História dos Rebreathers na Rússia

Foto: Clécio Mayrink

A arte de se ficar embaixo d’água, existe desde a mais profunda antiguidade. No início, homem ficou imerso na água sem qualquer adaptação. O mergulho livre é o primeiro degrau no desenvolvimento do mercado de mergulho. Na Rússia, estar imerso na água, chama-se geralmente de pessoas que mergulham, ou mergulhadores.

Para descer abaixo d’água e para realizar diversos trabalhos subaquáticos o homem pensou em equipamentos e adaptações. Inicialmente foi o peso; simples pedras facilitavam a imersão. Depois, ferro numa corda, tubos respiratórios, sino de mergulho e, finalmente, o equipamento de mergulho chamado, na sequência, como traje de mergulho. O traje de mergulho fornecia, com confiança, respiração para o mergulhador e protegia completamente seu corpo, da água, permitindo que fosse realizado um trabalho mais complexo (dificuldade) por um período mais longo.

Existem equipamentos maleáveis e rígidos. Nos maleáveis o mergulhador está sob uma pressão crescente, com o aumento da profundidade. Nos rígidos o mergulhador está sob a pressão normal atmosférica. De outro lado, os equipamentos maleáveis em relação à respiração são divididos em ventilados, quando o mergulhador respira ar de fora e, independentes, quando um estoque de gás é carregado e fornecido para si próprio. Um exemplo de equipamento independente é conhecido como Scuba. Este equipamento permitiu que as pessoas tivessem uma nova visão do mundo subaquático, dando uma grande liberdade de movimentos.

A idéia da criação do equipamento independente surgiu no meio do século passado. Algumas décadas, no entanto, foram necessárias para sua anexação à vida. Pode-se explicar este fenômeno, pelo fraco desenvolvimento da engenharia e indústria química na época e também pelo fraco conhecimento da fisiologia e patologia da respiração do homem, sob (aumento) pressão.

Em 1871, o famoso inventor Russo A. Lodigin ofereceu um equipamento independente. Um pouco mais tarde, A. Hotinski desenhou um aparelho independente de mergulho para oxigênio. No entanto, essas importantes invenções no campo da engelharia do mergulho, assim como um grande número de outras invenções Russas no passado, não conseguiram aplicação na prática do mergulho, pela indiferença dos Oficiais Imperiais.

Por muito tempo os equipamentos respiratórios de oxigênio foram aplicados, principalmente na indústria da montanha (em colapsos de montanhas) e em minas (poços) . Na 1ª Guerra Mundial, sob o nome de máscaras de gás isoladas de oxigênio (KIP), foram usadas nas divisões químicas de muitos Exércitos do mundo.

O grande desenvolvimento e uso dos aparelhos independentes para oxigênio em trabalhos subaquáticos foi causado pela necessidade de sua aplicação em falhas nos submarinos. Houve necessidade de aparelhos individuais pelo medo que as pessoas tinham de os submarinos afundarem . Nos anos 20, apareceram aparelhos com marcas estrangeiras “Momsen”, “Devis” e capuz “Belloni”, funcionando com o princípio de um sino de mergulho. Estes aparelhos individuais de salvamento, dessas marcas, faziam parte dos submarinos.

Em 1931 – 1932 , engenheiros soviéticos, juntamente com doutores – fisiologistas, desenharam unidades subaquáticas perfeitas, com a marca “E” (Epron) e VAP.

Nos 2 a 3 anos seguintes, foram alargados para a frota naval sob as marcas E-1, E-2, E-3, E-4 sem “bypass” e E-5 com “bypass”. Mais tarde em alguns lugares do país, novos protótipos de unidades foram criados : VAP-1, VAP-2, IPA-1, sem mecanismos de fornecimento de oxigênio e IPA-2 com mecanismo de alavanca para fornecimento de oxigênio

Em 1936, um modelo mais avançado da unidade IPA-3 foi desenvolvida. Essas unidades trabalhavam com Oxilite – substância que absorvia o gás carbônico e fornecia oxigênio no mesmo período. No entanto, esses aparelhos não tiveram distribuição para a prática do mergulho.

Os esforços dos engenheiros Russos, em 1939, criaram um dos melhores exemplos de uma unidade para respiração de oxigênio subaquática – ISA-M. Esta unidade tinha um mecanismo de oxigênio muito confiável .

Agora, isoladamente, as unidades de respiração de oxigênio (IDA) são utilizadas em vários serviços subaquáticos. Nas primeiras vezes de utilização dessas unidades houve vários problemas, especialmente com a falta de oxigênio. A intervenção de doutores – fisiologistas preveniu esses problemas. Um imenso trabalho nessa área foi realizado pela Academia Militar – Médica com o nome Kirova e um laboratório de preparação de mergulhadores navais com testes científicos foi organizado em Leningrado .

Um trabalho significante também foi realizado por desenhistas do Exército, no aperfeiçoamento das unidades de respiração de oxigênio. Como consequência dessa base científica houve na Rússia um novo mercado de negócios de mergulho. Apenas os especialista militares tinham acesso à criação das unidades sob o nome IDA, tanto na Rússia, como fora dela. Desde o começo, o desenvolvimento dessas unidades seguiu 2 direções. Uma unidade para tripulações de submarinos e unidades com finalidade de serviços subaquáticos e trabalhos técnicos. A melhor definição para “trabalhos técnicos”, é a espionagem.

E também sob a seguinte ordem:

Em 1955, houve a ordem para a frota marítima manufaturar essas unidades de oxigênio para as seguintes finalidades : salvamento em submarinos e para realização de diversos serviços subaquáticos a pouca profundidade.

Naquele ano, apareceu uma unidade experimental sob o nome de IDA – 55, mas por alguma razão desconhecida, ela não recebeu maiores pesquisas e acabou sendo esquecida.

Somente em 1957 houve um novo modelo de unidade de oxigênio, IDA – 57, que obteve grande sucesso, passou nos testes e foi admitida para uso no Exército e da Frota. Até 1959, o modelo “57” foi utilizado como unidade universal, que servia para emergências, tais como, atmosfera com fogo, saída de tripulações de submarinos afundados e realização de serviços subaquáticos em profundidades de até 20 metros.

Rapidamente a indústria soviética alargou a produção das unidades de respiração isoladas, para tripulações de submarinos, sob o nome de IDA-59 . Houve a adição de um segundo cilindro com Heliox, que permitiu a saída com segurança do submarino que tivesse afundado em águas mais profundas. A unidade também permitia a preparação da mescla a fim de se realizar simples trabalhos subaquáticos em profundidades fixas. Ao contrário do seu uso original, a bolsa respiratória permitia se manter acima d’água numa emergência. Após esse desenvolvimento, a unidade foi entregue a desenhistas civis com a única finalidade de realizar espionagem, em trabalhos subaquáticos.

Tal unidade surgiu em 1961-1962 e se tornou a primeira unidade soviética da classe SCR, com o nome de AKA – 60.

O AKA-60 foi a primeira unidade soviética N2-O2 com performance não-magnética. Ao contrário de seus predecessores todos os desenhos fizeram com que ele se ajustasse nas costas do mergulhador, com mais segurança pela cobertura de proteção metálica o que deu muito mais mobilidade, segurança e confiança. A profundidade de trabalho para a mescla N2-O2 , (50% O2) foi de 40 metros. Os testes dessa unidade foram muito bem, mas após o lançamento de um parte menor (Set),por razões desconhecidas, todo trabalho parou. Nesse meio tempo, em 1965 a indústria soviética dá (produz) um presente aos militares (seamen), ao manufaturar uma unidade de oxigênio completamente nova do tipo CCR , chamado de IDA-64.

Este modelo superou o AKA-60 nas suas características técnicas e táticas. A sua posição é nas costas, com um peso de apenas 15 Kgs, enquanto o AKA-60 pesava mais de 20 Kgs, com um tempo de serviço de 4 horas. Tudo isso, com uma pequena dimensão e praticamente com uma completa ausência de bolhas em profundidades constantes, o que definiu a unidade como promissora. Mediante um desenho simples e extrema durabilidade, a unidade recebeu um enorme reconhecimento por parte dos militares.

Qualquer projeto tem suas vantagens e desvantagens. Apesar da pouca profundidade de uso (até 20 metros) o IDA-64 tinha desvantagem na toxidade do oxigênio. Esta desvantagem, e também a batalha constante nas tarefas (arrojadas), fez com que houvesse a criação de uma unidade capaz de combinar as oportunidades do IDA-64 e do AKA-60. Tal desenvolvimento fez surgir o IDA-71, uma unidade universal, trabalhando em 2 modos : oxigênio – para imersões até 20 metros e N2/O2 para imersões de até 40 metros. No último caso, o cilindro com capacidade para 1 L e um equipamento automático de adição da mescla N2/O2, completam o quadro principal da unidade. O IDA-71 está relacionado com unidades do tipo CCR, com um completo sistema mecânico de adição de gás.

Esta unidade ainda hoje permanece nos estoques da frota. Na mesma base, unidades especiais foram criadas, tais como, o IDA 71P para pára-quedistas e o IDA-72 para descenso em águas profundas. O primeiro era capaz de ser conectado ao sistema de oxigênio do avião, para vôos onde a espionagem era necessária em altas altitudes. O segundo foi incluído na estrutura do equipamento de mergulho em águas profundas SVG-200 e foi criado para ser utilizado como uma unidade reserva (emergência) para serviços saindo se um sino em profundidades de até 200 metros.

O história do desenvolvimento de unidades similares é vaga. Sabe-se apenas que após os legendários modelos “71” e “72” houve a produção do IDA-75, que devido ao seu alto custo acabou não recebendo distribuição. Recentemente, pode-se ter contato com o IDA-85. Um especialista falou que esta unidade difere bem pouco do IDA-71. A diferença básica seria a nova acomodação da unidade e melhora no cartucho depurador do absorvente.

Carlos Nelli Borges
Carlos Nelli Borges é Master Scuba Instructor pela PADI, Instrutor de Rebreather pela TDI (E.1211.I) e Instrutor Trainer Rebreather pela RAB (BR-133-02/98), possindo mais de 1.200 mergulhos com rebreathers. Foi representante da Dräger no Brasil entre 1997 e 2000. Atualmente atua como instrutor na África do Sul.