Direto ao Ponto – Orientação Subaquática

Foto: Clécio Mayrink

Há muitos anos atrás quando completei meu curso básico de mergulho, um dos pontos que mais me impressionou foi a habilidade do meu instrutor para mergulhar por mais de uma hora em um rochedo no meio do nada e retornar exatamente ao local de partida (o cabo da âncora do barco) com uma precisão milimétrica e sem colocar a cabeça para fora d’água uma única vez. Por meses tentei repetir esta “façanha” e, invariavelmente, fui mal sucedido – exceto em uma vez que me perdi completamente e acabei achando o barco por acaso.

Conformado, matriculei-me em um curso de orientação subaquática. Em pouco tempo conseguia realizar a “façanha”, não apenas naquele rochedo como em muitos outros lugares. Agora era a vez de meus alunos ficarem impressionados com a minha “habilidade sobre-humana” !

Na verdade tudo não passava de treinamento, experiência e conhecimento do local.

Por que navegar ?

A capacidade de orientar-se corretamente debaixo d’água é um dos fatores que diferenciam os mergulhadores avançados dos iniciantes. O ser humano normalmente utiliza referências visuais, sonoras e a própria força da gravidade para orientar-se em terra. Uma vez submerso, ele é privado de suas referências usuais e precisa encontrar outras para que possa orientar-se. Isto é importante por diversas razões.

Em primeiro lugar, pela segurança. A desorientação é um dos fatores que mais contribuem para o aumento da ansiedade do mergulhador e pode, aliada a outros pontos de stress, eventualmente levar ao pânico. No caso de separação da dupla, um plano de mergulho conjugado a uma boa navegação facilita o reencontro do companheiro. Sem uma navegação adequada, o mergulhador pode até ser incapaz de encontrar o barco ou o ponto de partida no litoral ao final do mergulho, criando uma situação de risco.

A orientação também traz mais conforto. Reduzindo o stress e permitindo que o mergulhador vá de um ponto a outro pelo melhor caminho, técnicas de navegação reduzem o consumo de ar e permitem um melhor aproveitamento do tempo de fundo. Quem já experimentou sabe que retornar ao barco submerso é muito mais confortável que fazer o mesmo trajeto pela superfície completamente equipado. Além disso, elas facilitam o mergulho em condições adversas (como a noite ou em águas de baixa visibilidade) e permitem que a equipe retorne a pontos de mergulho considerados interessantes.

Navegação e Orientação

Correndo o risco de simplificar demais, navegação subaquática nada mais é que iniciar o mergulho em um determinado ponto e deslocar-se até outro ponto pré-determinado (o local de destino) conhecendo a cada instante sua posição em relação aos dois pontos – é tudo uma questão de posição, direção e distância. Esta definição é algo como dizer que o mercado financeiro é uma coisa simples, bastando comprar na baixa e vender na alta para se ganhar dinheiro, mas ela é sem dúvida nenhuma verdadeira.

Existem diversas técnicas diferentes de orientação que podem ser utilizadas debaixo d’água e o mergulhador deve saber quais delas combinar em cada situação. Os fatores determinantes desta escolha são basicamente visibilidade, existência de correntes e tipo do mergulho. Certamente localizar um pequeno objeto em águas com um metro de visibilidade exige técnicas bastante diferentes das utilizadas em um mergulho numa parede de coral no Caribe.

As técnicas de navegação geralmente são divididas em dois grandes grupos: as técnicas de navegação natural (que utilizam características naturais ou artificiais do local como referências) e as de navegação por instrumentos (que utilizam bússolas, cronômetros e outros instrumentos).

Distância

Independentemente dos recursos de navegação utilizados, a avaliação correta de distâncias é fundamental. Infelizmente esta habilidade é precária na maioria dos mergulhadores – se você duvida, pergunte a um grupo qual a visibilidade em um mergulho ou a quantos metros está um determinado objeto. Certamente você receberá respostas completamente diferentes, com a maior gama de variação imaginável !

Nos mergulhos comuns, a utilização de recursos como cabos com distâncias pré-marcadas, sonares portáteis ou braçadas é inviável. No entanto, se lembrarmos que distância equivale a tempo multiplicado por velocidade, surgem algumas alternativas interessantes para estimarmos distâncias. Alguns (como consumo de ar) são imprecisos demais, mas outros (como velocidade média e batidas de perna) oferecem bons resultados.

Velocidade média: cada mergulhador pode calibrar sua velocidade média de natação. Em uma piscina ou no mar, marque com o auxílio de uma trena um trecho de 100m. Em seguida, totalmente equipado, percorra este trecho, cronometre e anote o tempo gasto. Repita este processo algumas vezes tanto submerso quanto na superfície, sempre em ritmo normal e anotando cuidadosamente os resultados. Tire então a média aritmética dos tempos gastos para os percursos na superfície e repita o cálculo para os gastos debaixo d’água. Vamos supor que você descobriu que necessita de três minutos para percorrer 100m submerso. Três minutos equivalem a 180 segundos e, dividindo 100m por 180 segundos você conclui que nada a aproximadamente 0.55 m/s. Assim fica fácil determinar, por exemplo, quanto tempo você deveria levar para atingir um naufrágio a 300m da praia: basta dividir 300m por 0.55m/s para obter 545s ou seja, cerca de 9 minutos.

Batidas de perna: outro método utiliza as batidas de pernas (“ciclos natatórios”) para estimar distâncias. O procedimento é o mesmo do caso anterior, mas desta vez você vai contar quantos ciclos natatórios você precisa para percorrer 100m. Cada ciclo natatório se inicia e termina quando uma mesma perna inicia o movimento de descida. Vamos supor que para percorrer 100m você necessite de 120 ciclos. Dividindo 100m por 120 ciclos, você descobre que percorre 0.83m/ciclo. Assim, para atingir o mesmo naufrágio a 300m da praia, você necessitaria de aproximadamente 360 ciclos.

Vale lembrar que estes métodos são relativamente imprecisos e que seus resultados variam de mergulhador para mergulhador e de dia para dia. Fatores como correntes, controle de direção, condicionamento físico e equipamento utilizado influenciam diretamente nas estimativas. Para obter bons resultados, prática e paciência são fundamentais.

Foto: Clécio Mayrink

Navegação Natural

Uma vez que o mergulhador está capacitado a avaliar distâncias, o primeiro recurso para obter informações de posição e direção é a chamada “navegação natural”. Ela é baseada na observação de pontos de referência naturais ou artificiais dentro ou fora d’água e pode ser usada por qualquer mergulhador na maioria das condições, não exigindo equipamento especial.

O segredo da navegação natural é observar constantemente tudo a sua volta, começando antes mesmo de entrar na água. Qualquer coisa pode servir de referência: correntes, relevo do fundo, vida marinha e muito mais. Na descida, olhe a seu redor e procure notar alguma característica significativa do local, como um grande coral cérebro ou uma rocha com um formato peculiar. Uma vez no fundo, pare e observe novamente. Durante o mergulho, existem diversas características que podem ser usadas como referência. As principais delas são:

Relevo do fundo: formações rochosas, bancos de areia, pedras com formatos que chamem a atenção ou mesmo objetos artificiais como poitas, âncoras e naufrágios são excelentes referências para a navegação. Basta estar atento a elas e eventualmente tomar nota em uma prancheta das mais significativas.

Um item que quase sempre passa despercebido dos mergulhadores é o relevo da areia. Normalmente, as ondas na superfície da água criam “costelas” na areia do fundo. As costelas são em geral paralelas à costa e algumas vezes possuem “lábios” que apontam para a direção da praia – repare bem no início do mergulho e você poderá usar isto como uma referência em locais sem outros pontos de destaque.

Movimentação da água: muitos mergulhadores utilizam a corrente como referência de direção, mas nunca é demais lembrar que ela pode mudar de direção durante o mergulho, em função do relevo ou das condições do mar e da maré. As correntes podem também influenciar a navegação de forma indesejável: o mergulhador pode estar nadando na direção correta mas sendo arrastado de lado pela corrente ou ainda ter suas estimativas de distância distorcidas por estar nadando contra ou a favor da corrente.

Profundidade: muitas vezes a profundidade pode ser uma boa referência. Com o auxílio de um profundímetro, saber que um determinado naufrágio está a 18m ou que a âncora de seu barco estava a 6m pode ajudar muito. Você pode restringir suas buscas a estas profundidades. Ao perceber que você está a 22m em uma praia com declive constante enquanto você procurava um naufrágio a 15m indica que você já passou pelo local desejado.

Por outro lado, a profundidade não é uma boa referência em locais em que a declividade do fundo é muito pequena (poucos metros de variação podem corresponder a centenas de metros na horizontal) ou em locais onde o relevo do fundo é muito irregular. E não se esqueça de levar em conta a variação da maré de um dia para o outro.

Luminosidade: a luz natural é outra referência útil em alguns casos. Ao iniciar o mergulho, olhe em direção à superfície e repare no ângulo de incidência dos raios solares. Compare este ângulo com sua direção. Na volta, os raios solares deverão estar incidindo no ângulo contrário. Lembre-se que este ângulo muda conforme a posição do sol, que varia ao longo do dia. Verifique as sombras de objetos no fundo e do próprio barco e grave suas posições com relação aos objetos. Novamente, na volta elas deverão estar na direção oposta.

Duas observações são importantes para quem vai utilizar navegação natural. Primeiro, utilize somente referências fixas. Não adianta nada utilizar a âncora de outro barco como referência se quando você retornar do mergulho o barco já tiver ido embora. Segundo, observe sempre com o que suas referências se parecem quando vistas pelo lado contrário. Aquela pedra coberta cheia de vida que você notou na ida pode passar despercebida quando vista pelo outro lado na sombra durante o caminho de volta.

Navegação por instrumentos

Em muitos casos a navegação natural precisa ser complementada para que o mergulhador consiga atingir seu objetivo. É a hora da chamada “navegação por instrumentos”. Embora hoje existam até mesmo equipamentos do tipo GPS que funcionam debaixo d’água, normalmente são utilizados três instrumentos básicos: o relógio ou cronômetro, o profundímetro e a bússola. Os dois primeiros são velhos conhecidos dos mergulhadores e exigem muito pouca habilidade para seu uso.

A bússola por sua vez não é tão comum e o fracasso nas primeiras tentativas de uso levam muitos mergulhadores a rotulá-la como “inútil”. Nada mais distante da verdade: a bússola é um os mais importantes instrumentos criados pelo homem. Qualquer um é capaz de utilizar a bússola para determinar uma direção geral (para que lado está o barco ou a costa), mas seu uso como instrumento de navegação de precisão requer treinamento, habilidade e muita, muita prática.

Os instrumentos podem ser montados no braço (através de pulseiras), no console de instrumentos ou ainda em uma prancheta de navegação (a melhor alternativa, já que todos os instrumentos podem ser observados simultaneamente). A posição do relógio e do profundímetro não são tão importantes, mas para que a bússola possa ser utilizada corretamente é fundamental que ela seja mantida na posição horizontal (para evitar o travamento da agulha) e perfeitamente alinhada com a direção de movimento do mergulhador.

Se você optar por utilizar a bússola no braço esquerdo, mantenha o braço direito esticado para frente e o esquerdo com o cotovelo a 90º, segurando com a mão esquerda no cotovelo do braço direito. Os ângulos de 90º são importantes para manter a linha de navegação alinhada com sua direção de movimento. No entanto, esta posição não é cômoda ou fácil de se manter, principalmente com uma roupa mais grossa ou apertada – daí a preferência dos mergulhadores por outras posições de montagem. Com a bússola no console ou em uma prancheta, o processo é bem mais simples: basta segurá-la com os dois braços completamente esticados a sua frente.

Sempre que possível, prefira olhar diretamente à frente, utilizando a janela lateral da bússola e a “mira” da parte superior ao invés de olhar a bússola de cima para baixo – isto oferece uma precisão muito maior ao navegador ao mesmo tempo em que permite a observação simultânea da bússola e do ponto de destino.

O ideal é aprender a usar a bússola em terra firme antes de aventurar-se na água. Praticando em uma área de terra ou areia, você poderá até ver o seu curso real através de suas pegadas.

Foto: Clécio Mayrink

Exercícios que ajudam

Alguns exercícios simples ajudarão você a adquirir um mínimo de familiaridade com a bússola.

  1. Marque um ponto de partida e escolha um ponto de destino a cerca de 50m ou 100m. Aponte a linha de navegação em direção ao destino e, quando agulha estiver estável, mova os indicadores de curso para a posição da agulha. Inicie então o percurso, mantendo a linha de navegação na direção do movimento e agulha entre os indicadores. Se você preferir utilizar a janela lateral, será preciso memorizar a leitura em graus correspondente a seu ponto de destino e tentar manter esta leitura da mesma forma que você manteria a agulha entre os indicadores.
     
    Durante o percurso tente não olhar para o destino para não tirar o sentido do exercício. Estime a distância percorrida contando os passos (que funcionam como batidas de perna) e utilize esta estimativa para saber se você está perto ou não do destino.
     
    Você conseguiu chegar ao local desejado ?
     
    Olhe suas pegadas e veja se seu curso parece com uma reta ou com um caminho de rato. Repita o exercício até conseguir realiza-lo sem dificuldade.
     
  2. Do destino, tente retornar ao ponto de partida. Para isto é preciso determinar o “curso recíproco”: aquele que o colocará no sentido oposto àquele que você estava usando. Para isto, gire a coroa 180º da posição original. Se você estava usando a janela lateral, some 180º à leitura do curso original (se o resultado for maior que 360º, subtraia 360º para obter o curso recíproco correto). Se você seguiu um curso de 70º do ponto de partida para o destino, o curso recíproco é de 250º.
     
  3. Se você conseguiu realizar sem problemas os exercícios anteriores, utilize três pedaços de linha de mesmo comprimento para marcar no chão os três vértices de um triângulo equilátero. Meça em passos a distância a ser percorrida em cada lado e, partindo de um vértice, tente percorrer o triângulo usando a bússola e a contagem de passos. Note que apesar de os ângulos internos do triângulo serem de 60º, cada curva deverá ser de 120º.
     
  4. Repita o exercício anterior utilizando um quadrado. Neste caso, as curvas serão de 90º.

Quando você estiver confiante em suas habilidades, pode tentar repetir os mesmos exercícios debaixo d’água. Uma piscina olímpica pode ser útil para praticar o controle de direção e profundidade, mas será somente no mar, em um lago ou represa que você poderá praticar realmente.

Algumas dicas finais

  • Em percursos mais longos, utilize objetos no caminho como pontos de referência intermediários. Com o auxílio da bússola, localize visualmente algo que esteja na direção desejada e simplesmente nade até lá. Pare e utilize a bússola para localizar um objeto mais adiante e repita o processo, quebrando o percurso em diversas etapas menores.
     
  • Prefira sempre a navegação em duplas, principalmente se você tiver que navegar a meia-água. Um dos mergulhadores mantém sua atenção na bússola e o outro, nadando um pouco à frente, controla a profundidade e evita que o navegador bata de frente em algum obstáculo. A posição a frente é importante pois evita que o navegador tenha que desviar a atenção da bússola para localizar seu companheiro.
     
  • Ao navegar, procure não contornar obstáculos pelos lados. Contorne-os por cima sempre que possível, evitando um desvio desnecessário de seu curso.
     
  • A descida é o momento mais crítico do mergulho, quando a maioria dos mergulhadores perde a orientação. Nesta hora, todo cuidado é pouco. Imediatamente após chegar ao fundo, pare e reoriente-se.
     
  • Cuidado com o controle de flutuabilidade. É comum o mergulhador estar tão atento à bússola que se esquece de controlar a profundidade, indo muitas vezes mais fundo do que pretendia ou retornando inadvertidamente à superfície.

Conclusão

Se você quer aprender mais sobre navegação, o caminho mais simples e seguro é inscrever-se em um curso de mergulho avançado. Oferecido por praticamente todas as escolas e certificadoras, a maioria dos cursos avançados inclui aulas teóricas e práticas de navegação em seus currículos. Estes cursos são muito mais abrangentes que este artigo, cobrindo temas como localização de pontos de mergulho com base em referências na superfície, noções de utilização de cartas náuticas, mergulho com visibilidade restrita e busca e recuperação.

Curso completado e com a bússola na mão, é só aprimorar a técnica a cada mergulho.

Pedro Paulo Cunha
É engenheiro naval e atua na área de informática desde 1981, sendo atualmente responsável pela área de sistemas de um banco. Começou no mergulho autônomo em 1983, e iniciou sua carreira de instrutor em 1984. É instrutor PDIC, NAUI e SSI e instructor trainer TDI. É credenciado em diversas especialidades, desde Mergulho sob o Gelo (PADI e NAUI) a mergulho com misturas / Trimix (TDI) e é autor de cursos de especialidades NAUI. Escolheu o mergulho técnico e equipamentos avançados de mergulho como área de especialização, tendo também, um grande interesse em história do mergulho, sendo o único membro brasileiro da Historical Diving Society. É responsável pelas atividades da Tech Diving em São Paulo.