Le Souffleur, o submarino misterioso !

Capitão Remington: – Preparar tubos 2, 3 e 6.

Imediato: – Torpedos prontos senhor !

Capitão Remington: Disparar torpedos 2, 3 e 6.

– Imediato: Torpedos 2, 3 e 6 disparados senhor !

Fez-se um longo silêncio na ponte de comando do submarino inglês HMS Parthian IV, até que o Capitão Remington com os olhos arregalados a observar pelo periscópio a trajetória dos torpedos e , com a respiração descompassada, bradou:

– No alvo !

Esta ficção muito bem poderia ter se passado na ponte de comando do submarino HMS Parthian na manhã do dia 25 de junho de 1941, ao largo da costa sul do Líbano. O destino do submarino da França de Vichy foi selado com um dos torpedos explodindo no interior do casco, o partindo em dois…

Dos 53 tripulantes, somente 4 sobreviveram. Hoje o Le Souffleur repousa nas areias do fundo do Mar Mediterrâneo aos 38m de profundidade, e à poucos minutos de navegação a partir da cidade de Kanldeh, ao sul de Beirute.

O submarino Le Souffleur estava com problemas técnicos nesta ocasião e precisou emergir em plena luz do dia para recarregar suas baterias. No início da Segunda Grande Guerra, na campanha do Líbano e Síria, o Mar Mediterrâneo era dominado pela frota inglesa, e este fato se passou a pouquíssimas milhas do porto de Beirute.

Não deu outra ! Foi avistado e posto à pique pelo submarino britânico HMS Parthian IV, muito menor que ele, porém, o ataque foi inesperado, rápido e letal. O destino também reservou surpresas para o HMS Parthian IV, que simplesmente desapareceu nas águas do mesmo mar onde exercia a função de patrulheiro, entre os dias 6 e 11 de agosto de 1943. Acredita-se que tenha se chocado com uma mina. Não foram encontrados destroços, tampouco sobreviventes.

Para entender como um submarino britânico colocou à pique outro de bandeira francesa durante a Segunda Grande Guerra, devemos voltar um pouco no tempo para que nos faça sentido o acima relatado. À primeira vista, nos parece algo absurdo, já que o Reino Unido fez parte das forças aliadas que combateram a Alemanha nazista e a França foi parcialmente ocupada pelos alemães.

Em 3 de setembro de 1939, a França declarou guerra a Alemanha nazista após Hitler ter invadido a Polônia. Na época, a França não era um adversário militar a altura de uma bem armada e equipada Alemanha. Oito meses depois, em 10 de maio de 1940, a Wehrmacht, o exército alemão, contornou a linha Maginot, um sistema defensivo francês que se consistia em túneis, trincheiras, bunkers e casamatas na fronteira entre os dois países – e ocupou o norte da França. Este foi um fato que criou a guerra de movimentos e pegando os franceses de surpresa.

Em 22 de julho de 1940 a França se rendeu a Alemanha, o norte foi militarmente ocupado pelos alemães, e o sul foi administrado pelos próprios franceses que proclamaram o governo de Vichy, oficialmente chamado de Estado Francês. O curioso é que o Reino Unido, os Estados Unidos e Canadá, até o ano de 1944, reconheceram a França de Vichy governada pelo general Henri Petain, só deixando de fazê-lo quando ficou evidente os propósitos colaboracionistas deste governo para com o regime nazista.

Outra curiosidade: A França de Vichy, ao contrário do que se pensa, administrava todo o território Francês, inclusive, o norte, militarmente ocupado pelos alemães.

– Então porque a Alemanha não ocupou todo o território francês ?

Existem várias correntes de pensamento para explicar o fato, e o mais aceito, é que para a Alemanha, seria mais interessante do ponto de vista econômico e militar ocupar somente a metade do país, mantendo-o em sua totalidade sob um regime que colaborasse com seus propósitos, e não oferecesse o perigo de enfrentamento bélico no futuro. O general Charles de Gaule se refugiou na Argélia, numa colônia francesa na época, e de lá passou a dirigir no âmbito interno e internacional o movimento de resistência ao nazismo e a ocupação.

– Mas o que teria haver com o submersível Le Souffleur ?

Antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, a Inglaterra e a França eram as duas potências coloniais até então. Tinham colônias em todos os continentes, e a França dominava a Indochina, parte da África e Oriente Médio. Com certeza o estado maior hitlerista tinha a convicção que a guerra se estenderia até as mais remotas regiões do planeta, no intuito de prover de matérias primas as indústrias bélicas dos países em conflito. Deste modo, seria da maior conveniência dos alemães, ter a França como um colaborador ao regime nazista, mesmo que de forma dissimulada. Assim foi com a Espanha do general Francisco Franco, que colaborou com o nazismo e permitiu que a Luftwaffe (a forca aérea alemã) em 26 de abril de 1937, destruísse a cidade espanhola de Guernica, antiga capital do país basco, matando 25% da população, o que inspirou Pablo Picasso em sua obra prima.

Os alemães testaram seus equipamentos e armas aéreas durante a guerra civil espanhola e ao mesmo tempo deram uma mãozinha aos fascistas do generalíssimo contra seus os inimigos, os republicanos, de orientação socialista.

Voltando ao tema França de Vichy, conforme o previsto, a guerra alcançou praticamente todo o mundo. O Oriente Médio e norte da África, por estarem localizados na costa mediterrânea e serem grandes produtores de petróleo, foram as primeiras regiões fora da Europa a serem alcançadas pelo conflito. Os países que compõem o Oriente Médio em sua maioria, eram colônias ou protetorados britânicos, salvo raras exceções, como por exemplo, o Líbano e a Síria.

– Só tratei do tema guerra até o momento e de mergulhos nada !

Simplesmente é impossível discorrer sobre o afundamento do Le Souffleur sem tocar no assunto de guerra. Primeiro, ele foi posto à pique em uma operação de guerra naval durante a campanha do Líbano e Síria, um dos teatros de operações da Segunda Guerra Mundial. E segundo, para que possamos saber o que o submarino fazia ele nas águas libanesas, ao ponto de ter sido torpedeado por outro submersível de uma nação aparentemente amiga, devemos saber o que foi relatado acima para uma melhor compreensão dos fatos.

Naufragio-Submarino-LeSouffleur3Mergulhando no submarino

Em busca de diferentes lugares para mergulhar e conhecer novas regiões do planeta, me veio à mente o Oriente Médio, ou Oriente Próximo.

Quando se pensa neste destino, invariavelmente se imagina o Mar Vermelho e Egito, mas após consultar os amigos de um fórum de discussões em busca de informações por mergulhos no Líbano e Israel, dois possíveis destinos me atraíram, e obtive respostas do Bob Light e da Flávia a respeito de mergulhos em Israel e Egito.

O Líbano não saía de meus pensamentos… Após algumas pesquisas, me dei conta que a costa do Líbano é um verdadeiro cemitério de navios. Todos com uma trajetória de heroísmo e tragédia, ou seja, não foram naufragados de forma artificial. Nada contra, mas os naturais conservam uma história, têm aura de mistério, sem contar que são verdadeiras cápsulas do tempo, e descer em um deles, vocês sabem que é tudo de bom. Algo por demais de apaixonante !

Quando soube pela web da existência do Le Souffleur, pouquíssimas coisas neste mundo poderiam demover a minha determinação de mergulhar neste submarino, quanto mais informações conseguia, mais aumentava minha vontade de descer até ele.

Em meu segundo dia de mergulhos no Líbano, finalmente realizei esse sonho. Simon, da Pure Tech Dive, havia agendado este tão esperado mergulho junto ao amigo Ali Sameir El Mokdad, da operadora Aliens Diving Academy.

Segundo Simon Nadin, o Le Souffleur foi encontrado de forma muito casual por dois mergulhadores coletores de esponjas, no ano de 1960. No passado recente, o Líbano foi um grande exportador de esponjas, que eram coletadas no Mediterrâneo, ao longo de sua costa. Segundo Simon, muitas famílias sem outra fonte de renda sobreviviam desta forma. Hoje as esponjas se acabaram, devido a sua super exploração, no sentido mais amplo da frase.

No dia tão esperado do mergulho, peguei duas garrafas de nitrox e quando lá cheguei, me aguardavam no píer.

Embarcamos em um inflável, e com pouco tempo de navegação, estávamos bem em cima do objetivo, separados apenas por uma Lâmina d´água de 38m.

Nos equipamos e iniciamos a descida por um cabo amarrado a uma poita que foi arremessada ao fundo arenoso do mar.

A água não estava tão fria e a visibilidade ao redor girava em torno dos 10m. Não era azul caribenho, tampouco caldo de cana, mas estava levemente esverdeada, me fazendo lembrar a coloração da água da Ilha das Couves, em Ubatuba.

Não havia correnteza, desci com as pernas e braços estendidos tendo uma sensação ímpar ao deparar com a negra silhueta do Le Souffler, mais ao menos aos 20m. Um pouco mais abaixo consegui visualizar a torre do submarino, e um pouco mais próximo, divisei os dois longos eixos do hélice. Estavam expostos ainda em posição original como se a carcaça fosse descascada para deixá-los aparentes.

O submersível encontra-se quase que em posição de navegação, levemente tombado à bombordo, com cerca de trinta graus de inclinação. O casco do naufrágio é totalmente oco devido à explosão do torpedo em seu interior. Deve ter aproximadamente uns 8m de diâmetro, a grosso modo, e se assemelha muito a fuselagem de um avião de carga. O ponto que descemos foi a da proa, percorremos todo o casco até encontrarmos uma segunda parte, do que seria a popa do submarino, totalmente separada da parte principal. Isto se deve a forte explosão em seu interior.

Passeamos bastante por toda a extensão do naufrágio, e também, exploramos sua circunferência desde a areia até o que seria o topo. Incrível ! a gente sabe que submarinos não tem escotilhas de observação, mas a insistência em procurar e não encontrá-las é algo muito diferente, chegando a ser de certa forma até frustrante.

O tempo passava e a gente nem se dava conta, em um mergulho destes deve-se tomar muito cuidado, com a possibilidade de se esquecer da vida. É muita beleza e emoção !

Realmente foi para mim uma experiência muito gratificante, que ainda não havia passado em minha vida.

Voltamos para a operadora para a troca de cilindros, ainda no barco, e infelizmente Ali me disse que não haveria o segundo mergulho por causa da chuva iminente. Posteriormente soube pelos outros dois mergulhadores que participaram da operação, que as saídas de mergulho estavam suspensas há mais de quinze dias devido a proximidade do inverno, e que esta operação foi realizada exclusivamente para mim, e com certeza eles eram convidados. Acreditei nos meninos porque o Ali não quis cobrar o meu mergulho, argumentando que tinha vindo de muito longe.

No desembarque me foi oferecido generosos pedaços de um pão caseiro delicioso, que comi enquanto lavava o equipamento. Após um banho e troca de roupa, me indicaram um pequeno restaurante localizado no complexo do píer, com um almoço delicioso, e com um saboroso e apetitoso “Kabab”, uma iguaria da culinária árabe.

De volta a operadora para conversar sobre mergulhos, é o assunto derivou para a política das grandes potências para o oriente médio, e achei o pessoal muito bem informado. Na ocasião eles cederam as fotos exibidas aqui.

Passeando por Beirute

Deixo os cilindros e meu equipamento no píer e saio a passear pelo centro de Beirute. A capital é simplesmente linda, com prédios de cinco a seis andares, todos no mesmo estilo arquitetônico, pintados na mesma cor amarela. Edifícios novíssimos, pois Beirute foi reconstruída em sua totalidade após sua destruição na guerra de 1982. As ruas são muito limpas, com enormes calçadões e cafés. Também há lojas elegantíssimas situadas no andar térreo dos pequenos edifícios, que compõem a paisagem urbana de Beirute. A noite cai de forma muito rápida e quando percebi, já havia passando da hora de voltar ao píer para pegar meu equipamento. Tomo um táxi, e ao descer próximo ao ancoradouro, tive uma grande surpresa… Me deparo com uma barreira militar.

Os soldados se dirigiram a mim em árabe e respondo em inglês, e ninguém me entendeu. Saquei meu passaporte, porém nenhum dos militares conhecia os caracteres. Não adiantava em nada falar inglês e foi aí que comecei a dizer em português:

– Sou do Brasil ! Brasil !

O soldado do grupo que tinha cara de mais bonzinho me indagou:

– Brrazile ?

Respondi:

– Brrazile !

Meu interlocutor:

– Kaká !   Ronaldo !

Emendei:

– Roberto Carlos !   Robinho !

Para minha surpresa todos os soldados riram. Entenderam que sou brasileiro e o clima mudou. Amistosamente me levaram ao comandante. Expliquei a ele o que estava se passando. Fui liberado em poucos minutos. O mais fanático por futebol ainda passou a mão em minha cabeça, e sorriu ao responder aos meus cumprimentos.

Interessante é que em todo o mundo, todos demonstram o quanto somos queridos e admirados, não sendo essa a primeira vez que minha nacionalidade facilitou em muito na solução de alguns problemas no exterior.

O afundamento

Em junho de 1941 as forças aliadas invadiram o Líbano e a Síria. Estes dois países eram controlados pela França de Vichy, que colaborava com os propósitos da Alemanha nazista. De um lado lutaram Reino Unido, Austrália, Índia britânica, Transjordania, a Palestina britânica e as Forças francesas Charles de Gaulle e também as Checoslovacas. Haviam de 34.000 soldados, 50 aviões, 1 porta-aviões, 1 cruzador e 6 destróieres. Do outro, a França de Vichy, a Alemanha, a Síria e o Líbano, sendo os dois últimos, com mandato da França de Vichy, e contavam com 45.000 soldados, 90 tanques, 269 aviões, 2 destróieres e 3 submarinos.

Na realidade os países aliados, a pretexto que a Alemanha estaria usando bases e aeroportos sírios, e a partir daí, poderiam lançar ataques ao Egito, um reduto aliado para a guerra contra Rommel ao norte da África.

Outra justificativa, foi que os alemães estariam, por ferrovia, fornecendo armas aos rebeldes iraquianos, que lutavam contra as forças coloniais britânicas, sob o comando de Rashid Ali, que meses antes havia instalado no Iraque, um governo de resistência aos ingleses, e pró Alemanha. Com certeza um motivo que muito pesou na decisão de invadir a Síria e o Líbano, foi a ameaça do Iraque em apoiar as forças do Eixo, e dessa forma, os aliados perderem a maior fonte de fornecimento de petróleo.

Em maio de 1941, devido a falta de um sofisticado sistema de defesa anti-aérea nos aeródromos franceses, começaram os ataques aéreos. A força aérea de Vichy, muito forte, levou certa vantagem. Aconteceu que a RAF (Royal Air Force) trouxe os mais modernos aviões para atacar a força aérea e posições francesas estacionadas na região. Praticamente metade da aviação de Vichy foi destruída ainda em solo por ataques aéreos. Missão esta, relativamente fácil para os aliados, devido os aeródromos com ao quais os franceses operavam. Com o domínio do espaço aéreo por parte dos franceses, a RAF se tornou absoluta no ar.

A principio os beligerantes não deram a atenção devida à guerra no mar. A guerra naval começou praticamente na Batalha do Rio Litani, quando os destróieres franceses Valmy e Guepard dispararam seus canhões contra comandos australianos estacionados ao longo da costa libanesa as margens desse rio. Posteriormente, trocaram tiros de artilharia com o destróier Britânico HMS Janus, com o cruzador neozelandês HMNZS Leander e com mais seis destróieres que chegaram para socorrer o HMS Janus. Os navios de guerra franceses se retiram do combate e o abandono de combate foi a tônica desta guerra naval.

A força aérea alemã interveio a favor da necessitada marinha da França de Vichy com dois esquadrões de caça atacando os contratorpedeiros britânicos HMS Ilex e HMS Isis. Ambos deixaram a batalha seriamente avariados, e foram rebocados para reparos em Haifa, na Palestina Britânica.

Outro fato concernente a invasão do Líbano e da Síria, foi o afundamento do destróier francês Chevalier Paul por um avião torpedeiro, britânico. Isto se deu no Mediterrâneo, e o destróier francês havia deixado o porto de Toulon, na França, com destino a Síria, transportando suprimentos e munições. No dia seguinte, no porto de Beirute, outro destróier francês foi atacado por bombardeiros britânicos

O Guepard entrou novamente em luta, desta vez contra dois cruzadores britânicos e seis destróieres ao largo da costa síria. O Guepard conseguiu escapar, na escuridão da noite.

Em 25 de julho, o submarino Le Souffleur foi posto à pique e pouco depois o petroleiro Adour, de bandeira francesa, que transportava combustível para as tropas em combate, sendo atacado por aviões torpedeiros britânicos. O Adour saiu seriamente avariado.

É bom lembrar que campanha militar no Líbano e Síria transcorreu em um curtíssimo espaço de tempo, entre os dias 8 de junho de 1941 e 12 de julho do mesmo ano, com a vitória dos invasores aliados.

Em 6 de novembro de 1943, o Líbano se tornou independente e a Síria em 1 de janeiro de 1944.

Quanto ao submarino Le Souffleur, infelizmente, não se consegue muitas informações sobre este naufrágio e não encontrei sequer o nome do capitão no site oficial da marinha francesa, encontrando apenas uma única menção ao Le Souffleur.

Por ocasião do aniversário de cinqüenta anos de seu naufrágio, a marinha francesa realizou uma homenagem póstuma aos tripulantes do submarino. Não entendo o porquê de tanto mistério. Sob minha modesta ótica, penso que os franceses não se sentem orgulhosos com o que se passou com a nação durante a Segunda Grande Guerra, e procuram, não diria esconder, mas com certeza, não dar muita divulgação à esses obscuros episódios de setenta anos atrás.

Meu agradecimentos especiais ao Ali Sameir El Mokdad, por toda a operação realizada e atenção dada durante minha visitação.

Naufragio-Submarino-LeSouffleur2

Mário Sérgio Garcia

Mário Sérgio Menezes Garcia é empresário, Dive Master pela PADI e mergulhador técnico.

Praticante de hipismo western e criador de cavalos da raça quarto de milha, de linhagem de corrida e tambor.

Já visitou mais de 60 países e mergulhou mais de 20. Brasil, Estados Unidos, México, Ilhas Cayman, Cuba, Aruba, Colombia, África do Sul, Moçambique, Quenia, Fiji, Tonga, Japão, Tailândia, Vietnam, Camboja, Líbano, Jordânia e Egito, foram alguns deles.