Galeão Hollandia

Durante muitos séculos, o porto mais importante de Portugal no Novo Mundo era a Bahia de Todos os Santos, no Brasil, vulgarmente chamada só Bahia. Conhecida também por Salvador, a cidade foi fundada em 1549 e se manteve como capital das colônias até 1763.

Graças a sua vasta baía, funcionava como uma grande entreposto comercial, porto de abrigo no regresso das Índias e uma tentação irresistível para os piratas e corsários. Durante os séculos XVI e XVII, a Bahia foi alvo de uma sucessão de ataques por saqueadores de várias nações.

Perto de 300 navios naufragados do período colonial repousam na vasta baía oval da Bahia de Todos os Santos. Um deles, o Hollandia, é particularmente significativo. Tratava-se do navio – almirante do almirante Piet Heyn, um corsário cujos feitos heróicos são celebrados numa canção tradicional holandesa. Heyn era um estrategista brilhante e um adversário implacável do catolicismo, e nutria um ódio especial pelos Espanhóis, depois de ter sobrevivido a uma pena de três anos de trabalhos forçados, cumpridos a bordo de navios espanhóis.

Depois de ter atacado as caravelas e possessões portuguesas, voltou a sua atenção para os navios espanhóis. A sua maior façanha foi a captura em condições totalmente adversas da frota do tesouro mexicana, em 1628. A elevada quantidade de saques que praticou foi um dos fatores principais que levaram à independência da Holanda e ao declínio do império Espanhol.

Em 1624, Heyn atacou a Bahia com uma frota de trinta e quatro barcos de guerra. Saqueou a cidade e apoderou-se de quinze barcos portugueses ricamente carregados que se encontravam no porto. A companhia das Índias holandesa ansiava pelo controle da costa Nordeste do Brasil.

A maior parte do açúcar da Europa era aí cultivado nas plantações portuguesas, usando os escravos como mão-de-obra. O saque que Heyn enviou para os armazéns da Companhia, na Holanda, incluía 200 toneladas de açúcar. Porém, no ano seguinte, e antes que a Holanda pudesse enviar reforços, uma frota conjunta das armadas portuguesa e espanhola reconquistou a Bahia.

Heyn regressou à Bahia em março de 1627, cometendo a ousadia de invadir o porto, onde vinte e seis grandes navios mercantes estavam fundeados perto dos vários fortes. Após o efeito surpresa inicial, o destemido Heyn lançou seu navio, o Hollandia, contra o inimigo, lançando âncora entre os navios Capitania e Almiranta – os dois maiores e mais bem armados navios portugueses.

Enquanto metade dos seus homens respondia ao fogo inimigo, Heyn e os seus companheiros desceram para os botes e abordaram os dois navios. Em menos de dez minutos, ambos os barcos desceram os pavilhões (bandeiras) e se renderam. Heyn incitou os seus homens a capturarem mais vinte e dois navios debaixo do nariz das baterias costeiras dos Portugueses.

O seu barco permanecia dentro do alcance de fogo do forte principal, como alvo, enquanto os navios holandeses e os navios portugueses capturados fugiam para longe da costa. Os canhões do Hollandia continuaram a disparar contra o forte sem cessar, mas a resposta foi de tal monta que, ao pôr-do-sol, o navio-almirante estava completamente irreconhecível, com o casco massacrado por mais de 500 buracos. À meia-noite, Heyn incendiou os destroços do Hollandia e partiu numa chalupa com os membros sobreviventes da sua tripulação.

Trinta e sete dos seus homens e setenta e sete ficaram feridos. As perdas nos navios holandeses restantes chegaram a cerca de cem homens. Este foi o ato de pirataria de corsários holandeses mais importante da história. O saque rendeu a mais de dois milhões de florins holandeses em ouro e prata em barras e moedas, prata trabalhada, couros, tabaco, preciosas madeiras exóticas, algodão e 2.500 toneladas de açúcar. Um dos administradores da Companhia afirmou rejubilante: “A Companhia ganhou uma alma nova… graças ao corajoso mendigo dos mares Piet Heyn”.

Durante os trinta e cinco anos de terror nos mares, Heyn capturou mais tesouros aos espanhóis e portugueses do que todos os outros piratas e corsários dos séculos dezesseis e dezessete em conjunto.

Em maio de 1979, Robert Marx partiu rumo à Bahia, para localizar e escavar o Hollandia, com a autorização da Marinha Brasileira. Possuía documentos que mostravam a posição aproximada dos destroços e esperava encontrá-los rapidamente. Porém, a atividade foi dificultada por uma água quase opaca e marés assustadoras, com velocidades entre os dois e quatro nós.

Por outro lado, tivemos de enfrentar os perigos de trabalhar bem no centro do principal canal de navegação brasileiro. As novecentas horas de mergulho despendidas ao longo de um mês de trabalho produziram dezenove destroços diferentes, mas nem sinal do navio-almirante. Marx começou a pensar que talvez os mergulhadores da época, que tinham retirado os canhões de bronze do Hollandia, pudessem ter executado um trabalho de limpeza tão perfeito que nada mais restasse.

Em janeiro de 1981, Marx retornou à Bahia para retomar a investigação. Debaixo da água a visibilidade era melhor, de cerca de 3 metros em média, e as nossas esperanças começaram a renascer. Ao fim de um mês, no entanto, e perante a total ausência do navio, já estávamos preparados para abandonar o projeto, mas a sorte acompanhou-nos. A pedido do Museu Naval do Rio de Janeiro, retirávamos amostras de artefatos de cada destroço encontrado.

Um dia, enquanto retirava da lama uma jarra de cerâmica pertencente a um navio do séc. XVIII, senti um núcleo metálico por baixo e continuei a escavar. Para meu espanto, era um grande canhão dois séculos mais velho do que o navio que então investigava. A principio, pensei que tinha sido usado como lastro a bordo de uma embarcação posterior, mas quando encontrei um pote holandês Bellarmine perto do canhão, o meu coração disparou.(Estas peças de cerâmica ostentavam a figura do Cardeal Belarmino, o mais odiado governador geral dos Países Baixos durante o domínio espanhol na região).

Uma série de orifícios de testagem revelou artefatos que concluímos pertencerem ao onírico Hollandia, ainda e sempre repousando sob um naufrágio do século XIX. Foram três semanas para remover os últimos destroços do local para poder escavar o galeão. Durante quatro meses, ameaçados pelas hélices dos barcos que cruzavam perigosamente a área, trabalhamos uma média de doze horas por dia com um extrator pneumático. Apesar dos mergulhadores do século XVII terem retirado as armas de bronze do Hollandia, encontramos mais seis canhões de bronze. No total, recuperamos mais de 5.000 artefatos e alguns tesouros.

Trouxemos para a superfície canhões, balas de canhão, pistolas, mosquetes espadas, mosquetes de chumbo e balas de pistolas, granadas de vidro, peças de cutelaria, vários exemplares de baixelas em estanho e prata, objetos de cerâmica de todos os tipos incluindo potes Bellarmine – e muitos objetos pessoais como botões, fivelas e botas de couro.

Na zona do castelo da popa encontramos vários compassos de latão, pesos de chumbo, fragmentos de ampulhetas e ainda uma bússola de chumbo cravada na bitácula.

Centena de moedas de ouro e prata, vários botões de ouro e mais de 3 quilogramas em barras de ouro era tudo o que restava o tesouro do Hollandia. De longe, a mais significativa descoberta foi uma série de ossadas humanas, incluindo vários crânios, totalizando cerca de 90 quilogramas. Levei os restos mortais destes bravos corsários de Heyn para a Holanda, onde foram sepultados com grande pompa. Os artefatos mais importantes descobertos no Hollandia estão em exibição permanente no museu marítimo do Rio de Janeiro. O resto foi vendido em leilão em Amsterdam, acabando por se espalhar em vários museus da Holanda.

Extraído da obra de Robert Marx

Rodrigo Coluccini
Criador e proprietário da Revista Deco Stop, foi um dos responsáveis pela divulgação em larga escala das informações sobre naufrágios no litoral brasileiro, fato antes restrito a poucos. É co-autor do manual de naufrágios da certificadora PDIC. Seu trabalho é citado em vários livros atuais sobre história maritima brasileira confirmando a importância de seu trabalho.