Embarcada para mergulhar nas Maldivas

Um sonho para muitos de nós mergulhadores, Maldivas faz jus a toda fama de paraíso na terra e no mar que corre mundo a fora.

Optei por conhecer essa maravilha do Oceano Índico embarcando em um live aboard em fevereiro, durante o período das folias momescas aqui no Brasil, já que não sou nada fã de Carnaval.

A República das Maldivas é um pequeno país insular, distribuída geograficamente por suas 1.196 ilhas (203 são habitadas) e agrupadas em 26 atóis. Possui cerca de 385 mil habitantes em uma área geográfica de 298 km². Sua capital chama-se Malé, onde reside a maior parte da população. A língua falada é o diverhi.

Maldivas definitivamente é um lugar obrigatório para quem mergulha. Qualquer coisa que se diga a respeito da vida marinha naquelas águas de um azul incrível vai ser pouco sempre. Tem que ir pra ver e se emocionar a cada mergulho.

Quando preparamos uma viagem, sempre criamos uma expectativa muito particular sobre o lugar que estamos indo visitar. Dificilmente, um lugar será exatamente o que imaginamos e é mesmo bom que não seja, pois dessa forma podemos descobrir coisas diferentes e não seguir um roteiro prévio de viagem. Me sinto uma pessoa abençoada por ter a oportunidade de ter viajado muito em minha vida e Maldivas foi o único lugar que visitei que não só correspondeu às minhas expectativas como as superou de longe. Explico o por que.

A viagem foi toda planejada por mim e contratada via internet, buscando opiniões em sites de mergulho (aqui mesmo no Brasil Mergulho, temos boas informações) e sites de viagens como o Trip Advisor por exemplo. Concluídas as pesquisas, contratei diretamente pela internet um live aboard de 8 dias com 17 mergulhos inclusos além de todas as refeições (o roteiro inclui também um churrasco em uma ilha deserta).

Devo dizer a vocês amigos, que o serviço foi excepcional. Cheguei ao aeroporto de Malé (que aliás ocupa praticamente sozinho uma ilha) e lá estavam 3 pessoas do staff do barco me aguardando. Simpáticos e atenciosos logo de início, depois descobri que um deles era um dos donos do Theia (esse é o nome do barco) e os outros 2, os Dive Masters que nos acompanhariam durante toda a semana. Pegamos um pequeno barco que nos levou até aquela que seria minha “casa” durante 8 dias. O Theia é um barco muito espaçoso e confortável com 104 pés de comprimento por 29 pés de largura, 4 decks, 6 cabines duplas e triplas, 2 suítes e todas as acomodações possuem seu próprio banheiro privativo. A capacidade máxima para hóspedes é de 18 pessoas e para a tripulação, 11.

Qual não foi minha surpresa ao chegar no barco e ser recepcionada com uma água de coco geladinha, ficar sabendo que aquela era a viagem inaugural do Theia. Éramos os primeiros hóspedes ! Ou seja, a primeira vez para todos: nós, a tripulação, o barco, os equipamentos de mergulho, os lençóis, as toalhas, os copos, enfim, tudo novinho em folha.

Éramos um grupo de apenas 9 pessoas, eu a única brasileira, 2 irmãos austríacos, 2 senhoras também austríacas, que mergulhavam muito bem, dando um show no controle de flutuabilidade, economia de ar e etc. O que prova que mergulhar é possível sim para todo tipo de pessoa, respeitando-se as condições físicas para a prática, claro. E completavam o grupo, 2 casais canadenses simpaticíssimos.

O conforto em qualquer live aboard já é algo que para quem mergulha não tem preço, pois você sai da sua cabine direto para uma “praça” de mergulho, onde já está tudo arrumado, sem Ter que ficar carregando pra lá e pra cá toda a nossa querida “tralha”. Neste live aboard tudo ficou ainda mais confortável, porque nem barulho do compressor escutávamos, uma vez que ao longo de todo o percurso, um barco de menor tamanho ia nos acompanhando. Nas Maldivas essa é uma prática comum, esses barcos (chamados de “dhoni”) acomodam toda a infraestrutura da operação de mergulho propriamente dita: equipamentos, cilindros, compressor. Alguns possuem até recarga de Nitrox.

Maldivas02Quanto a operação de mergulho ela beirou o impecável. Todo dia após o jantar tínhamos um briefing dos mergulhos do dia seguinte, explicando a que horas seríamos acordados para o primeiro mergulho do dia, qual seria o tempo para o café , qual o horário do briefing do primeiro mergulho e quais seriam os horários aproximados dos mergulhos subsequentes.

Após o café, o briefing era dado com o auxílio de um desenho feito em um quadro, com um croqui do local onde iríamos mergulhar. Nunca vi essa prática aqui em nossas águas e não entendo porque ainda não a adotamos, pois é o tipo de informação que ajuda muito a aproveitar melhor o mergulho.

Com o desenho do relevo do local, o dive master explicava as características dos locais, ficando muito mais fácil de você identificar quando se está na água. As informações enfatizadas no briefing, tais como a vida marinha, direção habitual das correntezas e etc.

Maldivas05E o roteiro ? Nossa, o que falar do roteiro ? Estive durante 8 dias, mergulhando nos pontos mais famosos das Maldivas. A navegação se iniciou em North Malé Atoll, onde fizemos o primeiro mergulho, considerado como “check dive”, ou seja, uma oportunidade de colocarmos o equipamento na água, acertarmos nossa configuração e também do staff avaliar o nível de cada mergulhador do grupo. O check dive foi em uma ilha chamada de Feydhoo Finolhu, situada a 20 minutos de Malé. No momento exato em que caí na água, pensei que se aquele era o primeiro mergulho, e a semana ia prometer com certeza !

Feydhoo Caves é formado por um recife de parede estreita que vai até aproximadamente 35m de profundidade, coberta de corais, esponjas e um número incontável de espécies de peixes das mais variadas cores. Napoleões, cirurgiões, peixes palhaços, moréias verdes, tartarugas, polvos, trombetas e donzelinhas estavam por toda parte.

Ainda no mesmo dia seguimos, para a parte sul de Malé Atoll para um point chamado Miyaru Kandu. Em diverhi “miyaru”, quer dizer tubarões e “kandu” oceano. Se trata de um drift, onde tivemos que iniciar o mergulho descendo negativo até 25m, esperando a corrente nos levar até o “corner” do canal, onde estão os tubarões do tipo “White-tip reef sharks (galhas brancas de recife) e Grey Reef Sharks (cinzas de recife). Miyaru Kandu é uma estação de limpeza para esses tubarões que ficam na corrente sendo devidamente “higienizados” pelas rêmoras, aqueles peixes que ficam grudados neles se alimentando de restos de comida. Enquanto isso, ficamos ali, clipados por cabos nas pedras da “esquina” do canal observando vários tubarões flutuando na correnteza, que por sinal era bem forte.

Aliás, aqui vai uma dica: 90% dos mergulhos nas Maldivas são feitos sob correnteza, sendo interessante ir pra lá já tendo essa especialidade, pois com certeza o, aproveitamento nos mergulhos é muito superior.

Na sequência de mergulhos ainda em South Malé Atoll, Guraidhoo Kandu é uma área de proteção ambiental onde fiz o drift de maior intensidade de toda minha vida. Era uma correnteza OMG. É uma brincadeira do staff usar a sigla OMG para uma correnteza no local extremamente forte. Lá OMG significa Oh My God ! (Oh meu Deus !). Mais tubarões, raias e cardumes de barracudas nos brindaram com sua presença.

Seguindo em direção a South Ari Atoll, também fizemos mergulhos muito tranquilos em correntes mais fracas tais como Kuda Thila e Kuda Rah Thila (uma outra área de proteção ambiental). Nessa região, o ponto alto foi Rangali Madivaru, uma estação de limpeza de… arraias mantas… muitas e enormes !

O mergulho consiste em descermos em torno dos 30m realizando um perfil multinível até ficarmos abaixo do topo do recife, que fica em torno de 5 a 10m de profundidade, observando o balé das mantas por cima de nossas cabeças. Já li em alguns artigos que as arraias gostam de brincar com as bolhas que nós mergulhadores soltamos na água. Não sei se essa é uma informação verdadeira mas pude presenciar 5 arraias mantas passando por cima das bolhas do nosso grupo por quase todo o tempo que ficamos ali. Uma cena que jamais esquecerei e que me emocionou profundamente.

Maldivas01Rangali Madivaru é um dos mais conhecidos como “manta´s point” das Maldivas. Fizemos mais 2 mergulhos ali e em todos as mantas estavam presentes, dançando nas águas azuis.

Já em North Ari Atoll o ponto alto dos mergulhos foi sem dúvida alguma Maaya Thila (também uma área de proteção ambiental, famosa por ser considerada a “capital” dos tubarões galhas brancas de recife). O topo do recife começa em torno dos 6m indo até uma profundidade de 30m com uma abundância de vida marinha que é realmente impressionante. Corais de diversas cores e formatos, tartarugas, arraias, moréias, muitos peixes palhaços acomodados em suas anêmonas, peixes leão e muitos tubarões. Maaya Thila é o local onde fizemos o noturno e que se mostrou uma experiência de mergulho marcante para mim. Se durante o dia o local é cheio de vida à noite ele se mostra mais “ativo” ainda.

Tubarões passeiam tranquilos no topo do recife pouco se dando conta de nossa presença. Uma interação que se mostra possível se entendermos que estamos ali em um ambiente que não é o nosso e o melhor que temos a fazer é observar e preservar.

Enfim, Maldivas é tudo aquilo que você já leu, ouviu falar e sempre vai lhe surpreender com um pouco mais. Uma das senhoras austríacas que tive o prazer de conhecer no Theia já contabilizava sua 20ª viagem para lá, mesmo já tendo mergulhado em vários points famosos mundo a fora (seu logbook é algo impressionante, com mais de 1.000 mergulhos logados). Folheando o log book da Karin, perguntei qual era na opinião dela o lugar mais incrível de se mergulhar no mundo e que seria imperdível. Ela me respondeu direta e simplesmente: “Ana, definitely Maldives. Maldives always surprise me”. (Ana, definitivamente Maldivas. Maldivas sempre me surpreende”)

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Dicas Úteis – Como chegar, onde ficar e o que fazer

Maldivas é distante para nós brasileiros, então para fazer com que sua viagem não fique muito cansativa acredito que uma boa opção é pegar vôos com o menor número de escalas possíveis. Fui para Malé pela Emirates (eles parcelam a passagem em 5 x sem juros, o que já é uma ajuda) via Dubai. Saí de São Paulo e após 14hs de vôo direto até Dubai, tive que aguardar mais 5hs no aeroporto para a conexão para Malé (o vôo Dubai /Malé dura em torno de 5hs). Ou seja, somando tudo são 24 horas “ligada”.

Para o trânsito no aeroporto você não precisa de visto, então aproveite para andar pelas lojas do free shop e se quiser, pode até mesmo tomar um banho. O aeroporto dispõe desse serviço entre outros.

Uma outra dica é sobre quando chegar a Malé. O live aboard em que fui, sempre deixa e retorna a Malé às segundas-feiras. A segunda-feira é o dia em que os passageiros estão chegando, se acomodando em suas cabines e por termos que aguardar o tempo de 24hs entre voar e mergulhar (regra obrigatória de segurança do barco), não realizam mergulhos no primeiro dia, somente no dia seguinte. Então, não compensa muito você se programar para chegar um dia antes a Malé, para descansar. Programe-se para chegar em Malé na segunda-feira até meio dia, pois esse é o tempo limite para sua chegada no aeroporto. Você terá toda a segunda-feira para descansar já navegando.

Ao fim da semana no barco, o último dia programado para fazermos mergulhos é domingo pela manhã, pois já na segunda-feira, muitos estarão voltando para seus países de origem e devemos “aguardar” as 24 horas de intervalo. Então no domingo à tarde, o staff do barco (que a essa altura já está ancorado nas proximidades de Malé) programa uma visita a capital. É o tempo para desembarcar e conhecer um pouquinho da cidade. Vale a pena a visita, pois é mais uma chance de entrarmos em contato com a cultura das Maldivas. Em 2hs você terá visto o que há pra se ver.

Na segunda de manhã, o transfer do barco lhe deixa no aeroporto (Ilha de Hulhule) e é nesse ponto que recomendo a estada de uma noite no hotel situado na mesma ilha, o Hotel Hulhule. A diária do quarto duplo custa US$ 277, muito confortável, o hotel tem uma piscina excelente, 3 opções de restaurantes e um SPA adorável. Atenção mergulhadoras: depois de uma semana de água salgada e sol direto, nem preciso dizer o que um tratamento de hidratação geral faz pela nossa pele e pelos cabelos né ? Pois é, além de poder se recuperar do cansaço dos mergulhos acumulados, esse SPA tem alguns “combos” só para mergulhadoras. Não é o máximo ?   Um tratamento de massagem + esfoliação e hidratação com produtos a base de coco, que dura 1:30 sai por US$ 100. Acreditem, vale cada centavo !

Acorde no dia seguinte, tome um farto café da manhã, pegue suas coisas e vá para o aeroporto de volta pra casa, descansada(o), feliz e relaxada(o). Acho que é uma bela forma de encerrar sua viagem. Pelo menos pra mim foi !

Links úteis

  • Theia live aboard

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Ana Righetti

Nascida no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 2003 possuindo 70 mergulhos logados. É Rescue Diver pela PADI, tendo cursado algumas especialidades e realizado mergulhos na costa brasileira, assim como no México, África do Sul e Maldivas.

Fez carreira como executiva comercial em empresas de TI e mora em São Paulo.