Exploradores de Naufrágios

Foto: Rafael Demôro

A idéia de se encontrar cara a cara com a história e chegar onde poucas pessoas estiveram antes, é um dos objetivos de quem realiza mergulhos de exploração. Quando a equipe Atlantes chegou a Guarapari, no ano 1993, não existiam guias locais ou escolas de mergulho. Conhecer cada ponto era um desafio gratificante e cada saída tinha um espírito de expedição.

Essa aventura continua até hoje: logo após a descoberta do naufrágio Índia, em novembro de 2004, a equipe Atlantes iniciou os trabalhos de identificação dessa embarcação e as pesquisas para encontrar outras. Fruto desse trabalho foi a localização dos últimos três naufrágios, em dezembro de 2005.

Porém, a aventura não termina por aí. Existem no litoral brasileiro centenas de navios que aguardam sua vez de serem explorados e apresentados para a comunidade do mergulho.

Julio-Yaber-PesquisaHistórias sobre destroços de navios, caravelas e até submarinos alemães não são poucas entre navegantes de todos os portos e “figuras de beira de cais”. O problema é separar as estórias de marujos dos dados reais.

No último ano, depois de viajar por várias comunidades a beira mar para entrevistar caiçaras, pescadores “antigos” e de pesquisar na Internet e em bibliotecas, realizamos algumas saídas de reconhecimento e procura. Numa delas, em novembro  de 2005, parte da equipe permaneceu embarcada durante cinco dias, à procura de um naufrágio presumivelmente afundado a 50 milhas ao norte da cidade de Guarapari, nosso porto base.

Após os primeiros três dias de mar calmo, infelizmente entrou uma frente fria com vento sudoeste, rajadas que superavam os 40 nós, e ondas com vários metros. Os vidros do casario da embarcação foram destruídos junto com parte da estrutura de popa. O material que ficara amarrado no convés foi levado pelas ondas. A tripulação foi obrigada a abortar a expedição e aguardar uma noite e um dia inteiro, até o vento diminuir, e poder retornar para casa em segurança.

Definitivamente, achar uma embarcação afundada não é um trabalho fácil e, às vezes, pode ser um tanto arriscado. Além das dificuldades pela falta de informações precisas sobre sua localização, o problema básico é que a maioria dos naufrágios estão localizados em áreas de difícil navegação, originadas por ventos e correntes fortes, ondas, mudanças imprevistas de profundidades devido a bancos de areia ou recifes submersos, etc. Justamente essas condições são as responsáveis pela maioria dos acidentes envolvendo naufrágios.

A escolha da época correta, com as melhores condições de mar, podem reduzir o período de busca há apenas uns poucos meses por ano.

Outra consideração é o planejamento e logística envolvidos em uma expedição destas características. Nem sempre se tem uma previsão exata da quantidade e tipo de mergulho que ira ser necessário realizar e, às vezes, podem mudar os dados básicos do planejamento antecipado como profundidade, visibilidade, tipo de gases necessários nos cilindros, etc.

No entanto, a busca de naufrágios nunca antes explorados é uma aventura que vicia e enfeitiça mergulhadores do mundo inteiro.

A busca

Várias milhas ao sul de Guarapari, já no estado do Rio de Janeiro, há uma área muito promissora, famosa entre os navegantes por suas imprevisíveis condições de mar: o Cabo de Santo Tomé.

Seguindo a rota Rio de Janeiro – Espírito Santo, muitas embarcações foram surpreendidas por tempestades e perderam a luta contra o vento e as ondas, indo para o fundo. Apesar de ficar um pouco longe de Guarapari, tínhamos algumas posições aproximadas nessa região, que os pescadores locais asseguravam serem boas opções. Isso nos incentivou a montar uma nova expedição antes do final do ano.

Naufragio-ComandoFinalmente, às 23hs do dia 19 de dezembro estava tudo pronto. Zarpamos !

Navegamos a noite toda e ao amanhecer alcançamos a primeira área de busca. Foi escolhido um ponto inicial que serviu de referencia. Três GPS (Sistema de Posicionamento Global, corretamente configurados, foram utilizados para determinar a navegação, identificando áreas especificas para iniciar e continuar a procura.

Sondas para leitura do fundo foram ativadas para acompanhar as profundidades e diferentes tipos de sedimento. Normalmente utilizamos equipamentos redundantes para confirmar os resultados e não correr o risco de cancelar uma operação demorada e custosa como esta por falha em algum dos instrumentos.

A interpretação dos gráficos que aparecem na tela da sonda deve ser objetiva, para evitar descidas desnecessárias. Cada mergulho inútil consome tempo, gases para respiração e energia da equipe, além de diminuir o alto astral que deveria ser uma constante a bordo. Neste ponto, o “Side Scan“, um equipamento de varredura lateral é um ótimo aliado. Exemplo: sendo rebocado a 15 metros de profundidade quando o fundo esta aos 35 metros, pode realizar uma leitura precisa do fundo cobrindo uma área de 120 metros de cada lado do barco. Isso significa que durante a navegação podemos visualizar, na tela do computador, o relevo preciso do fundo numa faixa de 240 metros da largura !

Depois de algumas horas de busca, visualizamos uns cardumes nadando na superfície do mar calmo, o que chamou nossa atenção para um setor um pouco afastado do local original. Quando navegávamos atrás dos peixes, inesperadamente, uma coluna preta apareceu na tela e a bóia de marcação foi lançada imediatamente. Os instrumentos confirmaram uma formação muito suspeita.

A visão do cabo se perdendo no azul fluorescente aumentou a expectativa de todos. Durante a descida, o coração disparou ao ver uma sombra preta no fundo de areia, a 33 metros da superfície. Logo no inicio identificamos o mastro se projetando perpendicular ao casco a partir de meia nau.

Uma grande caldeira marcava a metade dos destroços e, a partir de aí, observamos o formato do convés principal bem delineado até a proa. Em direção oposta, o casco de madeira ia se perdendo até desaparecer no fundo de areia. Por isso não conseguimos determinar com precisão o tamanho da embarcação.

A quantidade de redes presas nas estruturas era surpreendente. Duas armadilhas para captura de cotingas (Haemulon aurolineatum), que são utilizados por pescadores de espinhel como isca viva, mostram que a pesca predatória chega até os lugares mais afastados. A quantidade de arraias era impressionante.

O EAN 32 aumentou nosso tempo de fundo e deixamos a embarcação mista (vela e vapor) depois de 33 minutos de fundo.

A pesar de ser um naufrágio desmantelado, difícil de identificar, todos estávamos muito felizes pelo achado e, ao mesmo tempo, ansiosos por checar outros pontos. Duas horas depois, descíamos novamente, vencendo uma corrente suave até 30 metros de profundidade. Uma cortina de cotingas e sardinhas (Sardinella brasiliensis) se abriu, por causa do ataque de Olhos de boi (Seriola dumerili) e Xereletes (Caranx crysos), deixando aparecer à sombra de um novo naufrágio. Desta vez, bastante inteiro, deitado suavemente de boreste, com o hélice de três pás “ainda girando” no azul turquesa.

Dois naufrágios em apenas uma expedição !    Isso não podia ser real. Mas lá estávamos, fotografando cada estrutura, tentando identificar debaixo dos corais e esponjas as peças que um dia foram operadas por marinheiros como nós, que enfrentaram o momento mais difícil e temido na vida de um marujo: o naufrágio em águas abertas.

O segundo naufrágio, chamado pela equipe de P-02, é mais recente que o anterior e também tem uma caldeira de aproximadamente dois metros de diâmetro. O casco de aço de pouco mais de 30 metros de comprimento está praticamente inteiro e não tinha redes nem linhas de pesca presas nas estruturas.

Novamente fomos distraídos do nosso objetivo de identificação pela quantidade de arraias e peixes recifais: cardumes de borboletas amarelos (Chaetodon ocellatus), budiões (Bodianus pulchellus e rufus), ciliares (Holacantus ciliares), salemas (Anisotremus virginicus), algumas Naufragio-Redemoréias verdes e pintadas (Gymnothorax funebris e moringa), entre outros animais, utilizam os destroços como moradia. Dezenas de Ceriantus formavam um tapete vivo no convés principal.

A visibilidade superava os 20 metros e a temperatura da água os 23ºC. Apesar de estarmos em águas abertas, sem abrigo, conseguimos nadar de popa a proa sem esforço, hipnotizados pela visão dessa peça única.

De 9 a 3 metros de profundidade, a visibilidade melhorou ainda mais e uma rêmora de bom tamanho passeou, curiosa, entre um mergulhador e outro, nos distraindo durante a parada descompressiva.

Tanto planejamento, trabalho e tempo dedicados a esta expedição, já estavam justificados.

Hora do almoço: o momento mais importante da vida à bordo. Claro que não tão comemorado como a localização de um novo naufrágio !    Nossos mestres cozinheiros Buja, Edu e Cacau preparavam a especialidade mais apreciada pela equipe Atlantes: moqueca capixaba !    Um tipo de peixe preparado com suaves temperos, de fácil digestão, típica da região de Guarapari. Trata-se de uma receita tradicional de origem indígena. Uma delicia !

Iniciamos o caminho de volta. Várias horas de navegação nos separavam do continente e de nossas conhecidas praias. As condições de mar começaram a piorar, mas teríamos tempo antes do por do sol, para verificar uma última posição.

Novamente na água, descemos pelo cabo com aquele sabor de expectativa na boca do estômago. Um bloco de peixes nos aguardava, se abrindo ao nosso passo. Apoiado no leito submarino, “ainda navegando” em direção norte, encontramos uma embarcação intacta, em perfeito estado de conservação, a 33 metros de profundidade.

O casco esta semi-enterrado na areia até a “linha da água” e tem vários pontos de penetração na popa, nos porões e no castelo de proa. Tubulações e válvulas, como as utilizadas por embarcações que transportam combustível, percorrem o convés principal desde a super estrutura até meia nau. Na proa, conserva três turcos de amarração ainda em pé que, na contraluz, criaram um ambiente fantasmagórico.

O navio aparenta ter sido preparado para lançamento porque os equipamentos principais parecem ter sido retirados antes do afundamento. Não conseguimos ver guinchos nem vigias. O hélice pode estar enterrado ou ter sido removido.

O casario está inteiro e, como nos naufrágios anteriores, vimos peixes pelágicos à meia água e arraias, linguados, moréias, badejos, garoupas e muitos outros de recife por perto das estruturas.

Em todos os casos tivemos especial cuidado para não retirar nenhum artefato nem modificar estes sítios arqueológicos que poderão ser visitados no futuro por uma expedição especifica para conhecer melhor nosso patrimônio cultural e saber mais sobre a nossa história trágico-marítima.

Centenas de embarcações naufragadas guardam até hoje a história de um país desconhecido para a maioria dos Brasileiros. Expedições e mergulhos como estes nos incentivam a continuar procurando novos naufrágios perdidos ou “abandonados” no nosso litoral.

Realização

Equipe Atlantes de Exploração de Guarapari-ES

Mais informações: www.atlantes.com.br