Iluminação de Vídeo – Observações antes da compra

Assim como a fotografia submarina, o vídeo submarino requer luz artificial, aliás, muita luz mesmo.

A luz solar é absorvida pela coluna d´água e o pouco que chega ao fundo, é insuficiente para a captação de imagens durante um mergulho, e normalmente necessita-se de uma grande quantidade de luz para fazer com que as cores dos objetos a serem captados com qualidade.

Muitos acreditam que uma lanterna de mergulho possa solucionar o problema, o que não é verdade.

Um sistema de iluminação subaquática possui características diferentes de uma lanterna normalmente usada por mergulhadores, e muitas vezes, um bom sistema de iluminação chega à ser mais caro que a própria câmera, e dependendo do caso e necessidade, é mais vantajoso investir na iluminação do que na própria câmera de vídeo, propriamente dito.

Iluminacao-Video3Vejamos alguns tópicos importantes antes da compra de uma iluminação subaquática.

Potência

Sem dúvida, a potência de um sistema de iluminação de vídeo subaquático é o aspecto que vêm logo na mente de um mergulhador, mas não é só ela a responsável para uma excelente captação de imagens.

Antes da compra, o cinegrafista deve obter sim, um sistema que tenha grande potência, pois quanto maior for a potência, maior será a incidência de luz sob os objetos filmados, contudo, quanto maior a potência, mais caro será o sistema de iluminação, e a variação de preço é exponencial, indo de algumas centenas de dólares até a casa dos milhares.

O ideal, é fazer uma boa análise prévia, para não comprar errado, pois você pode pagar caro por um equipamento superior as suas necessidades ou acabar comprando um que não tenha boa performance para o tipo de vídeo desejado.

Diria que um sistema usando LED deve possuir pelo menos 1.000 lumens de potência, sendo o mais recomendável 2 ou 3.000 lumens, quando destinado aos cinegrafistas amadores. Digo isso, baseado na performance X custo.

Quando falamos em mercado profissional, deve-se trabalhar com pelo menos dois spots de 2.000 lumens cada, sendo o ideal, dois spots de 4.000 lumens cada. Atualmente encontramos sistemas com mais de 20.000 lumens, sendo um verdadeiro canhão embaixo d´água.

A grande vantagem dos sistemas que usam o LED como emissor de luz, é que normalmente o cinegrafista tem a possibilidade de regular a potência durante o mergulho, evitando o excesso de luz, conforme o ambiente à ser filmado. Esse controle por exemplo, não ocorre nos sistemas com lâmpadas HID.

Refletor Fosco / Craquelado

Esse é o ponto em que a grande maioria dos mergulhadores desconhecem.

O refletor é a parte responsável pela amplitude da luz fornecida pelo sistema. Normalmente é fabricado com um material que dá um aspecto de “objeto espelhado”, ajudando a refletir ainda mais e ampliar a luz emitida pela lâmpada ou LED, criando um direcionamento angular frontal.

O que difere entre os refletores de uma lanterna convencional de mergulho para um sistema de iluminação de vídeo, é que este último, normalmente o refletor é fosco e “craquelado”, isto é, não é liso e é fabricado para refletir uma luz difusa e uniforme.

Normalmente os refletores das lanternas criam uma concentração de luz à frente e criando pontos esbranquiçados . Já os refletores para vídeo subaquático, criam uma luz circular com densidade uniforme. Você vê à frente um grande círculo branco e sem variações na tonalidade de luz. Um grande círculo uniforme.

Esse tipo de refletor é fundamental para vídeo, pois ela não criará um foco circular com o ponto branco de luz concentrada no meio da cena, tirando a qualidade o vídeo produzido, como ocorreria se usarmos uma lanterna de mergulho convencional.

Muitos modelos de iluminação subaquática possuem alguns tipos de LED que praticamente não utilizam o refletor como co-adjuvante, pois esses LED´s são fabricados em forma de placas segmentadas. Nesse caso, eles conseguem criar um foco bem uniforme e perfeito para o vídeo subaquático. Normalmente essas placas atuam com 2.000 lumens para cima, e para confirmar se o foco é adequado para o vídeo submarino, é preciso testar o produto para se ter a certeza do resultado final.

Infelizmente algumas lojas e vendedores do eBay comercializam iluminação subaquática como luz de vídeo, e que nada mais são do que lanternas de mergulho.

Antes da aquisição de um sistema, o mergulhador deve tomar muito cuidado e observar a luz emitida pelo refletor, e se possível, realizar um teste para ver se realmente a luz fornecida é uniforme e sem variações de intensidade na área iluminada, caso contrário, poderá ser um grande investimento perdido.

Iluminacao-Video2Ângulo

Nas lanternas convencionais, pouco se fala no ângulo de cobertura, e o que normalmente escutamos, são lanternas com foco “aberto e fechado”.

Um sistema de iluminação de vídeo subaquático sempre terá um foco com grande ângulo de cobertura, pois o objetivo não é projetar a luz à uma longa distância, mas sim, que cubra o maior ângulo possível, sem variações de intensidade e em uma curta distância.

E como saber se um determinado sistema irá atender a necessidade ?

Isso dependerá do tipo de câmera e lente que serão usados. Se você utilizada uma câmera GoPro por exemplo, nenhum sistema irá iluminar uma área compatível com o ângulo padrão que vêm configurado na GoPro, por ser extremamente grande ou grande angular.

Nesse caso, você terá que configurar a sua GoPro para captar as imagens em um ângulo inferior e compatível com o ângulo fornecido pelo sistema de iluminação, para que as imagens captadas apareçam todas bem iluminadas e sem a possibilidade de pequenas áreas escuras da cena, pois a lente grande angular da GoPro, por exemplo, abre muito para os lados, fazendo com que os spots de luz não consigam cobrir toda a área à frente da objetiva da câmera.

Isso vale na verdade, vale para qualquer tipo de câmera.

Filmar com luz artificial algum objeto que esteja distante 2 ou 3m à frente e embaixo d´água, é complicado, logo, pense que você necessita de um sistema que permita filmar não muito longe dos objetos, pois quanto mais distante estiver de um objeto, mais potência será necessária.

Iluminacao-Video1HID X LED

Sistemas fabricados com lâmpadas HID, são recomendáveis apenas para profissionais, e acredito que nos próximos 5 ou 10 anos, a fabricação desse tipo de sistema será descontinuada em razão do custo e fragilidade. As lâmpadas são extremamente sensíveis, caras e duram relativamente pouco, fora o circuito eletrônico, ballast e etc.

Desejando comprar um sistema de iluminação, recomendo um sistema que utilize o LED como emissor de luz. Na verdade o LED não é uma lâmpada, e sim, um diodo emissor de luz, que consome muito menos bateria, é resistente à choques e com o custo bem inferior.

Além disso, o LED possui um grande tempo de vida, algo em torno de pelo menos 10.000 horas de uso ou mais. Em alguns casos, alguns modelos alcançam 100.000 horas de uso, e até lá a sua lanterna já não existirá mais.

Lâmpadas HID oficialmente teriam 1.000 horas de uso, mas apesar de todo o cuidado, jamais vi alguém que conseguisse utilizar um sistema HID sem que houvesse alguma pane antes desse prazo.

Não falarei sobre lâmpadas halógenas, pois já são praticamente inexistentes no mercado, além da qualidade extremamente ruim, quando comparada ao LED e a HID.

Baterias

Hoje encontramos as baterias fabricadas em Níquel Metal-Hidreto (NiMh), Lithium e em casos raros, as de Polímero, que são as melhores, porém perigosas, devido a possibilidade de explosão se recarregadas de forma incorreta.

Portanto, dê preferência para os sistemas com baterias de Lithium, que são menores e provêm uma autonomia superior que as fabricadas em Níquel Metal-Hidreto. Há uma diferença de preço, mas não é tão grande e você verá a diferença posteriormente. Além disso, o problema de “efeito memória” da bateria é muito inferior.

Verifique antes da compra, se o compartimento onde ficam alojadas as baterias é estanque. Alguns modelos permitem que a bateria seja retirada, e no caso do mau fechamento da tampa pelo mergulhador, o compartimento da placa eletrônica fica totalmente protegido contra alagamentos, danificando somente a bateria e requerendo apenas a sua substituição.

É muito comum, principalmente para quem filma profissionalmente, a necessidade de adquirir baterias extras. Verifique antes da compra, quanto custa a bateria extra do sistema.

Infelizmente tive que comprar duas unidades extras, gastando U$ 350 à mais nas compras, ou seja, uma “brincadeira” nada barata. Essas nem foram tão caras, pois já conheci um sistema aonde cada bateria extra chegava a custar quase 50% de todo o conjunto. Um abuso do fabricante.

Acionamento

Veja como é o acionamento do sistema de iluminação. Alguns modelos possuem chaves de liga-desliga em posição desconfortável, duro ou de baixa qualidade. Dê preferência aos sistemas com isolamento do componentes internos, pois se elimina a possibilidade de alagamento do compartimento interno e traz mais segurança ao equipamento.

Sistemas onde o acionamento é feito girando a parte frontal, não são recomendáveis.

Tamanho

Basicamente o tamanho do sistema de luz irá variar conforme a potência de luz, quantidade e tipo de baterias. Alguns permitem que sejam fixados diretamente na caixa estanque. Outros, fixados em braços articulados.

Esse é um aspecto que dependerá da necessidade do mergulhador, mas lembre-se que tudo que se compra, é mais uma “tralha” a ser levada na viagem, e quanto menos volumoso for o sistema, certamente será melhor.

Manutenção

Eu por exemplo, tenho um sistema que foi fabricado no Japão, porém, comprado nos Estados Unidos, e para o meu azar, com seis meses de uso o sistema apresentou problemas.

Para corrigir o problema, infelizmente o equipamento teve que ser enviado aos Estados Unidos, e pior, não foi possível a manutenção por lá, havendo a necessidade do reenvio de todo o equipamento para a fábrica no Japão para a substituição de componentes, levando no total, dois meses e meio de espera, fora o trâmite e transtorno de trazer tudo de volta ao Brasil.

Nesse caso, se você é profissional, isso pode significar um grande prejuízo, e antes da aquisição de um sistema de iluminação subaquático, verifique se o fabricante fornece manutenção no Brasil, ou pelo menos, nos Estados Unidos, onde os trâmites são mais rápidos, sai mais em conta e a coisa funciona.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em 1987 pela CMAS e realizou Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix (Mergulho Profundo) e de cavernas (Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount). É juiz internacional de apneia pela AIDA e foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008. Foi o idealizador do site Brasil Mergulho criado em 1998 (MTB 0081769/SP), atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.