Florida Tour 2005

Foto: Eduardo Sosa

Após quatro meses de planejamento e preparação, membros da equipe “Dog Sucking The Mango” partiram para a Flórida numa viagem de 11 dias. O objetivo era conhecer a diversidade de cavernas no Complexo Aquífero da Flórida, mais especificamente nas cidades de Marianna e High Springs. A equipe era formada pelos mergulhadores Pablo, Sosa, Bruno Tae e Clayton. Em dois dias da viagem a equipe foi fortalecida por mais três mergulhadores, assim sendo Lelis, Dino e Alessandra.

O time partiu de São Paulo no dia 22/05 com destino a Orlando e traslado por Miami. Após oito horas de vôo, a viagem prosseguiu por terra, por mais cinco horas pela Rodovia 75, sentido norte da Flórida, em duas vans alugadas. O grupo chegou a Marianna na madrugada do dia 23 de maio.

Na manhã seguinte, foi iniciada a rotina de mergulhos em Marianna, cidade com pouco mais de 150 mil habitantes, situada ao norte do Estado da Flórida. A nossa primeira parada foi na operadora Cave Adventures de propriedade de Edd Sorenson.

O local fica a quatro quilômetros do centro de Marianna e é a base para recargas, locação e venda de equipamentos, sendo a residência dos Sorenson. A casa, toda em madeira, parece ter saído de um clássico de Hitckoc, onde a diferença é seu ótimo estado de conservação.

A loja é dedicada exclusivamente ao mergulho em caverna. Nos fundos da residência temos acesso direto à água. Um grande píer avança sobre o remanso de rio, numa estrutura de dez metros, montada em madeira. Uma novidade é o deslocamento até o ponto de mergulho, feito neste caso através de barco. O flutuante apresenta capacidade de transportar com conforto até dez pessoas. Você recebe o barco pronto, com todos seus equipamentos e cilindros embarcados. A pilotagem do flutuante é de responsabilidade do grupo de mergulhadores.

Hole In The Wall e Twin Cave

Com nossos equipamentos no barco, partimos rumo às cavernas Hole In The Wall e Twin Cave, ambas a menos de cinco minutos da base da Cave Adventure. A formação vegetal, típica do desenho Aligator de Hanna Barbera, contrasta com a transparência da água. Já no pico de mergulho, atracamos em um pequeno píer construído como uma palafita, próximo à boca de Hole In The Wall. A plataforma de aproximadamente nove metros quadrados foi construída por um grupo de mergulhadores local, sendo utilizada como píer e ponto de acesso à água, através de uma grande escada lateral. Os stages são abandonados nas laterais da escada da plataforma, em cabos disponibilizados especificamente para este objetivo. O acesso equipado a água é efetuado de forma segura e confortável. Com os stages devidamente clipados, pairamos sob a boca da caverna por alguns segundos para fazer o “S Drill”.

O acesso a caverna não apresenta dificuldades, com uma grande boca, e vários pontos de fixação da carretilha primaria, atividade executada de forma confortável tendo em vista a pouca incidência de fluxo. A caverna apresenta um trajeto upstream e outro downstream, porém como registrado anteriormente, o fluxo era muito pequeno em comparação ao que teríamos pela frente nos próximos dias. Hole In The Wall apresenta uma estrutura de grandes proporções, com túneis largos e salões amplos. O mergulho registra variações de profundidade entre 16 e 26 m durante o trajeto. O fundo lodoso é um ponto de atenção, principalmente em alguns trechos de teto baixo. A visibilidade era de dez metros, tendo em visita as enchentes que atingem a Flórida sempre nos meses de março e abril. O mergulho foi fantástico, sem grandes dificuldades, porem muito marcante para o grupo, tendo em vista ser o primeiro obstáculo transposto numa experiência efetiva de Cave Diver.

De volta ao barco, partimos para Twin Caves, num braço de rio bem próximo ao nosso ponto original. Neste local encontramos o mesmo tipo de plataforma, sempre em ótimo estado de conservação, o que demonstra cuidados constantes com relação a sua manutenção. Esta é uma prerrogativa encontrada em tudo que gira em torno do “mergulho em caverna” na Flórida. Na plataforma nos deparamos com os mesmos dizeres de alerta, com relação à necessidade de treinamento adequado para aquele tipo de mergulho.

A boca de Twin Caves não fica em direção à margem do braço navegável, mas no meio do leito do rio. A entrada da caverna é um buraco no chão, localizado a três metros de profundidade, onde encontramos uma cova menor que um Fusca – ou um Uno dependendo do gosto e idade do leitor – com um grande tronco deitado na diagonal para facilitar a amarração da carretilha primária vem como a descompressão. Um metro abaixo do tronco temos a entrada da caverna, com o mesmo fundo lodoso encontrado em Hole In The Wall. Após abandonar os cilindros de Oxigênio, nos deparamos com um túnel que embora largo, não apresenta mais de um metro de altura, com um fundo extremamente sensível. No momento de abandonar os cilindros de oxigênio, no fundo da entrada do túnel, é necessário muito cuidado para não “siltar” toda a boca da caverna.

O conduto de dez metros de distância termina em uma galeria mais ampla com cerca de três metros de pé direito. Na sequência do cabo principal, ao centro desta galeria, encontramos uma fenda de três metros de profundidade, com um buraco na parede lateral, bem no fundo da formação. Ao adentrar nesta passagem com facilidade, nos encontramos em um grande corredor. O túnel embora com características análogas a formação do conduto de acesso, apresenta dimensões muito maiores do que o túnel de entrada, similaridade que da o nome de Twin a aquela caverna.

A visibilidade é fantástica, e a altura do túnel permite uma navegação distante do fundo da caverna. A visibilidade do local é de vinte 20m e a temperatura da água de 20ºC com profundidades de 18m no trajeto percorrido. Neste primeiro acesso mergulhamos apenas com as duplas, o que limitou a nossa penetração ao conduto principal. No caminho localizamos um jump para uma fenda que descia cinco metros do túnel principal; como estávamos limitados pelo nosso “gás”, este foi o ponto de retorno em nossa primeira experiência em Twin Caves.

Nos próximos dois dias, com um planejamento mais detalhado e com estudo dos mapas da caverna, executamos mais três mergulhos em Twin Caves, desta vez com stages. O objetivo era a execução de um trajeto com formato de P, sendo que todo o percurso era marcado pelo cabo principal. Uma particularidade era o processo para abandono das stages naquele local. Para evitar a suspensão de partículas no momento de abandonar os cilindros, bem como para evitar que o cabo principal que corre no meio da parede lateral da caverna fosse excessivamente estendido, em determinado ponto do conduto principal, localizamos um suporte metálico prezo a parede esquerda. O metal servia de base para amarração de um cabo circular onde foram clipados todos os stages. A localização do suporte é conservadora com relação ao ponto de abandono do stage, mas não atrapalha a execução do objetivo.

A formação após o duto principal fica completamente diferente, com variações de profundidade, uma série de restrições, dutos de dimensões pequenas e em sentidos que exigem a utilização mais variada de técnicas de pernada. Este trajeto sim, apresenta os verdadeiros desafios do “mergulho em caverna”. Não poderíamos imaginar, por mais consciente que estivesse o grupo, que aquilo era apenas um aperitivo.

No terceiro dia, antes do último mergulho de Twin Caves, caímos em Jackson Blue, caverna localizada dentro do parque de mesmo nome, ao final do braço de rio onde encontramos Twin Cave e Hole InThe Wall. Para mergulhar neste pico tivemos que pedir autorização formal junto ao Xerife local, pagando a famigerada taxa de acesso ao parque. A nossa janela para a execução do mergulho era a ultima antes da abertura do Parque ao publico devido ao feriado, tendo em vista que a partir das 11 hs o acesso seria liberado e os mergulhos suspensos. Às 9:00 hs estávamos todos equipados prontos para iniciar o mergulho. O local era abstrato, tendo em vista que estávamos falando de um lago de 300m2 com uma série de escorregadores para crianças.

A figura de um mergulhador de caverna completamente equipado destoava naquela paisagem, o que dizer cinco destes “elementos”. Ao largo da margem estava montada uma estrutura para acampamento e churrascos, com banheiros, grandes bancos e chuveiros. O fato que mais chamava a atenção, é que a boca da caverna fica exatamente embaixo do escorregador infantil. Ao cairmos na água, notamos que as histórias contadas pelos mergulhadores brasileiros que já caíram neste pico, eram verdades. No deslocamento entre o barco e a caverna, feito através de natação de superfície, ou andando de costas, tendo em vista a pouca profundidade, já era possível perceber a força da água vindo da entrada da caverna.

Jackson-Blue

O acesso para Jackson Blue é o desenho que qualquer leigo idealizaria de uma caverna. Uma rampa em declive de 45o com três metros de diâmetro e dois de altura. Para visualizar a penetração inicial, imagine que você esta dentro do lago em pé, do lado direito da abertura; é necessário afundar e rapidamente atravessar toda a boca da caverna por onde corre um fluxo de água muito forte. A primeira providência quando chegar ao outro lado, é agarrar no fundo rochoso, e procurar se proteger na lateral do conduto. A amarração da carretilha primária é uma aventura a parte para o líder do grupo, bem como abandonar os stages com O2 uma diversão para os demais membros da equipe. Como o fluxo é muito forte, não existem partículas em suspensão, fator que acarreta em uma visibilidade até o limite da luz da lanterna. A entrada e o duto principal apresentam uma formação com grandes pedras, que possibilitam o acesso através de “puxe empurre”, e proporcionam uma proteção ao fluxo, nos casos em que você precisa aguardar o descolamento de seu antecessor.

O visual da caverna é fantástico, a água apresenta uma temperatura de 20oC graus e a profundidade não ultrapassa os 30 metros. Uma atenção especial deve ser dedicada ao consumo de ar, tendo em vista que a força praticada potencializa de forma significativa o seu consumo. A poucos metros do ponto de retorno, considerando o terço de consumo, você encontra uma “planície” a ser transposta. Nesta formação você sai de um duto sinuoso e encontra a sua frente um corredor perpendicular à sua rota, o que obriga a travessia. A particularidade é a forte corrente contraria e a quase inexistência de pontos de apoio no fundo, formado por uma pedra única extremamente lisa. Estes são os seis metros de maior adrenalina neste mergulho.

Neste local o mergulho foi abortado pelo consumo. A volta é uma diversão, tendo em vista que a necessidade de movimentação é mínima, a não ser algumas manobras para desviar das formações rochosas. Caso o mergulhador não controle de forma adequada a sua flutuabilidade, e não se ancore no momento de recolher o cilindro de oxigênio, será jogado diretamente da boca da caverna para o alto do escorregador. A parada de descompressão é efetuada em um trecho parcialmente coberto e muito claro, onde o ideal é procurar um espaço próximo ao fundo e a uma das paredes laterais, escapando assim da força da água.

Caso fosse obrigatório classificar os picos de mergulho desta viagem, definitivamente Jackson Blue estaria no “top 3”.

Na mesma tarde partimos para High Springs, com uma breve passagem por Panama City em busca de um equipamento importantíssimo para o mergulho técnico……. a “caixa” para guardar equipamentos. Nos EUA é possível encontrar a peça ideal por um preço justo.

Já em High Springs, devido às quatro horas de estrada e aos mergulhos dos dias anteriores, optamos pelo descanso e a prática de um esporte….as compras.

Na manhã seguinte retiramos as duplas e os stages alugados na casa de Larry Green, na sequência levamos o equipamento para recarga em uma das lojas da Cave Excursions de Bill Rennaker. O contato com ambos é algo interessante, tendo em vista a humildade e atenção com que todos são recebidos. Dois dos maiores exploradores de caverna, ali à nossa disposição. O importante é registrar que ambos estão em plena atividade profissional e de mergulho.

O nosso objetivo agora era mergulhar no famoso parque de Ginnie Springs. Não apenas o “Dog Sucking The Mango Time” havia programado visitar Ginnie, como também todos os americanos em um raio de 20Km. Com exageros a parte, este era o primeiro dia do feriado de Memorial Day, e visitantes de toda a Flórida – e outros estados – iriam passar os próximos dias acampados no parque, bebendo, comendo, e se divertindo; alguns visitantes com grande ênfase na primeira atividade.

O custo de acesso ao parque para mergulhadores de caverna é de US$ 25 por dia. A estrutura apresenta loja de suvenir e produtos de mergulho, banheiros com chuveiro, mesas e bancos espalhados por todo o parque. As mesas são utilizadas como base para a montagem dos equipamentos ou refeição dos campistas.

O nosso primeiro mergulho foi em Devil´s Ear. Para chegar ao pico de mergulho é necessário nadar cerca de duzentos metros, da plataforma de acesso à boca da caverna, passando por uma série de turistas além de dragões, tartarugas, cisnes e até um Jorge Busch inflável. A entrada da caverna é efetuada através de uma fenda de pouco mais de um metro de largura, com três metros de comprimento e oito de profundidade. Da mesma forma que em Twin, aos seis metros existe um grande tronco cruzando toda a fenda. O objetivo é análogo, uma base para descompressão e um apoio, caso você seja cuspido de forma descontrolada para fora da caverna. Os cilindros do O2 são abandonados no fundo da fenda que fecha em forma de cunha.

Em uma das extremidades da fenda esta o ponto de acesso, que embora alto, é muito estreito, formação que canaliza o fluxo vindo de dentro de Devil´s Ears. O turbilhão de água é tão forte que provoca “fluxo contínuo” nos reguladores da mangueira longa e curta. A entrada deve ser efetuada de forma rápida, colocando muita força nos braços, usando as laterais da passagem como ponto de tração. Na sequência dentro de um pequeno salão é necessário subir ao teto, e preparar um rápido mergulho através de uma nova passagem. Com esta transposição você esta dentro do conduto principal, sempre buscando o teto e a lateral da caverna para fugir do fluxo.

O trajeto inicial é formado por um duto sinuoso, composto na verdade por varias cúpulas interligadas. A força da água desenhou a caverna de tal sorte, que a diversidade de formações é muito grande. No cabo principal, após trezentos metros de navegação, encontramos uma passagem chamada de “lips” com dois metros de largura e alguns centímetros de altura, por uma extensão de cinco metros. Deste ponto em diante a caverna apresenta uma serie de passagens não cabeadas, bem como uma variação grande na formação dos condutos. De todos os picos deste mergulho, o visual encontrado em Devil´s é o mais interessante.

Em Ginnie conhecemos também Devil´s Eyes, cuja entrada é um buraco no fundo do lago a poucos metros de Ears. O buraco apresenta aproximadamente três metros de diâmetro e seis de profundidade. O acesso à caverna é efetuado por uma entrada lateral no fundo deste buraco. A visibilidade encontrada não foi a mesma de Ears provavelmente pelo menor fluxo. As passagens são menores em tamanho e quantidade. A caverna em comparação com as demais é a última da lista; a pior das melhores, se é possível classificar desta forma.

No início da noite, caímos em um dos picos de maior adrenalina em nossos mergulhos. As Catacumbas de Devil´s Ears. O acesso á caverna, próximo aos anteriores, fica ao lado da escada de acesso à água. Da entrada da caverna, até o final da passagem – localizado no duto principal de Devil´s Ears – são duzentos metros de “jogo de cintura”. As passagens são estreitas, limitadas à largura de um mergulhador. Já o teto da caverna em alguns pontos afunila sobre a sua cabeça, mas na maioria do trajeto mantém uma altura confortável de pouco menos de dois metros. Em todo o percurso é necessária muita atenção para não perder o contato visual do mergulhar à sua frente, como também o da sua retaguarda, pois as curvas da passagem são extremamente sinuosas. A caverna literalmente faz jus ao seu nome.

Quando saímos da água já havia anoitecido, o que normalmente é um problema para guardar os equipamentos. Em Ginnie não é caso, tendo em vista a iluminação distribuída por todo o parque.

No outro dia após calibrarmos nossos cilindros na Cave Excursions de Bill Hanneker, e com novos mergulhadores na equipe – tendo em vista a chegada do Lelis, Dino e Alessandra – fomos para Peacock Springs . Na entrada do parque, uma pequena caixa de madeira é utilizada como auto-atendimento para deposito da taxa de US$ 11 e retirada das credencias. Diferente de Ginnie este parque é exclusivo para mergulhadores, ou casais que queiram gastar US$ 22 para namorar no carro. O parque poderia muito bem ter sido utilizado para as filmagens da Bruxa de Blair. A fiscalização durante o dia confronta o depósito da entrada com as credenciais obrigatoriamente mantidas no painel dos veículos. Um detalhe é que a fiscal também é vendedora de camisetas temáticas do parque.

Da mesma forma que em todos os picos anteriores, existe um local para preparação do equipamento e uma plataforma de fácil acesso a água. O nosso objetivo neste mergulho era efetuar uma travessia entre Orange Groove e Challenge Sink. O acesso a Orange é feito através de um grande lago, onde encontramos os mesmos troncos depositados para a descompressão, com uma grande boca de acesso à caverna. Com um perfil diferente do encontrado anteriormente, a caverna é baixa em todo o seu trajeto, não mais que dois metros, com um fundo instável, que a qualquer toque suspende silt. Como o fluxo é muito fraco, todo o cuidado é pouco durante a navegação.

A formação estava composta por duas equipes com quatro mergulhadores cada, mas que navegavam juntos em um único grupo. A travessia foi feita acima dos quarenta minutos planejados, tendo em vista que as condições da caverna obrigam a uma navegação cuidadosa. A profundidade máxima deste trajeto foi de 22m. A saída em Challenge Sink é feita através de um pequeno duto, que suporta apenas um mergulhador de cada vez. Já na superfície, o espaço era pequeno para um grupo de oito mergulhadores. As paredes laterais, da superfície da água até a saída do buraco, tinham três metros de altura. Para sair daquela cova, somente desequipado e escalando pelas raízes das árvores expostas na parede, por este motivo que sair era um desafio……. Challenge.

Após o intervalo na superfície discutindo sobre a velocidade de entrada, mergulhamos de volta a Orange. O retorno foi bem mais rápido, tendo em vista que a caverna não era mais um caminho desconhecido. A parada para respirar Oxigênio, é uma das mais confortáveis, sem fluxo empurrando para a superfície, e com amplo espaço numa mesma profundidade, evitando assim o contato entre mergulhadores. Na saída de um mergulho em Peacock, com base nas sensações proporcionadas pela caverna, é inevitável tentar imaginar pelo que passou o grande Sheck Exley na exploração daquele local.

Na volta uma dica importante, almoçar em Luraville Country Store, uma pequena lanchonete de beira de estrada, que é também “mercadinho” e posto de gasolina. O hambúrguer caseiro são os melhores de toda a viagem, com um preço menor que o das grandes redes.

Na manhã seguinte, novamente em Peacock, a nossa meta era uma travessia entre Peacok I e Olsen Sink. O grupo continuava formado por duas equipes, desta vez uma com quatro a outra com três mergulhadores, porem mantendo a mesma estratégia de mergulhar em conjunto. O acesso a água em Peacock I é igual a Orange, efetuado através de uma grande plataforma de acesso. A boca da caverna fica a oito metros, bem abaixo da escada de acesso. A visibilidade não era a mesma de Ears, mas ultrapassava os 10 metros. A caverna, guardada as devidas proporções, em muitos momentos lembra a Mina da Passagem em Minas Gerais, tendo em vista o teto baixo, paredes estreitas e formação contínua sem grandes variações ou restrições. O fundo é sensível e o fluxo imperceptível. A travessia apresentava alguns jumps, mas infelizmente não foi completada tendo em vista o consumo de ar ter atingido o terço, a poucos metros de Olsen Sink. Devido à sequência de mergulhos até aquele momento, e a ausência de dificuldades naquela caverna, o mergulho transcorreu com ótima performance.

Como ninguém é de ferro, almoçamos mais uma vez na Luraville Country Store – aquela lanchonete – enquanto nossos cilindros eram abastecidos na Cave Excursions.

À tarde, já com o time na formação original com quatro mergulhadores, partimos para Cow Springs. Os sinais de cansaço no grupo eram visíveis, marcados pelo silencio e ausência de piadas infames, uma constante em toda a viagem. Cow Springs diferente dos outros pontos de mergulho, não fica em um parque, mas numa fazenda com acesso controlado. Para entrar na mesma você deve estar de posse do código do cadeado, obtido na Cave Excursions. O local é extremamente ermo. A vegetação invade a entrada da fazenda e a clareira onde são estacionados os carros, fato que confirma a baixa frequência de visitantes naquele local. Até este momento este tipo de situação era apenas curiosa, mas tudo ficaria claro ao final do mergulho. Para a montagem dos equipamentos o local dispunha de uma única mesa.

Na clareira encontramos um único veículo além do nosso, aliás, uma “ambulância”, comprada por uma dupla de amigos para operar como uma base móvel de mergulho. Nós estávamos descarregando os equipamentos, e após uma avaliação visual do local, o grupo a abortou o mergulho tendo em vista as condições da água. O fato foi uma surpresa, tendo em vista o grande numero de mergulhos que o mesmo tinha no local, e ao nível que a equipe tinha atingido até aquele momento. Em conversa com os “paramédicos mergulhadores” obtivemos a posição de que abaixo dos três metros a água estava limpa, informação obtida através de mergulhadores que tinham entrado na água naquela manhã. Com base nesta informação, optamos por manter o mergulho, cientes que na menor dificuldade o mesmo deveria ser abortado.

A aventura começa no deslocamento entre o ponto de equipagem e a entrada na água. Cerca de 100m através de uma picada em declive, um trajeto sinuoso e difícil de ser percorrido. Como não há plataforma ou escada de acesso a água, a entrada é muito desconfortável. Você deve inicialmente descer um degrau na pedra, acesso a uma plataforma natural escorregadia e irregular, localizada trinta centímetros abaixo d’água. Na sequência, o jeito é recorrer ao velho passo de gigante. A água realmente estava turva na superfície, com muita vegetação flutuando. Os primeiro metros da descida foram feitos com visibilidade de um metro, aos cinco metros a mesma começou a melhorar. Após a fixação da carretilha primária, iniciamos o acesso ao conduto de entrada da caverna. O acesso era através de um buraco estreito na pedra, que descia de forma sinuosa e perpendicular. Os primeiros dez metros são percorridos literalmente de ponta cabeça. No final do conduto, uma restrição pequena que obriga o mergulhador a contorcer o corpo em 90o. A restrição é muito apertada, e não é transposta sem persistência e muita briga. Com a superação desta passagem estamos dentro de Cow Springs.

A visibilidade é fantástica, mais uma vez até o limite da lanterna. O conduto com três metros de largura e dois de altura, apresenta um fundo de argila e uma formação sinuosa. A força da água e a luta de acesso a caverna nos fizeram entender porque o mergulho foi quase abortado… e por que os gringos estavam mergulhando de sidemount. O fluxo era impressionante, forte e contínuo, o mais difícil encontrado em nossos mergulhos. Para que se tenha uma idéia do fluxo, alem do cabo principal para referência, a caverna apresenta um cabo de três centímetros de diâmetro, única e exclusivamente para tração dos mergulhadores; e não há opção, ou você navega através do cabo, ou não passa da entrada da caverna.

A caverna é visualmente fantástica, com uma serie de restrições por todo o percurso, mas infelizmente pela dificuldade de acesso e pelo esforço de locomoção, o consumo de ar é extremamente elevado, fator que limita a penetração tendo em vista que estávamos apenas com a dupla. A profundidade em nosso trajeto variou entre 23 e 26m e a temperatura não ficou abaixo dos 22ºC. O retorno exige do mergulhador apenas o controle de flutuabilidade e algumas manobras para desviar de formações na rocha. A necessidade de pernadas é nula, pelo contrário, você deve controlar a velocidade para não engarrafar na boca da caverna. A saída é um assunto a parte. A restrição difícil de ser transposta na entrada, na saída parecer ter encolhido. Um mergulhador que não conheça o local, deve reservar muito ar para este trecho do mergulho, pois serão necessárias várias tentativas até encontrar o ângulo correto para transpor a restrição. Não é possível passar pelo buraco caso o acesso seja feito na diagonal, você deve iniciar o acesso à passagem de forma frontal, e após passar a cintura ficar rapidamente de joelhos; na sequência a subida é feita em pé até o stage de oxigênio aos 6m.

Naquela tarde ainda fizemos mais um mergulho em Cow, disparado o melhor pico da viagem. O nível de dificuldade, a formação da caverna e as técnicas aplicadas não são encontradas em nenhuma das cavernas que visitamos em Marianna e High Springs.

No último dia de mergulho voltamos para Ginnie, casualmente o último dia do feriado de Memorial Day. O parque estava transformado, assim como seus visitantes, após um feriado de quatro dias. A imagem era muito próxima à fazenda de Woodstock após o show, ou um final de feira para ser mais brasuca. O xerife local teve muito trabalho com os campistas. Neste dia éramos a única equipe de mergulhadores em caverna na água. O grupo contava desta vez com quatro mergulhadores, e optamos por adentrar em Devil´s Ears em duas duplas independentes. Uma tinha como objetivo atingir a maior distância possível, a outra se dedicaria ao registro de imagens subaquáticas.

Uma situação interessante foi registrada ao entrarmos em Devil´s Ear. Já no conduto principal, nos deparamos com um grupo de mergulhadores saindo da caverna. Quando subimos ao teto para liberar a passagem, notamos algumas particularidades. Todos estavam com equipamento recreacional, com lanternas de mão sem back up aparente, não havia carretilha primária, todos estavam de roupa úmida sendo que alguns sem capuz …. definitivamente errados. Na saída, alguns de joelhos no fundo, com olhos assustados, observavam um companheiro partir diretamente para a superfície. É impressionante como mesmo com todos os avisos e placas encontrados fora e dentro d’água, alguns aventureiros colocam a vida em risco de forma banal.

Com relação ao nosso mergulho transcorreu dentro do programado, conseguimos perfazer 1,2 Km dentro de Devil´s Ears, enquanto que a “dupla de fotógrafos” Clayton e Bruno registraram as imagens aqui publicadas.

A viagem foi um sucesso para os participantes, e a primeira de muitas outras, tendo em vista que nem em dez anos de mergulho naquela região seria possível conhecer todos seus desafios. Os mergulhos na Flórida não cativam apenas pelas cavernas, e pelo preço acessível da viajem, mas também pela possibilidade de conviver com a comunidade de mergulho local. É possível ter acesso a mergulhadores que fizeram historia nesta modalidade, alem da infra-estrutura e informações obtidas, preponderantes nesta empreitada. A Flórida definitivamente é o paraíso do mergulho em cavernas, e deve ser incluído no calendário de objetivos de qualquer mergulhador da modalidade. Quem sabe estaremos juntos por lá em 2006 ?

Challenge-Sink

Eduardo Sosa

Eduardo Sosa nascido em Rivera – Uruguai, residindo em São Paulo, é formado em Administração de Empresas, com Pós Graduação e MBA em Finanças pelo IBMEC.

No mercado financeiro há mais de 20 anos, já atuou em diversos bancos, focado sempre no segmento de Produtos. No mergulho, além de possuir diversas especialidades, é instrutor pela PADI (#190329), Normox Trimix Diver pela IANTD e Full Cave Diver pela NACD.