Calhaus – Um ponto perdido na costa de São Paulo

Foto: Clécio Mayrink

A primeira vez em que escutei falar sobre os Calhaus, foi lendo uma edição da antiga e maravilhosa Revista Mergulhar (Edição 36 de abril de 1988), onde o mergulhador e editor da Revista Mergulho, Alcides Falanghe, relatava como era o local.

Na época, a vontade de conhecer era grande, porém, a distância de onde morava e minha idade (15 anos), não facilitavam a minha ida até esse destino, mas certamente, sempre tive em mente que um dia iria conhecê-lo de perto.

Anos se passaram, me mudei para São Paulo, e a distância já não era um problema. Bastava apenas Netuno permitir a minha ida.

Finalmente esse dia chegou, e lá estava indo pela primeira vez ao famoso Calhaus, local já conhecido por muitos mergulhadores, e elogiado devido diversidade da vida marinha e pelo desenho que o mar traçou nas rochas, criando um lindo ambiente com teto, que permite a luz atravessar pelas cavidades, dando um show aos mergulhadores.

No primeiro mergulho por lá, cardumes e mais cardumes passavam à frente, refletindo a luz em meio à água cristalina do local, dando um colorido inesquecível.

Ao chegarmos ao salão, a escuridão da sombra escondia um enorme cardume que ali vive, nadando calmamente para lá e para cá. Os peixes não se incomodavam com a nossa presença e parecia que estávamos em uma imensa piscina rodeados de seres.

Foi um mergulho inesquecível e bem diferente ao que normalmente encontramos na costa brasileira.

O Local

Distante 22 milhas náuticas da cidade de Santos, os Calhaus estão próximos da Laje de Santos, porém, um pouco mais distante de quem sai do continente. É uma formação rochosa que aflora na superfície, onde a profundidade chega alcança os 40m em sua parte mais funda.

Por estar distante da costa, frequentemente encontramos água com excelente visibilidade e a possibilidade de encontros com seres bem diferentes, como arraias mantas e até tubarão mangona durante o inverno. No verão, a incidência de água com melhor visibilidade é maior.

Calhaus se destaca por sua formação rochosa e o mergulhador pode passar por um estreito caminho, que o leva até uma espécie de “grande aquário”, um local onde diversos tipos de peixes ficam nadando, pois é mais abrigado do mar aberto. Bem próximo, algumas rochas muito grandes encobrem de um lado a outro, criando um túnel bem espaçoso.

Não é um mergulho que exija treinamento em ambientes fechados, pois o local é muito amplo e a todo momento, é visível a saída.

Por ter uma formação de um corredor, o mergulho somente deve ser realizado em dias de mar calmo, pois as correntes no local, geram um grande fluxo de água, que faz o mergulhador fica no estilo “vai e vêm”, podendo causar problemas na entrada e saída do local.

Ao redor dos Calhaus, encontramos grandes peixes variados, sendo a prova de que a criação do Parque Estadual Marinho da Laje de Santos trouxe muitos benefícios a região, pois a pesca e a caça submarina foram proibidas.

Calhaus foi um dos temas abordados no documentário Laje dos Sonhos, mostrando o mergulho no local.

Como chegar

O mergulho nessa região requer alguns cuidados. Por estar muito distante da costa e em um parque estadual marinho, é recomendável que a visitação seja realizada utilizando uma operadora de mergulho que atue na região, pois eles detém o conhecimento quanto as condições de mar, que podem virar a qualquer instante.

Além disso, mergulhando com um guia local, você não perderá tempo para encontrar o salão e poderá curtir muito mais o mergulho, além de retornar em segurança até a embarcação de mergulho.

Visitar o local sem um guia, as chances de você não encontrar o salão com o túnel, são de quase 100%, pois a passagem é pequena e pouco intuitiva.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Produziu documentários sobre as Bahamas, Bonaire, Galápagos e Laje de Santos, visitando mais de 30 países. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.