Expedição ao Vapor do Paracuru

Foto: Marcus Davis

Naufrágios poucos explorados têm uma aura de mistério.

O manto azul esconde os seus segredos e cabe à nós mergulhadores, trazermos para superfície e dividir um pouco desses mistérios.

Em uma expedição composta por quatro mergulhadores recreativos e um livre, partimos para explorar o Vapor do Paracuru. Esse “navio” é conhecido há muitos anos por pescadores da praia de Paracuru, e por alguns mergulhadores que décadas atrás, o desmontaram para a retirada dos metais de valor e tudo mais que pudesse ser aproveitado.

Meses antes, tentamos localizar este naufrágio seguindo coordenadas geográficas descritas no livro de um conhecido pescador sub, mas infelizmente não obtivemos sucesso. As coordenadas imprecisas do início da década de 90, não permitiu encontrar a posição exata do naufrágio, e como estávamos no fim do dia, não tivemos muito tempo para procurá-lo.

Naufragio-Paracuru3A busca

Embarcamos em uma enseada tranquila a vista de um imenso píer da Petrobrás onde há um heliponto. Estávamos determinados a localizar o vapor, e para isso, tínhamos duas coordenadas que indicavam sua localização, distantes cem metros uma da outra.

Após o embarque, navegamos cerca de 2hs até a área de busca e lançamos uma garatéia com uma bóia entre as duas marcações assim que chegamos. A sonda indicava 18m, temperatura da água 26 graus e a cor da água não prometia mais que 10m de visibilidade.

Logo que jogamos a marcação, uma tartaruga veio à superfície, indicando que estávamos no local certo. No entanto, em nossa primeira expedição meses antes, mesmo não tendo encontrado o naufrágio, um enorme cardume de guarajubas amarelas passou por nós, algo que também indica a presença de grandes formações no fundo.

Optei por um mergulho solo munido de faca, computador de mergulho, bússola, uma ponny bottle (pequeno cilindro reserva), carretilha e dispositivos de sinalização. Desci junto a garatéia e ao chegar ao fundo, preparei a carretilha para iniciar a busca circular. Na superfície os outros mergulhadores à bordo da embarcação acompanhavam minhas bolhas ansiosos por alguma notícia. Expedições de exploração podem ser decepcionantes, pois não encontrar o ponto ou encontrar algo que não corresponda nossas expectativas, pode ser frustrante após algumas horas no mar.

Estiquei todo o cabo da carretilha afim de realizar uma busca circular num raio de 50m. Marquei a posição inicial coma bússola e comecei a procurá-lo. Após três quartos do círculo e intendentes 20 minutos com apenas 5 à 6m de visibilidade, algo começou a mudar. O padrão da ondulação da areia tornou-se irregular e um pouco de cascalho se mostrou, e então… um peixe !    E logo outro e mais outro !

Com a carretilha totalmente esticada no limite da visibilidade dava pra ver uma mancha escura no horizonte. Puxei a carretilha nesta direção para arrastar a garatéia e a estrutura tomou forma. Não dava para identificar o que era exatamente, apenas uma enorme massa de metálica que subia cerca de 5 metros do fundo. Amarrei a linha de busca ao naufrágio fazendo um “caminho submerso” e subi para avisar aos outros. Vibrei ao dizer “Vamos mergulhar no Vapor do Paracuru !”

Fizemos um breve intervalo onde passei um briefing de como chegar ao naufrágio e o que iriam encontrar. Nos equipamos para o mergulho em que fui o último a descer.

Naufragio-Paracuru1 O naufrágio

Em duplas, começamos a explorar o naufrágio.

Logo no início algo me chamou atenção: apesar de bem destruído era possível identificar que as chapas de aço do costado, eram pregadas com rebites e não soldadas. Isso é um indício de que o navio provavelmente fora construído antes do início da década de 30, época em que o uso de rebites eram usados para unir as chapas e posteriormente foram descontinuados.

Cabeços de amarração estavam claramente identificados, e em um deles, de menor porte e parcialmente enterrado, era possível ver que metal derretido o cobria, um indício de que o navio fora submetido a fortes temperaturas, onde muito provavelmente um incêndio possa ter sido a causa do sinistro. Para colher informações de um naufrágio é preciso estar atento aos detalhes…

Muita vida marinha habita o naufrágio: tartarugas, arraia de fogo, cardumes de galos, xilas e sardinhas, são tão densos que as vezes até atrapalhava a precária visibilidade.

O naufrágio está bem destruído, seu costado foi “retalhado” e às vezes até é possível “se perder” nas estruturas. Em poucos minutos, encontramos sua única caldeira, cujo eixo nos levou até a popa onde estava o seu grande hélice de quatro pás ainda no lugar. Cada uma dessas pás mede mais de 1,8m, evidenciando o tamanho do naufrágio. Ao localizar a popa “entendi o naufrágio”. Entendi que começamos o mergulho pela proa, onde havia amarrado minha carretilha no mergulho anterior. Atrás da popa, grandes estruturas metálicas permaneciam separadas do resto no navio, talvez parte de sua superestrutura.

Seguindo a quilha central percorremos todo o naufrágio, agora com uma noção mais clara de onde estávamos mergulhando. Também foi possível estimar o tamanho do navio, cerca de 75m a 100m de comprimento. Pouquíssimas e breves penetrações são possíveis.

Naufragio-Paracuru2 Ao voltar a proa, foi possível identificar cerca de 10 “eixos com rodas” como as das antigas locomotivas. Possivelmente parte da carga do navio. Algumas ainda estavam cuidadosamente arrumadas no que parecia ser um compartimento de carga de vante. Por bombordo a âncora tipo almirantado permanece junto ao navio, demonstrando que não fora usada momentos antes do afundamento, mas com uma peculiaridade: apesar de cuidadosamente presa junto ao costado o “braço” da âncora está desalinhado com sua “haste”, algo que para acontecer exigiu muita força ou calor.

Notei também que a popa e a proa são as estruturas mais conservadas no naufrágio. Esta última está adernada para boreste.

Um naufrágio excepcional que merece ser explorado pelos mergulhadores do Mar do Ceará !

Técnicas básicas de Busca e Recuperação podem ser conhecidas no curso avançado ou em uma especialidade de Busca e Recuperação, que é possível realizar em nossa operadora.

Fotos: Alexandre Martorano

Marcus Davis Andrade Braga
Formado em publicidade e propaganda pela FIC. Mergulha há mais de 15 anos, é instrutor de mergulho pela PADI #196258, instrutor de primeiros socorros pela EFR e supervisor de mergulho formado pelo Corpo de Bombeiros do Ceará, instituição para qual presta consultoria. Fotógrafo e pesquisador de naufrágios, já participou de diversas matérias e programas de televisão relacionados a mergulho. É coordenador do Clube de Mergulho do Mar do Ceará, grupo envolvido no desenvolvimento da prática de mergulho autônomo, na preservação ambiental e na pesquisa e localização de naufrágios no estado.