Dive Cage: “Engaiolada” para ver de perto o grande Branco

Foto: White Shark Project

Começar a praticar mergulho autônomo há alguns anos só fez aumentar meu interesse pelo mar e pelos seres que nele habitam. Imagino que toda atividade praticada com muita paixão tenha aquilo que podemos considerar como sendo o “top”, o “ápice”, enfim aquilo que não dá pra deixar de fazer uma vez que seja na vida.

Eu o fiz por duas vezes.

Mergulhei em uma gaiola (Dive Cage) em um local chamado Gansbaai, distante cerca de 2hs da Cidade do Cabo, na África do Sul, para ver de perto um dos animais mais admiráveis do nosso mundo “sub”, Carcharodon Carcharias, vulgo “Tubarão Branco”.

A idéia surgiu quando estava buscando um lugar para as férias de janeiro de 2009. Na época, meu ex-marido trouxe pra casa um guia de viagens sobre a África do Sul que uma amiga havia emprestado. Consultamos alguns sites, agências de viagens e vimos que era totalmente possível realizarmos a viagem. Os custos cabiam em nosso orçamento.

Comecei a planejar a viagem com esse único objetivo: ficar o mais perto possível de um tubarão branco, obviamente também da maneira mais segura possível, o que sem dúvida é o que um mergulho em gaiola pode proporcionar.

Escolhi a Cidade do Cabo (Cape Town) como “base”. Dizem que Cape Town é “cidade-irmã” do Rio de Janeiro, pela semelhança em suas formações geográficas, com suas cadeias de montanhas beirando o mar, praias de areia branca. Cape Town é uma jóia da África e ficar uma semana por lá pode não ser suficiente para desfrutar tudo que a cidade e os arredores tem a oferecer.

Pesquisando na Internet encontrei o site de um dos operadores (não são muitos) que realizam o Dive Cage em Gansbaai, a White Shark Project e fiz as reservas pela internet ainda no Brasil pra garantir que não haveriam imprevistos, como falta de lugares. Afinal eu estava indo para a África do Sul para isso !

Escolhi um tour de um dia. No valor (U$ 150 por pessoa) estavam incluídos o transfer de ida e volta de Cape Town até Gansbaai (você informa o hotel ou pousada onde está e eles vão te pegar em uma van), além de um farto café da manhã na chegada a base de operação, assim como toalhas, jaquetas impermeáveis, snorkel, mascara, água, refrigerantes, sucos e lanches no barco.

Assim como a maioria de nossos programas debaixo d´água, esse também começa muito cedo. Quando digo cedo, é cedo mesmo, antes de amanhecer (por volta das 3 da manhã) a van já estava nos aguardando na pousada em Cape Town com outras pessoas para seguirmos até Gansbaai.

Chegando em Gansbaai fomos recepcionados na base de operação para o café da manhã em um espaço muito bem aproveitado, com mesas cadeiras e uma espécie de lounge com sofás, poltronas, mesinhas e uma tela de LCD onde depois do café assistimos a um DVD institucional e com informações sobre o programa daquele dia. Um dos membros do staff faz um briefing reforçando todos os aspectos de segurança, tais como “uma vez na gaiola, não coloque nenhuma parte do seu corpo para fora dela”. Recebemos os termos de responsabilidade para assinarmos e partimos a pé para o embarque na lancha que fica praticamente em frente à base.

Navegamos por cerca de 30 minutos mar adentro e nesse percurso um dos ajudantes da operação vai jogando no mar aquele caldo de sangue e pedaços de peixe no mar, o “chunning”. Com isso, vamos deixando pra trás um rastro que tem o objetivo de atrair os tubarões para nossa área de navegação. A lancha pára em um determinado ponto no meio da baía e nesse momento a gaiola que estava no interior da embarcação, é baixada na popa para que possamos entrar nela pela parte de cima. Todos que já estiverem vestidos com a roupa de neoprene de 5mm, já podem entrar. Entram 5 pessoas por vez e enquanto isso, um dos membros do staff atira uma isca com pedaços grandes de peixes para bem longe do barco, às vezes até do lado oposto ao que está amarrada a gaiola.

Temos que esperar um tempo razoável até avistarmos um tubarão. Assim como outros de sua espécie, estes animais também estão ameaçados de extinção e conversando com um dos estudantes que fazem parte do projeto Great White Sharks e que participam auxiliando na operação de turismo, algumas vezes em todo o percurso só conseguem avistar um único animal. Naquele dia demos sorte, pois em 30 minutos dentro da gaiola, em meio a uma água bem fria (em torno de 15°C), finalmente um dos tripulantes grita “down, down, down” e todos na gaiola afundam suas cabeças na água.

A água não tinha uma das melhores visibilidades (para nossos amigos que estão acostumados as águas caribenhas e de Noronha), mas em segundos vi aquele “bico” enorme passando rente a janela da gaiola, os olhos escuros seguido de um corpo metade cinza metade branco balançando ao final uma nadadeira de fazer inveja a qualquer sistema de propulsão conhecido.

Pelos relatos dos tripulantes se tratava de uma fêmea de 3 metros. Esperamos mais um pouco na água e outro tubarão se aproximou da gaiola, desta vez um macho de 2 metros de comprimento. Este mostrava um comportamento menos “desconfiado” quanto a nossa presença e chegou até a chocar sua cabeça em uma das laterais da gaiola, fazendo com que sua barbatana se chocasse com a lancha repetidas vezes. Um irlandês que estava na ponta da gaiola e mais próximo do tubarão, chegou a dar uns gritos bem nervosos, porém a situação não oferecia risco eminente, uma vez que foi um choque muito rápido. Mas que aumentou a adrenalina de todos, aumentou…

A emoção de poder ver tão de perto um animal como estes é única. Imaginar que eles habitam nossos mares há milhares de anos, evoluindo, se aperfeiçoando, alterando seu comportamento para se adaptar a tantas mudanças é algo digno de nossa admiração e no mínimo de muito aprendizado, haja visto que nós humanos não temos tal capacidade frente às mudanças climáticas que estão acontecendo em nosso planeta.

Apenas esclarecendo o porquê no início do artigo de eu afirmar que fiz o dive Cage duas vezes, é que na verdade no primeiro dia em que fui, ainda que eu tenha entrado na gaiola e visto os tubarões, tive fortes enjôos provocados pelo constante balanço da lancha, não só até chegar ao ponto de observação, como nas 4 horas seguintes em que ficamos ali. Gentilmente um dos gerentes da operação da White Shark Project nos ofereceu um retorno a Gaansbai sem custos (a não ser pelo custo do transfer de U$ 35 por pessoa) para que eu pudesse ter uma experiência melhor em outra saída e sem enjôos.

É claro que não pensei duas vezes e imediatamente dois dias depois estava lá, devidamente com os remédios contra enjôo tomados, para meu segundo Dive Cage com os “brancos”.

Dicas

Em Cape Town existem ótimas pousadas (Bed & Breakfast) que são casas confortáveis em que os donos fizeram algumas adaptações para receber hóspedes, tais como suítes com banheiros privativos, belos jardins e ás vezes até uma piscina. Os preços de diárias são bem baratos, até menores do que muitas pousadas do litoral norte de São Paulo.

Fiquei hospedada na Loloho Lodge que tive a sorte de achar no site Trip Advisor. Pousada muito confortável com donos extremamente simpáticos e um atendimento impecável.

O Dive Cage possui uma operação impecável, além de uma base de operação muito bem montada como citei, lancha e equipamentos novos em perfeitas condições. Regras de segurança seguidas à risca – todos tem que ficar de coletes o tempo todo do percurso até o ponto de observação. Um detalhe: no retorno a base, além de outro reforçado lanche nos aguardar, eles possuem banheiros individuais (3) com chuveiros, água quente, shampoo, condicionador (e meninas: até hidratante e secador de cabelos) para que possamos voltar a Cape Town de banho tomado. Um luxo !

Durante a saída também um profissional registra todas as imagens e você pode adquirir o DVD no retorno a base e retirar quando estiver pronto em Cape Town em um ponto de atendimento que eles possuem no Fishermans Wharf.

O site é este www.whitesharkprojects.co.za

Ana Righetti
Nascida no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 2003 possuindo 70 mergulhos logados. É Rescue Diver pela PADI, tendo cursado algumas especialidades e realizado mergulhos na costa brasileira, assim como no México, África do Sul e Maldivas. Fez carreira como executiva comercial em empresas de TI e mora em São Paulo.