Exploração no Buraco das Abelhas

Foto: Bruno Tae

O passado…

Já não me lembro o que me levou a fazer os cursos de Mergulho em Caverna, se foram as histórias da expedição Akakor, os longos papos com Gilberto Menezes, já na época o maior mergulhador em cavernas do Brasil, ou as noites intermináveis de leitura dos artigos na lista “techdiver” da Internet. Só me lembro que após uma busca prolongada pelo melhor instrutor acabei esbarrando no nome de Jarrod Jablonski. Após termos feitos todos os cursos técnicos disponíveis nos anos anteriores, lá fomos nós, eu e Werneck, logo após o DEMA 96, fazer o curso de Mergulho em Cavernas. Após 12 dias extenuantes, terminamos o que considero o melhor curso de mergulho que já fiz até hoje coroado ao final com um mergulho Trimix inesquecível numa das cavernas de acesso restrito da Flórida: o Diepolder no 2.

Após voltarmos ao Brasil, não descansamos até organizarmos uma expedição à região de Bonito para mergulharmos nas cavernas da Região. Em agosto de 96 lá fomos nós, eu e Werneck, para a Fazenda Figueira, do Adriano e Dna. Sonia, conhecer a caverna que o Gil estava explorando: o Buraco das Abelhas. Durante os 12 dias que permanecemos lá, fizemos de tudo: topografia do trecho inicial da caverna, mergulhos de reconhecimento, mergulhos de apoio, exploração e cabeamento de trechos inexplorados da caverna.

Na época creio que esta expedição foi a primeira a empregar em larga escala o uso de misturas especiais no Brasil: Trimix para as misturas de fundo e Nitrox com altas concentrações de O2 para descompressão. Ao longo dos dias fomos sucessivamente aumentando a distância de penetração e descobrindo novos túneis e derivações, até que no último dia Gil executou um mergulho de 7 horas de duração e levou o cabo até a distância (recorde) de 1000 metros de penetração, no Túnel que chamamos de C, uma derivação do Túnel A.

O presente …

Em Junho deste ano, trouxemos para o Brasil o Jarrod Jablonski para ministrar um curso de Full Cave e conhecer o nosso país. O Werneck aproveitou a oportunidade e se formou Instrutor de Cavern e Intro to Cave, trabalhando o tempo todo como assistente do JJ durante os 12 dias de curso. Eu, como não tinha interesse em me tornar instrutor em mais uma modalidade de mergulho, fiquei o tempo todo executando mergulhos de exploração, aperfeiçoamento de técnicas e auxiliando no curso na medida do possível. Aproveitei para executar mergulhos em boa parte das cavernas da região: Mimoso, Abelhas, Formoso, Formosinho, e Misteriosa.

Já tinha trocado algumas idéias com o Marcus e resolvermos utilizar o (pouco) tempo livre do período para, utilizando nossos scooters, adicionar cabo no Buraco das Abelhas. Planejamos o mergulho utilizando as informações que o Gil nos passou sobre o Túnel C, já que ele tinha estendido o cabo além dos 1200 metros. Ainda graças ao Gil, tivemos acesso ao suprimento de gás necessário para realizar estes mergulhos. Decidimos utilizar uma mistura Trimix como mistura de fundo, e fazer a descompressão com EAN50 e Oxigênio. O plano era utilizar 2 stages AL80 com a mistura de fundo além das nossas duplas, de maneira a aumentar nossa autonomia, e realizar a descompressão com 1 stage de EAN50 e 1 stage de O2, num total de 4 stages por mergulhador. Além disso, preparamos 1 stage extra de cada mistura para qualquer eventualidade durante a execução do mergulho.

A preparação do mergulho…

Aproveitamos o único dia de folga do curso do JJ, um domingo (dia 22 de Junho), para realizarmos um mergulho preparatório no Buraco. Preparamos 1 stage de AL80 cada com a mistura de fundo (Trimix 16% O2 e 24% He) e utilizando nossos scooters realizamos um mergulho para reconhecimento das condições do Túnel A e para nos acostumarmos com a utilização e autonomia dos scooters. Aproveitamos para deixar os stages no cabo num ponto pré-acordado, de modo que no mergulho seguinte não precisássemos carregar 2 stages no nosso percurso de ida.

Graças às dicas do JJ, o mergulho preparatório correu com extrema tranquilidade, tanto que conseguimos chegar ao final do cabo do Gil no Túnel D (uma derivação do Túnel C) usando apenas nossas duplas como suprimento de gás. Os scooters nos surpreenderam: permitiram um mergulho tranquilo e relaxado e foram surpreendentemente fáceis de manipular, diminuindo em muito nosso consumo. Aproveitamos também o mergulho para treinar as técnicas de rebocamento do companheiro no caso da falha de um scooter, manobra que também foi executada com extrema tranquilidade. Ao final, estávamos confiantes para o próximo mergulho, onde iríamos tentar chegar ao final do cabo do Gil no Túnel C e, se possível, adicionar algum cabo.

O mergulho…

Finalmente, com o término do curso do JJ na terça-feira, estávamos prontos para executar o tão esperado mergulho. Scooters carregados, misturas preparadas, grupo de apoio mais do que pronto, lá fomos nós bem cedo para o Buraco das Abelhas. Enquanto o Pardal e o Miguez (nosso mergulhadores de apoio) mergulhavam para posicionar os stages de descompressão, eu e Marcus repassávamos todos os pontos do nosso planejamento, já incrustado em nossa memória.

Para poupar as baterias dos scooters no inicio, decidimos fazer o trajeto de ida utilizando velocidade 7 e só utilizarmos a velocidade máxima (9) no trajeto de volta. Com a volta do Pardal e Miguez, lá fomos nós executar nosso mergulho exploratório, levando além das nossas duplas, 1 stage de EAN50 e 1 stage de Trimix cada. Utilizando EAN50 até o ponto onde iríamos posicionar o stage de descompressão, acionamos nossos scooters, e com Werneck na frente e eu “na cola”, iniciamos nosso mergulho.

Dentro do nosso planejamento, chegamos ao ponto onde iríamos deixar nossos cilindros de EAN50 com 5 minutos de tempo corrido. Deixamos nossos stages de EAN50, passamos a respirar nos stages de Trimix e prosseguimos para descer a fissura que nos leva ao início dos túneis profundos A e B. Seguimos com tranquilidade o Túnel A até encontrarmos os stages adicionais de Trimix, lá deixados no mergulho anterior. Rapidamente recuperamos os stages e prosseguimos nosso mergulho. Meu scooter estava mais lento que o do Werneck, proporcionando um dos momentos de stress de nosso mergulho: Werneck se distanciava de mim e logo o perdi de vista.

Como a visibilidade da água não estava das melhores, ele não percebeu meus sinais de luz. Quando ele percebeu que tinha me deixado para trás, parou para me esperar. Quando o alcancei passei-lhe o maior “sabão”, mas prosseguimos em direção ao nosso objetivo: colocar mais cabo no Buraco das Abelhas.

Logo encontramos a derivação que nos levava ao Túnel C e rapidamente entramos nele. Ao longo do trajeto, íamos posicionando nossos stages de Trimix quando atingíamos a marca 500 PSI acima da metade da capacidade. Após um tempo que nos pareceu interminável, chegamos ao final do cabo do Gil no Túnel C. Verificamos nosso suprimento de gás e vimos que ainda tínhamos o suficiente para prosseguir. Marcus pegou a carretilha, atou o cabo ao cabo do Gil e, no início, tentou colocar cabo utilizando o scooter. Nossa falta de prática e o fato dos scooters estarem ligeiramente negativos impediu o sucesso desta tentativa. Abandonamos então os scooters no cabo e prosseguimos colocando o cabo da maneira tradicional. Após 140 metros de cabo chegamos ao ponto de retorno ditado pela nossa reserva de gás, e eu sinalizei o Marcus para iniciarmos o retorno.

Durante a volta aconteceu o outro momento de stress do mergulho: como a profundidade desta seção do conduto é mais rasa que a seção inicial do mergulho (18 metros contra 45 metros), precisávamos compensar para voltar ao Túnel principal para sair da caverna. E lá veio meu ouvido esquerdo “velho de guerra” se recusando a compensar…

O Marcus já estava pensando que precisaria me rebocar para fora com o tímpano estourado quando numa manobra de Valsalva mais “incisiva”, consegui compensar. Este stress continuou a cada ponto onde eu tinha que parar e compensar antes de prosseguir, mas finalmente atingimos a parte profunda novamente e o batimento cardíaco retornou ao normal. Recuperamos nossos stages no trajeto de volta e chegamos ao início de nossa descompressão. Agora só nos restava aguardar as quase 3 horas de descompressão antes de emergirmos.

Profundidade Tempo Mix Comentário
45 metros 100 minutos Trimix 16 / 24 / 60 Tempo de Fundo
24 metros 2 minutos Trimix 16 / 24 / 60 Deco
21 metros 11 minutos Trimix 16 / 24 / 60 Deco
18 metros 8 minutos EAN 50 Deco
15 metros 11 minutos EAN 50 Deco
12 metros 17 minutos EAN 50 Deco
9 metros 26 minutos EAN 50 Deco
6 metros 18 minutos O2 Deco c/ air breaks
4 metros 83 minutos O2 Deco c/ air breaks

 

Ao final, cansados mas radiantes de termos cumprido nossos objetivos, saimos da água 5 horas após o início do mergulho, certos de termos dado um pouco mais de “trabalho” para o Gil no seu próximo mergulho lá no Túnel C.

Maurício Henriques

Engenheiro eletrônico e consultor em Redes de Computadores. Mergulhador desde 86, é instructor trainer PDIC e instrutor GUE. É Full Cave pela NSS-CDS.

Sua área de conhecimentos engloba a Teoria da Descompressão e também a utilização de programas especilizados para a produção de tabelas descompressivas específicas.

Coordena as atividades da Tech Diving no Rio de Janeiro.