Cerimônia CT Paraíba / USS Davidson

Para quem não sabe, o Contratorpedeiro Paraíba, afundado a cerca de 20 milhas do Rio de Janeiro, antes de servir à Marinha do Brasil era a fragata americana FF-1045 “USS DAVIDSON” (originalmente o Destróier DE-1045, posteriormente reclassificado como fragata), da marinha americana. O navio serviu aos Estados Unidos por 23 anos, lutou bravamente na Guerra do Vietnã e arrebatou vários prêmios por seu desempenho durante seu tempo na ativa.

Gosto muito de foto-sub, mas a dinâmica da maioria dos mergulhos no CT Paraíba não permite dar-me ao luxo de ficar no mesmo lugar buscando melhores ângulos e variando abertura / velocidade da câmera. Além disso, tem a questão do dupla, pois normalmente os fotógrafos acabam tornando o mergulho solo, deixando a atenção ao dupla em segundo plano. Prefiro, portanto, filmar e não fotografar os mergulhos que faço por lá.

Costumo postar esses vídeos no You Tube para dividir as emoções de cada mergulho com os demais amigos do Deep Quest Team, grupo oriundo da antiga operadora Divers Quest que freqüenta regularmente o CT Paraíba, além de divulgar esse maravilhoso naufrágio nas listas de mergulho. Através da internet, as imagens chegaram aos olhos de alguns integrantes da USS Davidson Reunion Association.

Cerimonia-CT-Paraiba4 Em setembro passado recebi um e-mail do Russell Crosby, membro da referida associação, perguntando se eu e meus colegas que frequentamos o naufrágio, poderíamos depositar no interior do mesmo alguns objetos, em tributo aos veteranos. As lembranças depositadas no navio lá permaneceriam para sempre, em memória dos tripulantes americanos que serviram a bordo durante a Guerra do Vietnã. Seria uma maneira deles prestarem suas homenagens finais ao navio, que tem um lugar especial em cada um dos seus corações e vidas, pois foi parte da sua juventude e do serviço prestado ao seu país.

Aceitamos o desafio e tratamos dos detalhes depois de intensa troca de e-mails. Os itens a serem depositados no navio, seriam a bandeira dos Estados Unidos, a bandeira dos Prisioneiros de Guerra (POW Flag), a Medalha da Defesa Nacional, fita com as cores da missão no Vietnã e vários “Dog Tags” arrecadados entre eles (plaquetas de identificação, utilizadas pelos militares), além de fotos da última reunião anual realizada em outubro.

Assim que os objetos chegaram, organizamos a cerimônia e o planejamento do mergulho. Providenciei uma caixa metálica azul, forrei-a com papel camurça vermelho e adicionei o emblema do navio na tampa da caixa, por dentro e por fora. Um cadeado para fechar a caixa completou o material necessário para acondicionar adequadamente todos os itens.

Os veteranos demonstraram grande ansiedade enquanto o mergulho não acontecia. Vários e-mails com informações relevantes do navio, histórias que eles viveram, fotos de missões, plantas e fotos antigas da embarcação e recomendações de cuidado foram enviados a mim no período. Alguns informaram que já estiveram no Brasil há alguns anos e citaram a deliciosa “feijoada”. No dia em que foi anunciada a cidade do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016, várias mensagens de “Congratulations” chegaram a mim.

Cerimonia-CT-Paraiba3A cerimônia foi marcada para o primeiro mergulho que ocorresse no CT Paraíba. O local escolhido inicialmente pelos veteranos foi a sala de máquinas, mas alertei-os da dificuldade em chegarmos à mesma, pois deveríamos descer escadas e alguns pavimentos num local pouco explorado por nós (eu nunca estive nela). Na profundidade em que o naufrágio se encontra, uma penetração tão ampla seria potencialmente perigosa, ainda mais utilizando circuito aberto. Além disso, as imagens ficariam comprometidas pela suspensão. Em nome da segurança e garantia de sucesso da missão, sugerimos lançar a caixa pela chaminé de boreste, mais vertical pois o navio está inclinado 45 graus sobre bombordo. A sugestão foi aceita, até porque a caixa desceria diretamente à “Fireroom” e ninguém conseguiria recuperá-la posteriormente: as lembranças jamais seriam incomodadas e lá ficariam pela eternidade, como é da vontade dos “Old Sailors”.

Durante o planejamento chegamos a pensar na inclusão da bandeira do Brasil, mas acabamos concordando em não fazê-lo. Afinal, o único desejo dos veteranos era simplesmente que colocássemos seu tributo no naufrágio. Nós é que transformamos o evento numa cerimônia filmada, e incluir nossa bandeira seria como entrarmos de “penetra” na história alheia. Colocamo-nos na posição de representantes de uma homenagem feita por eles ao navio que foi seu lar, à tripulação que nele serviu e à sua pátria.

O mês de outubro reservou algumas surpresas desagradáveis com relação às condições do mar, mas finalmente no sábado ensolarado de 7 de novembro, conseguimos dar sequência ao plano estudado.

Fechamos o grupo com onze mergulhadores técnicos: eu, Bob Light, Comandante Basílio, Eduardo Davidovich (Doc), Fabio Conti, Rafael Zibelli (Ziba), Roberto Faria (Zé Costela), Ricardo Azoury, Ayrton Frugoni, Daniel Correia e Ricardo Namen. Como particularidade, o Frugoni foi oficial da Marinha do Brasil, serviu no CT Paraíba e já vêm realizando mergulhos conosco no naufrágio há alguns meses. Todos usando trimix e o Doc utilizando seu rebreather Megalodon.

Seguimos em duas lanchas: a Darth Vader do Comandante Basílio, grande responsável pela viabilização de mergulhos freqüentes do nosso grupo no CT Paraíba, e a Me&Audrey conduzida pelo experiente Pardal, da Mar do Rio. Como suporte embarcado seguiram o instrutor Willian e o marinheiro Marcos Adriano. No caminho aproveitamos para fazer imagens para compor a edição do vídeo. Durante a navegação, a colocação de cada item dentro da caixa por mim foi devidamente registrada, mostrando o nosso respeito ao nobre material confiado por eles a um grupo de desconhecidos.

Chegamos às coordenadas. A lancha em que estava o outro grupo rapidamente prendeu sua garatéia, face à grande experiência do marinheiro Marcão, do próprio Basílio e as marcações precisas de cada parte do naufrágio no GPS / Sonda da Darth Vader. A Me&Audrey demorou um pouco mais, já que seu GPS havia sido resetado e portanto não tinha o mesmo nível de detalhes gravados no equipamento. Enquanto isso discutíamos a logística do mergulho, pois desceriam dois grupos em dois cabos diferentes e teríamos que sincronizar nossos tempos para todos estarem na chaminé no exato momento da cerimônia.

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Eduardo Kossatz
Eduardo Kossatz é executivo de negócios e instrutor MSDT PADI. Mergulhador CMAS duas estrelas desde 1986, atualmente é Technical Cave Diver e Trimix Diver. Possui possui diversas especialidades e já mergulhou em diversos locais no Brasil e no exterior, como: Antilhas Inglesas, Antilhas Francesas, Antilhas Holandesas), além de outros pontos pelo Brasil.