Enjôo / Mal de Mer

“Existem três tipos de pessoas: o vivo, o morto e o mareado” – Anarcarsus, 600 a.C.

O enjôo em embarcação ou mareio embarcado é um dos problemas mais comuns e debilitantes em operações de mergulho em todo mundo. Existem pessoas resistentes ao enjôo. No entanto, uma determinada aceleração angular desencadeante no momento certo pode provocar enjôo em qualquer um. O enjôo não ocorre exclusivamente na navegação. É muito comum pessoas, principalmente crianças, enjoarem em automóveis, ônibus e aviões. No mergulho autônomo amador existem várias circunstâncias em que podemos enjoar.

Em relação à epidemiologia podemos observar que ele é raro em crianças menores de 2 anos e em adultos acima dos 70 anos. Além disso, é 1,7 vezes mais frequente em mulheres do que em homens. Observou-se que o mareio, além de ter a prevalência maior em mulheres, ocorre mais durante a menstruação.

A fisiopatologia do “mal de mer” ainda não é totalmente conhecida. Uma hipótese coloca que ela decorre da incapacidade do cérebro de integrar informações conflitantes vindas da orelha interna, dos olhos e de outros sensores referentes à posição espalhados pelo corpo (propriopercepção).

A incongruência entre as informações oriundas dos vários órgãos sensoriais proprioreceptores do corpo, como o estímulo visual, os movimentos da cabeça e dos olhos, e o sistema vestibular que está sendo estimulado é desencadeada tanto por uma aceleração linear quanto angular. Isso pode ocorrer, navegando, andando de automóvel, avião ou mesmo em brinquedos de parques de diversão ou atividades de lazer. Um estudo do tema, comparando vários tipos de embarcações, revelou que a ocorrência de enjôo está relacionada à magnitude da aceleração vertical observada em relação ao movimento linear anterior.

O vômito é uma consequência de todo o processamento de informações conflitantes no cérebro. Existe uma região no sistema nervoso central que é o centro do vômito. Durante o processo de mareio o centro do vômito recebe impulsos nervosos oriundos do sistema vestibular na orelha interna. O vômito resultará da estimulação direta do centro de vômito, evidenciando, no processo, uma inter-relação entre o sistema nervoso somático e autonômico.

O mareio no mergulho não é somente um acidente de percurso. Ele poderá ocorrer também quando o mergulhador está em baixo da água. O enjôo relacionado ao ato de mergulhar pode ser desencadeado no momento inicial das manobras de entrada na água. Quando o barco pára, cessa o movimento constante direcional que mantém um certo equilíbrio da embarcação durante a navegação.

Na caída na água percebemos uma série de movimentos verticais e laterais mais intensos de acomodação. Ao entrar na água, pode ocorrer uma potente aceleração angular, que, dependendo do tipo de entrada e como posicionamos a cabeça, poderá gerar estímulos conflitantes no cérebro do mergulhador. Um estímulo inicial, que muitas vezes passa despercebido, já desencadeou todo o processo de mareio. A seguir, esperando o companheiro de mergulho, podemos experimentar o balanço do movimento das ondas, que muitas vezes é bem intenso e acaba adicionando mais estímulos.

Submersos, ainda existe a mudança de posição do corpo para uma inclinação mais aguda para a descida ao fundo. Segue-se a natação no sentido do deslocamento horizontal. A ansiedade inerente à atividade, visibilidade baixa e o medo decorrente dela aliado a restrições do campo de visão embaixo da água, proporcionadas pela visão em túnel da máscara, propiciam, ainda mais, a ocorrência do enjôo.

A flutuabilidade neutra e a falta de estímulos proprioceptivos decorrentes dela contribuem para as dificuldades que já vêm ocorrendo no cérebro para processar um conjunto de informações desencontradas. Se já não estiver mareado, o mergulhador poderá ficar. Essa é uma situação particular e especial de segurança no mergulho, pois é difícil vomitar embaixo d’água sem maiores complicações. Uma das complicações, a mais grave, é o afogamento durante o vômito. Outra é a subida até a superfície segurando o ar com risco de barotrauma torácico e doença descompressiva.

Existe também o enjôo em terra ou o mal do desembarque. Ele é observado após uma navegação ou mesmo após viagens longas com qualquer veículo de transporte. O mal do desembarque ocorre quando o movimento cessa após a adaptação aos movimentos de aceleração constante. A mudança abrupta decorrente da cessação dos estímulos a que o cérebro estava acostumado desencadeia o enjôo.

Felizmente o mareio acaba sendo tolerado. Acredita-se que, após três dias de estímulo continuado, haja uma adaptação no sistema nervoso central. Por outro lado, em torno de 5% das pessoas não se adaptam.

Prevenção

Sabemos que o mareio tende a diminuir como consequência de maior tranquilidade do mergulhador, experiência de navegação e convívio com os elementos da natureza. Pessoas de vida muito urbana e de pouca atividade física tendem a sofrer mais. À medida que o mergulhador fica mais à vontade com os equipamentos, com o mergulho propriamente dito, com as condições de transporte até os pontos de mergulho e com a intimidade com o ambiente marinho tanto fora como dentro da água, o mareio tende a desaparecer ou ser mais bem tolerado e menos frequente. São fatores predisponentes: nadar nas ondas, iniciar a submersão na parte alta da onda e subitamente ser acelerado quando desce no balanço da ondulação, o frio, a fadiga e a menstruação.

As medidas para se evitar o enjôo devem ser instituídas, mesmo com o uso das medicações, no sentido de bloquear estímulos. Isso reforça a idéia de que o movimento é um fator importante no desencadeamento do enjôo, mas não é tudo. Fatores como o cansaço, o jet lag, o fumo, os excessos alimentares e o uso de bebidas alcoólicas, além do medo, da ansiedade e de outros estados psicológicos, aumentam a possibilidade de ocorrência do enjôo. Além disso, devem-se reduzir os movimentos da cabeça e do olhos. A melhor maneira de se fazer isso é evitar olhar objetos em movimento e olhar para o horizonte, preferencialmente focando objetos estacionários.

O mareio em barco pequeno pode ser prevenido. Deve-se, portanto, evitar ir muito abaixo ou muito acima do deck. Deve-se ficar perto do centro de gravidade da embarcação procurando o local de menos movimento, e fixar o olhar no horizonte. Se o contato visual não é possível, então se deve fechar os olhos. Além disso, procurar um local arejado, bem ventilado e livre dos gases da combustão do motor. quem tem predisposição ao enjôo, deve solicitar que o barco seja adequadamente manobrado e fundeado em local calmo. Se for uma temporada de mergulho em liveaboard, preferir dormir em rede. Deve-se equipar de preferência num local fresco e abrigado do sol, evitando olhar para o fundo do barco.

Ao chegar ao ponto de mergulho, temos observado que a maioria das pessoas que está mareada procura cair na água o mais rapidamente possível para não ficar “assando” na roupa enquanto aguarda os procedimentos de entrada na água. Cabe salientar que muitas vezes essa conduta não é segura, pois, como vimos anteriormente, os sintomas podem piorar. Os estímulos poderão continuar, passando a entrar em ação novos estímulos associados ao enjoar embaixo d’água propriamente dito. Portanto, a situação poderá se agravar. Somente se indica cair rapidamente na água naquelas situações em que, cessando o movimento da embarcação da navegação, encontrarmos, na água, uma situação de acalmia de movimentos não encontrada a bordo.

Se cair na água, além de significar cessação dos movimentos, for um momento de relaxamento, em que o mergulhador se refresca e vai iniciar uma atividade a que ele está habituado e em que está à vontade com muito prazer na sua realização, então isso é indicado. Do contrário, para mergulhadores inexperientes, que ainda não estão habituados com os equipamentos e a prática do mergulho, poderá ser a perpetuação de um tormento que poderá acabar em afogamento. Nessa situação é mais seguro abortar o mergulho e esperar a recuperação, entrando na água após a melhora.

A maneira de evitar o enjôo do mergulho propriamente dito, ou seja, embaixo d’água, é o treinamento. Devem-se treinar outras formas de perceber a posição do corpo em relação ao ambiente. Percepções relacionadas a certas sensações, como a de busca da posição vertical propiciada pelo efeito de bóia do tórax, a da força de tração do cinto de lastro para o fundo, a observação da subida das bolhas, a sensação de afundamento quando o colete está desinflado, auxiliam nosso cérebro a ter referenciais e uma sensação correta de orientação em relação ao espaço.

Isso tudo deve ser utilizado principalmente em condições limitadas de visibilidade. Enfim, o treinamento intensivo em relação à atividade gera uma série de habilidades que fornecem elementos ao cérebro para não ter informações conflitantes em relação à orientação espacial. Dessa maneira, o treinamento e a consequente familiaridade com a atividade são capazes de gerar os elementos necessários para se evitar o desencadeamento do enjôo e suas formas mais graves.

Tratamento não medicamentoso

Em relação aos tratamentos não farmacológicos, existe uma quantidade considerável de medidas sugeridas para o controle desta debilitante situação para uso no mergulho. Muitas são completamente questionáveis quanto ao subsídio científico para o controle do enjôo em relação aos mecanismos de intervenção na sua fisiopatologia. Todavia, é oportuno ressalvar que existem pessoas que se sentem bem com uma determinada medida. Não vem ao caso se interfere com algum mecanismo psicossomático ou se tem efeito placebo. O que importa é que resolve e é inócuo. Se a pessoa descobre algo que funcione, então tudo bem. Só se deve certificar de que a medida é segura.

Por exemplo, há quem se sinta bem com óculos que fazem visualizar um horizonte artificial. O mesmo se refere ao uso de gengibre, que pode ser encontrado em várias formas de apresentação comercial farmacêutica. Sua eficácia não foi comprovada em estudos experimentais controlados.

Uma medida comumente sugerida é a aplicação de pressão no ponto Neiguan. O chamado ponto Neiguan ou P6 na medicina oriental relaciona-se à acupuntura e está implicado no controle da náusea e vômito. O resultado da acupuntura para o mareio, aplicando-se agulhas, nesse ponto é contraditório. Existem comercialmente à disposição faixas elásticas de pressão para uso a 3 cm do punho. Até o momento não se sabe se foi publicado algum trabalho comprovando a eficácia do seu uso para o tratamento do enjôo no mergulho.

Existe um equipamento eletrônico semelhante às bandas elásticas cujo nome é ReliefBand® NST. Esse equipamento teria utilidade para o tratamento das náuseas da gravidez, quimioterapia e enjôo por discinesia no mar. A FDA liberou o seu uso para tratamento da náusea observada no pós-operatório. O mecanismo de ação é o mesmo das bandas elásticas com a diferença de que utiliza impulsos elétricos em vez de pressão sobre as terminações nervosas.

Medidas preventivas medicamentosas

Uma grande quantidade de medicações está disponível para uso no sentido de prevenir o mal de mer. A maioria das drogas contra enjôo, além de interferir no desempenho do mergulhador, tem efeitos adversos que podem ser confundidos com a sintomatologia da doença descompressiva ou embolia cerebral por gás. Inclusive para a maioria delas pode haver potencialização à narcose por nitrogênio. Medicações descritas como úteis na profilaxia são as do grupo dos chamados antagonistas de receptores H1 (fenotiazinas, etolaminas e piperazinas) e a escopolamina transdérmica ou a oral. A última pode ser associada à dextroanfetamina. Outras medicações que também têm efeitos contra o enjôo, porém são menos potentes, são a cinarizina e a fenitoína.

Em relação aos antagonistas de receptores H1, o modelo é a prometazina (Fenergan®), que é uma fenotiazida. Ela é a droga antienjôo mais potente dos antagonistas de receptores H1. É uma droga relacionada aos tranquilizantes e tem efeitos anti-histamínicos. A sonolência que desencadeia é um efeito adverso que a torna útil como tranquilizante e hipnótico. Os efeitos adversos indesejáveis no mergulho são, além da sedação, a descoordenação motora, o tinido, a lassitude, a fadiga, a visão borrada, a visão dupla, a euforia, o nervosismo, a insônia, o tremor e a falta de concentração. Provavelmente o efeito anti enjôo decorra da sua atividade anticolinérgica.

Durante o uso de anti-histamínicos pode ocorrer um maior ou menor grau de perda da capacidade de julgamento e reflexos. A falta de capacidade de julgamento pode desencadear uma série de dificuldades de definição de processos decisórios importantes no mergulho, como os cuidados de orientação subaquática, controle de velocidade de subida e realização das paradas descompressivas. Os efeitos anticolinérgicos destas medicações são: boca e vias aéreas secas, que podem induzir a tosse, retenção ou frequência urinária e dor para urinar e prisão de ventre. Anti-histamínicos têm efeitos aditivos ao nitrogênio. Durante o seu uso a narcose pode ser mais severa e de resolução mais lenta. Uso de álcool ou outro depressor do sistema nervoso central potencializam esses efeitos adversos.

Do grupo dos antagonistas de receptores H1 relativos às etolaminas, temos o dimenidrato (Dramamine®), o dimenidrinato (Dramin® no Brasil e Triptone ® nos Estados Unidos) e a difenidramina (Difenidrin® e Difedril®). Os efeitos adversos mais proeminentes e com relação negativa com o mergulho são a sonolência, tempo de reação diminuído e dificuldade de manter a atenção. Os demais efeitos anticolinérgicos são semelhantes aos da prometazina. Em relação às piperazinas temos a ciclizina (Marezine® nos Estados Unidos) e a meclizina (Antivert® nos Estados Unidos) com as mesmas ressalvas relativas aos efeitos adversos do grupo de antagonistas de receptores H1.

Em relação à escopolamina, podemos dizer que ela é a droga mais potente para a prevenção do enjôo. Há trabalhos relatando não haver alterações no desempenho psicomotor no mergulho em câmara hiperbárica. No entanto os efeitos adversos observados foram: fadiga, sonolência, dificuldade de concentração, vertigem e visão borrada. Esses efeitos são importantes e até limitantes para a prática do mergulho autônomo. Não há avaliação em termos de medicina baseada em evidência sobre o efeito anti enjôo no mergulho em águas abertas. No Brasil temos Buscopan®, Hioscina Vital Brasil®, Hioscina Green Pharmar® Brometo de Escopolamina Teuto®).

No caso dos patchs transdérmicos de escopolamina, sempre se deve ter cuidados no manuseio. Como a escopolamina causa dilatação da pupila e consequente borramento da visão, deve-se ter maior cuidado durante o manuseio com as mãos molhadas. Em doses altas pode produzir desorientação e alterações do comportamento. Esses adesivos têm dose adequada para pessoas de tamanho normal.

Intoxicação é comum em crianças e idosos, os quais acabam apresentando uma pletora de sinais e sintomas. Deve-se ter cuidado com o uso de patchs em pessoas pequenas, pois elas poderão acabar recebendo dose maior e se intoxicar. A dose é fixa em cada patch e não pode ser diminuída, cortando-se o dispositivo. Se cortar o dispositivo, extravasará medicação e perderá a capacidade de liberação lenta promovida pela membrana semipermeável do patch. A escopolamina está contra-indicada para quem tem glaucoma e problemas prostáticos ou de esvaziamento vesical pelos efeitos adversos farmacológicos inerentes à droga.

O nome comercial no mercado norte-americano da escopolamina transdérmica é Transderm Scop®. Muitos autores sugerem que, em caso de se optar pelo uso dessa medicação, seja experimentada num momento de folga das atividades habituais, por exemplo, em casa, num fim de semana, para que se possa determinar a resposta individual ou reações à droga. O efeito adverso mais comum experimentado é boca seca.

Ele é mais intenso do que durante o uso da prometazina e ocorre em aproximadamente metade dos usuários. Isso pode ser um problema importante, considerando que o ar oferecido no mergulho autônomo é seco. Na literatura norte-americana, o produto é considerado mais eficiente que os antihistamínicos e a maioria dos usuários não sente nada. Autores australianos consideram que os efeitos adversos do tipo boca seca, visão borrada e sonolência tornam a medicação inaceitável para o uso no mergulho autônomo amador. Na Austrália, a forma de apresentação transdérmica foi retirada do mercado.

A indústria farmacêutica norte-americana coloca para uso na população em geral (grupo de não-mergulhadores) que os comprimidos de hidrobromido de escopolamina são mais eficientes que escopolamina transdérmica. Não temos relatos de estudos comparativos em mergulho dessas duas formas de apresentação. O comprimido teria mais flexibilidade de dose, menor incidência de efeitos adversos, menor pico de início de ação, menor tempo de duração e seria mais barato.

Nos Estados Unidos é comercializado com o nome de Escopace ®. Em relação às apresentações farmacêuticas, não está disponível no Brasil o hidrobromido de escopolamina que é muito mencionado na literatura norte-americana, mas sim o butilbrometo de escopolamina ou hioscina, considerados similares. Escopolamina em doses terapêuticas produz sonolência, fadiga, alterações do ritmo cardíaco, inibição da secreção mucosa das vias aéreas, pele e mucosas secas, constipação e retenção urinária. Devido à frequência e intensidade dos efeitos adversos, ela não deve ser usada no mergulho sem antes ser experimentada em condições controladas. Cabe salientar que a dose da apresentação farmacêutica disponível é de 10 mg por comprimido e a dose preconizada para o uso no enjôo é de 0,3 a 0,6 mg. Essa ressalva é importante, pois, usando uma dose maior, há maior exposição aos efeitos adversos e tóxicos da droga.

A associação de escopolamina com dextroanfetamina foi experimentada no tratamento do enjôo no programa de medicina aeroespacial. Essa associação não foi liberada pela Food and Drug Administration (FDA). Alguns países têm disponível para uso nestas situações associações de dextroanfetamina em combinação com escopolamina ou prometazina. No Brasil há como substituto a efedrina ou pseudoefedrina.

A título de documentação, parece que a cinarizina (Antigeron®, Cinageron®, Cinaran®, Cinarix®, Stugeron®) tem efeito na prevenção do enjôo no mar. Apesar de menos eficiente teria menos efeitos adversos. Na Bélgica é tida como a mais eficiente e está disponível em associação com domperidona (Motilium®). Deve ser iniciado o uso, pelo menos 24 horas antes da atividade. Outros congêneres são a meclizina e a ciclizina, sendo que estas não têm apresentações farmacêuticas no Brasil. Na literatura australiana, é citado o uso seguro de meclizina 8 horas antes do mergulho ou ciclizina 1 hora antes.

A Fenitoína (Hidantal®, Epelin®), droga anticonvulsivante, também é citada como tendo efeito anti-enjôo. No entanto, não foi aprovada para esse uso pela FDA. Apesar de ser segura, não é livre de efeitos adversos. Existe um estudo do seu uso em câmara hiperbárica em mergulho a 46 metros (“mergulho no seco”) sem se observar potencialização da narcose pelo nitrogênio, comparando com grupo controle.

Como podemos ver, atualmente existe uma grande quantidade de medicações disponíveis que apresentam diferenças em termos de eficiência para prevenir o mareio em relação ao uso individual ou combinado de cada uma delas. Em termos de uso geral, não relacionado ao mergulho, as drogas indicadas para a prevenção da condição de mareio intenso são a hioscina, a prometazina, as associações de hioscina com dexanfetamina e prometazina com efedrina. A duração aproximada do efeito antienjôo é variável e é de 4 horas para a hioscina, 12 horas para a prometazina, 6 horas para a associação de hioscina com dexanfetamina e de 12 horas para prometazina com efedrina.

Hioscina ou escopolamina é a droga individual mais potente. A combinação de prometazina com efedrina é a associação mais eficiente. A hioscina ou escopolamina combinada com efedrina ou anfetamina é mais eficiente que o uso individual. Para casos moderados de enjôo estaria indicada a prometazina, que tem duração de efeito de aproximadamente 6 horas. O dimenidrinato é considerado mais eficiente que a escopolamina transdérmica. Dimenidrinato associado com efedrina é mais eficiente que usado sozinho. A escopolamina é preferível para exposições curtas e os anti-histamínicos para exposições mais demoradas. Para casos leves estaria indicado a ciclizina ou meclizina. Alguns estudos não evidenciam diferenças em termos de eficácia em relação à ciclizina, quando comparada com o dimenidrinato. No entanto, a ciclizina teria menos sintomas gástricos e sonolência.

Devemos ter em mente o uso de drogas para a condição de prevenção do enjôo em geral e o uso específico dessas drogas por mergulhadores. No caso do mergulho, a escolha deve ser individualizada e os efeitos adversos devidamente avaliados em relação específica com o mergulho. No caso do mergulho, independentemente da droga escolhida, ela deve ser experimentada previamente em condições controladas para se certificar em relação a efeitos adversos relacionados à resposta individual ao uso.

Além disso, o mergulho deve ser limitado até os 18 metros para se evitarem os efeitos adicionais e potencializadores provocados pela narcose do nitrogênio. Idealmente não deve haver sedação antes do mergulho. Um esquema relativamente seguro sugerido é, para mergulhos no início da manhã, usar a prometazina ou similar do mesmo grupo farmacológico na noite anterior. Nesse modo de uso, ainda haveria efeito antienjôo no início da manhã, sendo que o efeito sedativo já teria passado. A literatura australiana considera a prometazina, o dimenidrinato, a mezoclizina e a ciclizina drogas relativamente seguras para o uso nas condições de mergulho sugeridas acima. Já a literatura norte-americana refere-se ao uso da escopolamina nas suas várias apresentações também como seguro.

A indicação do uso de drogas contra o mareio em atividade de mergulho deve ser condicionada, considerando-se os efeitos adversos individuais experimentados em condições controladas de uso. O mergulho deve ser limitado em termos de profundidade e monitorizado com um dupla capacitado para atender a situações risco. Todo o usuário dessas medicações deve comunicar o seu uso para o responsável pela operação de mergulho quando embarcado. Preconiza-se que, em operações em que se permita o uso dessas medicações, deva obrigatoriamente haver profissional capacitado para tratar prontamente as complicações advindas do seu uso. Isso inclui a capacidade de tratamento farmacológico específico em caso de intoxicação por qualquer uma das drogas na situação de haver complicações cardiovasculares ou do sistema nervoso central decorrentes dos efeitos atropínicos de muitas dessas drogas.

Tratamento medicamentoso

Alguns neurolépticos do grupo das fenotiazidas foram usados para tratamento de náusea e enjôo no mar. A prometazina já foi mencionada na profilaxia do enjôo. Seu uso intramuscular tem efeito imediato sobre o enjôo. O uso intramuscular não está indicado para a prevenção de ataques de enjôo no mergulho, no entanto pode ser uma forma de tratamento de situações agudas já estabelecida. A hipotensão é um efeito adverso grave e num mergulhador depletado por náuseas e vômitos adquire importantes proporções. São drogas que, durante o uso parenteral, também produzem crises extrapiramidais que podem ser perigosas embaixo d’água. Entre elas temos as chamadas crises óculo-gíricas. Por essa razão são drogas que não devem ser usadas para combater o enjôo em mergulhadores antes do mergulho.

Outras drogas deste grupo farmacológico como a perfenazina (Trilafon®) e a clorpromazina (Clorpromazina Vital Brasil®, Clorpromazina NeoVita®, Amplictil®), apresentam ação no sistema nervosos central e são antieméticos potentes. Foram observadas crises óculo-gíricas em alguns indivíduos mesmo em doses tão baixas como 5 mg de clorpromazina. O haloperidol (Haldol®), um outro composto heterocíclico do grupo dos antipsicóticos, também tem o mesmo efeito. Como apresenta efeitos adversos muito semelhantes a este grupo de medicamentos, não deve ser usado no mergulho.

Metoclopramida (Plasil®) tem ação antiemética no sistema nervoso central, efeitos de contração sobre o esfíncter do esôfago e de promoção do esvaziamento estomacal. Ela alivia o desconforto do vômito e da náusea, mas também produz sedação e tem efeitos extrapiramidais, sendo de uso restrito.

Essas medicações são úteis em live aboards no sentido de controlar o enjôo até que a adaptação ao movimento ocorra. Assim que os sintomas passarem, se interromperá o uso e se aguardará, dependendo da medicação usada, entre 12 e 24 horas, para que se inicie o mergulho.

Conclusão

Não se esqueça de que quem já enjoou, está sugestionado a enjoar de novo. A sugestão tem um efeito desencadeante importante e já foi comprovada como tal. Mantenha-se descansado, tendo repousado bem na véspera do mergulho. Evite o álcool, mantenha-se hidratado e bem nutrido. São atitudes que poderão evitar o desencadeamento do enjôo. Mergulhe com pouca comida no estômago, evitando refeições abundantes. Embarcando, procure montar seu equipamento, num local arejado, logo que puder.

Evite trabalhar olhando para o chão e qualquer desconforto, enquanto a embarcação está balançando. Evite montar o equipamento durante o trajeto até o ponto de mergulho. Procure ficar num local que tenha menos movimento, que tenha visibilidade para a linha do horizonte, que seja bem ventilado e que esteja longe da fumaça do motor. Identifique os desencadeantes pessoais. Eles podem ser o movimento, sons, cheiros e preocupações.

Em caso de optar pelo uso de uma medicação, tenha consciência de que as mais eficientes têm sérios efeitos adversos que não são compatíveis com o mergulho. Como os efeitos adversos têm uma variabilidade individual, experimente antes de estar na operação de mergulho. Prefere-se utilizá-los muitos dias antes e em casa ou, idealmente, em condições de treino na escola de mergulho. Sempre se deve avaliar se os efeitos adversos são piores que o próprio enjôo no mar para decidir sobre o uso de medicações. Dependendo do mergulhador e, neste momento é valorizada a sua experiência, o enjôo é fugaz e transitório. Aguardar o tratamento conservador terá o melhor efeito. Por outro lado, se o mergulho não pode ser adiado, então o uso da medicação pode ser preferido.

Optando por tratamentos farmacológicos ou outras medidas não farmacológicas, deve-se ter fé na eficácia destas. Deve-se ter consciência de que o enjôo tem um momento em que pára. O enjôo em atividades de grupo muitas vezes gera um sentimento humilhante, devendo, no sentido psicológico, ser tratado antes. Essa conduta tem também o caráter de prevenir a auto-sugestão. Os sentimentos negativos em relação ao enjôo são maiores em mergulhadores iniciantes. Na cultura do mergulho, onde as chamadas provas de mar são encaradas como ritos de passagem, eles tendem a ser mais observados (observação pessoal).

Enfim, para evitar o enjôo no mergulho, deve-se treinar bastante e ficar familiarizado com essa atividade de lazer. Deve-se evitar mergulhar em condições de mar impróprias. O mergulho é só uma diversão e como tal deve dar prazer aos praticantes. A confiança vai gerar segurança e afastar a apreensão inerente à atividade, que é capaz, por si só, de induzir o mergulhador ao enjôo no mar.

Fontes

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Renúncia

Nenhuma representação neste texto é feita no sentido de oferecer um diagnóstico, tratamento ou cura para qualquer condição ou doença relatada. O caráter do texto é somente informativo e deve ser usado em conjunto com o aconselhamento específico do médico de medicina do mergulho. O autor não é responsável por qualquer consequência concebível relacionada à leitura deste texto.

Augusto Marques
Augusto Marques Ramos é formado pela UFRGS, Mestre em Medicina pela mesma Universidade e Preceptor do Programa de Residência Médica do Hospital Nossa Senhora da Conceição, atuando também como médico nefrologista do Instituto da Criança com Diabetes. Mergulhador desde 1984 e membro associado do Dive Alert Network (DAN) desde 1997. Ele também é instrutor de mergulho pela Association of Diving School, International (ADS, International). Realiza avaliação médica para a prática do mergulho autônomo amador em várias escolas de mergulho desde 1987. É médico hiperbarista formado pela UFSP e pelo Centro de Instrução e Adestratamento Almirante Átilla Monteiro Aché (CIAMA). Também é membro da Sociedade Gaúcha de Nefrologia, das Sociedades Brasileiras de Nefrologia e de Medicina Hiperbárica, da South Pacific Underwater Medicine Society (SPUMS) e da European Dialysis and Transplant Association (EDTA).