O naufrágio do Cap Frio

O naufrágio do Cap Frio

O Diário de Notícias do dia 28 de agosto de 1908 anuncia a próxima chegada do “… navio à vapor Cap Frio à 30 de agosto de 1908 e saída no mesmo dia com destino a Hamburgo pegando passageiros e cargas. Comandante A. Simonsen.”

Ás 9 horas de domingo, 30 de agosto, depois de uma entrada bastante mal feita, trafegando entre o forte S. Marcelo e o cruzador alemão SMS Bremen que encontrava-se no porto, o navio à vapor Cap Frio ancorou e permaneceu o tempo suficiente para o desembarque de 5 passageiros e suas bagagens. Não recebeu carga. Estava praticamente lotado com 80.000 sacas de café, 185 t de água e 1500 t de carvão e os mantimentos e bagagens para os 94 passageiros e sua guarnição composta de 14 oficiais e 73 tripulantes. Estava bem carregado devendo calar quase o máximo permitido pelo seguro, ou seja, 8.23m.

Levantou ferros às 11h da manhã, na metade da vazante da “maré morta”. Ao sair, apitando e movimentando a bandeira, apresentou as continências de praxe aos nossos navios de guerra ancorados ao largo, bem como ao cruzador germânico.

Dia lindo, “mar de almirante” e “céu de brigadeiro” !

O comandante Simonsen supõe ter resolvido dividir com os passageiros a beleza da paisagem e aproximou-se de terra.

Relatavam os moradores do Porto da Barra, que o Cap Frio ao passar em frente a praia navegava muito perto, tão próximo que as pessoas que estavam na sombra das árvores puderam ouvir a música da orquestra de bordo. Causou tanta surpresa que outros moradores afluíram de dentro das casas para apreciar a passagem do “liner” comentando sobre o perigo de navegar tão próximo de terra.

Só depois de passar pelo forte Santa Maria, o Cap Frio tomou a direção da boca da baía, se afastando tardiamente da costa. Seu novo rumo o levava a trafegar entre o atual boião vermelho e a praia do Hospital Espanhol, onde existem dois rochedos submersos que causaram os naufrágios do Maraldi, do Germânia e do Bretagne.

Às 11:30h o Cap Frio arrastou-se sobre as pedras ou talvez sobre os destroços dos naufrágios acima citados, sem, entretanto encalhar, abrindo um grande rasgo ao longo do casco. Alguns afirmam que ele atingiu os restos submersos do Bretagne e do Maraldi, já que o Germânia está mais próximo de terra.

Os porões, carregados de café, logo foram inundados.

A música de bordo parou enquanto o navio, ainda com o hélice a girar, era impulsionado até em frente ao Farol onde tocou no fundo com os porões inundados, sem submergir.

Aflorou um princípio de pânico logo esmorecido pelas informações dos oficiais restando aos passageiros a preocupação com seus pertences e programas de viagem.

Alguns passageiros correram às suas cabines para recolher seus pertences e se prepararem para um desembarque, outros aguardaram as ordens.

Para acalmar os viajantes a orquestra voltou a tocar.

Uma falsa esperança deve ter nascido no coração do comandante Simonsen.

Há uma centena de metros, na praia da “Boca da Sereia”, sobre as pedras e no cerro do Farol, dezenas de pessoas haviam acorrido e comentavam sobre o acidente. Alguns achavam que o navio seria salvo, outros não, e assim a tarde foi passando.

Neste meio tempo, provavelmente alertado pelo Farol da Barra e pelo radio do Cap Frio, chegaram lanchas da Capitania dos Portos, da Polícia Marítima e da Alfândega. Ao longe podia ser vista a fumaça negra das chaminés do cruzador SMS Bremen indicativa de que a belonave aumentava a pressão das caldeiras para movimentar-se. Passado uma hora o Bremen dirige-se para o local do acidentes, mas permaneceu há uma distância segura desfazendo os rumores de que viera para rebocar o “liner”. Alguns escaleres do navio acidentado foram baixados e permaneceram encostados ao navio. Ás 17 h iniciaram o desembarque dos passageiros e suas bagagens para os barcos que estavam amarrados, em fila, ao rebocador das Docas da Bahia que chegara ao local.

Em volta navegavam dezenas de saveiros e outras pequenas embarcações e uma lancha do cruzador.

No final da tarde os tripulantes dos serviços auxiliares. Foram transferidos para as lanchas.

A casa de máquinas ainda não fora inundada.

As luzes de bordo foram acesas e no mastro podiam ser vistas as que indicavam “embarcação impossibilitada de manobrar”.

A inspeção feita no dia imediato concluiu pela perda do Cap Frio, apesar da casa de máquinas não ter sido invadida pelas águas.

Perdidas as esperanças a carga e o “liner” foram leiloados pelas companhias de seguro.

Também, por excesso de confiança, ao longo de mais alguns anos, encalharam no mesmo local, o cargueiro belga Melponeme cujo comandante suicidou-se, o mercante brasileiro, Itapuca e o destróier da nossa Marinha de Guerra, Benevente, mas todos voltaram a navegar.

O Cap Frio contribuiu para o aumento da lista dos irremediavelmente perdidos, e o que resta dele, está assentado a cerca de 50 a 100m ao sul da ponta do Farol da Barra, a 8/10 m de profundidade.

Apesar da correnteza e do grande tráfego de embarcações pequenas, os restos do Cap Frio transformaram-se em um bonito local para mergulhar.

Consultas Gerais

Jornais A Tarde, Diário de Notícias e Diário da Bahia, datados de 01/09/1908 a 26/09/1908.

Memórias da família Schleier e Góes de Araújo moradores no Porto da Barra.

José Goes de Araújo

formação em engenharia civil e química. Professor aposentado dos Cursos de Aperfeiçoamento de Engenheiros da Petrobrás e da Escola Politécnica – UFBA. Foi chefe de Obras da SEGEN / Petrobrás e é membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia – IGHB, desde 1983, sendo vice-presidente na gestão 2001 a 2003.

É autor de vários livros como:

– Da Velha Cidade da Bahia – História e Estórias
– Catálogo de Naufrágios e Afundamentos
– Aventureiros e Piratas na Costa Brasileira (no prelo)
– Naufrágios e Afundamentos – (no prelo) Inclui catálogo em ordem alfabética, noções de arqueologia subaquática e colaboração de mergulhadores de renome em fotos e esquema de diversos naufrágios.