Lesões por seres marinhos

Foto: Clécio Mayrink

Você está em Fernando de Noronha, curtindo aquelas férias merecidas e mergulhando que nem um louco. De repente, avista um tubarão, e algumas sensações lhe atingem num piscar de olhos, “vou virar refeição ?”, “será que ele me viu ?”, “como posso fugir ?”

A menos que você seja um famoso cinegrafista, e pretenda filmar todas as fileiras de dentes possíveis daquele “terrível” tubarão, está com sensações erradas. Das mais de 300 espécies descritas de tubarões, pouco mais de 10 são sabidamente agressivas, além de não terem muito “apetite por mergulhadores”.

Em verdade, a grande maioria das lesões que mergulhadores sofrem por serem marinhos decorre de falta de cuidados com animais que sequer se locomovem, ou seja, o contato é causado pelo mergulhador. A idéia é discutir as lesões mais comuns, e longe de esgotar o assunto, dar uma orientação geral de procedimentos. Maiores informações podem ser obtidas em cursos de biologia marinha, disponíveis nas diversas escolas, em livros específicos para o tema, e sempre procurando orientação de guias de mergulho em locais onde o mergulhador não esteja familiarizado.

De maneira grosseira, poderíamos classificar estas lesões em:

  1. Perfurações, cortes e abrasões (esfoladuras)
  2. Picadas
  3. Reações alérgicas por contato
  4. Mordeduras

Nossa pele fica mais frágil após algum tempo na água, e qualquer contato mais descuidado com pedras, corais, peças de naufrágios, etc pode levar a cortes. A prevenção se faz com o uso de roupas. Muitos resorts proíbem o uso de luvas, pois alguns mergulhadores certamente sairiam colocando a mão em tudo o que vêem, destruindo corais. E muitos inocentes pagam o “pato”, pois mesmo com bom controle de flutuabilidade, algumas vezes certos contatos são inevitáveis. Algumas pessoas cortam suas mãos descendo pelo normalmente encrustado cabo da âncora.

Por menores que sejam, cortes e abrasões devem ser limpos e desinfectados. Procure remover qualquer resíduo da ferida. Depois de lavar com água potável, você pode passar uma solução desinfetante a base de iodo. Cortes maiores podem precisar receber cuidados médicos adicionais. Caso você venha a se cortar em ferragens de um naufrágio, que não é exatamente um ser marinho, é importante usar água oxigenada no ferimento e checar se sua vacinação para tétano está em dia. Não confunda, a vacina pode ter validade de cinco anos, mas se você recebeu a anatoxina (por outro motivo) a validade é de apenas seis meses.

Perfurações por ouriços são frequentes em mergulhadores curiosos ou desatentos em demasia. Caso aconteça, tente remover cuidadosamente com uma pinça o pedaço exposto, mas não cutuque dentro da pele. Nosso corpo tem boa capacidade de “rejeitar” com o tempo, o que ficou para dentro. Cuidado especial deve ser dado quando estas perfurações atingem uma articulação. Nestes casos, é preciso avaliação médica, pois há risco de infecção intra articular.

O termo picada não é exato, mas descreve lesões por alguns tipos de conchas e peixes. Colecionadores de conchas devem saber no que estão mexendo. De um certo tipo de concha, os conídeos, existem algumas espécies cujo veneno pode ser letal ao homem. Estes bichinhos simpáticos normalmente botam seu aparelho digestivo (probóscide) para fora, injetando uma toxina paralisante no seu futuro “prato”. No caso do homem, estas conchas podem resolver fazer isto uma fez pegas na mão. O socorro deve ser imediato. Se você souber como, faça um curativo compressivo à volta da picada. Coloque o local afetado em água quente (43 à 45° C) para inativar o veneno e aliviar a dor. A vítima deve ser hospitalizada, assim que possível. Felizmente, espécies mais “agressivas” de conídeos são raras no Brasil.

Peixe-pedra, peixe-leão e outros peixes escorpionídeos normalmente vivem em tocas, corais ou na areia e o contato casual ocorre quando o mergulhador não vê onde pisa ou coloca a mão. Felizmente poucos destes habitam as águas brasileiras. Uma espécie de peixe-pedra australiana tem um veneno letal, e os hospitais locais costumam ter antídoto para tal. Mesmo no Brasil, caso você tenha sido “picado” por um peixe, alem de lavar com água doce e desinfetar a ferida, a imersão da área afetada em água quente (43 à 45° C) deve ser feita, por pelo menos 30 minutos. O mesmo procedimento se aplica a ferroadas de arraias de fundo, além de tentar remover resíduos do ferrão. Tanto arraias como peixes-pedra costumam mimetizar com o meio, ou seja, se na areia, ficam com a cor da mesma, camuflando-se.

Entre as reações alérgicas por contato, existem as lesões urticantes por coral de fogo, água-viva, caravela e outros, que embora tenham mecanismo diferente, recebem procedimento similar. Vale lembrar que enquanto o coral de fogo não passeia pelo mar, a água viva está em constante movimento e a caravela, embora se locomova pela superfície, tem tentáculos submersos de até 10 metros de comprimento. A caravela e a água-viva, embora sejam animais diferentes, têm em seus tentáculos uma estrutura chamada nematocisto, em cujo interior fica uma espícula urticante, o cnidoblasto.

Este, em contato com a pele, descarrega a espícula. Nos cuidados com estas lesões, comecelavando a área afetada com água do mar (para não “explodir” os nematocistos), depois remova tentáculo(s) residuais com uma pinça ou uma caneta, pois alguns nematocistos podem ainda não ter descarregado seus cnidoblastos. Use vinagre abundantemente, até alívio total. Na falta de vinagre, pode-se usar álcool isopropílico de 40 a 70%. Em último caso, use “urina”.

Certas pessoas podem apresentar reações alérgicas a basicamente qualquer coisa do mar. Cremes ou pomadas anti-alérgicas costumam aliviar a condição. Deve-se evitar pomadas a base de cortisona, se houver corte ou risco de infecção na área.

As lesões mais raras são as mordeduras, que ocorrem mais por um instinto de defesa do animal acuado do que para predar. Desde o simpático polvo, que nem sempre quer ser molestado pelo mergulhador (cuidado com o Polvo Azul do Pacífico), até a famigerada moréia, que pode morder se acuada na toca, estes raros acidentes podem acontecer. Como já mencionado no início da matéria, ataques de tubarões a mergulhadores são raríssimos, e mesmo boa parte destes ataques comprovados não são letais, se ocorrer o socorro adequado. Lavagem e estancamento da hemorragia do ferimento são fundamentais, e como peixes não costumam escovar os dentes, água oxigenada é o líquido preferido para uma boa limpeza. Muitas vezes, cuidados médicos adicionais são necessários.

O tema é muito mais extenso e, como já dito, impossível de ser esgotado. Uma vez mais, o Brasil é um paraíso neste aspecto, a menos que você pratique surfe em Recife.

Bons mergulhos, sempre respeitando os “donos da casa”.

Gabriel Ganme

Dr. Gabriel Ganme é médico do esporte, e responsável pelo ambulatório de Medicina dos Esportes de Aventura da Escola Paulista de Medicina, no CETE – UNIFESP.

Mergulha desde 1980 e foi Course Director pela PADI de 1990 até 2016.

Foi Cave Intructor Sponsor (NSS/CDS), Technical Instructor pela TDI e IANTD, e membro da Undersea & Hyperbaric Medical Society.

Atualmente é proprietário de uma clínica especializada em medicina esportiva.