Caverna de Angelita

Angelita faz parte do sistema de cenotes no departamento (Estado) de Quintana Roo, no México.

Todo cenote é formado basicamente da mesma maneira, quando uma caverna é formada dentro do sistema do lençol freático, essas galerias vão se alargando, e ao longo dos anos, formando grandes sistemas de cavernas subterrâneas.

O teto frágil destas cavernas é sustentado apenas pela pressão da água que corre em seu interior, mas quando o nível freático diminui, o teto entra em colapso e acaba cedendo. É aí que começa nossa diversão, pois dessa forma, mergulhadores de caverna podem ter acesso ao sistema de águas 100% cristalinas, filtradas pelo terreno calcário.

A Caverna

A caverna Angelita possui algumas particularidades que a torna bem diferente do restante dos cenotes. Além de ser uma caverna vertical, ela possui um ar totalmente macabro. Uma caverna profunda, escura, onde em seu interior corre o que se chama de rio submerso, é isso mesmo, um rio que corre dentro de outro rio.

O visual é mesmo surreal, diferente de qualquer outra coisa jamais vista no planeta. Mesmo com os registros fotográficos, que são poucos devido à falta de iluminação do ambiente, é praticamente impossível retratar o que realmente se vê dentro deste lugar, que só pode sentir quem realmente se propõe a arriscar.

O que é e como se formou o rio submerso ?

Na verdade esse rio é uma camada de Sulfeto de Hidrogênio, que é um gás considerado venenoso de largo espectro e em solução aquosa, também é chamado de ácido sulfídrico ou H2S.

O cheiro é realmente terrível e no caso da caverna de Angelita, foi formado pela decomposição dos galhos e árvores que foram submersos quando o teto perdeu sustentação e caiu.

O Mergulho

Chegamos cedo ao local, que por sinal estava vazio. Pagamos uma pequena taxa ao proprietário que mora no local, e que em seguida, virou as costas e voltou pro seu casebre sem dizer absolutamente nada. Deixamos os equipamentos próximos à porteira e fomos andando até o local da entrada da caverna.

Apesar de muito bonito e a água ser recoberta pela folhagem das árvores, o acesso não é tão fácil. Voltamos para a pick-up já decididos que iríamos voltar equipados. Não é uma grande caminhada até a entrada da caverna, mas fazê-la totalmente equipado, exige certo esforço. Saltamos na água, ajustamos os computadores para água doce e terminamos de repassar todo o planejamento.

Descemos verticalmente e quando alcançamos os 20m de profundidade, já começamos a avistar o rio submerso abaixo de nós. A camada de sulfeto claramente visível dá indícios de que ali é mesmo o fundo da caverna.

Descemos até próximo da camada aos 33m e deslumbramos o que chamamos de “vale da sombra da morte”. Um clima totalmente escuro, iluminado somente pela luz de nossas lanternas, árvores macabras e sem vida, além de um rio abaixo de nós que apesar de parecer o inferno, parecia nos chamar para descer além dele, e foi o que fizemos… decidimos descer pela camada de sulfeto e descobrir o que tínhamos além dela. Mantendo contato físico, pois a visibilidade mesmo com as lanternas é zero, começamos nossa descida, e ao tocar a camada com o rosto, dá pra sentir o cheiro insuportável do ácido sulfídrico que insistia em invadir a máscara de mergulho.

Descemos até os 37m e eis a primeira surpresa… encontramos abaixo da camada de sulfeto, água salgada e visibilidade surpreendente. Olhar pra cima neste momento é algo fora do comum, pois dá pra ver claramente a camada de sulfeto acima de nós, como se fossem nuvens densas, bloqueando qualquer visão superior.

Continuamos nossa descida até os 55m de profundidade, onde encontramos outra caverna agora na horizontal. Decidimos entrar, porém, ela é muito pequena e o conduto nos retorna para dentro de Angelita.

Hora de terminar a brincadeira e começar nossa lenta subida à superfície, atravessando mais uma vez a camada de sulfeto. Olhando para cima, o visual das árvores, folhagens e sol, mesmo ainda aos 10m de profundidade é realmente muito bonito.

O que se leva de Angelita

A caverna é realmente diferente, por reunir no mesmo mergulho, água doce, camada de sulfeto e água salgada. Um mergulho em 3 níveis mais do que inesquecível, que vale a pena à todo mergulhador de caverna.

Jason Marinho

Analista de Sistemas e instrutor de Mergulho pela PADI e PDIC. Analista de Sistemas e já mergulhou em diversos locais do Brasil e no Exterior.