Expedição aos naufrágios potiguares

Foto: Rafael Demôro

Falar de mergulhos em naufrágios no Rio Grande do Norte, é falar dos dois mais famosos naufrágios do Brasil, os grandes cargueiros Comandante Pessoa e do São Luiz, que por sinal, tiveram o mesmo infortúnio, onde vinham navegando próximo à costa, na região conhecida como Risca de Zumbi, uma grande laje em forma de tira com centenas de metros de extensão, onde sua parte mais alta fica a apenas 6 metros e a máxima aos 13 metros de profundidade.

Além dos naufrágios, mergulhar na Risca do Zumbi é o “plus” de nossa expedição.

A dívida

Ao longo desses 10 anos de história da nossa operadora a qual era proprietário em Natal, recebíamos muitas ligações de pessoas que tinham ouvido falar dos naufrágios e queriam mergulhar por lá, e sempre dizíamos que não operávamos na região, o que nos frustrava muito, sabendo da grandeza e beleza dos mergulhos locais, pois não tínhamos uma embarcação adequada que provesse o suporte adequado aos mergulhos.

Na época, usávamos um lento lagosteiro alugado, com algumas adaptações para nossos mergulhos em Natal, e que não oferecia condições apropriadas aos mergulhos nos naufrágios e na Risca do Zumbi. Com a aquisição da lancha de mergulho em 2004 e uma reforma completa em 2005, a coisa mudou de plano, mas surgiu um dilema: como viabilizar os mergulhos do dia-a-dia em Natal, nos naufrágios e na Risca do Zumbi ?

De tanto quebrar a cabeça, surgiu a solução… começamos organizar expedições mensais para esta região, onde passamos a ter condições para saldar nossa dívida.

Realizamos a primeira operação para ver no que ia dar, o que acabou sendo um sucesso total. Era visível a felicidade nas expressões dos oito primeiros felizardos, um misto de satisfação de encantamento após cada dia de mergulho nesta fantástica região.

Mergulhos

Nossa expedição usa estrategicamente como base das saídas a Praia de Zumbi, que fica a 70 Km da cidade de Natal em direção norte, por estar mais próximo aos dois naufrágios e a Risca de Zumbi, na média de 13 milhas da costa. Ou seja, levamos lancha, tripulação, equipamentos, mala e cuia para lá, e contamos com uma hospedagem simples e agradáveis em duas pousadas (Toque do Mar e Beira Mar) de frente para o mar, onde saímos por volta das 7:30h da manhã, retornando às 14h.

O tempo de navegação até a região dos naufrágios giram em torno de 1:30h, que pode aumentar em função das condições do mar, e apesar da embarcação possuir grandes dimensões e ter boa velocidade, balança bastante, devido aos famosos ventos alísios que são mais fortes pela manhã cedo, perdendo força com o passar do dia.

Encontramos sempre uma água limpa, onde a visibilidade em média alcança os 30 metros na horizontal, e temperatura média de 29 / 30°C, podendo chegar aos 31°C na Risca, bastando uma camiseta como roupa de mergulho. Em algumas ocasiões, encontra-se uma leve correnteza.

Comandante Pessoa

O glorioso cargueiro que transportava madeira, encontrou seu fim batendo na Risca do Zumbi na década de 50, estando a uma profundidade média de 24 metros. Dizem os moradores locais que todos os 25 tripulantes se salvaram.

Embora parcialmente desmantelado, ao mergulhar no local, percebe-se que o Comandante Pessoa está soçobrado de boreste, onde é possível identificar claramente sua majestosa proa. Sua meia nau, é a parte mais desmantela, onde é possível identificar diversas partes, como motor e outras peças do convés superior e inferior, e seu imenso leme em sua popa, o que nos dá a dimensão do porte do cargueiro.

Para os mergulhadores devidamente certificados, algumas penetrações são convidativas e intrigantes, pois a vida marinha é muito diversificada, onde é possível avistar grandes arraias de pedra, bijupirás, tubarões lixas dormindo abaixo das ferragens, barracudas e serras, “patrulhando” os grandes cardumes multicoloridos que vivem ao redor do naufrágio.

São Luiz

Este cargueiro também não resistiu ao choque contra a Risca do Zumbi e naufragou a cerca de 4 milhas ao sul e a barlavento da risca, estando a uma profundidade de 28 metros. Pouco dos seus tripulantes chegaram a praia.

Com uma água roxa, posso dizer que a visibilidade local é um absurdo !

Encontramos uma correnteza nos primeiros 5 a 8 metros de profundidade, variando sua força entre leve e moderada, sendo recomendado o mergulho do tipo “âncora”, ou seja, ir direto para o fundo pelo cabo guia, pois quando se está abaixo dessas  profundidades. Temos a impressão de sair do “engarrafamento: e entrar no paraíso. Tudo entra no ritmo do fundo do mar.

O cardume de Pampo Garabebel que sempre está por lá, nos impressiona pela quantidade e tamanho. O menor deve alcançar os 60cm de comprimento, chegando até 1 metro.

A meia nau e popa do São Luís sofreram mais pelos efeitos das dinamites dos piratas e está bem desmantelado. Sua caldeira é indestrutível e impressionante devido ao seu tamanho. Sua âncora está lá bem à frente da proa, onde é possível ver parte dela saindo do fundo do mar.

As penetrações no naufrágio são poucas, mais extensas, com direito a passar sobre grandes tubarões lixas, que chega a chamar atenção devido ao seu tamanho e pela proximidade com que se passa por deles. Os cardumes vão desde pequenos peixes de recifes, como Ciliares, Dentões, Ariocós até grandes Arraias Chitas, que nos hipnotizam com sua leveza durante a natação, como se estivessem voando. Jardins de esponjas tubulares laranjas e verdes neons, guardam uma infinidade de peixes de recifes de corais como os Limpadores, as Barracudas, Serras e os graúdos Pampos Garabebéis.

Risca do Zumbi

A nomenclatura Risca, vêm da imensa linha de recifes, e Zumbi, por estar em frente à Praia do Zumbi, praia esta escolhida por nossa equipe, por ser um ponto estratégico como base para as operações de nossas expedições.

A profundidade média gira em torno dos 10 metros. Na Risca Seca, a profundidade média gira entre 6 a 12 metros. No Cabeço do Borges, outra área também na Risca, a profundidade chega aos 14 metros, onde a média gira em torno dos 10 metros. São ótimos locais para um segundo mergulho, após os mergulhos nos naufrágios.

A temperatura beira sempre os 30°C, e visibilidade idêntica a encontrada nos naufrágios. Por ser mais raso, a luminosidade pode ser considerada como o “o sonho de consumo” dos fotógrafos sub, pois há muita vida marinha (características do recifes) e diversas esponjas tubulares com seu tons de verde e amarelo “neon”.

A risca possui uma forma de um extenso e estreito platô, onde a erosão das correntes criassem várias cavernas e canais logo abaixo, permitindo a passagem de um lado para o outro, e belíssimas fotos.

Como chegar e mergulhar

A melhor época do ano para se mergulhar na região, vai de outubro à junho, sendo o “auge”, os meses de fevereiro, março e abril.

As saídas são realizadas a partir da Praia de Zumbi, que fica a 70Km ao norte da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte, pegando a BR-101 e entrando na entrada de uma estrada de barro no Km 60 para a praia, levando em média 1:30H de viagem de carro.

Afonso Melo
Afonso Melo é natural de Natal-RN, inciando no mergulho nos anos 70. Nos anos 80 realizou alguns trabalhos na área de mergulho comercial em empresas que prestavam serviços de apoio as plataformas de petroleo da Petrobras no Ceará e Rio Grande do Norte. Iniciou sua carreira no mergulho recreativo nos anos 90. Mergulhador 3 estrelas pela CMAS, fundou a operadora de mergulho Mar&Sub, pioneira no RN, se tornando instrutor CMAS em 1996, e em 2003 pela PDIC (#94964), com especialidades em Nitrox, Multi-Nível, Computadores, Equipamentos, dentre outros. Além de conhecer diversos pontos de mergulho do Brasil, participou de várias matérias para a Rede Globo e sua filiada local, como cinegrafista e consultor de mergulho.