Corveta Camaquã

Ao iniciar a segunda guerra mundial, o almirante Karl Doenitz apostava no sucesso da guerra submarina, que tinha como agente, os temíveis submarinos alemães, conhecidos popularmente como U-Boats.

Hitler apostava suas esperanças de vencer a guerra na infantaria bem treinada, carros de combate e aviação eficiente e na força de superfície representada principalmente pelos navios “Graf Spee” e “Bismarck”.

Durante o “calor” de decisões que um estado de beligerância impõe, o almirante Doenitz conseguiu convencer Hitler a enviar alguns poucos u-boats para a costa Leste dos EUA, para colocar em prática, táticas criadas e desenvolvidas depois da primeira guerra mundial.

Ao se aproximarem do litoral americano, os comandantes de u-boats encontraram o cenário perfeito para eles: cargueiros, petroleiros e todos os tipos de navios navegavam sem proteção, e à noite – quando os u-boats ficavam mais protegidos- ostentavam todas as luzes à bordo acesas, se tornando um alvo fácil aos “lobos cinzentos” !

Sucesso total !   Os poucos u-boats afundaram dezenas de navios e o Almirante Doenitz colheu os frutos de sua insistência. Hitler, satisfeito e acreditando no sucesso da força submarina, autorizou o envio e construção em escala industrial de mais u-boats.

Assim, teve início a conhecida “Batalha do Atlântico”.

O objetivo principal de afundar navios, era de “aleijar” a força aliada, impedindo que provisões de guerra que eram transportadas pelos mares não chegassem a seus destinos.

Após centenas de toneladas terem sido enviadas ao fundo do mar por torpedos nazistas em todo o oceano Atlântico, de norte a sul, teve início a reação aliada.

Além do uso de aviões, foi criada a tática do “comboio”. Diversos navios esperavam no porto até que um número pré-estabelecido se juntasse, onde posteriormente iniciavam sua jornada. Este procedimento, após ter sido considerado um sucesso, recebeu ajuda dos militares, que enviavam navios de guerra para escoltá-los com segurança.

Cientes da importância de se proteger a frota mercante no Oceano Atlântico, os americanos transferiram alguns de seus navios de guerra da frota do Oceano Pacífico para servir na guerra do Atlântico. Muitas alianças foram feitas, inclusive com o Brasil, que possuía diversos pontos estratégicos em seu litoral. Contrário ao que muitos brasileiros cogitavam, a Segunda Guerra Mundial esteve muito próxima de nós. Em nosso litoral foram torpedeados cerca de setenta navios e dez submarinos alemães e um italiano foram afundados por aqui.

Motivado pelos afundamentos de navios mercantes nacionais, o Brasil declarou-se em “Estado de Guerra” contra as nações do eixo em 31 de Agosto de 1942.

Para se ter uma idéia do poderio dos submarinos alemães, apenas um deles, o U-507 , afundou cinco navios no período de 15 a 17 de agosto, provocando a morte de 607 pessoas, criando indignação da população brasileira.

Atendendo ao chamado da pátria, a Marinha brasileira deslocou vários navios de sua parca guarnição para compor a “Força Naval do Nordeste” que tinha como objetivo compor comboios e proteger a marinha mercante.

Um dos navios que compôs a Força Naval do Nordeste foi a Corveta Camaquã. Construída como navio mineiro em 1938 no Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, entrou em serviço em 1940. Os navios mineiros da classe carioca logo sofreram modificações para se tornar Corvetas, e participar das operações da Marinha na Segunda Guerra Mundial.

Em 1942 já iniciou seus trabalhos como escolta de comboios e patrulha no trecho Bahia – Pernambuco – Rio Grande do Norte e Fernando de Noronha.

Quando retornava de seu quinquagésimo comboio, a cerca de 12 milhas nordeste do porto de Recife, a Corveta Camaquã foi acossada por um terrível mau tempo e naufragou.

Existem duas versões sobre o que aconteceu às 09:30hs do dia 21 de julho de 1944:

A primeira e mais antiga, seria que o comandante da embarcação, o Capitão-de-Corveta Gastão Monteiro de Moutinho, estava navegando com os lastros de vazios – compartimentos destinados à água salgada, utilizada para estabilizar o navio. Como o impacto da primeira onda, o navio adernou um pouco e logo foi acertado por uma segunda “vaga” bem maior. A reação imediata do comandante foi colocar a proa da Corveta contra a correnteza, para que os tanques de lastro enchessem, estabilizando o navio em seguida. Não houve tempo, e uma terceira onda acabou por virar a Camaquã, que afundou levando consigo 33 homens, quase metade da tripulação. Dentre as vítimas do naufrágio, estava o próprio comandante.

A versão e mais recente, diz que a Corveta foi atingida em ataque. Esta hipótese foi levantada por mergulhadores que estiveram no naufrágio. A posição do convés em relação ao continente, escotilhas com vidros trincados e diversas portas abertas, foram base para aqueles que defendem esta tese.

Para mim, ainda é válida a versão oficial, a de que a Corveta Camaquã fora afundada por mal tempo. Normalmente quando se navega em más condições, todas as portas e escotilhas são fechadas, contudo, em momentos finais do navio, tudo pode ter ocorrido, até mesmo um “pânico geral” dos tripulantes, que chegaram a lutar por suas vidas, abrindo todas as portas para a salvação.

E no fundo do mar, é isso que vemos: Um navio feito para a guerra mas que não resistiu à grande força do mar. Adernada de boreste, a Corveta Camaquã ainda inteira e chacoalhada pelas marés, mostra ainda seus utensílios, armas, cargas de profundidade na areia e os grande hélices que a impulsionavam. No meio dos destroços jogados na areia, ainda é possível observar ossos dos que vieram a falecer no naufrágio. Há evidência terrível de momentos de pavor e desespero.

E por todo o navio, a vida já faz dali sua casa. Dentro do navio, um Mero grande, com mais de 100kg, e por fora, diversos peixes grandes, acompanhados de imensas raias que planam pelas estruturas do navio.

Por muitos anos, a Corveta Camaquã passou despercebida, tendo sido ofuscada pelo brilho de sua irmã de armas: A Corveta Ipiranga de Fernando de Noronha. Ambos grandes mergulhos em naufrágio, porém, nos últimos dois anos, a Camaquã tem superado a Ipiranga devido a sua aura de mistério e história deste naufrágio ainda pouco visitado.

Sem dúvida, ambos são grandes mergulhos para aqueles que visitam o nordeste, e Camaquã merece ser visitada pelo extraordinário mergulho que oferece.

Rodrigo Coluccini
Criador e proprietário da Revista Deco Stop, foi um dos responsáveis pela divulgação em larga escala das informações sobre naufrágios no litoral brasileiro, fato antes restrito a poucos. É co-autor do manual de naufrágios da certificadora PDIC. Seu trabalho é citado em vários livros atuais sobre história maritima brasileira confirmando a importância de seu trabalho.