já seriam uma razão para visitar a cidade. São 3 pousadas que podem acomodar 100 pessoas com extremo conforto e bom gosto.

A mais antiga delas é o Park & Allen Divers Lodge, uma casa com 4 alojamentos para 6 pessoas cada no mesmo quarteirão da entrada da mina.

O 1909 Depot foi instalado no mesmo prédio em que funcionava a estação de trem no século passado. O prédio foi totalmente reconstruído e decorado no estilo do século XIX e vale a pena ver as fotos do trabalho de restauração. Hoje o Depot abriga no andar superior 4 apartamentos para 2 pessoas, 2 alojamentos para 4 e uma sala de estar, enquanto que o andar inferior possui um salão de festas e um autêntico pub inglês. O pub foi decorado com material de duas estações de trem e um bar trazidos de navio da Inglaterra e é o local de confraternização dos mergulhadores no final da tarde.

Com o fim dos mergulhos, suas portas são abertas revelando um excelente estoque de bebidas americanas e importadas, principalmente cervejas. Do lado de fora, vagões de trem restaurados abrigam mais 4 apartamentos de casal e a cozinha.

Embora mais antiga que o Depot, a Mansion Hill é a mais charmosa das três pousadas: a 4 quadras da entrada da mina, era a casa do presidente da St. Joseph Lead Co. (a empresa que explorava a mina), construída em 1909 e completamente restaurada em 1985. A decoração de Cathy mantém o ambiente de 1900, com uma grande atenção aos detalhes.

São 32 quartos para casais, 3 salas de jantar (uma delas no terraço com vista para os jardins e com refeições dignas de um restaurante 5 estrelas), bar, lareiras, salão de jogos e uma sala de estar com música de piano ao vivo todas as noites. Além disto, a Mansion Hill está situada em uma propriedade com 148 acres de verde, o que dá atrações adicionais: os passeios a pé, a cavalo ou carruagem pelos jardins, entre as árvores ou entre os viveiros de pássaros são memoráveis.

O mergulho na história de Bonne Terre é sem dúvida alguma um dos mais interessantes e originais, agradando a todos os gostos. Mesmo os que não mergulham não ficam decepcionados ao visitar o local, pois tem muito o que fazer. O resort é praticamente perfeito e a operação é provavelmente a mais profissional dos Estados Unidos. Mas, mesmo com tanto sucesso, os Goergen ainda não se acomodaram. A cada ano são abertas novas trilhas, o resort continua crescendo e eles já tem planos de comprar uma ilha no Caribe para iniciar um novo empreendimento, nos mesmos moldes da mina. Só resta esperar.


 
 

Uma história tão interessante quanto o mergulho

Tão interessante quanto mergulhar em Bonne Terre é conhecer um pouco da história de como Cathy e Doug Goergens transformaram uma mina abandonada em um dos maiores resorts de mergulho dos Estados Unidos.

Desde 1720 sabia-se que a região de Bonne Terre era rica em minerais como ouro e prata, mas foi somente em 1860 que Charles Parsons fundou a St. Joseph Lead Co. e passou a explorar a área. A mina de Bonne Terre foi aberta para extração principalmente de chumbo, mas também de cobre, níquel e zinco. Com a queda da demanda de chumbo após 1960, o negócio deixou de ser rentável e a mina foi abandonada. Não era economicamente viável retirar todos os equipamentos de mineração e a maioria deles foi abandonada no local. Com o desligamento das bombas, a água subterrânea foi se infiltrando e acabou alagando os 4 níveis inferiores.

A história continua em 1972, quando Doug Goergens (que na época ainda exercia a engenharia aeronáutica) soube que a escola de mergulho de St. Louis da qual era cliente ia fechar. “Ela era a única operadora da região: se ela fechasse, não teria mais como mergulhar. Assim, pedi um empréstimo de US$ 17.000,00 no banco, abandonei a engenharia e comprei a loja.” Em pouco tempo, Doug transformou a velha loja em uma rede, a West End Diving (WED).

Em 1974 Doug mergulhou pela primeira vez na mina – “Foi algo como nadar em um grande queijo suíço. Nossa maior surpresa foi descobrirmos que nadávamos em um imenso lago e não em uma caverna.” Não demorou muito para que ele e Cathy percebessem que Bonne Terre era a solução do maior problema da WED: um local para realização dos batismos dos cursos básicos, evitando viagens de mais de 800 km até uma praia ou lago aceitáveis para mergulho.

Em 1979, eles compraram os direitos de exploração da mina e iniciaram a transformação, investindo mais de 1 milhão de dólares só na mina, sem contar outro milhão investido nas pousadas.

Embora a mina tenha sido aberta ao público em 1981, as mudanças continuam até hoje. Todo o lucro da operação é reinvestido no próprio negócio, melhorando cada vez mais as atrações e a qualidade dos serviços.

Dicas

Site da mina: www.bonneterremine.com

Não existe uma melhor época para se visitar Bonne Terre, já que as condições de mergulho são as mesmas durante todo o ano. O ideal é aproveitar uma viagem a negócios ou de férias para passar de 3 a 4 dias em Bonne Terre e mais um em St. Louis. Tente evitar a alta estação americana (junho, julho e agosto). Lembre-se que normalmente a mina só abre de quinta a domingo.

Os passeios pela mina a pé ou de barco são bastante interessantes. Aproveite para conhecer os 148 acres da Mansion Hill a cavalo ou se você estiver em boa companhia, de carruagem.

Não deixe também de visitar St.Louis, a vista do grande arco no centro da cidade é impressionante.

Não esqueça o certificado de mergulho , pois é indispensável para a maior parte das operadoras americanas.

Colaboração: Márcio Conte

Pedro Paulo Cunha
É engenheiro naval e atua na área de informática desde 1981, sendo atualmente responsável pela área de sistemas de um banco. Começou no mergulho autônomo em 1983, e iniciou sua carreira de instrutor em 1984. É instrutor PDIC, NAUI e SSI e instructor trainer TDI. É credenciado em diversas especialidades, desde Mergulho sob o Gelo (PADI e NAUI) a mergulho com misturas / Trimix (TDI) e é autor de cursos de especialidades NAUI. Escolheu o mergulho técnico e equipamentos avançados de mergulho como área de especialização, tendo também, um grande interesse em história do mergulho, sendo o único membro brasileiro da Historical Diving Society. É responsável pelas atividades da Tech Diving em São Paulo.