Manoel Lourenço e o liquidificador

Era março de 1927 e o cargueiro Comandante Manoel Lourenço se aproximava do Saco dos Dois Rios, na Ilha Grande, para descarregar carga variada e prisioneiros para a Colônia Penal de Dois Rios.

Estava ancorado e descarregando quando foi surpreendido por um forte temporal e acabou encalhando sobre uma laje próxima.

A tempestade não deu trégua e o navio foi jogado, pela grande força das ondas, nas pequenas ilhotas ao lado da laje, onde acabou afundando.

Pela distância, o Saco dos Dois Rios, que fica no lado de fora da Ilha Grande, é um destino pouco visitado por mergulhadores, mas o naufrágio ali presente, desde sua localização nos anos 90, sempre atraiu interessados em conhecer a área.

Como há várias enseadas da ilha, esta também é de beleza ímpar e, o que chama a atenção no local, é a laje cercada por um conjunto de ilhotas. Ali repousa os restos de Manoel Lourenço, entre 6 e 13m de profundidade.

Na ocasião em que estive lá, estava à bordo da embarcação Titan, um excelente barco live aboard que atuava na região (hoje atuando em Abrolhos) e que navegava naquele fim de semana em busca dos naufrágios do litoral. Éramos um grande grupo de mergulhadores de naufrágio sofrendo a chamada “febre do ferro-velho”.

O dia estava ensolarado e o mar calmo. O Titan se aproximou de Dois Rios e rapidamente ancorou não muito perto do local do naufrágio. Sem demora, todo o grupo caiu na água e iniciamos a natação até o ponto de início de mergulho, ao lado das ilhotas.

Logo no início, encontramos as primeiras estruturas do naufrágio aos 6m de profundidade. A orientação submarina, considerando a ordem natural das estruturas de um naufrágio, foi muito difícil devido ao estado em que o navio se encontrava, bastante descaracterizado.

Seria isso uma amostra do poder que levou o navio ao fundo e que ano após ano, judiou do Manoel Lourenço ?

Provavelmente sim, mas após encontrarmos o eixo e o seguirmos, encontramos o hélice com suas pás cortadas. Feitas de bronze, elas haviam sido removidas por algum “pirata moderno” em busca de lucro. Chateados com a constatação de que o navio havia sofrido não só pela força do mar, começamos a retornar pelo caminho em que viemos. Poucos minutos depois notei que a visibilidade começou a diminuir repentinamente, e a corrente, de nula, passou para moderada. Sinalizei ao meu dupla para acelerarmos o passo.

À medida que a visibilidade diminuía, a corrente aumentava. Notamos então que havíamos perdido nossa referência quanto à posição, já que não estávamos mais vendo nenhuma parte do naufrágio. Decidimos subir e quando rompemos a superfície, o outrora mar calmo havia se enchido de fúria e grandes vagas acertavam as ilhotas com muita força. Foi ali que emergimos: ao lado das ilhotas.

Faltava muito pouco para sermos arremessados contra elas e severamente machucados quando começamos a agir.

Instintivamente desinflamos um pouco os coletes para diminuir o arrasto e começamos a bater perna. Quando a onda investia contra a ilhota, a batida era mais forte. Quando ela voltava, reduzíamos o ritmo. Sempre nos lembrando de respirar bem. A mão ficou na fivela do cinto de lastro, preparada para soltá-lo em caso de necessidade.

Isso aconteceu em 1998, mas lembro como se fosse hoje de estar batendo a perna com força e inclinar a cabeça para trás para diminuir mais ainda o arrasto, vendo de longe, no Titan, meu antigo instrutor e organizador daquela viagem me observando, de braços cruzados. Aposto que ele estava pensando: “Que M você fez hein ?”.

Foquei mais ainda minha força e técnica na batida de perna para sair dali e após 10 minutos de suspense, não corríamos mais perigo. Já com 10 anos de experiência no mar, não acreditava que poderia ter deixado essa situação acontecer, e enquanto recuperava meu fôlego, analisei o lugar… há uma laje que deixa a profundidade baixa.

As ilhotas são três ou quatro, não me lembro, mas elas estão em círculo… Quando entra a maré, a corrente é canalizada para esta área tornando-a um verdadeiro liquidificador.

Fazendo uma análise da situação, se eu não tivesse passado por um bom treinamento nos cursos avançado, resgate, naufrágios e Dive Master, além de uma boa nadadeira e dupla, o final desta história poderia ter sido muito diferente.

Ilha Grande

A Ilha Grande é a maior das ilhas do litoral de Angra dos Reis.

O lado de fora é recortado por inúmeras penínsulas e enseadas (sacos), formando várias praias. A vegetação é exuberante, formada por mata atlântica, mangue e restinga.

A principal localidade na Ilha Grande é a Vila do Abraão, com, aproximadamente, 3.000 habitantes e que concentra a maior parte da infraestrutura da ilha, com ampla oferta de pousadas, campings, bares, restaurantes e comércio para turistas.

Um serviço de barcas liga diariamente a Vila do Abraão com Angra dos Reis e Mangaratiba.

A grande biodiversidade marinha e os naufrágios da região, fazem da Ilha Grande um dos melhores points de mergulho do país.

Dicas

  • Ponta Grossa, Jorge Grego, Naufrágio do Pinguino, Laje Branca, Gruta do Acaiá, Parcel dos Coronéis;
  • Visibilidade da água: De 1 a 10 metros;
  • Temperatura da água: Oscila de 19° a 24°C, dependendo da época do ano;
  • Melhor época do ano para mergulhar: dezembro a março, podendo se estender até meados do mês de maio.

Naufragio-Manoel-Lourenco2

Rodrigo Coluccini
Criador e proprietário da Revista Deco Stop, foi um dos responsáveis pela divulgação em larga escala das informações sobre naufrágios no litoral brasileiro, fato antes restrito a poucos. É co-autor do manual de naufrágios da certificadora PDIC. Seu trabalho é citado em vários livros atuais sobre história maritima brasileira confirmando a importância de seu trabalho.