Condicionamento físico para o mergulhador autônomo esportivo

Foto: Clécio Mayrink

Uma coisa frequentemente negligenciada por mergulhadores é o condicionamento físico. O mergulho autônomo é promovido como uma atividade de baixo impacto, fácil e que não requer qualquer condicionamento físico. Muitos mergulhadores são péssimos nadadores, e na verdade é possível ensinar alguém que não sabe nadar a mergulhar.

O mergulho em apneia tem necessidades completamente distintas e não será abordado nesta matéria, embora alguns dos treinamentos abaixo possam ser utilizados.

A grande maioria dos mergulhadores que acompanhei nas mais diversas saídas e atividades se beneficiaria de um programa de condicionamento físico. Mergulhar todo final de semana não basta, especialmente para quem vive em cidades onde não se pode mergulhar com bastante frequência.

Muitos dos acidentes de mergulho autônomo ocorrem na superfície, e um dos fatores que pode piorar uma situação é a inabilidade física. Algumas pessoas, em certas condições, simplesmente entram em exaustão respiratória e pânico, e acabam se afogando na superfície. Enquanto um bom treinamento de mergulho é fundamental, certas situações requerem uma boa condição física, como ter que nadar contra uma corrente razoável, seja na superfície ou no fundo, ou ter que rebocar um companheiro cansado.

Benefícios do condicionamento

Podemos citar alguns benefícios para o mergulhador que faz um programa de condicionamento:

  1. Melhora da performance e diminuição do consumo de ar;
  2. Mergulho mais relaxado, com menor gasto de energia;
  3. Menor risco de doença descompressiva (que já é baixo);
  4. Menor risco de lesões físicas durante o mergulho;
  5. Menor risco de acidentes, devido a menor chances de exaustão respiratória e pânico.

Para entendermos a importância do condicionamento, vamos falar de pontos a serem treinados:

Respiração: fundamental, para um bom aproveitamento de energia, menor consumo de ar, prevenção da exaustão, menor absorção de nitrogênio, controle sobre situações que fujam do usual.

Como treinar a respiração: exercícios aeróbicos ritmados, como natação e corrida, são excelentes. Ainda, nadar com equipamento scuba por debaixo da água, mesmo que numa piscina, ajuda bastante. É importante fazer este exercício de maneira ritmada, evitando a exaustão respiratória.

Musculatura abdominal e das costas: importante para sustentar um bom posicionamento debaixo da água e evitar problemas na coluna pelo peso do equipamento.

Como treinar: sob orientação, diversos tipos de exercícios abdominais e um pouco de musculação dirigida ao fortalecimento da musculatura (a natação pode substituir a musculação, se bem orientada).

Musculatura dos membros inferiores: importante para uma boa propulsão com bom aproveitamento de energia, prevenção de câimbras e melhor sustentação na superfície caso seja necessária. Natação com equipamento scuba ajuda bastante, pois o arrasto do equipamento força mais as pernas do que a natação equipada em mergulho livre

Como treinar: natação comum e natação equipada, com o uso de nadadeiras, são as melhores formas de treinar as pernas do mergulhador. Contra-indico a musculação, a não ser que com pouca carga e muita repetição. Corrida e esportes mistos (que combinem atividade aeróbica e anaeróbica) como futebol, tênis e outros, também funcionam.

É importante lembrar que um bom programa de condicionamento deve receber um acompanhamento de um profissional da atividade, e que para mergulhadores autônomos alguns parâmetros podem ser interessantes: o consumo de ar e o comportamento da frequência cardíaca durante o mergulho.

O consumo de ar pode ser medido com boa precisão através de computadores de mergulho que tenham manômetro integrado e interface para PC, embora seja possível fazer o cálculo manualmente. É importante enfatizar que um mergulhador pode melhorar seu consumo, mas dentro de limites, e que não se mede sua qualidade pelo consumo, que é algo muito particular. Deve-se evitar comparações de consumo entre diferentes mergulhadores.

Para medir a frequência cardíaca durante o mergulho pode-se usar o relógio Polar ou similar, que em conjunto com uma faixa peitoral e sua interface, faz um gráfico de toda a atividade. É importante lembrar que o mergulhador deve respeitar o limite de pressão deste tipo de relógio, que não foi feito para mergulhadores.

Numa experiência, usei o relógio dentro de uma lanterna de mergulho transparente, e fui a 40m de profundidade sem qualquer problemas. O inconveniente é que você perde o acesso aos botões do relógio, que acaba tendo que ser ativado antes do mergulho.

Tenho feito este trabalho em piscina com alguns ex-alunos e tem sido interessante, pois uma vez que os mesmos têm os parâmetros iniciais, passam a se preocupar mais com seu condicionamento físico.

Bons mergulhos, mais duradouros e confortáveis.

Gabriel Ganme

Dr. Gabriel Ganme é médico do esporte, e responsável pelo ambulatório de Medicina dos Esportes de Aventura da Escola Paulista de Medicina, no CETE – UNIFESP.

Mergulha desde 1980 e foi Course Director pela PADI de 1990 até 2016.

Foi Cave Intructor Sponsor (NSS/CDS), Technical Instructor pela TDI e IANTD, e membro da Undersea & Hyperbaric Medical Society.

Atualmente é proprietário de uma clínica especializada em medicina esportiva.