Buenos Aires – Um naufrágio surpreendente

Foto: Clécio Mayrink

Sem dúvida nenhuma quando falamos sobre naufrágios no Rio de Janeiro, o Buenos Aires é um naufrágio fantástico devido a sua beleza natural. Esse vapor alemão bateu na Ilha Rasa em 21 de julho de 1890.

De grandes dimensões, o Buenos Aires era um cargueiro alemão à vapor que estava transportando cimento, porcelanas, vidros, cerveja e óleo de rícino em garrafinhas azuis, muito observadas durante o mergulho. A quem diga que a colisão teria sido proposital para que o seguro fosse acionado. Estranhamente, o Buenos Aires colidiu contra a única ilha da região que possui um farol, que fora construído sob autorização de D. João VI em 1812, e inaugurado somente em 31/07/1829.

O Mergulho

Convidado por uma operadora carioca, fui com J Dias realizar uma filmagem do naufrágio para um vídeo institucional, encontrando toda a equipe e demais mergulhadores na Marina da Glória em uma manhã de domingo com sol escaldante no Rio de Janeiro. Durante a navegação até a Ilha Rasa, curtimos a belíssima paisagem da cidade como o Pão de Açúcar, Cristo Redentor e as praias da zona sul carioca, vistos de outro ângulo.

Chegando até a ilha, nos equipamos e caímos rapidamente, pois o mar estava absurdamente propício para o mergulho, onde a visibilidade estava por volta dos incríveis 20m, temperatura em torno dos 23ºC, sem correntes e mar totalmente parado. Ao entrar na água podíamos ver parte do Buenos Aires da superfície.

Com a colisão na ilha, o navio afundou imediatamente e seus destroços estão espalhados devido à ação do mar, e devido a algumas implosões realizadas pela Marinha, chapas e partes deste navio são encontradas desde os 12 aos 42m, onde podemos encontrar o hélice, atualmente com algumas redes de pesca de arrasto.

Durante o mergulho, podemos ver as caldeiras, três âncoras, hélice reserva de duas pás com 4m de diâmetro, guincho e muita ferragem encoberta pela vida marinha. Em dias de sorte, é possível esbarrar com arraias chita, tartarugas e moreias. Quando paramos e olhamos em direção as âncoras, a visão das ferragens sobre as pedras é de impressionar.

A quantidade de chapas e ferragens é grande e muitas vezes é possível ver garrafas e porcelanas da carga transportada ainda incrustadas nas chapas e pedras do local. O que havia de garrafas e porcelana solta, infelizmente sofreu com a ação da pirataria no passado, não sendo mais encontradas, restando somente milhares de pedaços delas espalhadas por todo o naufrágio, fazendo parte do desastre desta embarcação.

Quanto a operação, é aconselhável que o mergulhador seja pelo menos avançado, devido a variação da profundidade e pelo posicionamento do naufrágio, pois encontra-se na parte de fora da Ilha Rasa. Conforme a maré é possível ter alguma corrente na superfície. Para aqueles com certificação em mergulho técnico, apesar da profundidade máxima estar em torno dos 42m, vale muito a pena descer com a chamada configuração “Tec”, pois devido ao comprimento do navio e tanta beleza, dá vontade de ficar muitas horas lá embaixo.

Retornando do naufrágio, pode-se ir até ao Portinho, que é o lado da ilha mais abrigado e que normalmente as embarcações dão uma parada para uma relaxada, conversar e fazer um lanche antes de cair na água novamente. Quem quiser ficar em cima, poderá curtir o belíssimo visual da ilha com seu farol e ver as praias cariocas tomando um sol escaldante. Sem dúvida nenhuma você além de ter um grande dia de mergulho, ainda estará em contato com a natureza.

Agradecimentos

José Augusto Dias, Diretor da J Dias Vídeo, pela filmagem e fotos realizadas nos dois dias em que fomos realizar os mergulhos no naufrágio

Vídeo do naufrágio

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983, no autônomo em 1986 pela CMAS e Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount. Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008, idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP), atuando em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior. Também atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.