Galápagos – O Parque Jurássico do Mergulho

Foto: Gabriel Ganme

Distando cerca de 1.000km da América do Sul, este arquipélago, que pertence ao Equador, ficou famoso graças ao naturalista Charles Darwin, que ali usou muito do que percebeu, para escrever a “Teoria da Evolução das Espécies”.

Com cerca de 6 ilhas maiores e uma série de ilhotas, o arquipélago é relativamente “jovem” do ponto de vista geológico, e sua localização, dividindo as águas do hemisfério sul e norte, faz com que o encontro de algumas correntes traga muita vida e biodiversidade, especialmente debaixo da água.

Fui para Galápagos mais de 30 vezes, e tive ali meus melhores mergulhos no que se refere a grandes pelágicos. Cada mergulho é uma surpresa. Um mau mergulho, por exemplo, no famoso Arco de Darwin, têm algumas raias-chitas, tartarugas e encontro com golfinhos típicos da região.

Podemos dividir os mergulhos entre as ilhas ao norte da linha do Equador, destacando as Ilhas Wolf e Darwin, com águas mais quentes, e as diversas ilhas na linha e ao sul do Equador, com água fria, decorrente da famosa corrente de Humboldt. Muitos dos passeios terrestres ocorrem nas ilhas ao sul.

Foto: Gabriel Ganme

Mergulhos

Começamos pela Ilha Darwin, na minha opinião, o melhor ponto de mergulho do mundo. Basicamente se usa um ponto, o chamado Arco de Darwin, uma formação rochosa vista acima, de onde caímos para o paraíso.

Ao descer cerca de 15 metros, encontramos o famoso “anfiteatro”, um plateau de pedras onde paramos para ver o que acontece. E quase sempre nos deparamos com cardumes de xaréus, moréias, tubarões de galápagos, e depois do visual inicial, é olhar para o azul, para ver quem vem nos visitar. Por aí passam cardumes de tubarões-martelo, e os tubarões-baleia, os gigantes gentis do oceano. Raias-chita e tartarugas são considerados efeitos colaterais.

Mas não se engane, o avistamento requer prática, e muitas vezes o mergulhador desavisado está com um tubarão-baleia a 15 metros à sua frente e não o percebe, devido aos cardumes de peixes, e da mimetização da sua pele de tom azul acinzentado com a água. A regra é sair nadando ao ouvir ou ver o dive master “histérico” apontando e saindo das pedras. O que funciona também para os tubarões-martelo.

A temporada do tubarão-baleia vai de maio a novembro, com os melhores encontros entre agosto e setembro. A teoria mais vigente é que, como esta também é a temporada do Silky Shark, os tubarões-baleia ai vão para que os silkies os livrem das grudentas rêmoras.

O arco tem outros pontos, mas tudo começa a partir do anfiteatro.

Outra ilha fantástica ao norte é Wolf, com suas falésias de pedras, e com alguns pontos especiais. Na minha opinião, o Derrumbe é o melhor (este nove é dado por uma falha por quedas de blocos de pedra ocorrida por erosão). Aí tudo pode acontecer, mas além de martelos, raias-chita e outros pelágicos, acostumamos a dar de cara com os tubarões de galápagos, que com média de 2 metros de comprimento, não se incomodam muito com a nossa presença.

Outro ponto é a Shark Arena, onde os cardumes de martelo são abundantes. Golfinhos são comuns nas paradas. E para finalizar, o ponto final Cuevas e Pináculo tem muita vida pequena, cardumes, show de leões-marinhos na boca desta caverninha, tubarões galha-branca de arrecife por ai passeando, e a coisa termina num pináculo que tem uma corrente estranhíssima.

Entre as ilhas centrais, podemos destacar Cape Marshall, que em suas águas mais frias, costuma ter estações de limpeza para raias-manta. No azul, raias-móbula costumam passar em cardumes, e em certas épocas do ano, cardumes gigantescos de Salema dão o ar da graça.

Foto: Gabriel Ganme

Punta Vicente Roca, mais recentemente liberada para mergulhos, tem os gigantes Mola-Mola, ou peixe-lua, que vem do azul nos observar. Ainda, show de balé de leões-marinhos, e muita vida pequena escondida nos seus jardins de gorgônias. Depois do mergulho, um passeio de panga e snorkeling com pinguins é a diversão da moçada.

Ao sul, o ponto norte das Ilhas Seymour trazem um drift dive fantástico, lotado de tubarões galha-branca de recife. Na época certa, são vistos em centenas, parados contra a correnteza. Raias-manta são bastante comuns neste canal, e quase sempre o fim do mergulho é brindado por leões-marinhos brincalhões.

A Ilha Cousins, já próxima de Santa Cruz, tem um mergulho muito interessante, com leões-marinhos, cardumes de raias cow-nose e chitas, tubarões galha-branca de recife, e como sempre, muitos leões-marinhos. O passeio em Seymour north é imperdível, e vemos mergulhões das patas azuis, fragatas, iguanas terrestres e marinhas e, para ter certeza que estamos nas Galápagos, leões-marinhos.

Gordon rocks permite mergulharmos numa cratera semi-submersa de um vulcão, e nunca se sabe o que vai acontecer num ponto central da cratera. Muitas raias marmoreadas, mantas e cardumes estão frequentemente por lá.

Entre os passeios em Santa Cruz, posso destacar as fazendas com as tartarugas-gigantes, algumas com cascos de mais de um metro, e uma caverna gerada de um tubo de lava. Além disto, quem quiser pode ir à Estação Darwin, que me cheira um pouco a zoológico, ver tudo o que estava na natureza, enclausurado.

O famoso solitário George, provavelmente última tartaruga de certa espécie cujo nome deu o nome ao arquipélago (seu casco em forma de sela de cavalo, que era chamado pelos espanhóis de galopas), morreu faz alguns anos, e as fazendas na montanha têm muito mais tartarugas.

Foto: Gabriel Ganme

Ao contrário das outras excelentes ilhas de mergulho pelágico do pacífico, Galápagos tem a grande vantagem de pousarmos direto por lá, e já sair mergulhando. O acesso à Wolf e Darwin é exclusive de live aboards, mas sempre em travessias noturnas.

Espero que curtam as imagens e não percam a oportunidade de conhecer este paraíso da natureza, o Jurassic Park do mergulho.

Gabriel Ganme

Dr. Gabriel Ganme é médico do esporte, e responsável pelo ambulatório de Medicina dos Esportes de Aventura da Escola Paulista de Medicina, no CETE – UNIFESP.

Mergulha desde 1980 e foi Course Director pela PADI de 1990 até 2016.

Foi Cave Intructor Sponsor (NSS/CDS), Technical Instructor pela TDI e IANTD, e membro da Undersea & Hyperbaric Medical Society.

Atualmente é proprietário de uma clínica especializada em medicina esportiva.