Cuidados especiais com a Caixa Estanque

Foto: Clécio Mayrink

Algum tempo atrás, estava conversando com um grande amigo meu, o Robson Felippelli, sobre alagamento e caixas estanques, e lembrei que no ano 2000, estava entrando na Caverna da Sapata em Fernando de Noronha, quando me dei conta de um pequeno “riacho” que saía desde o o-ring da tampa traseira da caixa estanque, indo em direção ao meio interior dela.

Por falta de conhecimento na época, demorei para entender o que era aquilo, pois foi a minha primeira caixa estanque (modelo Croma) e que havia pego uma semana antes, e tudo era novidade…

Na verdade, comprei a câmera, fizeram a minha caixa em 3 dias e viajei 2 dias depois.

Quando me dei conta que esse pequeno “riacho” era na verdade, água entrando na caixa, virei ela para baixo e nadei em direção à superfície, pois estava no início do mergulho. Com usava uma lente grande angular, me veio à cabeça que eu virasse a câmera para baixo, até o nível da água chegar na câmera, eu teria mais tempo para tentar salvá-la, e foi o que deu certo.

A correria foi grande, hoje, chega à ser engraçado assistir o vídeo da câmera virada para baixo enquanto nadava em direção ao barco.

Rapidamente pedi ajuda ao divemaster e pedindo para manter a caixa virada com o “domo” para baixo, deixando com que a água que entrou, ficando somente na área do domo, atingindo somente a lente grande angular, deixando a câmera livre, e consegui salvá-la !

Mais 1min, e acho que tudo teria ido embora.

Isso aconteceu em função de um minúsculo grão de areia que havia ficado entre o o-ring e seu berço, devido a minha preguiça em não querer limpar e lavar a caixa todos os dias por causa da correria que era.

Depois desse “acorda Clécio”, nunca mais….  atenção total e toda limpeza nunca é demais.

Como sempre estamos aprendendo, alguns pontos devem ser observados e analisados, pois no dia-a-dia, tenho visto alguns procedimentos adotados por muitos, como não sendo o ideal para a manutenção e segurança dos equipamentos de vídeo e fotos…

Na embarcação

Jamais podemos dizer que estamos 100% certos, mas é parar e analisar.

Particularmente sou contra deixar a câmera, seja ela de vídeo ou foto, nos baldes de água “doce” enquanto navegamos ou mesmo, entre um mergulho e outro. A água nunca é limpa, e após o mergulho, ela passará a ter salinidade proveniente da água que acaba vindo junto com a câmera e principalmente, do interior dos braços articulados.

Já vi dezenas de vezes, esses baldes com a água já escura de tão suja que estava. Além disso, há sempre aqueles “bak´s” entre as câmeras e o recipiente. Os equipamentos podem por vezes, ficar se debatendo entre eles, facilitando o deslocamento mínimo de uma tampa traseira.

Retornando do mergulho, tire o equipamento, pegue uma toalha e molhe na água do mar. Não na água doce, pois normalmente, a água das embarcações estão bem mais quentes que a água do mar, e o resultado será zero. Envolva a toalha molhada pela água do mar na caixa e a deixe à sombra. Gradativamente, isso permitirá equalizar a temperatura da caixa com o ar e diminui as chances de embaçar no interior da mesma.

Pelo sob o o-ring - Foto: Clécio Mayrink
Pelo sob o o-ring – Foto: Clécio Mayrink

Entrou na água, evite ficar muito tempo na superfície

Outro ponto importante e que poucos de atentam ou sabem… a falta de pressão no o-ring.

Enquanto na superfície, o mergulhador está mais apto a ter problemas com a vedação do que durante o mergulho propriamente dito. Enquanto na superfície, não há pressão atuando sob o o-ring (com exceção das travas), o que pode permitir que pequenas gotas venham adentrar-se sem que o mergulhador perceba, contribuindo para um acúmulo de sal.

Ao contrário que muitos pensam, as travas da tampa traseira somente servem para travar a tampa no intervalo entre a superfície e os primeiros metros de descida. Se o mergulhador soltar as travas embaixo d´água à partir de uma certa profundidade, é impossível remover a tampa traseira na mão. A própria pressão da água fará com que a tampa fique fixada e não solte. Embaixo d´água as travas não possuem função alguma.

E o sol ?

Fique longe dele para que não ocorram problemas com umidade e pressão no interior da caixa.

O choque de temperatura da caixa estanque que ficara muito quente em razão da temperatura na superfície contra a temperatura da água, seja ela salgada ou doce, acarretará em uma “neblina” na lente da caixa, impossibilitando a captação de imagens.

Quanto à variação de pressão, isso é difícil de ocorrer, mas é possível deslocar o-ring dependendo do berço. Com o calor do sol sob a caixa, haverá um aumento da pressão no interior da caixa dela. Essa variação pode ser mínima, mas todo cuidado é pouco.

OringLubrificação de o-ring´s

Algumas pessoas dizem que o uso de silicone é recomendável, o que discordo também.

Conversando com um especialista na área, essa coisa de “lubrificar” o-ring não existe. O correto é trocá-lo de tempos em tempos. A lubrificação só contribui para que pêlos e grãos se aderem à massa do silicone, que pode parecer pouca, mas milimetricamente falando, pode acarretar em problemas.

Porque vira e mexe tomamos ciência de que um mergulhador na embarcação teve seu equipamento inundado ?

Na maioria das vezes, a causa tem como origem o pêlo ou grão que passou despercebido. O duro é que todos estão à mercê disso e é uma coisa complicada mesmo, pois com toda a atenção, às vezes fica alguma coisa.

Mas voltando ao o-ring, com o tempo e em razão do contato com o sal, sol e calor, micro rachaduras podem aparecer. Um exemplo disso em escala maior, são as rachaduras nas mangueiras dos reguladores. Se você não torcer bem a mangueira, muitas vezes é complicado encontrar essas rachaduras, imagine em um o-ring que é bem menor ?

Remova os pelos ou grãos utilizando um paninho.
Remova os pelos ou grãos utilizando um paninho.

Na minha concepção, que a melhor solução para as caixas estanques com apenas 2 o-ring´s, um para a tampa e o outro para o domo. Não existiriam botão de acionamento na caixa. Eles estariam no punho como em um controle remoto e executariam o comando através de infravermelho, que por estar próximo da caixa, funciona perfeitamente bem apesar de estar embaixo d´água;

A Light in Motion e já vêm fabricando isso já há algum tempo e têm dado bom resultado. Isso diminuiria drasticamente as chances de uma inundação.

Mas enquanto não temos uma solução melhor e continuamos com essas dezenas de o-ring´s em nossas caixas, o melhor a fazer, é tomar todo o cuidado com o equipamento. Muita atenção na montagem e cuidado ao guardar seu material.

Dê sempre a preferência em deixar seu equipamento em cima de algum tecido (casaco, bolsa ou toalha), de forma que eles se ajustem conforme o peso e contorno.

Pino do disparador normalmente encontrado nas caixas da Ikelite.
Pino do disparador normalmente encontrado nas caixas da Ikelite.

Botão de disparo das Caixas Ikelite X Alagamento

Resolvi acrescentar mais esse último tópico, em razão de um problema nos botões de disparo das caixas Ikelite e que vêm se tornando uma coisa comum e muito desagradável para o mergulhador, pois esse problema permite o alagamento da caixa estanque.

Estava em Recife em 2009, onde tive a oportunidade de conhecer o pessoal muito bacana da produtora Dolphin Eye. Durante as saídas de mergulho, infelizmente ocorreu um alagamento de uma das caixas estanques de foto utilizadas por eles, e chegou-se à conclusão, que devido a um problema no projeto, as caixas da Ikelite podem facilitar um alagamento.

Isso é um problema grave e infelizmente a empresa em questão, continua a produzir os equipamentos sem uma correção para o problema.

Basicamente, todos os botões de disparo feitos pela Ikelite, possui um pino, que em tese, facilita o disparo à ser feito pelo mergulhador. O detalhe, é que esse pino não é colocado por fixação (soldagem / colagem), e sim, por rosqueamento. Com o tempo ele se desenrosca e repentinamente solta durante o mergulho, e a água entra por essa rosca e pelo interior do pino que adentra na caixa, permitindo que a água seja sugada para o interior da caixa, alagando a mesma por completo.

Se você possui ou cogita em comprar uma caixa dessas, esteja sempre atento a este pino do disparador, pois ele jamais poderá se soltar durante o mergulho. Antes de mergulhar, verifique antes se o pino está rosqueado até o final, ou talvez, dê um pingo de cola superbonder deixando que a cola pegue um pouquinho do pino e da base, para tentar dificultar que o mesmo se desenrosque facilmente.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.