Como equalizar os ouvidos no mergulho

Quando há dificuldade em compensar, é recomendável descer lentamente - Foto: Clécio Mayrink

O mergulho

O mergulho autônomo (com cilindro) é uma atividade extremamente prazerosa, porém o ambiente subaquático apresenta uma série de particularidades que afetam todo o nosso corpo. Neste texto nós vamos enfocar principalmente os efeitos das mudanças de pressão nas cavidades aéreas da cabeça, ou seja, os ouvidos e os seios paranasais (da face).

O ouvido

O ouvido humano é dividido em 3 partes. O ouvido externo, médio e interno. A principal função deste órgão é transformar as vibrações mecânicas do ar em estímulos elétricos que serão percebidos pelo cérebro como som. Além disso, no ouvido interno está alojado o “labirinto” que é o órgão responsável pelo nosso sistema de equilíbrio.

Figura 1
Figura 1

O ouvido externo é composto pelo pavilhão auditivo externo (Figura 1) e pelo conduto auditivo externo (Figura 1-2). Logo em sua entrada o conduto é protegido por pêlos que impedem a entrada de partículas maiores ou animais, principalmente insetos. As paredes do conduto são recobertas por pele, e a descamação desta pele somada à produção das glândulas ceruminosas forma o cerúmen, que é responsável por lubrificar a região do ouvido externo, prevenindo lesões por umidade, infecções, entrada de insetos, etc. Quando o cerúmen se acumula em demasia, pode formar verdadeiras rolhas que causam diminuição da audição e precisam ser removidas. A separação entre o ouvido externo e o ouvido médio é feita por uma fina membrana que veda completamente o canal, chamada membrana do tímpano (Figura 1-3).

O ouvido médio, diferentemente do ouvido externo, é recoberto totalmente por mucosa, portanto deve ser mantido isolado da água. Esta é a principal função da membrana timpânica. Além disso, ela também auxilia na amplificação da força mecânica do estímulo sonoro.

Acoplado ao tímpano está o primeiro dos 3 ossículos do ouvido, o martelo (Figura 1-4). Se articulando ao martelo temos a bigorna (Figura 1-5), e finalmente o estribo (Figura 1-6). Estas articulações também funcionam amplificando a força da vibração. O estribo irá transmitir essa vibração para dentro do ouvido interno através de uma abertura chamada janela oval. Como dentro do ouvido interno temos líquido e não ar, e o líquido é um meio inextensível, havendo outra janela que se abre no ouvido médio para acomodar as incursões do estribo, chamada janela redonda. O ouvido médio tem um canal que o comunica com a cavidade nasal, que é a chamada tuba auditiva (Figura 1-10). A tuba é formada por cartilagem e fica normalmente fechada se abrindo com movimentos como engolir, assoar o nariz, bocejar, etc.

O ouvido interno é a única parte do ouvido onde não existe ar. Ele está dentro de uma cavidade óssea e é formado por membranas que contém líquido em seu interior (perilinfa e endolinfa). Por este motivo, o ouvido interno não sofre alterações com a variação da pressão externa. O ouvido interno tem 2 partes, a parte auditiva que se inicia na janela oval e tem formato de caracol, chama-se cóclea (Figura 1-9). É aí que a vibração mecânica é transformada em estímulos elétricos que serão transmitidos pelo nervo auditivo até o cérebro. A outra parte é formada pelos canais semicirculares (Figura 1-8) e pelo vestíbulo e tem a função de fornecer informações sobre a nossa posição no espaço auxiliando no equilíbrio.

Efeitos da pressão

A pressão atmosférica causa efeitos em cavidades preenchidas por ar. No caso dos ouvidos, o principal envolvido é o ouvido médio, já que esta parte do ouvido fica normalmente isolada do meio externo. Com o aumento da pressão externa, que pode ser quando se desce a serra, durante o pouso de um avião ou durante o mergulho, ocorre uma retração do ouvido médio. Com isto, o tímpano se retrai e a mucosa começa a exsudar, ou seja, a liberar líquido. Este fenômeno causa dor, e caso esta diferença de pressão não seja equalizada pode

Figura 2
Figura 2

ocorrer sangramento da mucosa ou até perfuração do tímpano (Figura 2). Para a equalização é necessário que a tuba auditiva se abra, normalmente através de alguma manobra como engolir em seco, bocejar ou tentar assoprar o ar com os narizes tampados. Os problemas ocorrem quando alguma condição impede a abertura da tuba auditiva, por exemplo, um quadro de resfriado, gripe ou sinusite que causa inchaço da região do nariz, ou a presença de adenóides ou pólipos nasais, ou então crises de rinite alérgica.

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Figura 3

Caso ocorra uma lesão do ouvido pela pressão (barotrauma) é importante que o paciente pare de se submeter a estas variações de pressão e procure ser avaliado por um médico. Caso estes episódios sejam freqüentes uma avaliação com o otorrinolaringologista é necessária para se diagnosticar alguma das condições já citadas.

Os barotraumas de ouvido médio podem ser classificados em graus. Grau I, apenas vermelhidão da membrana timpânica, grau II, preenchimento do ouvido médio por secreção clara (Figura 3), grau III, preenchimento do ouvido médio por sangue, e grau IV, perfuração da membrana timpânica (Figura 4).

Apesar do ouvido médio ser o mais comum, o ouvido externo também pode ser sede de barotraumas. Isto irá ocorrer se alguma coisa obstruir completamente o conduto auditivo externo, criando uma cavidade fechada preenchida por ar. Exemplos de condições em que isto pode ocorrer são as rolhas de cerúmen, os protetores auditivos e os capuzes das

Figura 4
Figura 4

roupas de mergulho, principalmente de roupas secas ou semi-secas em que a vedação é completa. Nestes casos normalmente forma-se um hematoma no conduto.
As lesões de ouvido interno, raríssimas, ocorrerão quando o barotrauma de ouvido médio for tão violento que o estribo se projete rapidamente para dentro do labirinto e consequentemente haja uma explosão da janela redonda. Nestes casos notamos tontura intensa e perda importante da audição.

Estes casos são potencialmente perigosos, por exemplo, durante um mergulho, em que o quadro de vertigem intensa pode desorientar o paciente e fazer com que ele afunde ou perca o regulador. Não devemos confundir entretanto, o barotrauma de orelha interna com outra possibilidade que pode ocorrer principalmente em mergulhos em água fria. Caso haja uma perfuração timpânica (barotrauma de ouvido médio grau IV) a diferença de temperatura da água que invadiu o ouvido médio e os líquidos do ouvido interno provoca movimentação destes líquidos e tontura.

Como equalizar

Para garantir uma boa equalização primeiramente é necessário que não existam obstruções da tuba auditiva. Isso inclui a ausência de quadros inflamatórios da região do nariz e dos seios paranasais, como gripes, resfriados, sinusites e crises de rinite alérgica. Caso essas condições estejam presentes é importante tratá-las para minimizar os riscos de um barotrauma.

Para a abertura da tuba auditiva, diversas técnicas podem ser utilizadas. Como a tuba está ligada aos músculos da garganta e do céu da boca, movimentar esses músculos pode ajudar. Por exemplo, engolir em seco, bocejar, mascar chiclete e movimentar a mandíbula lateralmente. Além disso, a insuflação de ar pela tuba pode ajudar, sendo o método mais utilizado a compressão das narinas associado ao ato de assoprar com a boca fechada, sentindo o ar fazer pressão nos ouvidos.

Uma dica importante é que nunca devemos forçar a equalização se estivermos sentindo dor nos ouvidos. Nesses casos, a membrana timpânica está tão empurrada para dentro, que o movimento súbito de descompressão pode fazer com que ela se rompa. O correto é ascender um pouco na água, para que a dor volte a ser apenas uma pressão, e aí sim proceder às manobras de equalização.

Os seios paranasais

Os seios paranasais são cavidades existentes em alguns ossos do crânio, preenchidas por ar e revestidas por mucosa. Elas podem ser sede de diversas doenças, mas nosso interesse aqui é que por serem cavidades aeradas elas sofrem as variações de pressão. Diferentemente do ouvido, os seios da face tem todas as paredes rígidas (não existe o “tímpano”) e sua comunicação com o nariz está sempre aberta (óstios). Por isso, normalmente não temos dificuldade em equalizar a pressão nem na descida nem na subida do mergulho. Porém, em alguns casos como gripes, resfriados, rinites, polipose nasal, etc. estes óstios podem estar obstruídos, total ou parcialmente, e iremos experimentar dor no momento da variação de pressão.

Como não existe uma tuba auditiva para os seios da face, a equalização forçada é mais difícil, e muitas vezes a dor impossibilita o mergulho. Também é comum que após o mergulho notemos um pouco de sangue na máscara, isso quase sempre indica que houve algum barotrauma sinusal (nos seios).

Fabrizio Romano
Dr. Fabrizio Romano é Médico Otorrinolaringologista formado pela faculdade de Medicina da USP em 1997 Residência médica em Otorrinolaringologia pelo HC-FMUSP em 2001 e Doutorado em Otorrinolaringologia pela FMUSP em 2005, Rescue Diver PADI.