Conhecendo Bonaire

Foto: Clécio Mayrink

Depois de ouvir falar várias vezes nas facilidades dos mergulhos com saída de praia, água quente e grande visibilidade do “Paraíso dos mergulhadores”, fomos conferir esta Ilha do ABC Caribenho (Aruba, Bonaire e Curaçao).

O planejamento da viagem foi feito por mim em conjunto com Antonio Sérgio Couto, instrutor e proprietário de uma operadora de Arraial do Cabo, com alguns meses de antecedência, indo até Aruba, onde ficaríamos dois dias para conhecermos e aproveitarmos as belezas desta ilha paradisíaca, planejarmos algum mergulho, e posteriormente, seguir para Bonaire em um voo da Bonaire Exel.

Do total de nove pessoas, alguns viajaram separadamente e se encontraram diretamente em Bonaire. Alguns integrantes foram via Aruba e outros via Caracas, na Venezuela.

A ida por Aruba é bem mais interessante e menos complicada do que por Caracas, além de ser mais fácil seguir para Bonaire, pois existem quatro frequências diárias ligando as duas ilhas.

Visitando alguns sites pode-se conhecer um pouco mais do local, além de poder fazer reservas dos resorts; desde os mais luxuosos até os mais simples.

A alimentação, conta com algumas opções; comprar mantimentos nos mercados, ou seguir para lanchonetes e restaurantes (McDonalds, Pizza Hut, Subway, Sbarro, Taco Bell) no centro.

Conhecendo as ilhas

A noite em Aruba é bem animada no Mambo Jambo, The Paddock e Carlos & Charlie’s porém existem diversas outras opções, não deixem de dar uma passada no final da tarde em um grande bar com telhado de sapê na praia ao norte da ilha entre os hotéis Hyatt e Marriot onde o ambiente fica bem animado.

Bonaire-Marcelo2Em Aruba é recomendado alugar um carro, existe a opção de ônibus mas eles não passam em todas as regiões, somente na orla onde ficam os resorts mais caros e no centro. Existem diversas locadoras no aeroporto e é bem simples e rápido alugar um veículo.

Aruba e Bonaire ficam fora do cinturão dos furacões e tem alta temporada entre dezembro e abril, de maio a novembro é mais vazio e pode-se fechar pacotes mais em conta. Em agosto venta um pouco, mas mesmo assim é bem quente e o vento não interfere na condição de mar.

Quanto à hospedagem em Bonaire, decidimos ficar em Coco Palm Garden, em ótima casa para oito pessoas e mais uma para um casal. As casas são muito bem estruturadas, contando inclusive, com local para lavagem dos equipamentos, em um local bem calmo.

Para alimentação, optamos por comprar mantimentos no mercado e fazer nossa própria refeição pois, além de sair mais em conta nos dava maior flexibilidade. Apesar disso, nada impediu de um dia ou outro fazermos um lanche pela cidade no KFC por exemplo.

Fechamos com a Coco Palm um pacote completo, incluindo aluguel de 3 pick up´s, o que é fundamental, pois além de transportar cilindros e equipamento de mergulho em alguns acessos aos pontos de mergulho o terreno é bem acidentado. Quase todos os resorts tem pacote completo para oferecer o que é mais cômodo e mais em conta.

Na operadora Photo Tour, fomos muito bem recebidos por uma simpática equipe, que nos deram todas as instruções e dicas dos mergulhos, assim como, todos os procedimentos que deveriam ser adotados. Nosso pacote, como quase todos, incluía cilindros ilimitados e um mergulho embarcado.

Após o briefing na operadora, seguiu um mergulho de avaliação para checar o controle de flutuabilidade dos mergulhadores; feito isso, fomos liberados para os mergulhos em qualquer ponto da ilha. A Photo Tour possui quatro pontos para retirada e troca de cilindros, podemos pegar dois cilindros por mergulhador e trocá-los em qualquer um dos quatro pontos.

Apenas para mergulhos no Norte da ilha e no Parque Nacional é recomendado que se leve apenas um cilindro por pessoa, pois já houveram roubos de cilindro, mas mesmo assim é recomendado que se deixe os carros abertos sem nenhum pertence de valor dentro dos mesmos em qualquer lugar da ilha. Durante nossa estadia não tivemos nenhum problema e tivemos a impressão de ser tudo muito tranquilo por lá.

No Parque Nacional existem locais bonitos para foto e bons pontos de mergulho, porém, perde-se metade do dia e as estradas são muito ruins e com muita poeira.

Não deixem de ir no Salt Píer, Hilma Hooker, Bise Morto, Oil Slip e 1000 Steps, mas todos os pontos valem a pena.

Bonaire-Marcelo3Em Bonaire não tem muito que fazer além de mergulhar, mas não deixe de dar uma passada no happy hour no bar Karel´s no centro.

Os Mergulhos

Os mergulhos em Bonaire são realmente espetaculares, fáceis de serem realizados, com temperatura da água beirando os 29°C e visibilidade por volta de 50 metros, com seus impressionantes e lindíssimos paredões de corais, exibindo uma exuberante vida marinha, rica e excelente para fotógrafos submarinos.

Devido à grande visibilidade, é fácil chegar aos 30 ou 40 metros sem perceber; porém como fazíamos de 3 a 4 mergulhos por dia, mantivemos um perfil mais conservador, atingindo em média, a profundidade dos 25/30 metros no início do mergulho, e voltando dos 10 a 15 metros, vindo a terminar no raso. Cada um respeitou seu computador, fazendo um tempo total de 45 a 50 minutos de mergulho.

Os paredões de corais, geralmente começam por volta dos 7 a 10 metros, seguindo até o fundo de areia, geralmente entre os 30 a 40 metros de profundidade. Em alguns lugares, o fundo de areia chega a atingir os 50 / 60 metros.

Mesmo não havendo grandes dificuldades para o mergulho, vale ressaltar que se tenha o curso avançado, seguro DAN e seja utilizado um computador para se mergulhar por lá. Assim como não, é necessário o uso de roupa de neoprene, podendo-se tranquilamente mergulhar só de sunga ou biquíni. É aconselhável a utilização de uma bota com a nadadeira, pois a entrada e saída da água são feitas com um piso de coral morto, e os que apenas usaram meia de neoprene, reclamavam do incômodo nos pés devido ao piso irregular natural.

Conhecendo o naufrágio Hilma Hooker

Com toda certeza, o carro chefe era visitar o famoso naufrágio Hilma Hooker, porém achamos também o “My Confidence” que foi uma surpresa e emoção tê-lo encontrado, pois ninguém sabia dizer o exato local onde ele estava, e ficamos com mais uma opção de naufrágio.

Quanto ao Hilma Hooker, é um naufrágio com uma história no mínimo curiosa. Ele era um navio cargueiro, com 71.8 de comprimento, 11 metros de largura e com 1.027 toneladas. Fabricado na Holanda em 1951. Antes de ser nomeado Hilma Hooker, teve vários nomes, entre eles: Doric Express, Anna , William Express, Mistral e Midsland. Como diz a lenda, toda  embarcação que troca de nome vai à pique.

Em abril de 1984, com dificuldades de navegação devido a problemas mecânicos.

Seguindo para local não esclarecido, o Hilma Hooker, navegando sob bandeira Colombiana, se aproximou de Bonaire e fundeou para reparos, segundo decisão de seu capitão. Apesar disso, este fato causou estranheza às autoridades alfandegárias ver o cargueiro fundeado longe da ilha, meio que escondido por trás de Klein Bonaire. A atitude suspeita levou a polícia aduaneira a solicitar ao capitão do navio que os permitisse ir a bordo para inspeção de carga. O capitão ficou sem opção de negar, mas tão logo os oficiais da alfândega embarcaram, as âncoras do Hilma foram recolhidas, numa tentativa de deixar o navio derivar até águas internacionais.

A resposta foi à ordem de reboque imediato do navio para o porto de Kralendijk, à qual o capitão se opôs sem sucesso. Com tantos indícios de irregularidades, as autoridades de Bonaire fizeram uma minuciosa e frustrada inspeção no navio, inclusive com a ajuda de técnicos americanos que vieram de Miami especialmente para tal.

Sem nada encontrar e cada vez mais convencidos de que havia algo de muito errado, foi pedido para que o capitão Don Stewart, pioneiro na exploração do mergulho autônomo comercial em Bonaire, ajudasse nas investigações. Mergulhando com equipamento autônomo sob o casco, Don encontrou uma placa de aço suspeita como que criando um escudo, possivelmente um compartimento secreto.

Essa descoberta levou as autoridades a uma nova busca por dentro do navio, agora direcionada à área em questão, e o capitão do Hilma, vendo que seu segredo seria descoberto, tentou alagar parte dos porões, mas já era tarde demais.

Em um compartimento secreto junto ao casco, foi descoberto um enorme carregamento de drogas, com nada menos que 12 toneladas de cocaína e maconha, uma quantidade de dar inveja a quaisquer traficantes no mundo.

Com essa apreensão, a tripulação foi presa, e iniciaram-se as tentativas de contato com os proprietários da embarcação para apuração de responsabilidades. É claro que numa hora dessas, os proprietários do navio não apareceram, e enquanto o tempo passava, o péssimo estado de conservação do navio começou a causar medo nas autoridades de que ele naufragasse no porto, causando grande prejuízo às atividades portuárias de Bonaire.

A associação de mergulho da ilha, que já namorava o Hilma para afundá-lo e dar a Bonaire uma grande atração turística, se ofereceu para bancar o seu reboque para uma área isolada, mais ao sul do porto, onde o navio não representaria um obstáculo à navegação. E assim foi feito: O Hilma Hooker foi rebocado e fundeado em frente a uma praia deserta para esperar o seu destino, que veio em 12 de setembro de 1984, poucos meses após a sua apreensão.

Algumas pessoas dizem que o naufrágio foi consequência natural do péssimo estado do casco, que fazia muita água há algum tempo e mantinha as bombas de porão trabalhando incessantemente. Outra versão afirma que houve “pequena cumplicidade” das operadoras de mergulho para acelerar o inevitável.

Para nós mergulhadores, o que importa, é que nesta data, o cargueiro Hilma Hooker começou a adernar e afundar rapidamente até atingir o leito do Mar, alcançando os 30 metros de profundidade entre duas belíssimas fileiras de recifes de coral. Só para vocês terem uma idéia se vale a pena visitá-lo, um dos integrantes de nossa equipe, esteve no Hilma Hooker 5 vezes nesta viagem. No naufrágio existem algumas pequenas passagens de fácil penetração assim como passagens entre os porões.

No local, é comum a presença de tarpões que mais parecem guardiões do naufrágio, além de lagostas bem grandes, que pelo jeito moram por lá. Não deixem de ir até a ancora seguindo pela corrente que segue pela areia, pendurada na proa do navio.

Mergulhando no Antilla

Na volta da viagem passamos de novo por Aruba e visitamos outro naufrágio, o Antilla, um naufrágio com uma história muito interessante.

Considerado um dos naufrágios mais famosos de Aruba, era um cargueiro alemão, que naufragou durante a 2ª Guerra Mundial, por ser suspeito de ser um navio de apoio aos submarinos alemães. Na época, quando a Alemanha invadiu a Holanda, foi considerada inimiga por Aruba.

O Antilla estava posicionado próximo a Aruba quando foi cercado pela Marinha Holandesa. O Capitão alemão, ancorou ao largo da costa noroeste de Aruba, pedindo tempo para que sua tripulação pegasse seus pertences e se rendessem em terra. Durante este período, a tripulação superaqueceu as caldeiras do navio e logos antes de abandoná-lo, o Capitão abriu as válvulas permitindo que a água do mar entrasse no navio. Quando a água atingiu as caldeiras superaquecidas, houve uma enorme explosão que partiu o navio em dois. O Antilla afundou adernado.

O mastro principal ainda aflora na superfície assim como uma seção á estibordo.

A tripulação foi então feita prisioneira e enviada a Bonaire (um campo de prisioneiros na época), onde passaram os dias bebendo rum e flertando as mulheres de Bonaire (esta é a razão pela qual tantas pessoas em Bonaire tem olhos azuis).

Bonaire-Marcelo1Com o término da 2ª Guerra, esses prisioneiros gostaram tanto de Bonaire que decidiram não retornar para  Alemanha. Um grupo deles acabou montando o primeiro resort caribenho naquela área, usando os prédios da prisão, é claro.Este resort é hoje o Divi Flamingo Resort.

Quanto ao Antilla, ele transformou-se em um recife artificial. Lá residem várias espécies de peixes. A parte separada da seção central revela a seção das caldeiras. A penetração é feita facilmente nesta seção. Entre as longarinas existem vários salões com bastante entrada de luz. A profundidade máxima é de 17 metros, sendo este,  um mergulho para iniciantes e para mergulhadores experientes.

O navio encontra-se adernado. O fundo dele é como um paredão. Olhando por cima pode-se ver esponjas coloridas e corais incrustados no casco, com o sol brilhando por cima.  Algumas vezes pode-se avistar arraias na areia a 15 / 30 metros do naufrágio. Existem também algumas moréias verdes enormes morando lá, não deixem de procurar por debaixo das peças, principalmente na área desmantelada.

Este é um grande mergulho para todos os níveis. Não é muito fundo, de fácil navegação ao redor do naufrágio, mergulhadores mais experientes podem explorar o interior do navio. No mergulho realizado lá, avistamos alguns peixes lua nadando pelo local além das grandes moreias residentes.

Serviços

Celular – Aruba – GSM funciona (dependendo apenas de liberação por parte da operadora do Brasil). Em Bonaire, o celular não funciona. É possível telefonar com cartões pré-pagos facilmente encontrados na ilha. Ligações com cartão de crédito saem bem mais caras.

Água – potável direto da bica (tanto em Aruba quanto em Bonaire), mas na dúvida, compramos água mineral no mercado.

Operadora de mergulho indica médico e telefone de contato em caso de acidente de mergulho (médico credenciado DAN).

Taxa de saída de Aruba – US$ 33

Taxa de saída de Bonaire – US$ 21

Marcelo Brandão
Marcelo Brandão é piloto-comandante de Boeing e Airbus, atualmente morando em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos. Mergulha desde 1999, sendo mergulhador técnico pela IANTD e Dive Master pela PADI.