Entrevista: Lawrence Wahba

Atualmente dirigindo a série “Antártica – O Continente Gelado com Amyr Klink” para o National Geographic Channel, estreou um quadro no programa “Domingo Espetacular”, na Rede Record, onde apresenta matérias semanais sobre mergulho, cultura e natureza.

Entrevista

Lawrence, sempre vemos seus documentários e participações em alguns programas, mas quando você iniciou as produções e filmagens sobre o meio ambiente ?  Algum motivo em especial o levou a atuar na área ou foi por pura paixão a natureza ?
Eu sempre tive muito interesse em natureza, animais e principalmente no mar. Comecei a praticar mergulho livre aos 7 anos de idade e autônomo aos 14. Com 18 já era instrutor e comecei a fazer vídeos de alunos ao mesmo tempo em que cursava faculdade de cinema. Meus primeiros projetos profissionais foram o Crossing American Coast (viagem de jipe off road de Los Angeles a São Paulo) e Segredos Submersos do Atlântico (viagem de escuna clássica de Santos até o Cabo Verde). A partir daí a carreira de documentarista foi dando certo e eu continuei…

Dos locais onde você esteve, algum deles deixou marcas na memória como sendo um local ou ocasião inesquecível ?
Olha, é uma pergunta tão ampla que não dá nem para responder direito… São 15 anos de carreira, 40 países visitados… Outro dia estava fazendo umas contas e cheguei a conclusão que se somar os dias que passei viajando entre 1989 e 2004 foram sete anos inteiros mergulhando pelo mundo. Tem centenas de situações inesquecíveis e dezenas de locais para onde eu sempre quero voltar.

Que país demonstrou a você e sua equipe, uma real preocupação com a preservação ambiental ?
Acho que Nova Zelândia e Austrália são dois bons exemplos. Recentemente vimos nos jornais que um mergulhador que arpoou um tubarão de espécie ameaçada (mangona) na Austrália vai ser julgado, terá que pagar multa e pode ser preso. Curiosamente mangona é a mesma espécie que teve uma fêmea grávida morta por banhistas na costa do Rio de Janeiro, e os idiotas apareceram como heróis nos nossos meios de comunicação… é triste.

Das viagens realizadas, houve alguma em que vocês chegaram a ter muitos problemas para a realização das filmagens ?
Muitas… Todo mundo pensa que nós temos a melhor profissão do mundo, mas nosso cotidiano não é nada glamoroso. Posso citar muitas situações complicadas, por exemplo, para filmar um tubarão branco pela 1a vez passei 18 dias em mares picados, num barco que fedia horrores (a isca era sangue e vísceras de peixe), com a roupa seca pronta e nada de tubarão aparecer. A gente ficava pronto 8 horas por dia e nada acontecia.

Outra “roubada” histórica foi gravar na Sibéria, o rango era intragável e não haviam opções, a equipe quase trocava tapas por um prato de miojo… Mas hoje a gente só ri daquelas situações…

É complicado gerenciar orçamentos, logística, expectativas… Mas somando prós e contras também acho que é a melhor profissão do mundo !

Quanto aos parques marinhos no Brasil, você acredita que os órgãos governamentais estão atuando de forma séria ou há falhas na estruturação e normas para um convívio mútuo homem X natureza ?
Não dá para generalizar, cada caso é um caso. Conheci pessoas incríveis, dedicadas e sérias no IBAMA e em outros órgãos, mas vi de perto os problemas estruturais que eles enfrentam. Quase todos os locais têm seus problemas, mas alguns como Atol das Rocas, Abrolhos e Praia do Forte estão lidando muito bem com eles. Outros têm muito a melhorar.

Quanto ao assunto tubarões em Recife, o que você pensa a respeito das medidas tomadas pelas autoridades locais em relação aos “ataques” ocorridos na região ?
Os ataques de Recife são resultado de um desequilibro ambiental acentuado pelas obras de expansão do Porto de Suape, é um problema crônico e possivelmente sem solução, ou seja, temos de aprender a conviver com isto.

Acho complicado alguém de fora, como eu, palpitar em ações tomadas pelo governo e pela sociedade locais. De qualquer forma a educação ambiental é o caminho a ser tomado. Sou 100% a favor de placas que alertem os perigos. Mas sou contra as medidas que proíbam o surfe ou confisquem pranchas… Acho que os surfistas tem o direito legal de surfarem onde bem entenderem desde que estejam conscientes que correm riscos reais.

Apesar de ser um problema, a imprensa faz parecer pior do que é. Aposto que se fizermos um estudo usando como base apenas pessoas que surfam em águas metropolitanas de Recife e compararmos os números de ataques de tubarão com o número de acidentes de carro nos últimos dez anos, chegaremos a conclusão que houveram muito mais surfistas vítimas de acidentes de carro do que mordidos por tubarão… e nem por isso vamos proibi-los de andar de carro.

E quanto aos afundamentos dos naufrágios artificiais no Brasil ?
Sou a favor desde que supervisionados por órgãos ambientais e com estudos específicos. Sou contra iniciativas individuais de operadores que simplesmente afundam barcos para criar atrativos. Mas se for feito de forma organizada como em muitos lugares do mundo, os recifes artificiais podem ter um impacto positivo para o turismo submarino, para pesca, para comunidades…

Dos locais que você esteve, houve algum local onde você acredite que haja necessidade de atenção emergencial das autoridades brasileiras ?
Dos locais em que eu estive recentemente vejo a Amazônia como um todo e o litoral Norte do Estado de São Paulo como locais realmente ameaçados. Estes locais precisam de atitudes imediatas ou vão ser completamente destruídos, infelizmente não vejo luz no fim do túnel.

De alguma forma, empresários poderiam contribuir para a produção de novos documentários, na tentativa de trazer mais informações as pessoas e mostrar a importância da preservação ambiental a todos ?
Claro que sim, ainda mais com as leis de incentivo fiscal para produção audiovisual criadas pelo governo. Infelizmente, a parte mais difícil de qualquer expedição ou documentário que eu faço ainda é a captação de recursos… nos últimos 3 anos só tenho conseguido financiamento de empresas estrangeiras como a National Geographic, a 20Th Century Fox, a Natural History New Zealand… faz tempo que não tenho um projeto financiado por empresas nacionais.

Com esses contatos e agora com a TV Record, há boas perspectivas para mim apesar da eterna dificuldade. Mas estou de saco cheio de ver tantos amigos competentes, com projetos maravilhosos e sem financiamento.

Que locais você e sua equipe gostariam de documentar e quais são os planejamentos para o futuro ?
Um grande sonho que eu tinha era a Antártica, estive lá em fevereiro com o Amyr Klink e estou editando 4 filmes para a National Geographic sobre a viagem dele. Tenho me dedicado muito ao quadro semanal no Domingo Espetacular da Record.

Estamos reeditando muitas matérias com imagens de arquivo mas há a promessa de iniciarmos novas produções e tenho trabalhado nisto. Acabei de voltar do México, onde estive rodando as cenas subaquáticas do filme “Eliana e o Segredo dos Golfinhos”, minha estréia na “telona”.

Quanto a locais que eu gostaria de documentar, há muitos… Alguns de meus “sonhos de consumo” são o Ártico, Madagascar, Sulawesi, Namíbia e Açores. Mas com o dólar do jeito que esta, não tá nada fácil realizar estas expedições… Espero, literalmente, chegar lá. Tenho 35 anos e muito tempo de carreira pela frente…

Redação
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