Colete Equilibrador com lastro integrado – Benefícios e alívio para a coluna

Os equipamentos de mergulho vão se aprimorando e alguns detalhes acabam ficando de lado, seja por distração, ou por falta de uma avaliação do que fazemos no dia-a-dia.

E quem sofre com isso ?

A resposta é: o nosso próprio corpo…

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Essa “automatização” e a correria de todos os dias, pode fazer com que a gente não perceba alguns detalhes importantes, e estes, podem de forma direta ou indireta nos afetar.

Vou dar um pequeno exemplo…

Para ir até um determinado destino recentemente, optei em não levar meu colete equilibrador, coisa rara de acontecer, pois sempre levo meu material, não só por conhecê-lo bem, e sim, para não ter surpresas de equipamentos com tamanho incondizente, vazamentos e coisas do tipo. Com isso, utilizei um colete equilibrador da operadora de mergulho.

Durante a montagem dos equipamentos, estava tudo correndo bem, até a entrada na água… nossa, que coisa ingrata…

O colete da operadora não possuía lastro integrado, e inevitavelmente senti todo o peso do cinto de lastro me puxando pela cintura para baixo, enquanto que o colete equilibrador puxava a minha outra metade para cima.

Resumindo: uma parte de mim querendo subir e outra querendo descer.

Obviamente, estava lastreado um pouco à mais do que precisaria em condições normais, mas era necessário em função do trabalho à ser feito.

Frescura minha, talvez sim talvez não, de fato, quando a coisa se torna melhor em algum aspecto, nós, seres humanos, deixamos de prestar atenção em alguns detalhes e/ou agregar valores as pequenas evoluções dos objetos e equipamentos utilizados no dia-a-dia.

Não, não me tornei uma pessoa idosa, mas de fato, aquele costume de mergulhar com o cinto de lastro foi-se embora e o advento do colete equilibrador com lastro integrado, faz diferença para em termos de conforto.

Exatamente essa diferença do lastro integrado e não integrado, passou despercebido e no momento em que tive que voltar a usar o cinto de lastro, a diferença foi sentida, principalmente pela coluna que literalmente “não aprovou” a mudança no conforto.

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Colete de lastro integrado

O colete com lastro integrado leva consigo todo o peso provido pelo lastreamento, e nosso corpo é apenas envolvido pelo colete, levando o colete para cá e para lá quando a flutuabilidade está equilibrada, não havendo durante o mergulho, uma grande força atuante diretamente na região lombar do mergulhador, força essa, muito comum quando se utiliza o cinto de lastro.

Segundo a Dra. Valéria Galego, fisioterapeuta e mergulhadora há muitos anos, nos coletes sem lastro integrado, o uso do lastro na cintura “estressa” muito toda a região lombar. Não só a coluna, mas toda musculatura envolvida para estabilizar quadril e alinhamento da coluna.

O lastreamento na cintura não é o ideal, pois sua carga força justamente a musculatura estática (lombar), sendo muito pior para aqueles que possuem problemas ortopédicos.

Em todo o nosso sistema músculo-esquelético, possuímos uma musculatura dinâmica e estática (ou postural). A primeira é aquela que usamos voluntariamente para todas as nossa atividades diárias, e a segunda, é a responsável principalmente por manter nossa postura (sentada ou em pé).

A musculatura estática geralmente envolve músculos mais fracos em potência que os dinâmicos. Por ser uma musculatura de difícil acesso, é também difícil de ser alongada, fortalecida e reorganizada, e seu desequilíbrio podem gerar as lesões.

Exemplo: Musculatura do pescoço e dorso, cuja função primordial e mais básica, é nos manter na posição em pé. Nosso cérebro vai ordenar sempre as correções posturais a fim de manter o olhar no horizonte; e para isso, usa de qualquer artifício muscular. E é justamente daí que surgem os desvios posturais, escolioses, hérnias de disco, artroses, entre outras.

No mergulho não vai ser diferente; vamos usar toda nossa musculatura para cumprir nosso objetivo e/ou a direção do olhar. Aí é só fazer as adaptações: a posição do mergulhador, considerando também, a maior densidade da água em relação ao ar. Com isso chega-se à conclusão que o esforço na atividade de mergulho pode ser ainda maior se o mergulhador estiver com lastro em excesso, sem mencionar sequer, a respiração, afinal, nossos músculos e células precisam de oxigênio e energia para funcionarem, segundo a Dra. Valéria.

No meu caso em si, a sensação do lastro atuando em minha cintura durante o mergulho, foi ainda maior, tendo em vista que algumas dores localizadas reapareceram em função dos diversos anos mergulhando com cilindros duplos e stages.

Segundo a Dra. Valéria, os danos à coluna serão bem rápidos, sendo agravados em mergulhadores sedentários. Geralmente as pessoas que saem da água com dores musculares, caso já possuam um quadro de lesão anterior, poderão ter uma nova lesão imediata.

Exemplo: Escorregamento de vértebra ou pinçamento de raízes nervosas em alguém que tenha hérnia de disco.

Já uma pessoa saudável poderá nunca ter uma lesão. Talvez, dependendo da quantidade de lastro utilizado. O excesso de lastro pode causar dores musculares, além de ser desconfortável, pois aumenta o consumo respiratório. Quanto menor o desconforto, melhor o mergulho, reduzindo as possibilidades de um incidente, ou possível acidente de mergulho.

Apesar do lastro ser melhor distribuído no colete equilibrador com lastro integrado, a quantidade de lastro que o indivíduo está carregando é a mesma, sendo recomendável que o mergulhador tenha uma atividade física constante, lembrando sobre a importância de alongar os músculos antes e depois de qualquer atividade física.

Não só o mergulho e pelo aspecto de ter melhor eficiência respiratória, mas também, para ter a musculatura apropriada e não ter dores futuras, ou não ter uma lesão durante uma operação de mergulho, diz a Dra. Valéria.

Alguns pontos importantes

De fato, é sensível a diferença entre um colete equilibrador com lastro integrado e não integrado, e um mergulhador que já possua algum tipo de lesão, certamente terá mais benefícios ao utilizar um colete com lastro integrado. No entanto, devo lembrar, que se o caso de lesão for relativamente grave, o mergulhador deverá equipar e se desequipar na água, pois dessa forma, ele não abre margem para um esforço maior durante a operação de mergulho em si.

E como tudo na vida, existem alguns pontos negativos. Veja abaixo:

  • Há relatos de operadores de mergulho, sobre a perda de das pedras de lastro pelos mergulhadores durante o mergulho. Simplesmente o lastro caíra do colete equilibrador sem que o mergulhador percebesse. Se você pretende adquirir um colete equilibrador com lastro integrado, adquira um modelo que tenha uma boa fixação e fechamento do compartimento onde o lastro será integrado ao colete para que ele não “fuja” do colete durante o mergulho.
  • O outro ponto, é quanto as caminhadas para a execução do mergulho. Em locais onde a saída é pela praia, o mergulhador irá caminhar com o colete já lastreado, do mesmo jeito que um mergulhador que esteja utilizando um cinto de lastro. Logo, em saídas de praia, devo lembrar que o mergulhador sentirá o peso do lastro antes e após a entrada na água.
  • Em muitos casos e conforme o modelo de colete com lastro integrado, a hidrodinâmica do mergulhador pode ser prejudicada, em função do aumento de volume ao redor do corpo do mergulhador, ocasionando um arrasto maior pelo mesmo.

Apesar dos pontos acima, pelo menos para mim, um colete com lastro integrado faz parte dos meus mergulhos e enquanto puder deixar de usar os cintos de lastro, estarei sempre optando por essa opção.

Meus sinceros agradecimentos à Dra. Valéria Galego (CREFITO 43.140-F), fisioterapeuta e pós-graduada em Reeducação Postural Global, pela entrevista concedida para criação deste artigo, e a Dra. Patrícia F. Bittencourt, fisioterapeuta mestre em Ciências do Movimento Humano, além de ser graduada em ciências do Esporte e instrutora de mergulho e primeiros socorros.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.