Caça Submarina nos naufrágios de Pernambuco

Foto: Rafael Demôro

Pernambuco é conhecido por seu carnaval, pela música, festa junina, Paixão de Cristo, pela cultura, belezas naturais, povo hospitaleiro, e gostaria que fosse mais conhecido por seu futebol, e também por ser considerada a capital brasileira dos naufrágios.

Pernambuco por sua posição geográfica privilegiada e por ter sido junto com São Vicente as duas Capitanias Hereditárias a prosperarem, teve uma movimentação bastante intensa de navios principalmente nos séculos XVII e XVIII. Houve um intenso comércio de açúcar, a invasão dos holandeses e posteriormente sua expulsão.

O porto do Recife sempre teve um grande fluxo de embarcações, portanto, naturalmente surgiram muitos naufrágios naquela região.

Até o final dos anos 90 haviam apenas naufrágios naturais, os tradicionais que a maioria dos mergulhadores conhecem como o Pirapama, Vapor de Baixo, Flórida, Chata Noronha, Camaquã, Vapor dos 48 e o Alvarenga, sendo esses, os mais visitados pelos mergulhadores,

A partir de 1998 começaram a surgir os naufrágios propositais com o propósito de formar um recife artificial e criar um eco sistema, se tornando posteriormente um local de visitação dos turistas. Para se ter um idéia, o Rebocador Marte que foi o primeiro naufrágio artificial de Pernambuco, foi afundado em 11 de abril de 1998 em Serrambi, inicialmente sua posição foi mantida em segredo afim de evitar a ação de caçadores submarinos, tanto por apneia quanto com cilindros. Foi feito um trabalho pioneiro de atratores para que a vida marinha crescesse rapidamente nele, e que deu muito certo.

Os atratores eram palhas de coqueiros amarradas em sequência e ficavam na vertical, criando assim, pontos para pequenos peixes e outros pequenos seres se protegessem de seus predadores, e rapidamente o Marte foi tomado por Xiras, que atraíram cardumes de Guarajubas, Galos, Parús Brancos, Caranhas, Dentões entre outras espécies de peixes, além das enormes Moréias verdes e três tartarugas (duas de pente e uma verde).

Algum tempo depois, surgiram Meros, já que se tratava de um habitat seguro para a vida marinha. Há uma frase do Ary Amarante que resume bem o mergulho no Marte: ” O único problema do mergulho no Marte é que uma hora ele acaba”.

Quem realizou o afundamento do Marte, teve que informar suas coordenadas a Marinha do Brasil, e foi aí que as coisas começaram a mudar, pois com a divulgação das coordenadas, caçadores e pescadores tomaram ciência, e o Marte passou a ser visitado regularmente pelos mesmos. Chegaram ao cúmulo de deixar um arpão envergado em cima da cabine de comando para mostrar que um caçador passou por ali e pegou algo tão grande que inutilizou o arpão. A revolta maior, era dos praticantes de caça-submarina. Parentes de políticos, policiais, oficiais da Marinha, e filhos de usineiros foram abordados e presos, e em algumas ocasiões, seus materiais de pesca e caça foram apreendidos, mas sempre terminava em pizza.

Um processo que não dava em absolutamente em nada e tempos depois, o fiscal do IBAMA foi transferido para outro Estado, e para nós, era como “dar murro em ponta de faca”, e o errado acabava sendo quem denunciava ou ajudava nas apreensões.

Houve muito atrito em alto mar entre os responsáveis pelo desenvolvimento dos trabalhos no Marte e os caçadores, que insistiam em não respeitar o naufrágio, chegando até mesmo, a divulgar que um mero residente no Marte havia sido arpoado, sendo batizado o prato de “O mero a Lacerda”, um trocadilho para provocar o empresário que iniciou com o programa de naufrágios artificiais.

No final de 1999 surgiu o naufrágio do Gonçalo Coelho, desta vez, sua marca foi mantida em segredo.

Esse naufrágio tornou-se o refúgio de uma farta vida marinha, tartarugas, meros, um cardume infinito de Guarajubas, Dentões, Caranhas, Ciobas e os maiores Bico verdes que já vi. Arraias e uma enorme barracuda que ficava imponente no topo do mastro ainda de pé. Por estar próximo ao Rebocador Marte, os peixes que escapavam dos caçadores no Marte, se refugiavam no Gonçalo e dali, não saiam mais. Um grande mero (com uns 200kg talvez) que habitava o Marte, apareceu no Gonçalo com um buraco feito por um arpão na cabeça, e esse naufrágio virou uma obsessão na comunidade de caçadores.

Apesar disso, a posição do Gonçalo era mantida em segredo, e qualquer turista que desejasse mergulhar no Marte ou no Gonçalo Coelho, poderia ir através do Hotel Intermares, que possuía o posicionamento dos dois naufrágios.

Em 2006 a Aicá Diving, de Porto de Galinhas, começou a levar mergulhadores ao Gonçalo Coelho e manteve o sigilo de sua posição para preservar a vida local, contudo, no início de 2007, sua posição foi descoberta por outros mergulhadores e começou a ser amplamente divulgada. Em 2008, sua posição fora divulgada para a comunidade dos caçadores de cilindros, e o resultado disso, é que toda a vida marinha no local foi reduzida e o naufrágio se encontra em adiantado estado de degradação.

A torre do Gonçalo adernou em mais de 45°, na proa, a rampa e as portas caíram. Esta queda é natural, mas o lamentável, é que o naufrágio vêm sendo visitado por todo tipo de mergulhador, e acompanhando os relatos e vídeos recentes publicados na Internet, é triste constatar que o mero gigantesco e manso já não está mais por lá. Que a barracuda igualmente enorme e mansa provavelmente virou sushi. Não vi os Bico verdes enormes e os Dentões, podem estar neste momento sendo servidos em clubes de mergulho como churrasco.

A chaminé do Marte atualmente está destruída, pois além da ação da natureza as garatéias jogadas pelas lanchas de caçadores com o intuito de encontrar o naufrágio de forma incorreta, também ajudaram na destruição da chaminé.

Em Recife, vários naufrágios são frequentados por caçadores, o que causa revolta entre os proprietários de escolas e operadoras, e conversando com um proprietário de uma escola de Recife, soube que a situação já foi pior, pois antes, quando um barco com turistas chegava ao naufrágio, os caçadores continuavam a matar os peixes ignorando a presença dos mergulhadores. Já os mergulhadores que estavam com suas câmeras fotográficas tiravam fotos ou filmavam, e eram intimidados com um arbalete apontado e sob ameaça de ser disparado.

Atualmente os caçadores evitam esse contato e saem rapidamente do naufrágio. Ao que tudo indica, uma nova geração de naufrágios artificiais vêm sendo respeitada.

Há algum tempo atrás, havia um grande mero no naufrágio Vapor de Baixo, entusiasmado, um mergulhador passou o rádio para um amigo para informar o encontro, esse mensagem foi captada por um caçador que foi lá e matou o Mero.

E fica a pergunta, e a fiscalização ?

Bem como já falei, isso é feito por gente grande, não por pescador profissional, isso é feito com lancha rápida e com material de ponta.

Como quem tem que agir não o faz, sugiro a fiscalização ser feita pelos mergulhadores que se preocupam com a vida marinha, fotografar, filmar e divulgar as imagens seja no You Tube ou listas de discussões na Internet.

Gostaria de deixar bem claro que não tenho nada contra a caça-submarina, acho um esporte fascinante, porém, condeno a caça em naufrágios e qualquer tipo de caça-submarina com cilindros.

Lembro a todos, que em Pernambuco é proibido qualquer tipo de pesca em naufrágios.

Marcelo Gesteira

Instrutor de naufrágio, noturno, profundo e EFR pela PADI e Intrutor SDI.

Possui mais de 2000 mergulhos realizados.

Atualmente é proprietário da operadora Abissal Mergulho em Serrambi-PE.