Expedição Ilha Coiba – Panamá

Foto: Kadu Pinheiro

O Parque Nacional Coiba foi tombado como Patrimônio Mundial da UNESCO em 2000, e as ilhas vizinhas do Golfo de Chiriquí, Ilhas Secas, Montuosa e Isla Ladrones, oferecem algumas das melhores opções de aventuras e explorações de mergulho no mundo, numa região com um vasto potencial ainda inexplorado.

Nesta região da costa do Pacífico no Panamá, a plataforma continental é estreita e bem delimitada, a ilha está muito perto de um abismo oceânico, o que propicia condições de mergulho em mar aberto, com ocorrência de grandes pelágicos e cardumes de peixes de diversas espécies, sendo influenciada por cinco grandes correntes oceânicas e localizada em um dos pontos do planeta mais ricos em nutrientes, o Pacífico Oriental”.

O corredor do Pacífico Oriental inclui as ilhas do Parque Nacional Coiba, Panamá, Ilha Coco na Costa Rica, Malpelo na Colômbia e as Ilhas Galápagos do Equador. Estas ilhas são os cumes de uma extensa cadeia montanhosa submersa, que forma uma rodovia entre as ilhas do Pacífico Oriental.

Coiba possui o segundo maior recife de coral do Pacífico Oriental, correntes nas áreas expostas são comuns. A visibilidade fica na média dos 20m dependendo da localização. A temperatura na superfície do mar é amena o ano todo, mas a termoclina que ocorre nas maiores profundidades varia ao longo do ano, podendo reduzir a temperatura da água em vários graus. Essa configuração é responsável por trazer vários pelágicos, grandes cardumes e uma vasta biodiversidade para suas águas.

A região possui um ambiente marinho extremamente dinâmico composto por mais de 760 espécies de peixes, 33 espécies de tubarões, incluindo o galha branca de recife, tubarão martelo, tubarões de Galápagos, cabeça chata, tubarão tigre, tubarão baleia e o diferente tubarão Guitarra. Uma variedade de arraias, Mantas, Móbulas, Devil Rays. Algumas espécies formam cardumes gigantes como a Spotted Eagle Ray e as Golden Rays. Existem áreas protegidas para a reprodução de quatro espécies de tartarugas marinhas, incluindo a tartaruga gigante do Pacífico, uma grande variedade de mamíferos marinhos, incluindo várias espécies de golfinhos, baleias-piloto, Orcas, Fin, Brydes e Sperm Whales. Baleias Jubarte podem ser vistas na área durante o ano todo, mas a melhor época para grandes encontros são os meses de maio a outubro, e seu canto pode ser ouvido enquanto mergulhamos ao redor do parque.

Grandes cardumes de predadores como Barracudas, Valetes e Snappers podem ser observados, juntamente com uma grande variedade de peixes recifais. As paisagens vulcânicas submarinas são adornadas com uma abundância de corais duros e moles, esponjas marinhas, habitat para uma incrível variedade de vida, incluindo, lagostas, caranguejos, polvos, diversos tipos de moréias, Estrelas do mar, Blenios, Stargazers, cavalos marinhos, nudibrânquios, Pipefish, e algumas criaturas exóticas como o camarão arlequim e o frog fish.

Os pontos de mergulho variam de costões a praias calmas e rasas protegidos por belas enseadas, mergulhos no azul ao favor da corrente, pináculos a mais de 40 metros de profundidade, vulcões submersos, estações de limpeza com grande concentração de cardumes e predadores, enfim, mergulhos para todos os gostos e de todos os níveis.

Novos pontos de mergulho são freqüentemente encontrados proporcionando a oportunidade de explorar e descobrir lugares intocados, e nessa expedição em que estive, foram descobertos cinco novos pontos próximos a ilha Montuosa.

A Expedição – Dia 1

Partimos da cidade do Panamá rumo a Ilha Coiba, foram três horas e meia de estradas esburacadas, ao longo da costa sul do Panamá, até Puerto Mutis, uma pequena vila de pesca, onde dois pangas (botes) do Yemaya II esperavam por nós. O canal é muito raso nessa região impossibilitando a entrada de barcos maiores, especialmente na maré baixa, e após uma viagem de 50 minutos de Puerto Mutis ao Yemaya II, entre canais rasos pela zona de mangue e na maior parte do tempo desabitada e deslumbrante, chegamos a embarcação.

O M/V Yemaya II, é uma embarcação recém reformada e totalmente preparada para operações de mergulho, possui capacidade para 16 mergulhadores, todas as instalações do barco são novas e bem equipadas, cabines com ar condicionado central, ampla praça de equipagem, mesa de trabalho para montagem de câmeras fotográficas e afins, diversos pontos de tomadas para recarregar baterias e pilhas dos equipamentos, compressor de nitrox abordo, conta com 2 botes de apoio com capacidade para 10 mergulhadores cada, conta ainda com um Zodiac, e 2 caiaques oceânicos para uso nas enseadas e mangues.

Ao subirmos à bordo, fomos brindados com uma recepção calorosa da tripulação, com direito a coquetel e uma escolta de golfinhos que nos acompanharam por quase meia hora rumo a Ilha de Coiba. Durante as 4 hs de navegação rumo a Coiba, foi possível nos preparar com calma, saboreamos um delicioso almoço preparado pelo chefe cubano Juan Carlos, montagem dos equipos, câmeras, ajustes, tudo pronto para nosso check dive em “The Church”, um lugar calmo e protegido, sem correntezas e pouca profundidade. Logo nos primeiros minutos de mergulho avistamos alguns tubarões Galha Branca de recife patrulhando o costão, mobulas, cardumes diversos, barracudas, baiacus das mais variadas cores, pintados, amarelos, azulados, um bom começo !!

Jantar magnífico com direito a lagostas e muita animação em nossa primeira noite, onde tivemos a oportunidade de conhecer melhor nossa equipe internacional, que era composta pelos seguintes:

  • 3 americanos James Moskito (especialista em tubarões), Heidi Connal e Eric Cheng (Wetpixel magazine),
  • 2 brasileiros: Marcelo (Squallo) e Kadu Pinheiro (eu);
  • 5 franceses: Frederick (Fotógrafo e colaborador de diversas revistas francesas), Louis Michel (uma fiel cópia de Jacques Cousteau), Laetitia Scuiller (Jornalista e Fotógrafa da Plonge Magazine), Maëlle (Videomaker e representante de uma operadora de turismo Francesa), e Pierre (Fotógrafo) ;
  • Jesus (diretor da Abando travel, uma das maiores operadoras de turismo subaquático da espanha, o Vídeo Maker Andrea, também proprietário de uma grande operadora Italiana e Jono fotógrafo australiano, que mora nos Estados Unidos e é proprietário de uma operadora de mergulho;
  • Nosso anfitrião Otmar Hanser um alemão casado com uma cubana, proprietário da Coiba Expedition, em fim, uma equipe composta de mergulhadores experientes e bem equipados para registrar nossa aventura de todos os ângulos possíveis.

Os Mergulhos

O melhor mergulho do dia foi em um local chamado La Viuda (A Viúva), um pináculo com forte correnteza e uma sopa turva de nutrientes com água esverdeada abaixo dos 15 metros, sinistra e “bem convidativa”. No topo do pináculo a profundidade chega aos 37m e há uma congregação de moréias de diversas espécies que nos aguardavam ansiosas e bem ativas. Eram verdes gigantes, pintadas, de chifre e todas elas fora de suas tocas e passeando pelo topo da formação de forma bem natural, não parecendo se importar com nossa presença, além de vários cardumes de jacks, trazendo um clima bem misterioso, com sombras de grandes cardumes se deslocando ao redor do platô, e a todo instante, silhuetas recortavam nosso campo de visão. Alguns integrantes de nosso grupo avistaram um tubarão tigre na cortina de suspensão ao redor do pináculo.

Após o almoço decidimos fazer uma exploração na ilha, o capitão solicitou uma autorização aos guardas do presídio para que pudéssemos desembarcar e visitar as antigas instalações da colônia penal, hoje desativada. A ilha permaneceu desabitada ao longo de séculos, até que, em 1919 a Colônia Penal foi criada. Com capacidade para 2000 prisioneiros que dedicavam seu tempo à agricultura, produziam carne, arroz, frutas e legumes em mais de 150 hectares de terra preparadas para essa finalidade. Esta produção alimentava todos os presos do Panamá e também muitas crianças carentes de escolas da região. Coiba era um presídio modelo naquela época.

O período em que esteve ativo, guarda uma série de histórias macabras, fugas eram impossíveis, pois o mar ao redor da ilha era infestado de tubarões e crocodilos de água salgada, havendo muitas “lendas” de presos que tentaram fugir a nado para outras ilhas vizinhas e foram devorados em suas primeiras braçadas rumo ao oceano. Os guardas não faziam questão de impedir essas tentativas sempre frustradas e por volta dos anos 70, a pesca predatória dizimou boa parte da população de tubarões ao redor da ilha, somente dando sinais de recuperação há poucos anos, e a prisão foi fechada em junho de 2000. Desde então, ela abriga apenas uma estação de Rangers, que ainda cuidam de 3 presos, que foram enviados para a ilha por bom comportamento, mas que hoje, atuam como guias de turismo no local. A ilha possui um pequeno cemitério de presos, ruínas das celas e das solitárias, além de uma pequena capela da qual restam apenas as paredes externas e seu crucifixo sobre a entrada.

O clima é pesado nessas instalações, mas a natureza aos poucos vai tomando e limpando a penumbra que repousa sobre esse pedaço de história da ilha, e esperamos que o restante dessa história possa ser escrita com a preservação da riqueza e da beleza que a natureza oferece a seus atuais visitantes.

Retornando ao barco, fomos para mais um mergulho noturno antes do jantar, mergulho cheio de intensa atividade, onde levei vários sustos com alguns tubarões galhas brancas caçando nos recifes enquanto eu tentava fazer algumas fotos de suas possíveis refeições.

Dia 2

Eram 6hs da manhã e o Yemaya II levantou âncora e rumamos para a Isla Ranchero, no Canal da Rancheria. Fundeamos em uma enseada pacífica entre Isla Jicaron e Isla Jicarita. Havia um catamarã ancorado e acho que acabamos com seu sossego e tranquilidade pois em menos de 1 hora, este levantou ancora e rumou para outra direção.

Fizemos imersões em mais um ponto com forte corrente e grandes cardumes de peixes de passagem, segundo mergulho mais raso e tranqüilo em um local famoso pela ocorrência de tubarões cabeça chata, mas só avistamos galhas brancas de recife e um galha preta de passagem. Enormes cardumes, um pequeno tubarão guitarra e enormes arraiais prego repousando no fundo arenoso.

Dia 3

Mais uma etapa em nossa expedição levantamos ancora de madrugada rumo a “lsla Contreras”, fundeamos o barco em outra enseada abrigada ao amanhecer e iniciamos o processo de montagem dos equipamentos para os mergulhos do dia, sendo dois mergulhos fantásticos pela manhã, com direito a observação de um galha preta. Após o almoço, fizemos uma reunião para decidirmos os próximos passos da expedição que agora seguiria para Isla Montuosa, mais distante e isolada

Dia 4 – Ilha Montuosa

Após uma navegação de reconhecimento com os botes do Yemaya II, escolhemos nosso primeiro alvo do dia, uma pequena formação rochosa que aflorava a superfície, e segundo o sonar do barco, estava bem abastecida de “pescados”. Dividimos a equipe de forma a cobrir os dois lados da formação, onde foi planejado fazer um drift e ao final do mergulho, soltar um sinalizador de superfície, para sermos recolhidos pelo nosso bote. A idéia era percorrer a maior distância possível e “esquadrinhar” fundo em busca de formações promissoras, mas logo ao cair na água e iniciar minha descida fui rodeado por um enorme cardume de barracudas que praticamente tampou o sol por alguns instantes, bom sinal !!!

Seguimos a diante até a base da formação a uns 20m de profundidade, pequenos cânions e tocas repletas de galhas brancas de recife, belas formações de gorgônias e corais, onde nosso mergulho seguinte acabou tendo um perfil bem semelhante, com cardumes e peixes de passagem em quantidade. Realmente uma explosão de vida e diversidade. Até nos trechos de “areião” que percorremos éramos brindados com a presença de enormes cardumes de passagem, que obstruíam a luz solar por breves instantes.

Na parte da tarde fizemos um desembarque na ilha e encontramos um acampamento de pescadores bem próximo a praia, fomos recebidos com certa curiosidade e apreensão por parte de nossos “companheiros” de mar, ficamos na ilha até o pôr do sol, sendo um dos mais belos que já presenciei na minha vida.

Dia 5Hannibal Banks

Durante a madrugada zarpamos para Hannibal Banks, um mergulho no azul numa das mais famosas zona de pesca esportiva do pacífico. Teoricamente o ponto alto da viagem, e a expectativa era avistarmos grande atividade de cardumes e predadores na região. A mergulho acontece sob a cratera de um vulcão submerso que forma um platô a mais de 50 metros de profundidade e que despenca centenas de metros em suas bordas. Todo um planejamento e preparação foram executados nesse mergulho, cabos de segurança seriam fixados sobre o platô e faríamos um mergulho conectados por join lines a esse cabo em 2 diferentes pontos, distribuindo os mergulhadores em intervalos pequenos para evitar enroscos no cabo.

Ficaríamos ali a mais ou menos 30 metros de profundidade ao sabor da correnteza e vendo a “vida” passar bem diante dos nossos olhos, mas a “vida” é cheia de surpresas e o mar não respeita nossos petulantes planejamentos, tudo ocorreu como planejado, logística perfeita equipe sincronizada e safa, mas fizemos 50 minutos de apreciação do azul, sem termoclinas e sem correntes, o que seria o agente catalizador da vida, um azul profundo e silencioso.

Após o mergulho conversamos por rádio com alguns barcos de pesca que estavam próximos e fomos informados de que a calmaria deveria perdurar por mais alguns dias, frustrante, mas acabamos decidindo não perder mais tempo e rumamos ainda a tarde para as ilhas de Jicarita e Jicaron, onde teríamos mais chances de obter sucesso em nossas imersões. Foram mais dois mergulhos ao entardecer e um noturno bem animado, cheio de cardumes, polvos, galhas brancas, moréias, lagostas, peixes papagaios e uma explosão de cor e atividade no recife.

Último dia

Mais três imersões com muita correnteza e vida marinha, além dos nossos sempre presentes galhas brancas de recife, que apesar de serem facilmente avistados, são ariscos e não permitem a aproximação de mergulhadores por alguns instantes. Encontramos uma tubarão morto no fundo do recife e logo imaginamos que estaria sem suas barbatanas dorsais, o que felizmente não se confirmou, nada conclusivo mas nos deixou pensativos, as ações dos guarda parques são ostensivas e frequentes, mas os mesmos possuem apenas botes lentos e de pouca autonomia para patrulhar uma vastidão. Talvez o desenvolvimento do turismo sub na região traga mais investimento do governo para a manutenção e fiscalização do parque.

Fechamos o dia com mais um noturno, a abrimos a noite com um belo jantar de despedida, uma paeja espanhola com tempero cubano regada a vinho branco, muita animação e descontração. Um jantar de uma grande família em nossa última noite, onde realmente conquistamos bons amigos nesses dias !

De volta ao Panamá, hora das compras e um passeio para ver as comportas funcionando. Um tour pelo centro histórico e no dia seguinte, um safári pelos lagos do canal na região de Gamboa, onde a vida também pulsa em suas margens, como jacarés, macacos, tartarugas, e uma infinidade de aves, prato cheio para belas fotos. Não esqueçam a teleobjetiva !  Uma 300mm quebra um tremendo galho nessas horas.

Clima

Clima tropical úmido, onde temperatura média gira em torno dos 25ºC. Março é o mês mais quente, com uma temperatura média de 32,5ºC. Outubro é o melhor mês, com uma temperatura média de 22ºC. Há duas estações distintas, a estação seca, de dezembro a meados de maio e a úmida de junho a dezembro.

As ilhas na região são recobertas por uma extensa floresta tropical úmida e repleta de vida com espécies endêmicas, crocodilos americanos e jacarés, águias, pássaros raros, cobras venenosas. Pesquisas revelam mais de 2000 espécies de plantas na região

Outras atrações e atividades

Snorkel – Realizar mergulhos livres nas enseadas é prazeroso e relaxante, é possível avistar tartarugas, cardumes, e com alguma sorte ou azar, crocodilos de água salgada. Abra bem os olhos !

Praias – É possível desembarcar em algumas ilhas desertas de caiaque ou pedindo para o bote te deixar na ilha e voltar para lhe buscar mais tarde. Leve uma rede, lanche, máquina fotográfica e brinque de náufrago. A sensação de paz é maravilhosa, caranguejos ermitões povoam as praias as centenas, escondendo-se em suas casas ao menor sinal de aproximação. Pássaros, pequenos roedores e toda sorte de insetos habitam as ilhota. Cuidado com incursões pela mata, existem espécies de serpentes muito venenosas, aranhas e outras criaturas com potencial perigo nas áreas mais densas da mata.

Quem Leva

Coiba Dive Expeditions
Diablo Heights
Bldg 5051, Office 42
Panama, Rep of Panama
Tel : +507 232-7126
+507 232-0216
Fax: +507 232-0217
Skype: coibadiveexpeditions

Onde ficar

Panamá City: Marriot Courtyard Panama Real Hotel
Via Israel Multiplaza Pacific Mall
Panama City, Panama
Tel: 507 301 0101
Fax: 507 301 0102 / Vendas: 507 301 0102

Excelente localização, ao lado de um shopping, perfeito para compras após os mergulhos, acomodações e atendimento impecáveis.

Kadu Pinheiro
Instrutor de mergulho, fotógrafo, designer e editor da Revista DiveMag. Tem como paixões a fotografia e o mar, onde acabou unindo as duas atividades ao ingressar na fotografia subaquática."