A estranha carga do Navio do Breu

Para os que visitam o Navio do Breu em Paraty, vê espalhadas por toda a extensão do navio, centenas de garrafas verdes e retangulares com os escritos “João da Silva Silveira, Chim Pharm, Pelotas, Rio Grande do Sul”, é fato comum.

Infelizmente, por muito tempo, a identidade do navio e de sua carga tem sido um mistério. Até mesmo os barris de breu, que deram nome ao navio, intrigam alguns visitantes, que acreditam que eles sejam de cimento.

Um grande passo foi dado em direção da descoberta da identidade deste navio e sua história: O conteúdo das garrafas foi identificado !

No passado, havia seita, também conhecida como a Igreja Universal da Nogueira, Salsa, Caroba & Guáiaco, mundialmente chamada de Guaiacum Sanctum Universalis.

Esta seita tinha como principal cerimônia transcendental, a ingestão diária de altas doses de um elixir depurativo do sangue, que mesclado com doses igualmente altas de credulidade e desapego material, prometia a cura de todos os males degenerativos da humanidade.

No fim do século 19, a sífilis era a principal ameaça a integridade do Super Homem que a seita desejava formar e contra este mal todas as armas eram de grande valia.

Entre as práticas esotéricas desta seita, constava a “Contemplação do Vazio”, que era conhecida como a disciplina dos sentidos visando nada sentir.

O ritual era feito da seguinte maneira: Construía-se porões individuais, cavados seis metros abaixo da superfície. As paredes pintadas em um tom de preto intenso. Permaneciam nestes templos seis semanas a fio, na ausência absoluta de luz e som, ingerindo tão somente o famoso elixir. Com o passar dos dias, pela ação química do guáiaco, as papilas degustativas adormeciam.

Um escurecimento súbito da vista era previsível a partir do sétimo dia. Entre os súditos mais fervorosos, era recomendada a fricção constante, por todas as partes do corpo, de um bálsamo preparado a base de codeína, com a finalidade de amortecer a sensibilidade táctil.

Este era o uso do conteúdo das famosas garrafas do Navio do Breu. Após mais de cem anos, as garrafas continuam criando efeitos semelhantes nos que as encontram.

Uns “viajavam” bebendo o conteúdo, outros tentando descobrir o que tinha dentro !

A descoberta desta história traz à tona alguns dos sentimentos que são reservados aos mergulhadores de naufrágio: A emoção da descoberta e o contato com uma época há muito esquecida…

Mais pesquisas estão em andamento para que o Navio do Breu receba novamente sua denominação original.

Rodrigo Coluccini
Criador e proprietário da Revista Deco Stop, foi um dos responsáveis pela divulgação em larga escala das informações sobre naufrágios no litoral brasileiro, fato antes restrito a poucos. É co-autor do manual de naufrágios da certificadora PDIC. Seu trabalho é citado em vários livros atuais sobre história maritima brasileira confirmando a importância de seu trabalho.