Galeão Serrambi e Stag Hound podem ser o mesmo naufrágio

Foto: Clecio Mayrink

No início desse ano publiquei um artigo onde comento sobre algumas pesquisas e análises que fiz sobre o famoso Galeão Serrambi, onde faço uma relação dele com o clipper americano Stag Hound, naufragado em 02/08/1861, e faço menção de que os dois naufrágios pode ser o mesmo.

A Internet é rápida e logo após a publicação do artigo em questão, recebi uma mensagem de um amigo, o fotógrafo sub Max Glegiston, de Pernambuco, contendo um arquivo PDF com informações sobre um estudo produzido pelo Professor Carlos Rios, que é doutorado em arqueologia e professor da Universidade Federal de Pernambuco, a UFPE. Além da grande experiência no assunto, possui um vasto curriculum na área, sendo uma das maiores referências em arqueologia do país.

Nesse estudo feito anos atrás e desconhecido por mim até então, ele faz uma análise profunda sobre o Galeão Serrambi, trazendo dados e detalhes importantes do naufrágio, assim como sobre o Stag Hound.

Após todo o estudo e análises realizadas, ele também aponta o Galeão Serrambi como sendo de fato, o clipper americano Stag Hound, fechando assim, a grande questão sobre a real identificação do naufrágio de Serrambi.

Estudo sobre os naufrágios de Serrambi-PE feitos por um arqueologista

O Professor em Arqueologia Subaquática, Carlos Rios, da Universidade Federal de Recife, é um profissional com anos de experiência no assunto, além de ser um PhD no tema. O texto abaixo foi retirado de um grande estudo feito por ele e sua equipe alguns anos atrás, sobre alguns naufrágios da costa pernambucana:

O naufrágio denominado “Galeão de Serrambi” foi escavado em 1998, cujos dados permitiram o preenchimento de um formulário.

Fez-se o corte temporal da embarcação a partir de seu tamanho e material construtivo e, à luz das pesquisas bibliográficas, puderam-se confrontar os dados e fazer análises como se seguem.

O “Galeão de Serrambi” é uma embarcação de madeira à vela, de nacionalidade, esta­leiro, armador, país, ano, local de construção, comandante e tripulação, data do naufrágio desconhecidos. Naufragou devido a incêndio pela presença do madeirame queimado. O casco possui proteção de filme de cobre na obras vivas. Suas dimensões são: 72 metros de comprimento, 13.2 metros de boca e calado desconhecido. Naufragou na posição 08° 35′ 706″ S e 034° 54′ 834″ W Datum SAD69, a cerca de vinte milhas náuticas da praia de Serrambi, na cota de 20m, em fundo de areia, com visibilidade de até vinte metros.

Transportava uma carga de carvão mineral.

Atualmente a embarcação está desmantelada, tendo sido descoberta em 1982 por pescadores e saqueada por caçadores de souvenir durante anos. Nos anos 90 foi redescoberta e explorada parcialmente por mergulhadores com autoriza­ção da Marinha.

Em uma análise preliminar, pode-se concluir que o comprimento da embarcação acima é incompatível com as dimensões de um galeão, já que o maior galeão deslocando 1500 toneladas tinha um tamanho de 35.3 metros e obedecia à relação 3:2:1. O galeão normalmente é bojudo e alto e a embarcação descrita acima é comprida e estreita.

A presença do filme de cobre que o galeão não tinha (tal tecnologia surgiu a partir de 1750), o comprimento muito superior ao do galeão, a presença de um terceiro mastro e a carga de carvão mineral que nenhum galeão iria transportar são evidências que permitem afirmar com convicção de que a embarcação acima é, na realidade, um Clipper.

Dentre os registros levantados no Diário de Pernambuco entre 1850 e 1900, só consta o naufrágio de um Clipper que soçobrou devido a um incêndio que tomou conta da embarcação entre meia-noite e 5h da manhã do dia 12 de outubro de 1861, no litoral sul de Pernambuco, a cerca de 55 milhas do porto do Recife. Seu nome é “Stag Hound”, cujos dados métricos são compatíveis com os do “Galeão de Serrambi”, exceto o calado que não foi mensurado na escavação feita na embarcação.

Nessa última viagem, o Stag Hound fez um carregamento de carvão em Newcastle, Inglaterra, e seguiu para São Francisco, comandado pelo Capitão Wilson. Tudo ia bem até que a embarcação pegou fogo com a combustão espontânea do carvão. O navio estava a várias milhas da costa e o capitão e sua tripulação conseguiram chegar em Pernambuco (McKAY, 1995).

Os dados referentes às condições de navegação no momento do naufrágio sugerem que o navio estava navegando no momento de seu naufrágio já que existem duas ânco­ras tipo Almirantado nos escovéns próximos às bochechas de proa. O bico de proa no momento do afundamento apontava na direção do quadrante Nordeste, ou seja, a embar­cação estava alinhada com o vento, sugerindo que estava à deriva, já que ela dirigia-se ao sul e seu bico de proa devia estar apontando para sul. O leme estava destruído sugerindo que a popa tocou primeiro no fundo.

O Stag Hound foi o primeiro de uma nova classe de Clippers — a “Extreme”, e foi construído por Donald McKay na época dos Clippers da Califórnia, período da corrida do ouro no oeste americano. O navio foi encomendado por George B. Upton e a empresa mercantil das Índias Orientais, Sampson & Tappan, ambos de Boston, e deveria exceder a tonelagem e a velocidade de qualquer barco de sua categoria que estivesse navegando.

Ele foi construído mais longo e mais estreito do que qualquer outra embarcação exis­tente no serviço mercantil do mundo. Na época de seu lançamento, em 07/12/1850, era a maior embarcação mercante até então construída, deslocava 1.534 toneladas, media 70,95 metros de comprimento, 13.2 metros de boca e 6.93 metros de calado (McKAY, 1995).

A metodologia usada permitiu identificar o nome do Clipper Stag Hound que era chamado de “Galeão de Serrambi”, bem como foi comprovada a causa do seu afunda­mento como tendo sido um incêndio por combustão espontânea da carga de carvão mine­ral embarcado na Inglaterra, tudo isto baseado em informações obtidas pelos métodos e técnicas desenvolvidos pela arqueologia subaquática e confrontadas pelos documentos historiográficos.

Conclusões

Após algumas análises que fiz, já desconfiava sobre a real identidade do Galeão Serrambi, porém, ao ler o estudo detalhado realizado pelo Professor Carlos Rios, pelo menos para mim, não restam dúvidas de que o verdadeiro nome do naufrágio é Stag Hound.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.