Conhecendo o Arquipélago de Abrolhos na Bahia

Foto: Felipe Gonçalves Silva

“Quando te aproximares de terra, abre os olhos…”  Américo Vespúcio

Voei de São Paulo para Porto Seguro – Bahia, por lá, aluguei um carro e dirigi para Caravelas, ponto de partida do catamarã para o arquipélago.

Os 260km os quais separam Porto Seguro de Caravelas são de estradas precárias, na sua totalidade de pista simples, grandes filas de caminhões os quais dificultam e retardam a viagem, que durou aproximadamente 4h.

Caravelas é um município pobre do interior da Bahia, com pouca infraestrutura, não existe nenhuma rede de hotéis, tudo é muito simples e precário, porém, de um povo muito acolhedor e simpático. Cheguei à noite na cidade, as opções de restaurante eram limitadas, basicamente um bem modesto, porém o mais “arrumadinho” da cidade, localizado no pequeno no centro histórico.

Logo cedo fui ao cais municipal, ponto de partida do catamarã da operadora de mergulho, o horário programado para a saída eram às 7h, no horário o barco e toda a tripulação estavam prontos para zarpar, entretanto ficamos esperando uma escola de mergulho que vinha do Rio de Janeiro, a qual atrasou nossa partida em cerca de 3h.

O catamarã possui um excelente espaço interno, cabines arejadas, um bom deck para equipamentos, um solário na proa e o mais importante, uma estação de recarga de cilindros. A alimentação a bordo é caseira, farta e variada, todos os tripulantes e o dive master são extremamente atenciosos e solícitos.

A viagem à Abrolhos começa saindo do cais municipal localizado na foz do Rio Caravelas, nome foi atribuído ao rio, pois as naus portuguesas subiram ele com o objetivo de penetrar nos sertões do Brasil em busca da famosa Serra das Esmeraldas.

Com cerca de 1h de navegação atingimos profundidades de 14m, propícias para o encontro com as baleias Jubartes, cruzamos com pelo menos cinco grupos de baleias adultas, alguns com seus filhotes, os quais dão um show a parte e fizeram valer a pena todo o esforço para chegar a Caravelas.

Mais uma hora de navegação foi possível avistar o arquipélago e como num passe de mágica ele descortinou-se na frente do catamarã, depois de quase 3h de viagem.

Quase que instantaneamente ao atracar o catamarã na baía em frente à ilha de Santa Bárbara, uma monitora local do ICMBIO veio à bordo e fez uma rápida e objetiva explanação sobre o arquipélago e as regras de conduta no local.

O arquipélago é formado por cinco ilhas, Santa Bárbara, Sueste, Redonda, Siriba e Guarita. A maior ilha a Santa Bárbara é controlada pela Marinha Brasileira, possui além da base militar, há um farol e uma base de pesquisa civil.

Um fato o qual me chamou muito a atenção foi a presença de muitos bodes na ilha de Santa Bárbara, estes foram levados pelos primeiros navegadores portugueses para que se reproduzisse e pudesse servir de alimento fresco aos navegadores que por ali passassem.

A ilha da Siriba é o berçário dos Atobás-mascarados e marrons e Grazinas. Já a ilha Sueste é o lar das Andorinhas-do-mar-preta, e é impressionante como existe a separação das aves. Nos três dias em que permaneci no arquipélago não observei nenhuma ave “visitando” a ilha da outra espécie.

Como fui para Abrolhos para mergulhar e não para observar passarinhos, vamos aos mergulhos. Assim que a monitora do ICMBIO deixou o catamarã, devidamente autorizado pelo mestre da embarcação, caí na água para fazer um mergulho livre, em um local indicado pelo dive master como sendo o de maior concentração de espécie de peixes. Permaneci na água por cerca de uns 40min, nadei próximo da embarcação, junto às pedras e avistei pouquíssima quantidade de vida, poucas espécies e indivíduos, e esta impressão virou uma constatação em todos os oito mergulhos autônomos que realizei no arquipélago.

A viagem de mergulho apenas só não virou uma decepção por avistar pouca vida marinha, por ter avistado duas enormes tartarugas, uma de pente e uma cabeçuda, duas raias manteigas gigantes e, para fechar, um imenso mero lindo e manso o qual praticamente fiz uma selfie com ele.

Foto: Felipe Gonçalves Silva

Questionei bastante a tripulação sobre o porquê da escassez de espécies e de indivíduos no entorno do arquipélago, e todos me responderam categoricamente que era em razão da época do ano, e garantiram que se eu voltar no verão haverá uma grande quantidade de peixes das mais variadas espécies, mas não conseguiria avistar as Jubartes.

Sinceramente, não vale a pena o investimento de tempo, dinheiro e o esforço para visitar Abrolhos sem ver as baleias e somente ver peixinhos coloridos, eu prefiro ir a Laje de Santos onde a satisfação é garantida, e se der errado, pelo menos é perto de casa.

Realizei no total oito mergulhos, sendo seis diurnos e dois noturnos, no Portinho Sul, Mato Verde, Língua da Siriba, Chapeirões e Naufrágios Santa Catharina, Rosalinda e Guadiana.

A água é quente, em torno de 25°C usei apenas uma camiseta de neoprene e uma lycra de corpo inteiro, inclusive nos mergulhos noturnos.

Realizei um sonho de criança em conhecer o arquipélago, passei momento ímpar lá, conheci o cenário de inúmeros fatos de nossa história, desde a passagem de Américo Vespúcio o qual deixou uns bodes na ilha maior (sim, é atribuído a ele, além de ter batizado as Américas, o arquipélago e ainda deixou uns mamíferos em uma ilha sem água doce – somente das chuvas, e deu certo).

Foi o palco da Batalha de Abrolhos em 1631 quando uma esquadra Luso Espanhola composta por 19 embarcações escoltando 35 navios colocou pra correr após 7h de batalha, 18 embarcações de guerra da Holanda, deixando três delas no fundo do oceano, as quais nunca foram encontradas.

Senti minha curiosidade aflorar, creio que assim como Darwin em 1832, do porque aos Atobás e Andorinhas-do-mar-preta não fazem ninho na mesma ilha e como aqueles benditos bodes foram parar lá.