Fiji – O número um 1

Essa história começa no Caribe, a bordo de um navio de cruzeiro, anos atrás ao concluir meu curso básico. A turma recém certificada estava tomando o café da tarde e o assunto girava em torno de pontos de mergulho, foi quando perguntei ao colega Jerome Danglids, qual seria na opinião dele, o melhor lugar do mundo para se mergulhar, imaginando por ser ele presidente da Royal Caribbean região Europa e graduado na área de turismo, saberia as melhores opções.

Ilhas Fiji !!!  foi a resposta seguida de grande polêmica. Alguns citaram a Grande Barreira de Corais da Austrália e o Mar Vermelho.

E Cozumel ?   Retruquei… O nosso instrutor Daniel Martinez, chegou a dizer que era o terceiro melhor do mundo.

Então Jerome diz “Mário, ele é mexicano, e não me causaria espanto se dissesse que é o número um, lhe garanto que Fiji é o primeiro, devido as suas águas com visibilidade alcançando os 50m”.

Por muitos anos fiquei com isso em mente, jurando que na primeira oportunidade que a vida me desse, iria para lá. E não é que apareceu… perguntei em um fórum de discussões se alguém já havia estado por lá. Para minha surpresa recebi uma longa e esclarecedora resposta do Flávio Silva, integrante da lista, que lá esteve por trinta dias, enquanto estudava na Nova Zelândia. Foram dicas muito úteis para quem não conhecia nada e sequer sabia por onde começar.

Após checar os dados fornecidos pelo Flávio, somados as pesquisas pela web, estava com planejamento e roteiro de viagem prontos. Como me encontrava na Polinésia Ocidental, foram somente cinco horas de voos até a cidade de Nadi (pronuncia-se Nandi), considerada a capital turística das ilhas. Ao desembarcar, notei que estava em um não grande, porém, moderno aeroporto, muita movimentação, talvez por causa do horário, pois diversos vôos chegavam simultaneamente. Pude observar que chegam passageiros de todas as partes do mundo. A partir de Nadi, se alcança por terra, mar e ar. O arquipélago é formado por 333 ilhas, sendo a maior, a de Viti Levu, onde encontramos esta cidade logística e a capital Suva.

Em Fiji, funciona o sistema de booking no próprio saguão, podendo-se fazer as reservas, confirmações e pagamentos para hotéis, aviões, barcos. O interessante é que funciona, imagino que seja pela colonização inglesa.

O capitão James Cook foi o descobridor de Fiji, como de quase todas as ilhas da Polinésia Ocidental e Oceania. Lá esteve pela primeira vez no ano de 1769, em sua primeira viagem exploratória. Sem intenção de uma pitada de humor negro, até então, os nativos eram canibais, e na época das navegações esse arquipélago era evitado pelos marinheiros e as ilhas conhecidas como Ilhas Canibais. Ouvi dizer por lá, que em algumas ilhas remotas, esse antigo hábito ainda é praticado.

Voltando ao assunto, lá mesmo acertei a primeira fase de minha viagem com destino a Yasawa Group, hotel em Nadi para pernoite. O Nadi hotel dispõe do serviço de translado sem precisar pagar pelo serviço.

No dia seguinte, após um reforçado desjejum, estou a caminho do porto, onde tomo um moderníssimo navio, um barco envidraçado no estilo catamarã bem grande, me levaria ao meu destino. Após embarcar, observei que os passageiros formavam uma verdadeira Babel, gente de todo canto do mundo, principalmente mochileiros e alternativos. O custo da passagem ida e volta me saiu por cerca de U$ 60. A viagem até Yasawa demorou cinco horas em mar aberto e batendo muito, com o pessoal enjoando, e o vento chegando a assobiar.

Esse arquipélago é composto de muitas pequeníssimas ilhas, em sua maioria, habitadas, havendo pousadas em cada uma delas. Interessante é que o navio pára em quase todas as ilhas, havendo o embarque e desembarque de passageiros que chegam e saem em pequenas canoas dos nativos. A ilha que escolhi se chama Tavewa e como todas as de Yasawa, é de formação vulcânica, com solo na cor preta e rochoso. A escolhi por causa do operadora West Side Water Sports que lá se localiza, e seguindo a orientação que me foi passada, fiquei no David Place, simplesmente um dos dois lugares mais paradisíacos que conheci em minha vida.

O David Place é um conjunto de pequenos bangalôs a beira mar, cercado de palmeiras nativas, que ali foram plantadas há muito tempo, no intuito de prover frutos, sombra e principalmente prover abrigo do fortíssimo vento, nem quente, nem frio, que insiste em soprar o ano todo. A operadora dista uns 200m, sendo praticamente um anexo. A rotina lá é assim, se é que pode ser chamado por esse nome, café da manhã, mergulho, almoço, mergulho ou passeio e jantar. Por sinal a comida é muito boa e nutritiva, servida em um galpão para todos os hóspedes ao mesmo tempo. Em algumas noites, é apresentada a Kava, bebida não alcoólica extraída de uma raiz. A kava é a bebida nacional de Fiji, sendo explorada comercialmente. Quanto as acomodações em Yasawa, são bem baratas, onde paguei cerca de U$ 30 a diária com tudo incluso.

Mergulho

Agora estamos entrando na parte mais difícil da matéria, que é falar sobre os mergulhos, palavras me faltam para tanta magnitude e esplendor, ainda bem que está ilustrada por inúmeras fotos. A Water Sports, dispõe de dois grandes infláveis e um staff campeão em profissionalismo e simpatia, onde a grande maioria é composta por nativos, sendo pessoas simpáticas e felizes.

Os pontos de mergulho estão localizados em um raio de no máximo 10 minutos de barco em águas muito tranquilas. Os melhores points estão do outro lado, que são visitados quando as condições de navegação permitem, onde estive por duas vezes durante a minha estadia e encontrei visibilidade superando os 50m. Fiji se gaba de ser o local com maior incidência de corais moles do mundo, e acho que tem razão, em Yasawa foi o que mais encontrei, me lembro de uma formação gigantesca, bem maior que muitos grandes naufrágios reunidos.

A fauna típica dessa região do Pacífico é muito diversificada, peixes que a gente nem imagina o nome, e corais, cujas formas e cores impressionam pela quantidade e variedade. Visitei também algumas cavernas submarinas, pequenas só que inexploradas, onde o pessoal não entra, e além do mais, estávamos em um drift, como são feitos na maioria dos mergulhos lá, de modo que não podia me perder do grupo, tampouco sou tão louco a ponto de me aventurar em cavernas mesmo que pequenas, e de recifes sem dispor de treinamento e equipamento necessário.

Alguns locais que mais me chamaram a atenção:

Rocky Bay, Corn Garden, Cabbage Patch, Tavena Breakers, Whisky´s Reef, The Zoo, David Reef, todos localizados do lado interno, com visibilidade variando entre os 25 e 30m.

Na face externa, estive em Peter´s Reef e Neptune’s Thumb, com mais de 50m de visibilidade. Estava um dia lindo e a visibilidade tanto horizontal quanto vertical é a melhor do aquário.

Foi uma semana inesquecível, de mergulhos nota 10, mas já era hora de partir, queria mergulhar com os tubarões em Beqa Lagoon, na ilha principal, me restando pegar o navio de volta e pernoitar em Nadi. No dia seguinte lá estava de novo a caminho da segunda etapa de minha aventura em Fiji, tomei uma van e após 2:30h, alcanço minha meta, viajando em uma estrada muito estreita e perigosa que contorna toda a ilha de Viti Levu.

Em Coral Coast há várias opções de hospedagem, e como estava há mais de 40 dias viajando e a grana ficando escassa, me hospedei no Pacific Safári Club, que está mais para pousada do que hotel, com preços bem em conta e girando em torno dos U$ 25 sem café da manhã. A pousada está localizada as margens de um rio e de frente para a operadora, sendo bem confortável e dirigida pelo Tony, um queniano de origem inglesa que não se esforça em ser simpático e tendo um problema, que são os mosquitos que nos devoram literalmente quando anoitece.

Quanto a operadora, escolhi a Aqua-Trek, onde o dive master de Yasawa me agendou com antecedência as acomodações e os mergulhos. A Aqua-Trek é a maior de Fiji, dispondo de várias filiais em diferentes pontos do arquipélago, em Beqa Lagoon, operam com dois modernos barcos de alumínio que em dias de Shark Feeding saem lotados com 17 mergulhadores.

Pacific Harbour está localizada quase em frente a Beqa Island, logo após o canal, onde em 20 minutos de navegação se chega a Beqa Lagoon, um dos melhores lugares para se mergulhar que já conheci, onde a visibilidade gira ao redor dos 30m e muito rica em vida marinha, com diversas espécies de corais e gigantescas gorgônias. Haviam peixes de todas as formas e cores, desde pequeninos como o peixe palhaço, passando por exóticos peixes leão, e os enormes peixes como nunca antes visto. Peixe Napoleão é fácil de ser encontrado. Além de atuns e até meros com mesmo tamanho do que aquele que habitava a Corveta Ipiranga em Noronha.

Durante o shark feeding é onde aparecem os maiores atores da festa, os tubarões.

Antes do embarque, o Sr. Manassa B. o principal shark feeder man, ou fijian warrior, como se intitula, faz uma preleção dos mergulhos, enfatizando os cuidados a serem observados durante o evento, para a total segurança dos participantes. Diante da quase que hipnotizada platéia, ele mostra em um quadro branco o croquis da área, tempos de fundo e etc… enfim, informações úteis sobre o que iria acontecer.

Os tubarões que costumam aparecer, ele cita, o Cabeça Chata, Limão, Galha Branca, Galha Preta, Lixa, Gray Reef, Silver Tip etc..

Interessante a resposta que me deu, quando o indaguei se por lá já havia aparecido algum Branco. Seus olhos brilharam ao me responder… disse que é o grande sonho de sua vida, um dia poder dar de comer ao gigante branco fora da jaula. O cara é mesmo corajoso, ou louco.

Mergulhos com tubarões não é mais novidade, só que lá aparece muito peixe grande como havia dito antes, chegando a formar uma enorme esfera viva, em um frenesi indescritível, provocando um grande ruído. Os tubarões aparecem e passam ao nosso lado calmamente. Foi uma pena a minha câmera fotográfica ter alagado justo um dia antes. Neste dia, avistamos de perto um Cabeça Chata. O espetáculo se dá aos 30m, numa espécie de arena formada artificialmente por grandes pedaços de coral, e o segundo mergulho, feito aos 15m.

Logo em minha primeira saída, o dive master do dia me prometeu uma surpresa, e fomos até um ponto de mergulho muito visitado chamado 7 sisters, ao descer mais ou menos uns 10 metros, pude visualizar uma negra silhueta de um grande naufrágio que ninguém sabe o nome, e o chamam de Tasu, deve estar lá há mais de cem anos, selvagem e inexplorado. Chamei o dive master e dois ingleses, onde adentramos pela ponte, com o teto e paredes forradas por corais, onde foi possível ver alguns instrumentos corroídos pelo tempo e outros cobertos por cracas, fiz algumas fotos em seu interior durante uns 10 minutos. Enfim, um grande naufrágio que deve ter uma história também não muito pequena. Até hoje lamento não tê-lo explorado mais, por absoluta falta de equipamentos e alguém que se aventurasse comigo. Nesse mergulho meu computador marcou 30 metros e a parte mais funda dele deve estar no máximo nos 45m.

Em seguida, segui o grupo apreciando as belezas naturais desse local e fizemos o segundo mergulho lá mesmo, ficando impressionado com o naufrágio e as paisagens de 7 sisters com sua grande variedade de corais moles e gorgônias gigantes, imaginando o que me esperava nos próximos dias, pela amostra, seria puro deleite e emoção.

Em Beqa Lagoon, estive em Golden Arch, 3 Nuns, Side Street, Ceasars Rock entre outros, é desnecessário descrevê-los um a um, pois são todos fantásticos, coisas de outro mundo, onde nunca havia mergulhado. Gigantescas gorgônias amarelas e púrpuras como que estivessem brotando das paredes… corais moles em quantidades que chegam a beirar o exagero… imagine uma combinação de cores feita pela natureza. É difícil encontrar palavras, já que nesse local, não é só para se contemplar, a gente sente forte emoção em estar entre coisas tão lindas.

Em meu último dia, descemos e logo de cara nos deparamos com dois Silver Tip, que logo se afastaram. Ao chegar perto do fundo, me deparei com uma grande forma, que na verdade, se tratava de um imenso Cabeça Chata, que pairava a cerca de um metro do fundo, e ao perceber minha presença, me ignorou e foi embora. Voltando ao grupo, de repente apareceu um peixe Napoleão, que não se desgrudou de mim, me seguindo até praticamente o fim do mergulho, o que foi objeto de comentários no barco. Disse o ocorrido, e ninguém acreditou, onde somente ao retornar a operadora, o staff me deu o crédito… eles disseram que eles estavam dormindo, e que é muito comum serem observados nesse local, e na hora de preencherem meu log book, é que soube o nome do dive point: Shark Fin Reef.

Concluindo, acho que meu amigo Jerome tinha razão, Fiji é o número 1 em mergulhos em minha modesta opinião.

Além desses, posso indicar outros pontos como Astrolabe Reef, na ilha de Kadavu, onde segundo o Flavio Silva, se mergulha com as mantas todos os dias. Há também, a Robson Cruzoe Island, Matamanoa, Taveuni, Mana, Nadi, e outros quase que infinitos pontos do arquipélago que parecem terem sidos criados para a prática do mergulho, em todos os níveis de certificação e gostos.

Corais, peixinhos, peixões, recifes, deep, tubarões, técnico, naufrágios, fotos, filmes, mergulhos guiados, mergulhos mais avançados, enfim, lá se encontramos de tudo a “gosto do freguês”, como vocês podem ver.

Observem que eu comentei somente os visitados pontos por mim e para se ter uma idéia deste paraíso, recomendo no mínimo 30 dias de aventura, o que ainda seria impossível para conhecer tudo. Na próxima oportunidade, tenho a intenção de permanecer por lá no mínimo por dois meses.

Na vida há dois tipos de arrependimento, um pelo que se fez e outro pelo que se deixou de fazer. O Sr. Manasa B. me convidou para trabalhar com ele por seis meses, e recusei por ter filhos adolescentes que precisam se minha presença, inclusive no meu último dia, insistiu para que ficasse por três meses para compor seu staff, até com a promessa de me ensinar Shark Feeding, mas infelizmente declinei o convite também pelas proximidades das festas natalinas…. mas com certeza volto para lá.

Serviços

Localização geográfica: Fiji está no Pacífico, entre o Havaí e Nova Zelândia.

Como ir: Pode-se escolher via Loas Angeles e San Francisco, de onde partem vôos diários para Fiji, com cerca de oito horas de duração. Outra opção é via Chile ou Argentina, com conexão em Auckland, Nova Zelândia, sendo mais caro e mais demorado.

Fuso Horário: Fiji está há 13 horas a mais que o horário de Brasília.

Moeda: Dólar de Fiji, cuja paridade com o dólar americano é 1 F=U$ 0.60. O dólar americano é mais ou menos aceito no comércio de pousadas e operadoras, portanto sugiro que se troque uma quantidade razoável no aeroporto. Cartões de crédito costumam ter um ágio de cerca de 5%.

Segurança: É bem tranquilo, não se costuma cometer atos de violência, quando acontece algo por menor que seja, sai até no noticiário da TV.

Operadoras de mergulho: A maior de todas, com cinco filiais é a Aqua-Trek, para Yasawa, a West Side Water Sports.

Comunicações: O serviço telefônico é caríssimo, mesmo para chamadas locais, para o Brasil, a ligação com cartão sai por cerca de R$ 10, prefira a internet quando estiver em Nadi ou Suva.

Acomodações: Preferível fazer pela internet ou em Nadi.

Transportes terrestres: ônibus ou vans, sendo a última, a melhor opção.

Links úteis:

  • Aqua-Trek
  • Dive Fiji
  • Matava Dive
  • Official Fiji Travel Guide
  • Robinson Crusoe Island
Mário Sérgio Garcia
Mário Sérgio Menezes Garcia é empresário, Dive Master pela PADI e mergulhador técnico. Praticante de hipismo western e criador de cavalos da raça quarto de milha, de linhagem de corrida e tambor. Já visitou mais de 60 países e mergulhou mais de 20. Brasil, Estados Unidos, México, Ilhas Cayman, Cuba, Aruba, Colombia, África do Sul, Moçambique, Quenia, Fiji, Tonga, Japão, Tailândia, Vietnam, Camboja, Líbano, Jordânia e Egito, foram alguns deles.