Cabloco

Nome Anterior: Maipú

Data: 03/09/1833

GPS:

Localização: Proximidades da Ilha de São João

Profundidade (m):

Visibilidade (m):

Motivo:

Estado:

Carga: Material Bélico

Tipo: Brigue

Nacionalidade: Brasil

Dimensões (m):

Deslocamento (t):

Armador: Marinha do Brasil

Estaleiro:

Propulsão:

Fabricação:

Notas: O grito de “Independência ou Morte”, lançado das margens plácidas do Ipiranga pelo Príncipe-Regente D. Pedro de Alcântara, estimulado pelo grande estadista José Bonifácio de Andrada e Silva, repercussão extraordinária em todo o Brasil.

Fazia-se, no entanto, mister transformar as palavras em fatos. Portugal, além de contar nas costas brasileiras com vários pontos estratégicos de real valor, perfeitamente guarnecidos e apetrechados, era senhor absoluto do mar por onde se faziam então, todas as comunicações entre as Capitanias da rica colônia. Sem elementos navais capazes de enfrentar, com vantagem, a esquadra portuguesa concentrada na Bahia, em Montevidéu ou no Maranhão, não poderíamos nunca impor nossa vontade ao inimigo e compeli-lo a aceitar o alvo visado, que era a nossa completa emancipação. José Bonifácio, o Patriarca, então primeiro ministro, seu irmão Martim Francisco, titular da Fazenda, Luiz da Cunha Moreira, Ministro da Marinha, e o fogoso tribuno Gonçalves Ledo foram, podemos assim dizer, as quatro colunas-mestras sobre as quais se ergueu vitoriosa a Esquadra da Independência.

Trabalhavam incessantemente os Arsenais, os estaleiros particulares a reparar, modernizar, e aparelhar velhos navios que logramos arrebatar das garras da metrópole voraz. Adquiriram-se também robustos elementos mercantes, capazes de ser armados em guerra. Ora, por esse tempo encontrava-se ancorado na Baía de Guanabara o Brigue Maipu, de propriedade e comando do antigo oficial da Marinha norte-americana David Jewet, que estivera, por algum tempo (1815-1821), a experimentar sua bravura, atividade e audácia em arriscadas operações de corso contra o comércio da Espanha, ao lado dos revolucionários do Rio da Prata.

Desejava também o Imperador concorrer, do seu bolsinho, para o aumento e reforço dos elementos navais que se aparelhavam para enfrentar o inimigo reinícola. Assim é que fez comprar a robusta embarcação apontada, em outubro de 1822, pela quantia de 20:200$000 e doou-a a Nação, ao mesmo tempo que, por decreto de 6 do dito mês, admitia ao nosso serviço seu comandante, concedendo-lhe o posto de Capitão-de-Mar-e-Guerra e a patente de Oficial da Armada do Império. No entanto, diz-nos Teotônio Meireles da Silva, que o Maipu, artilhado com 18 canhões de médio calibre e tripulado com 120 homens, tomara o nome de Diligente e que, ao ser incorporado às nossas forças navais, lhe fora imposto o nome de Caboclo (março de 1823).

Outras fontes nos informam que o denominado Diligente foi o Brigue Guarani, pois, ainda a 30 de outubro de 1823, conservava o primitivo nome, conforme nos testemunha o embarque a seu bordo, nessa data, do Segundo-Tenente Rodrigo Theodoro de Freitas, que chegou a Oficial-General da nossa Armada. Uma outra dúvida nos salteia a respeito do Maipu: por esse tempo, encontro a perlustrar águas sul-americanas pelo menos dois vasos com esse nome. O primeiro, um brigue chamado antes Vicuña, de 284t, artilhado com 16 canhões de calibre 18 e tripulado com 100 homens que, em junho de 1818, o norte-americano John D. Daniels, naturalizado argentino, pretendia empregar no corso contra a Espanha, com o nome de Maipu e que acabou, em consequência de várias irregularidades do seu comandante, considerado pirata.

O segundo era o bergantim de guerra espanhol de 18 canhões e 103 praças de guarnição que, procedente do Porto de Callao a caminho de Cádiz, procurava arribar ao Porto do Rio de Janeiro para abastecer-se de vitualhas, quando, depois de frouxa e vergonhosa resistência, foi apresado pelo Corsário argentino Heróina, comandado pelo Capitão Mason, a 14 de junho de 1821. Estou quase a acreditar que foi este o navio adquirido por D. Pedro I, até melhores esclarecimentos. Ainda. Não conseguimos apurar quais os serviços prestados por esse vaso de guerra durante os anos de 1823 e 1824.

Com o movimento de rebeldia irrompido na Cisplatina, logo seguido da guerra contra as Províncias Unidas do Rio da Prata, hoje Argentina, o Governo Imperial começou a concentrar fortes elementos navais em Montevidéu. Por Aviso de 6 de abril de 1825 foi nomeado comandante do Caboclo o distinto e bravo Capitão-Tenente (posto equivalente, hoje, ao de Capitão-de-Corveta) João Paschoe Grenfell por “assim convir ao serviço”. Depois dos indispensáveis preparatórios, fez-se ele ao mar. A 11 de junho dava fundo em Montevidéu, fazendo parte da escolta de um trem enviado ao Prata com 1.200 homens e grande cópia de munições de guerra e de boca. No dia 30, velejou para Buenos Aires, fazendo parte da força que acompanhava o Vice-Almirante Rodrigo Ferreira Lobo, e lá chegou a 4 de julho.

A atmosfera política mostrava-se sobremaneira carregada, principalmente contra o Império. Um dos seus escaleres, mandado a terra em busca de víveres para a Divisão, teve toda a sua guarnição aprisionada e peitada para guarnecer no porto contra o Valleja (ex-Guilherme), que se aparelhava no porto contra o nosso comércio. No dia 9 de julho zarpou para o Rio de Janeiro, onde chegou com nove dias de viagem, tendo, em caminho, registrado um brigue argentino saído de Paranaguá, capturando um passageiro não munido de passaporte. De regresso ao Rio da Prata, várias praças, de sua guarnição, de nacionalidade inglesa desertaram.

Foi destacado para a defesa da Colônia do Sacramento. Regressou a 29 de novembro, com nove dias de viagem, ao Rio, onde passou por ligeiros reparos. Fez-se de vela para cruzar na costa, a 1o de dezembro, e regressou à Guanabara a 17 do dito mês. Comandou-o, interinamente, de 4 a 9 de janeiro de 1826, o Primeiro-Tenente George Broom. Como o seu comandante, João P. Grenfell, ainda estivesse a responder a um conselho de guerra, seguiu o Caboclo para o Prata a 13 de janeiro sob o comando do seu imediato, o Segundo-Tenente Francisco Pires de Carvalho e Albuquerque.

Seguiu a seu bordo o Chefe-de-Divisão Diogo Jorge de Brito, nomeado segundo Comandante das Forças Navais em Operações de Guerra contra as Províncias Unidas do Rio da Prata. Aportou a Montevidéu a 2 de fevereiro e foi logo incorporado à esquadra do Almirante Lobo. No dia 9 do referido mês, participou dos dois combates com a esquadra inimiga em frente a Corales, ambos favoráveis às armas imperiais.

Sobre essas ações navais escreveu historiador argentino, com fundo pesar: – “… sin duda hubieran (os dois encontros) llenado de glória al pabellón de la Pátria”… se a maioria dos comandantes dos navios de Brown “hubiera cumplido com su deber!” O Almirante Lobo, em parte oficial dos dois referidos encontros, declarou nulos os serviços do Caboclo. Voltou a comandá-lo o Capitão-Tenente J. P. Grenfell e passou a fazer parte da Segunda Divisão da Esquadra, de conformidade com a nova organização dada à mesma pelo Almirante Pinto Guedes, substituto do Almirante Lobo, em 4 de maio de 1826. No dia 15 do dito mês já se encontrava na linha do bloqueio. No dia 23 de maio, apresentando-se à vista a esquadra inimiga, empenharam-se em ação com ela os nossos vasos. O Caboclo destaca-se dos demais, batalhando com vigor. A 25 de maio, data nacional da Argentina, houve novo choque entre as duas esquadras.

O Caboclo, mais uma vez se cobre de glória, secundando seus bravos companheiros. A 11 de junho, fizeram os nossos marujos temerária tentativa para esmagar o inimigo, dentro do seu próprio fundeadouro. O bravo chefe Norton, em certo momento, a fim de acercar-se mais do inimigo desfraldou seu pavilhão no Caboclo, que se bateu com sua proverbial galhardia. A 29 de julho, depois de 48 dias encurralada pelos nossos, animou-se a esquadra inimiga, com uma bravura sem par. De repente, suspendeu a caça; seu bravo comandante é ferido gravemente, pois tem o braço direito destroçado por uma bala. “La carniceria espanta – narra um escritor argentino.

Apenas hay brazos para retirar los muertos y los heridos de que están sembrados los puentes que, rebosando de sangre, principian ya a derramar-la por los embornales”. Disse o Almirante na parte oficial do combate: – “Como o Bergantim Caboclo, por demandar menos água, podia chegar-se mais à barra, ia acossando a Corveta 25 de Mayo, (capitânea argentina) na fuga, e passando um dos bergantins do inimigo, que seguia os outros, na precipitada fugida de seu almirante, disparou alguns tiros e vieram as balas de uma pirâmide matar um marinheiro do Bergantin Caboclo, e ferir cinco pessoas mas, entre estas, achava-se o valoroso e empreendedor Grenfell, que ainda vive, porém mal prognosticado, e, desta forma, nos fica um vácuo que se não encherá facilmente”.

O Caboclo, depois do combate e do pampeiro que caiu, velejou para Montevidéu, a fim de levar os feridos. Grenfell deixou o comando a 4 de agosto, sendo substituído pelo 1o Tenente Guilherme James Inglis. De 30 de agosto a 16 de setembro esteve nele embarcado o Segundo-Tenente Joaquim José de Oliveira. Em Janeiro de 1827, participou da “Divisão Auxiliadora”, do comando de Mariath, na qual pouco se demorou. Tomou parte saliente no combate de Monte Santiago, em abril de 1827. Nesse mesmo mês, passou a servir a seu bordo o Segundo-Tenente Bernardo de Sena e Araújo, que desembarcou a 17 de junho.

Partiu, sob o mesmo comando, em 26 de setembro de 1827, na Divisão destinada à Baía de San Blas. Tendo-se perdido a Corveta Maceió e o Brigue Independência ou Morte, o Bergantin Caboclo, com grande risco, recolheu os náufragos que pôde e rumou para Montevidéu com a triste nova. A 14 de janeiro de 1828, combateu bravamente contra os argentinos na Enseada. Dias depois, novo encontro em que o inimigo foi repulsado. A 17 de fevereiro, tornou a entrar em ação. Iniciado o combate, o Chefe Norton desfraldou seu pavilhão a bordo. Nesse combate, foi posta a pique uma canhoneira argentina e outra perseguida. No dia 22, empenhou-se em nova ação, portando-se com a bravura de sempre.

Em 1o de março de 1828, perseguiu e destruiu o Corsário platino Cazador – ex-Vengadora Argentina e ex-Rayo Argentino. A 23 de março, perseguiu e aprisionou o Corsário argentino Niger, do mando de John Coe, que foi feito prisioneiro com mais seis oficiais, seis capitães de presas, 80 marujos e soldados, tendo perdido, no combate, seis mortos e 12 feridos. A 18 de junho, tomou parte em outro encontro. A 24 de agosto, muito se destacou na perseguição e aprisionamento da Corveta argentina General Dorrego. Quando foi recebida pela Esquadra a notícia da paz com a Argentina, a 29 de setembro, o robusto e glorioso Caboclo ainda se encontrava na linha do bloqueio, vigilante e ativo, sob o comando do impertérrito Inglis. .De regresso ao Rio de Janeiro, passou por vários e indispensáveis reparos. Tinha necessidade, em 1829, de uma tripulação de 120 homens e, para seu completo armamento, carecia de uma despesa mensal de 3:403$200, e anual de 42:838$400.

A 4 de novembro desse ano, nele teve embarque o Primeiro-Tenente Joaquim José Ignácio, futuro Almirante e Visconde de Inhaúma. De 1 a 5 de abril, serviu a seu bordo o Primeiro-Tenente Joaquim Alves de Castilhos. Por Aviso de 16 de agosto, foi mandado nele embarcar o Primeiro-Tenente Guilherme Lassance Cunha; e, por Aviso de 2 de setembro, o Segundo-Tenente João Crímaco Nunes, que desembarcou a 15 de dezembro; a 20 de setembro, também nele teve embarque o Segundo-Tenente Manoel Luiz Pereira da Cunha.

Em janeiro de 1830, a caminho do Norte, aportou em Pernambuco sob o comando do Primeiro-Tenente Isidoro Antônio Nery. A 14 de janeiro de 1852, chegava à Bahia com 26 dias de viagem; em fevereiro, fazia-se de vela o Norte tocando em Natal e São Luís do Maranhão, onde se encontrava, em abril. Tinha a seu bordo como passageiro o Comandante das Armas dessa província. Nesse tempo, estava artilhado com 16 peças e contava uma guarnição de 110 praças, estacionado sob o comando do Capitão-Tenente, José Mamede Ferreira. Por Aviso de 4 de maio de 1833, mandava-se ordem para o navio seguir para a Bahia, ordem essa que só foi recebida em São Luís a 25 de agosto.

A 27 deste, receberam ordem do Presidente para fazer um cruzeiro de dez dias. Zarpou no dia 1o de setembro, e, no dia 3, naufragou no banco fronteiro à Ilha de Municipitandini. O Patrão-Mor e o Segundo-Tenente Manuel Inácio Brício foram mandados auxiliar o salvamento do navio, mas só puderam retirar quatro caronadas e uma peça de bronze.

No dia 25, o Comandante apresentou-se ao Presidente. Salvaram-se todos; só o Comissário veio a falecer em São Luís em consequência do sinistro. Em ofício ao Governo central, dizia o Presidente: “Cumpre-me dizer alguma coisa sobre a conduta que tiveram…; no Rio Grande do Norte por duas vezes esteve este brigue, durante o tempo que presidi aquela província e ali não apareceu, nem era possível aparecer, a menor queixa contra seus oficiais, como são as de que se trata. Finalmente, Exmo Sr., faço tão boa idéia desta oficialidade, que se estivesse autorizado, teria lançado mão de um outro brigue para a Nação, e teria feito para ele passar toda a guarnição entregando o comando ao mesmo Capitão-Tenente…”.

Tendo o Presidente da Província, Dr. Joaquim Vieira da Silva e Souza, que posteriormente foi Ministro da Marinha, ordenado estacionar o Caboclo junto da Ilha de São João, na chamada Coroa Seca, em vez de fazê-lo retirar para a Bahia, naufragou o navio nas cercanias da referida ilha no dia 3 de setembro de 1833, não havendo, ao que sei, perdas de vidas. E assim, tragicamente, acabou o glorioso lenho imperial.

Fonte: Marinha do Brasil

Redação
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