Caverna: Mau gerenciamento do gás pode significar a morte

Foto: Clecio Mayrink

Um dos relatos quase trágicos que já se ouviu sobre mergulho em caverna nos Estados Unidos, foi de um mergulhador que saiu desesperado para fora da caverna de Devil’s Eyes, na Flórida. Após ter feito uma busca por seu dupla que havia desaparecido durante o mergulho, acabou ficando sem gás e alcançou a saída da caverna no seu limite.

Enquanto isso, o mergulhador desaparecido já se encontrava na superfície aguardando pelo “quase” acidentado, porque logo após o desencontro, ele decidiu retornar para a saída da caverna e ficou aguardando o outro mergulhador.

Mas qual o motivo do “quase” acidente com o mergulhador que fez a busca ?

O mau gerenciamento do gás…

Dentre muitas habilidades ensinadas nas escolas de mergulho durante o treinamento de mergulho em caverna, é considerado básico e primordial, planejar o consumo de gás que será usado no mergulho, contudo, quando envolvemos uma situação não planejada como foi o caso do relato no início desse artigo, a busca ao dupla que sumiu durante o mergulho, a coisa não fica muito clara e pode trazer consequências sérias se o mergulhador não estiver atento e souber planejar adequadamente o mergulho.

Regra do terço  X  Situações inesperadas

No mergulho em caverna, os mergulhadores utilizam a regra do 1/3 ou simplesmente “terço”, tendo como base, uma caverna sem fluxo ou com fluxo ressurgente (água saindo da caverna).

Essa regra é usada da seguinte forma: Pega-se a quantidade de gás contido na dupla de cilindros de mergulho e divide-se por 3, onde 1/3 (33%) você consome para adentrar a caverna e ou outro 1/3 para sair dela. O 1/3 sobressalente, fica como segurança e para ser usado em situações não previstas.

Se você possui 3.000 PSI de gás nos cilindros e considerando que o mergulho será realizado em uma caverna que não requer um planejamento mais avançado, você poderá adentrar até o indicador do manômetro chegar aos 2.000 PSI. Dessa forma, você poderá usar outros 1.000 PSI para alcançar a saída da caverna e ainda ter outros 1.000 PSI para uma situação não planejada.

Como disse anteriormente, a regra do “terço” é básica para o mergulho em caverna e pode variar de acordo com o tipo de mergulho em si, mas na maioria dos casos, é a regra base para esse tipo de mergulho e a forma mais tradicional ensinada nas escolas. Mergulho com scooter, por exemplo, dependendo da situação, aplica-se 1/6, e por ai vai.

Mas como tudo na vida, existem alguns aspectos que merecem total atenção dos “caverneiros”.

Ilustração: Brasil Mergulho
Ilustração: Brasil Mergulho

Vejamos dois exemplos:

Aspecto 1:

Usando a regra convencional terço, vamos imaginar que o seu cilindro de mergulho está cheio e possui 3.600 PSI de pressão, valor muito comum nos cilindros recarregados na Flórida, pois normalmente eles dão o chamado “overpressure” por lá, que é aplicar uma carga maior de pressão em alguns cilindros de aço que possuem características que permitem esse tipo de carga.

Considerando 1/3 para executar o mergulho, o mergulhador poderá usar 1.200 PSI para penetrar na caverna, e restariam 2.400 PSI para retornar com segurança. Desses 2.400, seriam 1.200 PSI consumidos durante o retorno até a saída da caverna e os outros 1.200 PSI não consumidos, como a reserva de segurança.

Vamos supor que o mergulhador chegou ao terço (2.400 PSI) e logo em seguida, iniciou o regresso. Algum tempo depois já com o manômetro indicando 1.800 PSI, ou seja, consumiu cerca de 50% do gás previsto para ser usado no regresso, seu dupla acaba tendo um problema com o fornecimento de gás e você precisa doar seu gás para ele…

Desses 1.800 PSI restantes, 600 PSI são destinados a você, para que possa alcançar a saída da caverna. Supondo que sua dupla tenha um consumo igual a você, seriam necessários outros 600 PSI para que seu dupla também consiga ter gás para sair da caverna.

Com isso, se nada mais der errado, você sairia da caverna com apenas 600 PSI do seu gás total.

Ilustração: Brasil Mergulho
Ilustração: Brasil Mergulho

Aspecto 2:

Vamos considerar agora, que você estava entrando na caverna com os 3.600 PSI em sua dupla de cilindros e alcança o terço, onde o manômetro estaria indicando 2.400 PSI, pois você consumiu 1.200 PSI durante a penetração e chegou a hora de retornar.

Como no aspecto 1, durante o regresso, em dado momento você se dá conta que consumiu 600 PSI (manômetro mostrando 1800 PSI) e percebe que dupla desapareceu por alguma razão.

Nesse momento você decide realizar uma busca ao dupla, procedimento este, ensinado nos cursos de mergulho em caverna.

Qual a quantidade de gás necessário para você procurar seu dupla e poder sair da caverna em segurança ?

1.200 PSI ?   600 PSI ?

Errado…

Se você precisa de 600 PSI para sair, seu dupla também precisará de no mínimo outros 600 PSI. Só aí já seriam 1.200 PSI necessários para que o dois saiam da caverna.

Levando em consideração que você têm apenas 1.800 PSI, se tudo transcorrer bem e o consumo não aumentar, aspecto raro de acontecer devido ao stress diante da situação, você teria 600 PSI para realizar a busca, correto ?

Errado…

Você não pode considerar o total dos 600 PSI restantes para a busca, simplesmente porque  muito provavelmente você e seu dupla ficarão sem gás para sair da caverna e alguns aspectos irão contribuir para o aumento do consumo desse gás restante, sem contar, que se houver outra situação inesperada, seria fatal.

Imagine um enrosco em um cabo qualquer enquanto se dirige para a saída, enquanto você está doando gás…  mais tempo e gás perdidos consumidos…

Estatisticamente, acidentes de mergulho ocorrem como uma bola de neve. Um problema desencadeia outro e a situação vai se agravando. A sequência de erros e problemas chegam a um fator que extrapola os limites de segurança do mergulhador, ocasionando o acidente.

Ilustração: Brasil Mergulho
Ilustração: Brasil Mergulho

Conclusão

O planejamento e o gerenciamento do gás no mergulho em caverna deve ser feito com a máxima atenção, e qualquer alteração neles neste tipo de mergulho, pode ser crucial entre a vida e a morte.

Você sempre deve ter em mente que em todos os mergulhos de caverna, sempre deverá ampliar a margem de segurança ao máximo e jamais ignorar as regras estabelecidas para essa especialidade.

Numa eventual situação emergencial, o nível de stress sobe e o controle do consumo de gás se torna mais complicado, ainda mais para o mergulhador que está recebendo o gás.

Outro fator importante, é que as cavernas onde a profundidade aumenta à medida que se aproxima da saída, fará com que o consumo de gás seja ainda maior. Além disso, comprovadamente a falta de visibilidade faz com que o consumo seja maior sem a percepção pelo mergulhador.

Aspectos favoráveis

Cavernas onde a profundidade diminui à medida que nos aproximamos da saída são mais favoráveis ao mergulhador, pois diminuirá o consumo de gás.

Cavernas com fluxo ressurgente, ou seja, quando há um fluxo que vai para fora da caverna, essa característica faz com que o mergulhador ganhe velocidade e precise se esforçar menos para nadar, consumindo menos gás.

Caverna

Margem de segurança

Qual é a margem de segurança ideal ?

Isso é relativo, pois depende de vários aspectos, ficando difícil falar em números.

O fato é que jamais um mergulhador de caverna deve burlar as regras do “terço”, e diante de numa situação emergencial, como por exemplo, ter que realizar uma busca pelo dupla, ele deve ter em mente que em geral, ele não terá muito tempo para fazer isso, sendo uma decisão pessoal, que requer um rápido planejamento diante do tipo de mergulho e perfil da caverna, e sendo uma decisão extremamente importante a ser tomada.

Realizando a busca, é preciso ter em mente que ele está usando o 1/3 “emergencial” e que ele pode não ter gás para sair.

O mergulhador de caverna deve ser autossuficiente para entrar e sair, realizando um mergulho sempre dentro dos limites pessoais físicos e psicológicos, além é claro, com planejamento e equipamento adequado para o tipo de mergulho em questão.

No caso da busca pelo dupla sumido durante o mergulho, é um assunto com diversas variantes, polêmico e que acima de tudo, deve ser feito com total prudência, caso contrário, pode significar em morte.

Clecio Mayrink

Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount).

Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008, idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP) e atuou como consultor para a ONU, UNESCO, Segurança Pública, além de diversos órgãos públicos no Brasil.