Hawaii – Mergulhos incríveis no paraíso do Surf

Naufragio YO257 -Foto: Rodrigo Mattar

Uma proposta aceita de emprego, agora no meio de abril, me fez ter que decidir rapidamente por uma viagem para tirar uns dias para descansar (mergulhar, claro) antes de iniciar o novo emprego, e coloquei na cabeça que queria ir para o Hawaii. A principio pensei em fazer um Live aboard, o Kona Aggressor, seriam 7 dias em Big Island (a maior das Ilhas Havaianas), o preço estava bom, porém o único lugar disponível era em um quarto compartilhado feminino e mesmo com a minha insistência que não me importava em dividir o quarto não pude comprar o Live Aboard, ficando frustrado um pouco.

Decidi ir para o Arquipélago mesmo assim, emiti a passagem apenas 8 dias antes de embarcar, escolhendo ficar 5 dias em Kona, na Ilha de Big Island, que é famosa pelos mergulhos com as Raias Mantas, Vulcões e Ironman, a tradicional prova de triatlon, e outros 6 dias em Honolulu na Ilha de Oahu, famosa pelas praias de surf em North Shore (Pipeline e Waimea), Pearl Harbour e alguns bons mergulhos.

Fiz o nada recomendado, embarquei sem reservar quase nada, apenas os hotéis e um mergulho noturno com duas imersões onde tradicionalmente se mergulha com as Raias Mantas, considerado o melhor mergulho noturno do mundo.

Mergulho noturno com as raias mantas – Foto: Rodrigo Mattar

Chegando ao Havaí e mergulhando com as Mantas

Chegando no Hawaii você já sente que está num lugar diferente, o aeroporto de Kona (a maior cidade de Big Island) é bem pequeno e sem os maiores aparatos de segurança (tão característicos dos Estados Unidos), sorrisos e gentilezas das pessoas. Do aeroporto (a 11km do centro) fui para o hotel (Uncle Billy’s) bem confortável, com ótima localização e com bons preços. Nem aluguei carro, pois tudo é próximo ao centro e quando precisava de um descolamento maior, utilizava o Uber, sendo que o maior valor pago numa corrida, foi por volta de US$ 15.

Fiz os passeios de turistas nos dois primeiros dias (Luau no primeiro dia da viagem e o incrível, mas distante, Vulcão Kilauea no segundo dia) que fechei em uma agência local e já estava com grande expectativa, já que terceiro dia faria o mergulho com as Mantas, sendo um mergulho tão famoso, que tive que reservar 10 dias antes e pegar uma das últimas vagas. Até tentei reservar mais de uma data, mas as vagas já estavam acabado. Fui com a Big Island Divers, a maior operadora de Kona e que realmente me pareceu bem profissional, com uma loja bem estruturada e mais embarcações. O valor dos mergulhos noturnos com as Mantas são mais ou menos os mesmos em todas as operadoras, em torno dos US$ 150 mais taxas, contemplando duas imersões.

A operação tem o check-in por volta das 15:30h em uma marina próxima a Kona, com todos embarcados e partindo para o ponto de mergulho às 16h, com uma navegação de cerca de 25 minutos até o ponto do Aeroporto, chamado de Manta’s Heaven. Éramos sete mergulhadores além do capitão e um staff da operação. Caímos por volta das 16:50h para o primeiro mergulho em um recife muito bonito, com bastante vida, e um belo jardim de enguias nos 28m de profundidade. A curiosidade, é que durante o dia, o ponto é chamado de Garden Eel Cove. O ponto alto desse mergulho foi um golfinho que ficou rodeando e interagindo muito com os mergulhadores (clique aqui e assista ao vídeo), sendo um grande mergulho.

Uma das coisas positivas da operação da Big Island Divers, é que fomos informados que o mergulho duraria de acordo com o consumo dos mergulhadores, ou seja, os mergulhadores com maior consumo subiam para o barco permitindo que os mergulhadores com melhor consumo desfrutassem mais do mergulho, e com isso foi possível realizar um mergulho de 1h de duração.

Fizemos um longo intervalo de superfície já que tínhamos que esperar anoitecer para o famoso noturno. Quando chegamos no ponto de mergulho, apenas nosso barco e um outro estavam no local, mas quando regressamos do primeiro mergulho, percebemos que haviam seis embarcações no local. Todas as operadoras trabalham juntas e de maneira bastante organizada. Para o mergulho com as Mantas, uma série de holofotes são acesos a cerca de 15m de profundidade, cujo objetivo é atrair os plânctons que alimentam as filtradoras Raias Mantas.

Nas belas e transparentes águas do Hawaii com seus 24°C, o cenário fica ainda mais bonito, e caímos na água por volta das 19:30h e ficamos aguardando as Mantas. Sem dúvidas, esse mergulho vale cada centavo, pois surgiram oito Raias Mantas  (o recorde são 42 animais em julho/2012) com 2 e 4m de diâmetro, deslizando pelas águas a centímetros dos mergulhadores, em um balé incrível abrindo suas enormes bocas para conseguir capturar o máximo de plâncton possível, incrível !

Ficamos por cerca de 50 minutos na água que já me congelava, já que inventei de levar apenas uma roupa curta de 3mm para ocupar menos espaço na mala, e ao subir para o barco, os rostos das pessoas entregavam que tinham vivido uma experiência única, com um gigante dos mares, um gigante gracioso. Vi inclusive, uma mergulhadora abraçar o Dive Master da operação bastante emocionada, conforme ele me disse depois, mesmo as pessoas que chegam com alta expectativa sempre acabam com elas superadas. Bingo. Superou as minhas também !

Terminamos a operação por volta das 21h, voltei de carona para o centro e quase fiquei sem jantar, pois como é uma cidade pequena , tudo fecha muito cedo, e quase dancei.

Foto: Rodrigo Mattar

Mergulho nos recifes

No dia seguinte fiz um novo mergulho pela manhã (8h) com a BID, eram dois mergulhos em recifes, e que dificilmente daria para bater os mergulhos no dia anterior. Realizamos o primeiro em Rose Garden, assim como no dia anterior, era um mergulho onde podemos ficar até o consumo do último mergulhador chegar próximo aos 50 Bar, e acabei obrigando a Dive Master a mergulhar por quase 70 minutos, e mesmo assim foi, um mergulho apenas nota 7.

Para o segundo ponto, realizamos na região do Lava Tube o ponto Skull Cave, esse sim, um ponto espetacular, pois assim que caímos na água e ainda ajeitando o meu equipamento, escutei o barulho de chocalho para chamar a atenção dos mergulhadores (sim, esses que muitas vezes nos irritam), e vindo em minha direção uma maravilhosa Raia Manta, uma surpresa para o próprio o Staff que as chamam de “Daily Rays”, de raríssimas observações. Todos ficaram muito empolgados, consegui belas fotos dela, mas, outras raias chitas apareceram no mergulho cheio de grutas formadas pela lava dos vulcões havaianos em um mergulho espetacular.

Voltei muito empolgado para Kona, mas como teria o voo para Honolulu em Oahu no dia seguinte, já não poderia mais mergulhar, e mesmo assim, fechei um snorkel com as raias mantas, desta vez no ponto próximo ao Hotel Sheraton (pioneiro e mais afastado), sendo conhecido como Manta’s Village. O único detalhe, é que escolhi ir de uma maneira bem bacana, remando em uma canoa havaiana junto com um grupo de canadenses. Assim como o noturno do dia anterior, as operadoras acenderam holofotes nas embarcações e as Mantas começaram a aparecer, e consegui contar pelo menos seis indivíduos e mais uma vez o show começou. Até tomei uma “nadadeirada” de uma das pesadas raias que pouco se importam com a presença humana, sendo mais uma vez, uma magnífica experiência. Provavelmente mais de 70 pessoas desfrutaram das mantas por cerca de 50 minutos, só depois lembrei que ainda tinha que voltar remando. A empresa da canoa havaiana chama-se Anelakai Adventures.

Chegando em Oahu

Decidi mergulhar apenas no terceiro e quarto dias na ilha, focando o primeiro dia para me ambientar e o segundo para conhecer Pearl Harbour, que é espetacular e vale um dia por lá.

Escolhi a operadora de uns brasileiros (Hawaii Eco Divers), que além de organizar mergulhos também ofereciam uma série de passeios e cursos de apneia para surfistas Big Riders (Ondas Grandes). Entrei em contato com eles antes de sair de Kona e com a vantagem de falar português. Eles reservaram um carro pra mim (altamente recomendado para quem quer curtir a Ilha de Oahu), pegando no próprio aeroporto. Por lá, fiquei hospedado em Waikiki, que para os turistas é a melhor opção. É um bairro onde encontramos de tudo, restaurantes, lojas, hotéis de classe internacional, souvenirs e etc, além de ter um por do sol lindíssimo na praia.

O ponto de encontro indicado pela operadora foi em uma marina bastante próxima a Waikiki por volta das 7h. Mergulhamos no naufrágio Sea Tiger a 36m de profundidade, que era um navio chinês afundado em 1999 para a criação de recife artificial o que sempre é um presente para nós mergulhadores. Pra alcançá-lo, utilizamos um catamarã (Kahala Kai) bastante confortável compartilhado com outras operadoras (muitos mergulhadores japoneses à bordo) em modelo bastante parecido com o que os mergulhadores paulistas estão acostumados na Laje de Santos, porém, com a vantagem de haver mais espaço e navegação de apenas 10 minutos.

O Sea Tiger de 50m de comprimento está em posição de navegação e com amplas aberturas para penetração de mergulhadores treinados. Éramos sete mergulhadores e descemos pela poita da proa. O guia aproveitou para realizar um check-out de duas alunas que estavam fazendo o curso avançado cobrando os exercícios obrigatórios de profundidade, e seguimos o mergulho passando por cima dos porões de carga e por dentro dos largos corredores ao lado do casario, onde já era possível ver belos cardumes que rodeavam o navio. Em seguida, apenas eu e outros três mergulhadores penetramos no casario por cerca de três ou quatro minutos, tendo que passar por uma grande moreia que tranquilamente residia no local, e depois seguimos explorando o lado de fora do naufrágio antes de finalizar o mergulho com pouco mais de 35 minutos de fundo. Em seguida mergulhamos em um recife com águas bem mais rasas e já bem próximo ao porto. Foram cerca de 45 minutos de fundo, sendo um belo mergulho com muita visibilidade.

Naufragio YO257 -Foto: Rodrigo Mattar

Naufrágios YO-257 e o San Pedro

No dia seguinte voltei para novos mergulhos, mais uma vez com a operadora do dia anterior, e como havia apenas mais uma cliente, isso nos permitiu realizar um mergulho mais tranquilo. Para evitarmos o Sea Tiger feito no dia anterior, o guia pediu ao capitão para irmos em outro ponto mais distante onde teríamos dois naufrágios que repousam na faixa dos 30m de profundidade e distantes apenas 25m um do outro. Trata-se do naufrágio YO-257 e o San Pedro.

O primeiro era um navio de reabastecimento que serviu na 2ª Guerra Mundial, Guerra da Coreia e no Vietnam. O segundo um pesqueiro japonês, e ambos afundados propositalmente para a criação de recifes artificiais.

Apoitamos o catamarã e com uma forte corrente, descemos pelo cabo até o naufrágio YO-257, que está em melhores condições. Demos uma volta por fora do naufrágio, chegando até procurar um lado mais abrigado, mas só paramos de lutar contra a corrente já dentro do navio onde demos rápida volta pelo casario e ponte de comando, e mais uma vez repleto de cardumes, além de corais e esponjas que já tomam parte do navio. Como tínhamos mais um naufrágio no mesmo ponto, batemos bastante perna na diagonal para chegar ao San Pedro, onde em uma das suas aberturas, uma Giant Turtle descansava.

Me aproximei para fazer um vídeo para dar uma noção da grandiosidade do animal, saímos de lá e voltamos para o YO-257 para fazer a subida e a parada de segurança, quando fomos contemplados com a passagem de duas belas raias chitas durante os três minutos antes de regressar para a embarcação. Prato cheio para os mergulhadores e apaixonados por naufrágio como eu.

Foto: Rodrigo Mattar

Já o segundo mergulho do dia foi em uma estação de limpeza onde muitas tartarugas ficavam imóveis para os budiões retirarem parasitas, e foi a alegria para quem estava com câmera, pois as oportunidades de foto foram ótimas.

Continuamos no recife onde alguns tubarões galha branca de recife descansavam para à noite, aterrorizarem o recife em busca de presas, além é claro, de moreias e um jovem polvo que tentava se esconder dos mergulhadores. Um mergulho muito bonito e cheio de vida. Após cerca de 55 minutos de fundo, voltamos para a embarcação para retornar até a marina, e mais uma vez fomos premiados com belos golfinhos rotadores acompanhando a embarcação, finalizando o meu roteiro de mergulho pelas ilhas havaianas. Ainda há muito mais para ser visitado em Oahu.

Mergulhar nos Estados Unidos é uma coisa que sempre gosto muito, as operações são sempre muito profissionais, existe uma infinidade de equipamentos à disposição para comprar e alugar, e acima de tudo, muito respeito ao cliente.

Achei o Hawaii um excelente destino e que pode combinar os mais diferentes gostos de mergulho, recifes, naufrágios, vida marinha grande, mergulhos profundos, noturno, etc, além é claro, de tudo que as ilhas podem oferecer ao viajante, sendo uma grande escolha para entrar renovado em meu novo desafio profissional. Aloha !

Rodrigo Mattar
É formado em Economia com MBA em Gestão Empresarial. É mergulhador técnico com diversas especialidades e instrutor MSDT PADIministrando cursos nas especialidades de mergulho profundo, busca e recuperação, Nitrox, noturno, naufrágio, navegação subaquática, EFR e PPB.