Conservando objetos submersos

Foto: Clécio Mayrink

Uma escavação arqueológica em meio húmido implica sempre na exposição dos artefatos recuperados em um ambiente para o qual não estão preparados. Após algumas dezenas de anos imerso, este material terá atingido uma situação de estabilidade no seu meio ambiente. Quando esta estabilidade é alterada, inicia-se um novo ciclo de deterioração. Desta forma, quando o objeto for recuperado, ele deverá ser fotografado e medido imediatamente para que se não percam informações vitais durante os processos de conservação e restauração.

A maior parte dos objetos recuperados possui uma película mineral dura, também chamada de “concreção”, que apesar de deformar o objeto e de esconder o que verdadeiramente se encontra em seu interior, produz um ambiente estável e impede a continuação do processo de corrosão iniciado pela ação do oxigênio dissolvido na água. Geralmente o que chamamos de concreções provenientes de naufrágios, são uma mistura de fragmentos de madeira, de materiais metálicos, de vidro, cerâmica e outros materiais, tudo embebido numa matriz de produtos de corrosão, sedimentos e alguns seres vivos marinhos.

O processo de concreção pode ser formado:

  • Através do crescimento de organismos na superfície do objeto;
  • Físico-químicos – pela dissolução e re-precipitação de carbonatos;
  • Bioquímicos – Através da diminuição da acidez devido a variadas ações microbiológicas;
  • Eletroquímicos – Onde a interação de metais de natureza diferente leva à corrosão acelerada do metal.

Todas as concreções deverão ser radiografadas de modo que se possa identificar a natureza dos objetos presentes e o grau de conservação, para que determine o processo adequado a ser tomado para a limpeza do objeto encontrado.

Dessalinização

A remoção dos sais minerais provenientes da água salgada é uma das partes mais importantes no processo de conservação dos objetos retirados do mar, especialmente quando o seu material constituinte for o vidro, a cerâmica ou pedra. O método mais utilizado consistem na imersão destes objetos em água salgada, que progressivamente deverá ser a cada dia, mais diluída com água destilada até que o nível de cloretos em meio aquoso seja considerado desprezível. Este tratamento poderá ter duração superior a um ano, mas é fundamental a sua realização para que o objeto perca todos os sais capazes de acelerar o processo de corrosão.

A identificação da natureza dos objetos recuperados é o próximo passo. Entre os materiais passíveis de serem encontrados em um naufrágio, encontram-se os materiais de origem orgânica – madeira, couros, marfim, osso, dentre outros. Materiais de origem não orgânica – metais, cerâmica, vidro, etc.

Materiais orgânicos

Os materiais de origem orgânica devem ser armazenados de maneira que permaneçam sempre húmidos, sob pena de sofrerem contrações e trincas permanentes e irreversíveis. Objetos de dimensões inferiores ou que se encontrem fragmentados, deverão estar sempre suportados por estruturas de apoio e o manuseio desses objetos deverá ser restringido ao mínimo. A inclusão de uma substância química solúvel que impede o crescimento de microrganismos decompositores, o armazenamento em condições de obscuridade e de baixa temperatura, são condições fundamentais para o sucesso do tratamento de conservação e restauração.

ArtefatoApós a dessalinização dos objetos, estes deverão sofrer um tratamento capaz de substituir a água contida em suas células por um produto inerte e físico-químicamente estável. Para este efeito utiliza-se geralmente um polímero de alta densidade denominado polietileno-glicol (PEG).

Metais

O ferro fundido é o material constituinte da maior parte dos canhões e âncoras retirados do fundo do mar. Após a sua retirada do ambiente marinho, estas peças irão desintegrar-se rapidamente se não forem imediatamente conservadas em água, pelo fato do processo típico de deterioração formar um núcleo metálico fragilizado, que por sua vez, é apenas envolvido por uma frágil cobertura de produtos de corrosão grafitizados. A exposição ao ar vai acelerar brutalmente o processo corrosivo na zona de contato entre a camada grafitizada e o núcleo metálico, conduzindo a um processo exotérmico de libertação de energia que por vezes, fará com que as peças venham a se desintegrar violentamente.

Por outro lado, o ferro forjado tem um teor de carbono muito mais baixo do que o apresentado pelo ferro fundido, o que leva a característica de malha de grafite, típica dos objetos deste tipo.

Se a peça não for dessalinizada, o processo corrosivo continuará na superfície e o núcleo metálico acabará por desaparecer no interior de uma camada rígida de concreção, o que dificilmente contribuirá na preservação das formas ou inscrições originais da peça. Tanto para o ferro forjado como para o ferro fundido, a presença de cloretos acelera o processo de corrosão, o que obriga a sua remoção. Para isso, colocamos as peças imersas em uma solução de água doce a 2% de soda cáustica. Após a remoção total dos cloretos, a peça é tratada eletroliticamente.

As ligas de cobre – tais como o bronze e o latão, são menos afetadas pela ação dos seres marinhos, visto que o cobre é tóxico para a maioria dos seres vivos, fazendo com que fiquem mais preservados. O processo corrosivo destes metais leva a uma mineralização da liga metálica o que origina camadas frágeis de produtos de corrosão. Se a peça for retirada sem a conveniente dessalinização, os cloretos irão ocasionar uma destruição do metal, no processo conhecido pelo nome de Doença do Bronze. Para que isso não ocorra, o objeto deverá ser imerso em uma solução de benzotriazol a 1%.

O chumbo e o estanho não necessitam de tantos cuidados na conservação visto que a mera imersão em água doce da peça, já será o suficiente para que o objeto se mantenha estável. O ouro e a prata são os metais menos passíveis de sofrerem corrosão marinha, embora a prata, quando impura, possa vir a ocasionar ligeiras concreções superficiais.

Cerâmica, Vidro e Pedra

Entende-se como cerâmica, o material que foi feito à base de barro e colocado em altas temperaturas. Um dos problemas de conservação deste tipo de material é a profusão de organismos vivos que cresce geralmente na sua superfície.

Outros problemas são os cristais de sais minerais que ao se desenvolver abaixo da camada exterior da peça, fazem com que a cobertura se rompa e se destaque da mesma. Não se deve permitir que as peças sequem de uma forma descontrolada.

A idéia deste artigo, é trazer mais informações sobre o tema. Lembre-se que a retirada de peças de naufrágio ou qualquer coisa esteja embaixo d’água, fere leis federais.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Produziu documentários sobre as Bahamas, Bonaire, Galápagos e Laje de Santos, visitando mais de 30 países. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.