Encouraçado Aquidabã

“Nada é mais bonito que um navio de guerra singrando os mares”

O autor original desta frase não é conhecido, mas em muitas gerações de homens do mar essa frase foi ouvida.

O navio de guerra é a Fórmula 1 dos oceanos. São eles que estréiam tecnologias moderníssimas para poder cumprir com sucesso seu objetivo: subjugar o inimigo!

Linhas agressivas, desenho arrojado e movimentação da tripulação 24 horas por dia. Velocidade máxima e manobras arrojadas, para atacar ou se defender, são comuns no dia a dia destes navios.

Mas mesmo tão bem preparados, os navios de guerra não são invencíveis. Seja por fogo inimigo ou algum tipo de acidente a bordo, eles naufragam, assim como toda embarcação destinada ao mar pode naufragar.

E debaixo da água, seu fascínio e imponência persistem, fazendo destes, naufrágios procurados por todos os mergulhadores.

A necessidade de uma frota moderna, com capacidade de combater efetivamente e proteger a nação sempre foi uma necessidade urgente, mesmo em tempos de paz. E foi em 1880 que começo a nascer a saga do Encouraçado Aquidabã.

Encomendado ao estaleiro inglês Samuda & Brothers, juntamente com outro Encouraçado, o Riachuelo, o Aquidabã teve sua entrada triunfal na Marinha Imperial Brasileira em 1886. Seu nome é em homenagem ao riacho afluente do rio Paraguai, às margens do qual foi travada em 1º de março de 1870, a batalha que pôs fim à Guerra do Paraguai.

Com 85,34 metros de comprimento e deslocando 5.082 toneladas, o Aquidabã foi armado com 4 canhões principais de 225mm, 4 canhões auxiliares de 140 mm, 11 canhões de 25 mm e 5 metralhadoras de 11, além de 5 tubos lança torpedo.

E o poderoso Leviatã veio em boa hora: durante seus quase 21 anos de serviço ele participou de inúmeros conflitos como o movimento que derrubou o então presidente Marechal Deodoro em 1891 e a Revolta da Armada em 1893 (sendo a nau capitânia da esquadra revoltosa).

Já em 1906, o Aquidabã escolheu a Enseada de Jacuacanga para pernoitar, um local tranqüilo e sereno. Junto com ele estavam os cruzadores Tamandaré e Barroso, que levavam uma comitiva ministerial que tinha como objetivo a avaliação da região com o intuito de construir o Porto Militar, uma base naval dedicada a construção e reparos de navios de guerra.

Vinte e dois de janeiro de 1906, 22:45h. Sem nenhum aviso, uma violenta explosão próximo a torre de ré, parte o Aquidabã ao meio. Em poucos minutos o poderoso navio sumiu da superfície. 113 homens perdem sua vida.

Três dias depois uma equipe de mergulhadores da Marinha vai até o local para resgatar corpos e averiguar a causa do acidente. Foi concluído que a combustão espontânea da Cordite, dentro do paiol de munições foi a causadora do terrível acidente.

O Aquidabã se encontra a 18m de profundidade. No local, a visibilidade normalmente é ruim, por volta de 1 a 2 metros. É como se o navio ainda tentasse se esquivar dos mergulhadores, escondendo seus encantos. Mas há dias especiais, em que a visibilidade melhora muito e, para os que estão no lugar certo na hora certa, o espetáculo é garantido !

O navio se encontra desmantelado mas mesmo após a grande explosão que o vitimou, os trabalhos oficiais de salvatagem e a pirataria, o Aquidabã ainda presenteia os olhos com uma amostra de seu poderio.

Começando o mergulho pela popa, a parte mais afetada, ainda dá para ver muitas chapas do casco, que chamam a atenção pela espessura, bem diferente dos outros naufrágios no entorno da Ilha Grande. Seguindo em direção a meia-nau, mais chaparias e as enormes caldeiras do navio, responsáveis por abastecer um navio tão pesado. Os motores foram retirados juntamente com outras estruturas. Continuando a exploração, chegamos a um dos enormes canhões do navio, o único que ainda resta no naufrágio. O casco de boreste apresenta muitas chaparias em todo seu comprimento e por isso possui muitas redes presas a ele.

Próximo a proa, encontramos uma torre cônica de uma das metralhadoras e mais a frente, encontramos a estrutura mais integra do naufrágio, a proa, que ainda mantém alguma de suas características básicas.

Devido à baixa visibilidade no local, o naufrágio do Aquidabã acaba sendo colocado de lado pelas operadoras de Angra dos Reis e Ilha Grande, mas, sem dúvida, em um dia de visibilidade melhor, é um mergulho inesquecível.

Passando por Jacuacanga, seja curioso e vá averiguar as condições de mergulho. Quem sabe não será seu dia de sorte ?

Rodrigo Coluccini
Criador e proprietário da Revista Deco Stop, foi um dos responsáveis pela divulgação em larga escala das informações sobre naufrágios no litoral brasileiro, fato antes restrito a poucos. É co-autor do manual de naufrágios da certificadora PDIC. Seu trabalho é citado em vários livros atuais sobre história maritima brasileira confirmando a importância de seu trabalho.