Gerenciamento de estresse por intermédio da meditação

Foto: Clécio Mayrink

Tendo em vista a alta relevância do estudo científico da meditação para a Psicologia oferecemos este pequeno contributo para reflexão.

Nosso estudo de caso trata de um grupo de 12 meninos, com idades entre 11 a 16 anos, jogadores juniores do time de futebol do clube Moo Pa, (“Javali Selvagem”) e seu treinador Ekapol Chanthawong, da região de Mae Sai, em Chiang Hai, que foram surpreendidos durante um passeio por chuvas de monções na região na qual vivem.

Em função do volume de chuva e da consequente inundação local, o grupo acabou penetrando para dentro do sistema de cavernas de Tham Luang, um dos mais longos da Tailândia, com cerca de 10km de extensão, até conseguirem abrigo em uma pequena área seca, mais elevada, a cerca de 3km da entrada e 1km abaixo da superfície.

No final do mesmo dia, equipes de fiscais do parque encontraram bicicletas, calçados e mochilas abandonados na entrada dos túneis e notificaram os serviços de emergência da região. 

Como resultado, mais de 1.000 militares tailandeses e mergulhadores estrangeiros do Conselho Britânico de Resgate em Caverna entre outros foram mobilizados, formando uma força tarefa com o objetivo de encontrar o grupo.

Após 9 dias de buscas, os meninos e seu treinador de futebol foram localizados pelos mergulhadores britânicos Rick Stanton e John Volanthen, especialistas em resgates extremos em cavernas.

Até serem localizados, os garotos não haviam comido quase nada sólido e somente beberam a água limpa que escorria pelas paredes da caverna, ou seja, foram dez longos dias no escuro, com fome e sem muito espaço para movimento.

Não discutiremos aqui o resgate em si mas sim a questão da meditação e da coesão grupal e sua importância em situações de gerenciamento de estresse.

Chamou a atenção do mundo inteiro o fato de que quando os mergulhadores encontraram os rapazes, todos estavam a meditar.

Entendendo o contexto tailandês

A base da sociedade tailandesa funda-se nos princípios do budismo. O Budismo praticado na Tailândia, é o Budismo Theravada, um Budismo um pouco diferente do praticado no Sri Lanka ou em Myanmar.  O Budismo Tailandês combina três tipos de filosofia:

Budismo Theravada – Segue os princípios e ensinamentos originais de Buda, inclusive em língua Pali.

Hinduísmo – A Tailândia recebeu fortes influências de toda filosofia Hindu, que inclui o Bramanismo e o Vedismo, duas filosofias que para alguns estudiosos são distintas, mas não entraremos em pormenores.

Animismo: Termo criado pelo antropólogo Edward Burnett Tylor, o qual explica ser uma crença primitiva que dá vida energética e espiritual à plantas, água, terra, ar, sol, pedras e assim por diante, ou seja, a tradição do povo nativo Tailandês.

Os tailandeses acreditam na harmonia entre homem e natureza, havendo respeito mútuo para com todos os seres vivos e não-vivos, mas os quais possuem força e energia vital.

Seguindo o pensamento, o Budismo Tailandês também acredita nos espíritos dos quatro elementos naturais (terra, fogo, água e ar) do Budismo Theravada. Porém, o Budismo Tailandês vai além, se há espíritos nos elementos da natureza, há espíritos em todos os tipos de seres… chamado em tailandês de ‘pi’.

A meditação

Destes fundamentos acima citados, resulta a essência da meditação tailandesa. Sabemos que a meditação é uma prática muito antiga, com base nas antigas tradições orientais, estando especialmente relacionada às filosofias do yoga e do budismo (Levine, 2000).

Na Tailândia, os ensinamentos para a meditação estão abertos a todos. Existem muitos centros onde se pode aprender e praticar a meditação como, por exemplo, o Centro Internacional de Meditação Budista no Wat Mahatan de Bangkok, o Centro de Meditação Wat Kow Tham de Koh Phangan, Surat Thani e o Centro de Meditação Vispassana Viwek Asom em Chon Buri, entre diversos outros.

As duas maiores formas de meditação budista são samantha e vipassana, conhecidas conjuntamente como bhavana. Cada uma delas tem objetivos diferentes: a primeira conduz à tranquilidade e à concentração; a segunda à meditação e à busca interior.

Outra forma é a meditação Metta ou “do amor pela amabilidade”. Este tipo de meditação é composto por quatro níveis, que ensinam a pensar de maneira tranquila e a desenvolver algumas capacidades mentais, como a fé e o amor pela amabilidade.

Para nós ocidentais a meditação é uma prática transcendental, que busca como principal finalidade o equilíbrio emocional acompanhado de uma nova forma de lidar com os desafios da rotina, como o estresse, a tensão e a ansiedade.

Meditação é um termo amplo, que pode englobar definições distintas conforme o contexto filosófico religioso no qual a prática está inserida (Shapiro, 1981). Também conhecida como treinamento mental, essa prática constitui uma técnica capaz de produzir efeitos psicossomáticos significativos.

Em importante revisão de literatura, Menezes e Dell’Aglio (2009) tratam dos efeitos da meditação à Luz da investigação científica e fornecem inúmeros dados abaixo citados:

Apenas por volta da década de 60 a meditação passou a ser objeto de estudos científicos (Goleman, 1988; Shapiro, 1981). A investigação científica partiu da premissa que todas as técnicas têm uma característica fundamental em comum: o controle da atenção (Cahn & Polich, 2006; Goleman, 1988).

Os primeiros estudos estiveram voltados para explicar as chamadas de respostas psicofisiológicas ou neurofisiológicas (Aftanas & Golocheikine, 2001; Danucalov & Simões, 2006), ou seja, as alterações do sistema nervoso autônomo, constatadas por estudos experimentais e de meta-análise, e que incluem redução do consumo de oxigênio, da eliminação de gás carbônico e da taxa respiratória, o que indica uma diminuição da taxa do metabolismo.

A observação dessas reações levou à conclusão de que através da meditação é possível atingir um estado de hipometabolismo basal ao mesmo tempo em que a mente se mantém alerta e que aquele que medita desenvolve, portanto, a capacidade de controlar determinadas funções fisiológicas involuntárias (Wallace et al., 1971).

Desde a década de 70, também ganhou destaque a investigação dos efeitos cerebrais da meditação, sob a premissa de que estados mentais podem alterar as funções fisiológicas (Wallace et al., 1971). Foi verificado que algumas características tradicionalmente associadas à meditação, como baixa ansiedade e afetos positivos, poderiam ser explicadas por mudanças da atividade neuroelétrica. Atualmente, sabe-se que, além dessas mudanças funcionais, a meditação também pode produzir mudanças estruturais, atuando sobre a plasticidade cerebral.

Sinais e sintomas de estresse têm sido reduzidos após o uso da meditação com populações clínicas e não clínicas, como apontam as medidas de sofrimento (distress) psicológico e marcadores biológicos (Menezes e Dell’Aglio 2009).

 Também foi observado em outros estudos uma alta e consistente redução do estresse por meio da meditação (Menezes e Dell’Aglio 2009).  

Estudos de acompanhamento descobriram que a meditação auxilia no gerenciamento e na redução do estresse, e que esse efeito se prolonga no tempo. A prática meditativa também está associada à diminuição da ansiedade (Menezes e Dell’Aglio 2009).

Recentemente, pesquisadores científicos mostraram em contextos clínicos que a meditação mindfulness, traduzido, ‘atenção plena’ (uma prática específica de meditação ensinada no budismo tailandês e em outras partes do mundo) pode reduzir a ansiedade e a depressão, bem como a dor.

Embora existam poucos estudos sobre meditação e saúde mental, uma análise de 2014 da Johns Hopkins descobriu que a meditação, e em particular a atenção plena, pode ter um papel no tratamento da depressão, ansiedade e dor, tanto quanto medicamentos, mas sem efeitos colaterais.

A meditação também pode, em menor grau, reduzir o impacto psicológico, segundo o estudo. A pesquisa sobre crianças ainda é bastante preliminar, embora mais e mais escolas estejam implementando programas de meditação da atenção plena.

Benefícios da meditação

A prática constante da meditação é capaz de fornecer inúmeros benefícios para seu praticante, tanto no âmbito físico quanto no emocional. Podemos citar:

  • Sensação de segurança;
  • Boa saúde física;
  • Gerenciamento de ansiedade e estresse;
  • Relaxamento mental e corporal;
  • Autoconhecimento.

Os garotos e a caverna

Ekapol Chanthawong aprendeu meditação em um templo dourado na região montanhosa do norte da Tailândia quando era monge budista, habilidade essa vital durante os 10 dias sem luz e alimento.

 Ao longo de duas semanas, Ekapol Chanthawong pôs em prática o que aprendeu com os monges budistas: a meditação. Ele ensinou os jovens a meditar e a conservar o máximo de energia possível.

No caso dos rapazes presos na caverna, que aprenderam a meditar com o treinador que os acompanhava, podemos supor que a meditação empurrou-os para a manutenção orgânica, a ver a situação com mais clareza e ter presença de espírito para encontrar a resposta mais adequada, sem estar dependente de medos. Budistas aceitam que, se tiverem uma atitude positiva, vão atrair situações mais positivas.

Michael Poulin, professor de psicologia na Universidade de Nova Iorque, disse ao The Washington Post que o budismo foi importante para a sobrevivência do grupo: “Acredito que pode ter sido útil, mesmo que tenha funcionado exclusivamente para que as crianças tenham sentido que o treinador estava a fazer alguma coisa para as ajudar. A meditação pode ter ajudado a gerir o estado mental deles, permitindo que os medos deles e os pensamentos negativos passassem por eles como se fosse uma tempestade a passar em vez de os obrigar a lutar contra ele”.

Outros importantes aspectos abordados por Rebustini e Capuruçu (2018) tratam do apoio que os meninos tiveram de seu treinador e a manutenção do auto controle, da autodeterminação, da psicoregulação e da resiliência. Para os autores a coesão grupal foi determinante para manter o grupo motivado e confiante.

Em um desenho está circulando na Tailândia, um artista mostra Ekapol com um colo cheio de pequenos javalis, pacificamente meditando. Fica a pergunta em aberto: a meditação poderia ajudar a mergulhadores recreativos a gerenciar melhor o estresse e tornarem seus mergulhos mais seguros ?

Referências

Aftanas, L. I., & Golocheikine, S. A. (2001). Human anterior and frontal midline theta and lower alpha reflect emotionally positive state and internalized attention: High-resolution EEG investigation of meditation. neuroscience Letters, 310, 57-60

Cahn, B. R., & Polich, J. (2006). Meditation states and traits: EEG, ERP and neuroimaging studies. Psychological Bulletin, 132(2), 180-211.

Danucalov, M. A. D., & Simões, R. S. (2006). Neurofisiologia da meditação. São Paulo: Phorte.

Goleman, D. J. (1988). The meditative mind: The varieties of meditative experience. New York: G.P. Putnam’s Sons.

Levine, M. (2000). The positive psychology of buddhism and yoga: Paths to a mature happiness. New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates.

Menezes e Dell’Aglio (2009) Os Efeitos da Meditação à Luz da Investigação Científica em Psicologia: Revisão de Literatura. Psicologia  Ciência e Profissão, 2009, 29 (2), 276-289

Rebustini, F. ; Capuruço, L. Senso de Equipe: Reflexões sobre o resgate na Tailândia in Portal da Educação Física, 2018

Shapiro, D. (1981). Meditation: Clinical and health-related applications. The Western Journal of Medicine, 134(2), 141-142.

Wallace, R. K., & Benson, H. The physiology of meditation. Scientific American, 226, 84-90.

santosbarbara.com/2017/08/25/entenda-sobre-o-budismo-tailandes/

turismotailandes.org.pt/1_sec3_2_Meditacion.html

observador.pt/especiais/tailandia-o-budismo-ajudou-os-rapazes-a-sobreviver-na-gruta/

pt.wikipedia.org/wiki/Medita%C3%A7%C3%A3o_budista