Jornalistas: Não errando na reportagem sobre mergulho

Foto: Clécio Mayrink

Ler ou assistir matérias sobre mergulho produzidas por jornalistas que não mergulham, muitas vezes, chega a ser angustiante ou revoltante, face aos graves erros normalmente cometidos, por desconhecerem a atividade do mergulho amador.

Uma explicação errada e o exagero na matéria repassada ao leitor / telespectador, dá um sentido errado sobre como realmente é o mergulho como atividade esportiva, mudando o real sentido de mergulhar e os prazeres que o meio subaquático proporciona ao mergulhador.

Se você é jornalista e não mergulha, é mais do que recomendável a leitura do texto abaixo, para que possa aprender o básico sobre essa atividade, pois as informações abaixo podem ser o diferencial para produzir uma matéria sem erros graves.

Mergulhar é perigoso !

Com frequência vemos algum jornalista comentando que o mergulho é uma atividade perigosa, o que felizmente não procede.

O mergulho esportivo está entre as atividades mais seguras do mundo e com baixos índices de acidentes, onde os poucos e raros que acontecem, normalmente são provocados por imperícia humana e não por falhas do equipamento de mergulho ou pelo contato com a fauna subaquática.

Os equipamentos de mergulho se modernizaram e contam com uma enorme margem de segurança ao mergulhador em vários aspectos, tanto, que apesar de aconselhável, já não é mais obrigatório saber nadar para mergulhar, e a idade mínima para ingressar no mergulho autônomo atualmente está em 12 anos, não havendo limite de idade máxima.

O Oxigênio acabou !

Frequentemente escutamos isso e é outro erro comum e absurdamente grave.

Em primeiro lugar, não respiramos oxigênio puro, pois o ar atmosférico contém 78% de nitrogênio, 21% de oxigênio e 1% de outros gases, e quando respiramos o “ar atmosférico”, estamos inspirando outros gases além do oxigênio, sendo que para o nosso suporte básico de vida (SBV), somente o oxigênio é aproveitado pelo organismo humano.

O ar atmosférico quando transferido para um cilindro de mergulho sob pressão, passa a ser chamado de “ar comprimido”, e não simplesmente “oxigênio” como muitos jornalistas insistem em dizer.

O oxigênio puro (100%), também conhecido com oxigênio hospitalar, é usado para mergulhos avançados e extremamente técnicos, sob condições e necessidades especiais. Logo, o mergulhador recreacional estará usando ar comprimido e não puramente oxigênio, como alguns insistem em dizer.

Quanto à possibilidade do ar comprimido acabar durante o mergulho, essa possibilidade existe, porém, é extremamente remota. Isso só acontece por imprudência do mergulhador ao quebrar regras de segurança, adotadas mundialmente.

Todo mergulhador leva consigo um equipamento chamado manômetro, que nada mais é do que um medidor da pressão do gás contido no interior do cilindro de mergulho, então, durante todo o mergulho, o mergulhador tem como saber a quantidade exata de gás no cilindro de mergulho que está sendo usado.

No manômetro há uma escala com números indicadores da pressão do cilindro, havendo também, uma tarja vermelha para indicar que a pressão está baixa demais e que o mergulhador deve retornar à superfície. A margem de segurança é tão grande, que ele consegue retornar de grandes profundidades com muita tranquilidade até a superfície, respirando normalmente.

Mesmo que o mergulhador seja imprudente em não monitorar seu manômetro, com a diminuição da pressão do cilindro e o alcance a um nível crítico, o mergulhador sentirá a respiração ficar cada vez mais pesada e perceberá que há algo errado, notando logo que está ficando sem gás. Jamais o ar comprimido irá acabar de forma abrupta como vemos nos filmes, onde o mergulhador simplesmente tenta inspirar e não vem ar algum.

Além disso, atualmente muitos mergulhadores utilizam computadores de mergulho, que são equipamentos como um relógio ou com tamanho próximo ao de uma caixa de cigarros. Esses computadores monitoram o mergulho, sendo que alguns deles, também monitoram o consumo do ar comprimido e informam a quantidade restante no cilindro, informando ao mergulhador através de um LCD e por alertas sonoros, quando a quantidade de gás chega a um nível de atenção ou crítico.

Em último caso e, sendo essa uma situação extremamente rara, o mergulhador ainda tem a possibilidade de realizar o que chamamos de “Subida Livre”, que é um retorno até a superfície usando apenas uma fração de ar contido nos pulmões.

Foto: Clécio Mayrink

Porque o mergulhador não pode subir rápido ?

Quando o mergulhador desce, há um aumento de pressão incidente sob o corpo humano e uma absorção de micro bolhas de nitrogênio pelos tecidos do corpo humano, oriundas do ar comprimido.

Ao iniciar o retorno à superfície, a pressão incidente no corpo humano diminuirá gradativamente conforme a diminuição de profundidade, e com isso, essas micro bolhas absorvidas pelos tecidos vão sendo liberadas na corrente sanguínea do mergulhador e eliminadas através da troca gasosa em nossos pulmões.

Quanto maior a profundidade e o tempo de mergulho, maior a absorção de nitrogênio feita pelo organismo.

Dependendo da profundidade e do tempo de mergulho, simplesmente subir até a superfície não dará tempo suficiente para que todas essas micro bolhas absorvidas sejam liberadas de forma correta, e quando isso acontece, poderá ocorrer o que chamamos de Doença Descompressiva, que em resumo, é a não liberação correta dessas micro bolhas dos tecidos do corpo do mergulhador, trazendo consequências ao organismo dele.

A Doença Descompressiva não é uma doença propriamente dita, e sim, uma consequência física por uma imprudência do mergulhador, daí a importância de seguir os procedimentos ensinados nos cursos de mergulho.

Em todo caso, normalmente os mergulhos realizados por amadores são feitos sem a necessidade das paradas descompressivas, tornando a coisa mais simples e segura de uma forma geral.

Apneia X Autônomo

Mergulho autônomo é o mergulho com cilindro de mergulho onde o mergulhador respira ar comprimido. Mergulho em apneia é o mergulho onde o mergulhador desce segurando a respiração, ou seja, em apneia.

No mergulho em apneia não existe a parada descompressiva e o mergulhador pode retornar diretamente à superfície sem problemas.

Mergulhar faz doer os ouvidos !

Nosso organismo está adaptado para viver na superfície e quando submergimos, o corpo humano passa a sofrer interferências devido à variação da pressão externa incidente, e o ouvido é o que mais sente a variação dessa pressão diretamente.

O ouvido possui um compartimento com ar e à medida em que o mergulhador desce, a pressão externa aumenta, com isso, nossos tímpanos passam a serem pressionados contra esse pequeno compartimento com ar, e consequentemente, passamos a sentir uma pequena dor local.

Para evitar que isso aconteça, realizamos um procedimento denominado Manobra de Valsalva, também conhecida como Compensação do Ouvido Médio, que através de um procedimento simples, equalizamos a pressão interna local de forma imediata, eliminando a dor instantaneamente, não havendo um limite em profundidade para o mergulhador.

Tal procedimento é feito apenas durante a descida e nada tem haver com doença descompressiva.

Mergulho em caverna é perigoso !

O que o mergulho autônomo tem de seguro, o mergulho em caverna é o extremo, sendo considerada uma das atividades esportivas mais perigosas do mundo.

Para ser um mergulhador de caverna, o mergulhador precisa realizar uma série de cursos e treinamentos até possuir a certificação de mergulhador com habilidades para mergulhar em cavernas alagadas.

É um processo de treinamento relativamente lento e demorado, não sendo feito de uma hora para outra. Nos cursos de mergulho em caverna, o mergulhador vai conhecer diversas técnicas e regras de segurança para um mergulho, tranquilo, seguro e sem riscos.

As estatísticas mostram que a falta de cursos e treinamentos, aliados a imprudência, são as maiores causas de acidentes neste tipo de mergulho. Atualmente no Brasil possuímos centenas de mergulhadores de cavernas e um índice anual próximo à zero em acidentes.

Normalmente as fatalidades nos mergulhos em caverna estão relacionadas com mergulhadores que não realizaram um curso de mergulho em caverna, que ultrapassaram seus limites técnicos e que burlaram regras básicas.

Tubarões atacam !

Depois do filme Tubarão do Steven Spielberg, ficou a imagem de que os tubarões atacam e são devoradores de seres humanos, o que não procede.

O ser humano não faz parte da cadeia alimentar dos tubarões e quando um ataque acontece, normalmente é o que chamamos de “mordida investigativa”.

O tubarão morde para sentir o que é exatamente a presa. Essa mordida é rara de acontecer, tanto, que todos os dias milhares de pessoas mergulham pelo mundo e não há ataques de tubarões.

Nas Bahamas, por exemplo, há uma operadora de mergulho que leva os turistas para mergulhar com 30 a 40 tubarões, onde um mergulhador especialista em Feeding alimenta os tubarões, criando uma roda de mergulhadores com dezenas de tubarões nadando nas proximidades e sem ataques.

Eles chegam a esbarrar nos mergulhadores e nada acontece, sendo uma atividade reconhecida pelo próprio governo local, e que ajudou a criar uma legislação de proteção aos tubarões no país.

E porque os tubarões atacam em Recife-PE ?

Infelizmente a região sofreu grandes alterações por interferência humana, como o Porto de Suape e o aumento na quantidade de esgoto jogado no Rio Capibaribe, por exemplo, e são as causas mais prováveis para alteração no ecossistema local, que fizeram com que os tubarões passassem a residir próximos aos arrecifes da Praia de Boa Viagem, em Recife, onde a água é mais escura e fria, porém, rica em nutrientes, sendo um local adotado pelos tubarões para a para sua reprodução.

Esses tubarões passaram a viver próximos desses arrecifes e não vão para outros locais.

Recife possui diversos pontos de mergulho em naufrágios e os mergulhadores não encontram tubarões nos mergulhos e, muito menos, são atacados por eles, sendo uma prova que esses tubarões são territoriais e residem nos arrecifes da Praia de Boa Viagem apenas em razão das alterações em seu ecossistema.

Todos os ataques na Praia de Boa Viagem foram do tipo “mordida investigativa”, e não uma mordida com a intenção de comer o atacado.

A baixa visibilidade aumenta a probabilidade de uma mordida investigatória, pois o tubarão não consegue enxergar o que está à sua frente, e quando ele chega muito próximo de quem está nadando, a primeira coisa que ele faz é atacar como forma de defesa e prova.

Vendo que aquilo que foi mordido não faz parte do seu alimento diário, ele solta e vai embora. O problema é que a mordida de um animal desses gera um grande estrago na pele humana, ocasionando em alguns casos a morte.

Foto: Clécio Mayrink

Toque em animais

É muito comum em matérias na TV, assistir o repórter tocar nos animais. Isso pode ser prejudicial e em alguns casos, até fatal para o animal. Os Cavalos Marinhos por exemplo, são seres extremamente sensíveis e morrem com facilidade quando tocados.

O toque do mergulhador por fazer mal ao animal, e por isso, jamais eles devem ser tocados.

Conclusão

O mergulho é uma das atividades com muito mais aspectos positivos do que vemos sendo publicado pela imprensa, e informar corretamente é o básico de um bom jornalista.

Se você é jornalista e possui dúvidas, entre em contato conosco, e teremos o prazer em ajuda-lo para que a reportagem seja publicada de forma correta e sem margem à erros e dúvidas.

Clecio Mayrink
Nascido no Rio de Janeiro, ingressou no mergulho em apneia em 1983, no autônomo em 1986 pela CMAS e Dive Master em 1990 pela PADI. Hoje é mergulhador Técnico Trimix, Technical Cave Diver e Advanced Cave Side Mount / No Mount. Foi membro da expedição de mapeamento da Lagoa Misteriosa em Bonito-MS em 2008, idealizador do site Brasil Mergulho em 1998 (MTB 0081769/SP), atuando em diversas matérias e documentários no Brasil e no exterior. Também atuou como consultor para a ONU, UNESCO, além de diversos órgãos públicos no Brasil.