A Controvérsia do Lusitânia

No começo do século XX, as travessias entre a Europa e os Estados Unidos eram disputadas por grandes empresas de navegação. Entre as mais famosas estavam a Cunard e a White Star Line que em uma busca sem fim para dominar este filão de ouro, construíram verdadeiros palácios flutuantes como o Mauretania e o Lusitânia, o Titanic e o Olympic. Cada novo design buscava maior conforto para os passageiros, maior capacidade de carga e um menor tempo de navegação entre o velho e o novo mundo.

A história do Titanic todo mundo conhece: Um navio majestoso que em sua viagem inaugural se chocou com um iceberg e afundou levando cerca de mil e quinhentas vítimas.

Já a história do Lusitânia passa despercebida, provavelmente por causa do estardalhaço causado pelo Titanic. O Lusitânia tem como “vantagem” em relação ao Titanic a profundidade. Enquanto o mais famoso fica na faixa dos quatro mil metros, o Lusitânia esta a cerca de noventa e dois metros de profundidade. Com o advento de misturas Trimix, este naufrágio se tornou acessível aos mergulhadores. Mesmo antes das misturas gasosas se tornarem populares, mergulhadores visitaram os destroços usando ar.

Se podemos chamar um evento relacionado a naufrágios de “triste”, este seria o caso do Lusitânia.

Tudo começou na primeira guerra e em 1915, as embaixadas imperiais da Alemanha anunciavam nos principais jornais, de preferência perto de anúncios sobre viagens transatlânticas, que um estado de guerra entre a Alemanha e a Grã Bretanha existia e que qualquer passageiro cruzando os mares em navios britânicos viajavam por conta e risco próprio. Este aviso não foi suficiente para persuadir 1.959 pessoas a não embarcar no Lusitânia para uma viagem à Grã Bretanha.

Após vários dias de viagem sem nenhuma ocorrência, o navio se aproximou das ilhas britânicas sem saber que estava sendo vigiado de perto por um submarino alemão. Na madrugada do dia sete de Maio de 1915, o U-20 disparou um torpedo que atingiu a proa do navio a boreste. Seguido ao impacto do torpedo, uma enorme explosão sacudiu o navio e o Lusitânia começou a afundar. Não mais que vinte minutos se passaram e o navio havia desaparecido levando consigo 1.200 pessoas.

Após este incidente, os Alemães alegaram que o Lusitânia não era um alvo comum, pois o mesmo carregava munições e armamentos para os britânicos.Debaixo de críticas da sociedade civil, o Lusitânia foi classificado como “alvo legítimo”. Muitas suposições foram feitas em relação ao naufrágio e as cargas a bordo. Alguns falam em uma enorme quantidade em ouro e a presença do diretor da Galeria Nacional de Arte da Irlanda entre os passageiros parece confirmar que algumas telas de Rubens, Monet e outros mestres da pintura estavam a bordo. Se estas pinturas tiverem sido transportadas em cilindros de zinco selados, como eram em algumas ocasiões, existe a possibilidade de elas ainda estarem preservadas no fundo do mar.

O Lusitânia ficou esquecido por quase cinquenta anos no litoral da Irlanda. Nos últimos trinta anos as coisas mudaram de rumo.

Nos anos 60, um ex-mergulhador da marinha americana chamado John Light comprou os direitos de salvatagem do casco e da maquinaria do Lusitânia. Utilizando os primeiros tipos de Aqualung, Light e seu time exploraram os destroços por muitos anos atrás de respostas sobre o motivo do afundamento e de sua carga preciosa. Infelizmente, John Light faleceu em 1992 e todo o resultado do trabalho de pesquisa que realizara foi com ele para o túmulo.

Em 1982, uma empresa de salvatagem americana, presidida pelo milionário Bemis Jr, trouxe a tona três dos quatro hélices de bronze do Lusitânia além de porcelanas e pratarias. O dono desta empresa alegou ter comprado os direitos de exploração dos sócios de John Light. Um dos belíssimos hélices do navio foi derretido e transformado em 3500 tacos de golf. Cada conjunto de tacos foi vendido por 9.000 dólares. Esta empresa utilizou de mergulhadores de saturação especializados contratados da empresa Oceaneering International.

Em 1992, o Dr. Robert Ballard, descobridor do Titanic e do Bismarck iniciou uma investigação no Lusitânia. O objetivo era localizar o ponto de impacto do torpedo. Infelizmente não possível aos pequenos submarinos realizar penetrações no casco, pois as passagens eram muito pequenas e apresentavam perigo real aos equipamentos. Os trabalhos foram cancelados.

Após dois anos da expedição de Ballard, em 1994, uma equipe formada por mergulhadores Anglo-Americanos utilizando misturas Trimix esteve nos destroços. Entre eles estava o americano Gary Gentile, autor de livros de naufrágio e considerado por muitos como um dos melhores do mundo neste assunto. Esta equipe realizou dezenas de mergulhos no naufrágio durante duas semanas de operações. O que era para serem duas semanas de divertimento entre amigos se tornou um pesadelo: Não convencidos pelo atestado de posse dos destroços apresentados por Bemis Jr, a equipe mergulhou sobre protestos e tiveram que enfrentar uma acusação de invasão de propriedade. Bemis JR alegou ser dono inclusive das fotos e filmes realizados no navio pela equipe.

A discussão chegou à mídia e além de Bemis Jr, a viúva de John Light também alegou direitos sobre o navio alem do Ministro Irlandês de Arte e Cultura que também quis impor uma lei de herança marítima sobre o naufrágio que jazia em águas irlandesas, proibindo a pratica do mergulho na área sem permissão própria.

A equipe de 1994 criou uma empresa para também poder entrar na justiça e disputar os direitos sobre o mergulho e imagens.

Há alguns anos atrás, as cortes americana e irlandesas chegaram a um veredicto: O milionário Bemis Jr realmente é o proprietário dos casco e acessórios do navio. Os Irlandeses ficaram com a carga e os pertences pessoais. O Grupo de Gary Gentile não foi acusado de invasão de propriedade. Eles publicaram o material sobre a expedição (Gary Gentile tem dois livros a respeito) mas, os ganhos referentes à venda destes produtos foram revertidos para pesquisa do mergulho.

Bemis Jr continua na batalha contra o governo irlandês para reaver os direitos sobre a carga e objetos pessoais. E se acaso forem encontrados as pinturas, esta batalha promete ser longa.

Rodrigo Coluccini
Criador e proprietário da Revista Deco Stop, foi um dos responsáveis pela divulgação em larga escala das informações sobre naufrágios no litoral brasileiro, fato antes restrito a poucos. É co-autor do manual de naufrágios da certificadora PDIC. Seu trabalho é citado em vários livros atuais sobre história maritima brasileira confirmando a importância de seu trabalho.